A "putinesca" Netrebko perpetrou na tarde de sábado em Nova Iorque - em directo para o fim de tarde e princípio de noite lisboetas da Gulbenkian, o oásis de sempre no meio da cloaca em que permanentemente chafurdamos - uma Lady Macbeth extraordinária. Está quase sempre bem calada, isto é, quando apenas canta e não se põe com gracinhas nos intervalos. Já o Macbeth propriamente dito - Zeljko Lucic, faltam uns acentos que este teclado não possui -, quando foi entrevistado antes dos 3º e 4º actos, afirmou que tinha acabado de endoidecer (a personagem) e que daí em diante a circunstância era imparável. Francesco Maria Piave adaptou Shakespeare para o libreto verdiano e Macbeth, musicalmente falando, "antecipa" (como referiu o maestro Fabio Luisi) muito do que se seguiu. Todos temos um pouco deste casal divinamente demoníaco. No clip, Lady Macbeth/Netrebko está já completamente louca (sorte dela) e caminha para a morte depois de ter feito o que achava que lhe competia fazer. Deixa um lastro de sangue, volúpia e ambição realizados até ao paroxismo. Macbeth e a sua Senhora sobrevivem-nos enquanto sublimes representantes da eternidade do mal - na peça do inglês e na ópera de Verdi. Ou julgam que isto de andar por aqui é só miosótis e óculos de sol?
Adenda: «De onde emana tanto talento? À opulência vocal junta-se a fisicalidade que destila sexo. Na cama, no chão, fodendo o marido, manejando uma lâmpada crua e encandeando-nos, ou sonâmbula, a atravessar uma correnteza de cadeiras, não há obstáculos que a impeçam de casar o vocalismo com a psicologia do papel. Basta observar a maneira como atravessa o palco para se perceber o que lhe vai na alma e na mente.» (Jorge Calado, Expresso, 11.10.2014)
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