
«Não me interessa o que digam ou quão frequente ou persuasivamente o digam: ninguém poderá alguma vez convencer-me que a vida é um brinde maravilhoso, recompensador. Porque a verdade é esta: a vida é catástrofe. O facto básico da existência - de andarmos por aqui a tentar alimentar-nos e encontrar amigos e todas as outras coisas que fazemos - é a catástrofe. Esqueçam todo este ridículo e tonto sentimentalismo do que toda a gente diz: o milagre de um recém-nascido, a alegria de uma só flor a desabrochar, Vida, És demasiado Maravilhosa para Te Compreendermos, etc. Para mim - e persistirei em repeti-lo até morrer, até cair de borco sobre o meu mal-agradecido rosto niilista e estar demasiado fraco para o dizer: melhor nunca ter nascido do que nascer nesta cloaca. Abismo de camas de hospital, caixões, e corações partidos. Sem libertação, sem apelo, sem «transformações», para empregar uma palavra favorita de Xandra, sem caminho para a frente a não ser a idade e a perda, e sem saída a não ser a morte (...) Nós não podemos escolher o que queremos e o que não queremos e essa é a dura verdade solitária (...). O que quer que nos ensine a falar connosco próprios é importante: o que quer que nos ensine a cantar para sairmos do desespero (...) Mesmo que talvez nem sempre nos sintamos contentes por estarmos aqui, a nossa tarefa é mergulhar, de qualquer maneira: passar a vau por ela, pela cloaca, com os olhos e o coração abertos. E no meio do nosso processo de morte, enquanto nos erguemos do orgânico e voltamos a afundar-nos ignominiosamente no orgânico, é uma glória e um privilégio amar aquilo que a Morte não toca.»
2 comentários:
Conheço esses abismos.Mas ninguém nos rouba aquele sorriso,um ou dois versos,o quarteto de acção-de-graças mais o breve amor que um dia nos foram dados.
“A existência não tem razão de ser, está acima de todas as razões.”
―Miguel de Unamuno
Enviar um comentário