2.4.14

Uma triste procissão



«Vamos «regressar aos mercados» em 2014 num trapézio com uma rede rarefeita, tecida pelo EUROGRUPO - ou seja por uma nova troika ad-hoc isenta das perplexidades do FMI - em sucessivas reuniões, de finais de Janeiro até 1 de Abril. Há tudo a temer desses ministros das Finanças sem pinga de sentido do que possa ser o «interesse geral» da zona euro. Disse-o desassombradamente o ministro da República de Irlanda quando anunciou o desinteresse de Dublin por um «programa cautelar» porque receava que esse processo negocial- de que o seu governo tudo desconhecia ainda no final de Novembro- pudesse acabar «pelas três da manhã, em Dezembro, transformado numa espécie de nova crise irlandesa por muitos ministros sequiosos de aparecerem como campeões do rigor perante a opinião»! Não estaremos isentos dessa oscilação entre um paternalismo patético e ofensivo e a pressão para fazer de Portugal uma cobaia do primeiro ensaio intergovernamental do até aqui virgem Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira. Sem novas eleições em Portugal chegaremos fracos e desarmados a essa prova de fogo da invenção de um programa cautelar intergovernamental. Ainda por cima somos uma população em decadência, com cada vez menos habitantes, com uma baixa de natalidade superior a qualquer outro período contemporâneo a que se hão-de acrescentar as estimativas da Comissão Europeia apontando para um decréscimo da população residente de cerca de 130.000 pessoas empurradas pela «ordem para emigrar» explícita em algumas medidas do «Memorando de Entendimento». Portugal será assim o único país sob resgate a perder recursos humanos até 2015, uma altura decisiva para as tarefas de reconstrução e crescimento. Só alguns países do leste nos acompanham nessa triste procissão: Bulgária, Croácia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia e Roménia.»


 


José Medeiros Ferreira, Córtex Frontal, 31.12..2013

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