Com a idade e a indiferença geral que nos rodeia, talvez esteja a ficar piegas. Mas, e por vir sobretudo de quem vem, a crónica de hoje do Público de Vasco Pulido Valente, dedicada a Fernando Lopes, comoveu-me profundamente. Mais do que falar do seu amigo Fernando Lopes, VPV escreve sobre um tempo (e um tipo de gente) que acabou. Nem sequer os anos que me separam do autor e de F. Lopes diminuem a horrível percepção desse fim. Bem pelo contrário. «Costumávamos ficar os dois a falar, com a sala vazia, como se essa fosse a nossa verdadeira ocupação na vida. Raramente encontrei uma pessoa tão inteligente como ele. Via o mundo com uma pertinência, uma originalidade e uma subtileza, que muitas vezes me faziam sentir menor. E com uma espécie de irremediável melancolia, que só quem o conhecia bem acabava (e nem sempre) por notar (...). Por isto e por aquilo, o ritual do "Gambrinus" enfraqueceu, como o prazer e a ajuda que me dava. O Fernando existia, mas longe e, pior do que isso, intermitentemente. Os tempos felizes não voltaram mais. Não me consolei disso.»
1 comentário:
Não voltam mais. E a nós calhou assistir à sua ruína às mãos do tempo presente. O da vitória da estupidez mais arrogante, do triunfo da ignorância mais insolente, do apogeu da mediocridade mais estéril.
A ruína de um tempo em que para lá (antes e depois) da substância das coisas, se cultivava a forma de as dizer. De escrever. A substância era digna e a forma honrava-a integralmente.
Comove este texto, que pude conhecer na íntegra, pelo que relata e como o relata. Como tantos outros desse tempo quase perdido. Um tempo em que havia "grandes", de visões tão diversas e de forma tão diversa julgados pela História. Mas grandes na expressão do que tinham a dizer. E tinham coisas a dizer.
Como comove aquele outro que um dia aqui descobri, invocando as cruzes dos nossos mortos. Tão grande a distância, no tempo e na mente, tão comum um culto que que hoje soçobra, sem esperança, espezinhado por "cenas bué da nice ".
Costa
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