10.5.12

Regressar à política



«Apesar de herdar uma situação, nacional e europeia, que o vai obrigar a governar no fio da navalha, François Hollande tem alguns trunfos valiosos. Nomeadamente dois: a sua visão da política e uma boa preparação nos dossiers mais decisivos. Quanto ao primeiro, ele compreende bem que a política é, antes do mais, uma questão de imaginário e de simbolismo, e que é esta a chave do espírito colectivo de qualquer nação e, nomeadamente, da base popular de qualquer transformação. O oposto, como se sabe, do que fez Nicolas Sarkozy, que apostou desde o dia da sua eleição, em 2007, na dessacralização da função presidencial e na banalização do exercício político. Sarkozy - como muitos outros líderes - foi nisto vítima de uma das mais vulgares ilusões político-mediáticas dos últimos tempos: a de que o que importa numa liderança é a velocidade, a energia e o voluntarismo que exprime, numa permanente combinação - como se de um action man se tratasse - da vertigem do movimento com a manipulação estatística e a amnésia do cidadão/espectador. O tempo tem mostrado sem piedade a enorme fragilidade desta ilusão performativa, e as suas trágicas consequências. Como tem mostrado, e bem, que sem ideias novas não há políticas inovadoras; que sem reflexão paciente não há acção eficaz; que sem deliberação ponderada não há decisão acertada; que sem profundo conhecimento dos problemas não há soluções consistentes.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN

2 comentários:

jsp disse...

Independentemente das putativas qualidades, trunfos ou manhas políticas, Hollande está condenado, no Grande Jogo, a ser aquilo a que a fatal (ir)relevância do seu país o condena : um político doméstico, com pífias ressonâncias regionais em sítios forçosamente pífios - como o famoso "jardim à beira-mar plantado", por exemplo...

Anónimo disse...

Pelo menos, lá entregam-se as declarações, mesmo: Hollande critica 'os ricos' mas…tem três casas na Riviera Francesa.