«Este ano, o contexto das comemorações do 25 de Abril tem sido fortemente marcado pelo debate sobre o fim do período de excepção de três anos, iniciado com o pedido de ajuda financeira externa. Infelizmente, tudo se faz mais uma vez num euro-financês opaco, numa linguagem que, para o comum dos cidadãos, não convida a discutir a questão posta em termos de "saída limpa ou programa cautelar?". Tendo feito do Governo um mero agente dos cortes impostos pelas condições do resgate, Passos Coelho geriu o processo de um modo calamitoso para o País e para o seu futuro próximo e a médio prazo, sobre o qual, como se viu na recente entrevista que concedeu à SIC, não tem qualquer visão, projecto ou ideia. E os acontecimentos da última semana e meia vieram acrescentar a essa falta de visão uma descoordenação em crescendo de atritos entre vários sectores do Governo, nomeadamente em matéria fiscal, que não auguram nada de bom. A um mês das eleições europeias, e porque muito - para não dizer tudo - depende do que a União Europeia virá a ser e a querer, a situação exigia mais do Governo, exigia sobretudo que ele soubesse fazer uma ponte credível entre o que diz que fez e o que diz que quer para o País, distinguindo bem aquilo que depende de nós e aquilo que releva do enquadramento e das decisões europeias. Mas também a oposição pouco se tem feito ouvir, continuando demasiado presa às querelas nacionais num momento em que tudo devia ser feito para se assumir e discutir a Europa, uma Europa que se tem transfigurado, aos olhos de uma crescente parte de cidadãos, de sonho redentor em interminável pesadelo.»
«O jogo de sombras em torno da saída de Portugal do "programa de resgate" começa a ser insuportável. Não é aceitável que o Governo não tenha sobre isso uma posição clara. Só quem sabe o caminho para onde vai pode convidar os outros, neste caso a oposição, para seguirem na mesma direcção. Duas razões justificam a preferência por um programa cautelar, pois a actual tendência para a baixa das taxas de juro da dívida pública, em toda a Europa, é um fenómeno meramente conjuntural. Em primeiro lugar, essa tendência não deriva do alegado "sucesso" da austeridade. Prende-se, antes, com a saída de capitais dos mercados emergentes, e também com a política monetária expansiva do BCE. Na verdade, as três principais agências de notação financeira continuam a considerar Lisboa e Atenas abaixo da linha de água, o que não tem impedido os juros dos dois países de baixarem dramaticamente. Se esta tendência, que não controlamos, se inverter (e são vários os factores nesse sentido, entre eles a eventual ilegalidade do mecanismo OMT), o País ficará de novo encurralado. Em segundo lugar, um programa cautelar poderia garantir, durante dois anos, um cenário de contingência, a ser usado apenas em caso de necessidade. E teria a enorme vantagem de medir o grau efectivo de solidariedade dos outros Estados membros. Os portugueses ficariam a saber quem na Europa brinca à solidariedade e quem a pratica de facto. Mas, para tal, será preciso que o Governo português coloque, por uma vez, a sua espinha em posição vertical e fale com clareza para que a Europa seja capaz de ouvir.»
Sem comentários:
Enviar um comentário