Com demasiada frequência aparecem notícias de idosos mortos em casa cujos óbitos oorreram muito antes de os corpos serem descobertos. Num ou noutro caso já teriam falecido, sozinhos e anónimos, há anos. Mas, este fim de semana, um homem de quarenta anos que entrava pelos ecrãs das televisões todas as noites através das telenovelas, foi encontrado em casa, sozinho, morto há dois ou três dias sem que ninguém tivesse dado pela sua falta. O homem continuava a "entreter" enquanto jazia, cadáver, no pesado silêncio da sua habitação. Para além de uma tragédia pessoal, esta é uma tragédia colectiva. Uma tragédia que, como apontava o cônsul de Debaixo do Vulcão, de Malcom Lowry, não está nos tempos mas nos nossos corações. No mundo das "redes sociais", do contacto "em tempo real" pela imagem e pelo som, triunfa, afinal, o hiper-individualismo (tão bem estudado por Gilles Lipovetsky) e a indiferença. O velho monstro narrador de As Benevolentes, de Jonathan Littell, tinha razão. Fora o ar, a comida, a excreção e, num acesso ironista de boa vontade, a busca da verdade, tudo o resto é facultativo. Os novos monstros "aprenderam" com ele. A morte, como a vida, imita a arte e não o contrário como julgam os mais ingénuos. Não consola.
1 comentário:
Sobre este assunto falta-me o golpe de asa para analisar a preocupação que as pessoas, mesmo os familiares mais próximos têm quando lhe morre alguém e que é, correrem para as "redes sociais" a verter as lágrimas virtuais com textos de uma lamechice assustadora guardando as verdadeiras sabe-se lá para quando.
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