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10.4.14

Marguerite Duras - 1914, 2014

 



 


« - Je suis d'une moralité douteuse.


 


   - Qu'est-ce que tu appelles, être d'une moralité douteuse?


 


   - Douter de la morale des autres.»


 


 Hiroshima mon amour


 


«Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezessete anos a quando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezenove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.»


 


L'Amant (tradução portuguesa de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira)

10.7.09

LIVROS COM PIMENTOS NA BRASA


Já tardava uma prosa. Tem Mónica a mais e Flaubert a menos. «Um dia, Blanchot perguntou e respondeu: «Para onde vai a literatura? Vai direita a si mesma (…) direita à sua essência, que é a sua desaparição.» Ora o meu livro preferido é próximo da ideia de Blanchot: «Bouvard et Pécuchet». Um livro sobre a cópia que contém a cópia que contém a cópia e em que dois patetas estão permanentemente enredados numa questão de fundo que não tem fundo mas convencidos que no fundo, esse fundo existe e até se explica. É um livro sobre a linguagem? É sobre tudo, sobre nós e eles. Oh, é muito sobre nós que dizemos e escrevemos «eles». Diz-se: Bouvard et Pécuchet, obra-prima de ironia, claro que sim, mas o principal é aquela inutilidade toda, acumulada, um caminho idiota, ou antes, sem ponta por onde se lhe pegue.» Toma lá, então, da Duras e antes dos pimentos assados: «Vous y allez tout droit à la solitude. Moi, non, j'ai les livres.»

Adenda: Uma sugestão de leitura aqui.

LIVROS COM PIMENTOS NA BRASA


Já tardava uma prosa. Tem Mónica a mais e Flaubert a menos. «Um dia, Blanchot perguntou e respondeu: «Para onde vai a literatura? Vai direita a si mesma (…) direita à sua essência, que é a sua desaparição.» Ora o meu livro preferido é próximo da ideia de Blanchot: «Bouvard et Pécuchet». Um livro sobre a cópia que contém a cópia que contém a cópia e em que dois patetas estão permanentemente enredados numa questão de fundo que não tem fundo mas convencidos que no fundo, esse fundo existe e até se explica. É um livro sobre a linguagem? É sobre tudo, sobre nós e eles. Oh, é muito sobre nós que dizemos e escrevemos «eles». Diz-se: Bouvard et Pécuchet, obra-prima de ironia, claro que sim, mas o principal é aquela inutilidade toda, acumulada, um caminho idiota, ou antes, sem ponta por onde se lhe pegue.» Toma lá, então, da Duras e antes dos pimentos assados: «Vous y allez tout droit à la solitude. Moi, non, j'ai les livres.»

Adenda: Uma sugestão de leitura aqui.

11.1.09

UM ESTADO AVANÇADO

«On ne sait plus rien, presque, à force de savoir Tout. Tout comme on croit savoir. C'est ce qu'on appelle un état avancé du désespoir.»

Marguerite Duras, La Mer Écrite, 1996

UM ESTADO AVANÇADO

«On ne sait plus rien, presque, à force de savoir Tout. Tout comme on croit savoir. C'est ce qu'on appelle un état avancé du désespoir.»

Marguerite Duras, La Mer Écrite, 1996

18.9.08

O ROSTO DEVASTADO


Não, não é a chamada "grande literatura". Aliás, ela não produziu propriamente grande literatura. Escreveu, porém, O Amante. Ganhou prémios e muito dinheiro com ele. Foi, como se costuma dizer, "reconhecida". A Sábado ofereceu-o ontem, na irrepreensível tradução de Luísa Costa Gomes e de Maria da Piedade Ferreira (como é produto espanhol, a Gomes passou a "Gomez" e a capa é uma cena do filme homónimo). Li e reli, vezes sem conta, esta pequena obra-prima, esta "revelação" de Marguerite Duras sobre ela mesma e sobre o que de nós existe naquela "história". Ao contrário do título de Cormac, este livro é para velhos. Só o decurso do tempo - que significa invariavelmente morte e a ruína (o livro não "fala", aliás, de outra coisa) - permite entender o esplendor das palavras sempre cruéis de Duras. Ora um livro que começa assim não pode deixar de ser um grande livro. «Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: - «Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado.»

O ROSTO DEVASTADO


Não, não é a chamada "grande literatura". Aliás, ela não produziu propriamente grande literatura. Escreveu, porém, O Amante. Ganhou prémios e muito dinheiro com ele. Foi, como se costuma dizer, "reconhecida". A Sábado ofereceu-o ontem, na irrepreensível tradução de Luísa Costa Gomes e de Maria da Piedade Ferreira (como é produto espanhol, a Gomes passou a "Gomez" e a capa é uma cena do filme homónimo). Li e reli, vezes sem conta, esta pequena obra-prima, esta "revelação" de Marguerite Duras sobre ela mesma e sobre o que de nós existe naquela "história". Ao contrário do título de Cormac, este livro é para velhos. Só o decurso do tempo - que significa invariavelmente morte e a ruína (o livro não "fala", aliás, de outra coisa) - permite entender o esplendor das palavras sempre cruéis de Duras. Ora um livro que começa assim não pode deixar de ser um grande livro. «Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: - «Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado.»