Consta que Eva Perón costumava usar as suas melhores jóias sempre que ia visitar os "descamisados". Dizia ela que os pobres se sentiam "reconfortados" por verem uma deles naqueles preparos - transmitia-lhes, sugeria Evita, "esperança". Lembrei-me desta "história" do socialismo "justicialista" e autoritário do casal Perón por causa no nosso liberalismo de pacotilha de que o denominado, e futuro, "banco de fomento" é a mais recente "jóia" para exibir aos papalvos em nome do "investimento" que tem as costas largas. Ainda corre a "instalação" da "comissão instaladora" da coisa e já se sabe que, apenas três membros dela, custarão meio milhão de euros/ano aos palonços do costume. Como escreve a Ana Sá Lopes, «os vencimentos anunciados para os membros da comissão instaladora do banco público revelam mais uma vez ao mundo que as "gorduras do Estado" que o governo jurou combater eram a arraia-miúda, os reformados e os funcionários públicos. As "gorduras" do Estado eram os serviços públicos e os pensionistas com reformas acima dos 600 euros. Não há dinheiro para nada, mas há dinheiro para pagar quase um milhão de euros a três criaturas que vão "instalar" o segundo banco público do país. Maria Antonieta também pensava assim.» Ou a breve senhora Perón, noutra dimensão igualmente esdrúxula. O ponto é que «o argumento de que se tem de pagar muito bem porque se tem de ir buscar "os melhores" é iníquo no meio da devastação social a que o país está sujeito. E quem são os melhores? E onde está a lei que tinha travado salários no Estado superiores aos do Presidente da República? E se é suposto que um primeiro-ministro seja "um dos melhores" porque lhe é imposto um rendimento tão baixo em comparação com o banqueiro? Até aqui, pagámos muito (com uma crise e desemprego elevado) para salvar os bancos. Continuamos a salvar banqueiros. Os cortes que vêm aí não vão incidir sobre o salário destes novos banqueiros públicos – vão voltar aos do costume, aos ricos que têm rendimentos de 1000 euros brutos. Anda-se a brincar com o fogo.»
Adenda: ainda nesta extraordinária linha "o país está melhor!", «em Portugal, o risco de pobreza afecta 18,7% dos portugueses, mas são os desempregados os mais vulneráveis a esta situação: 40,2% dos desempregados já estão em risco de pobreza. Mas se a estes se juntarem os portugueses inativos, a taxa sobe para 69,7%. Mais de metade da população (...). No geral, a taxa de risco de pobreza subiu para 18,7% em Portugal, mais 0,8 pontos do que o registado em 2011. No fundo, mais de 1,8 milhões de portugueses em risco de pobreza. Isto verificou-se a par de uma queda do rendimento monetário líquido dos portugueses, que recuou 1,8% entre 2011 e 2012. E, se não fossem as transferências sociais, seriam ainda mais portugueses, já que só pelos rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, a taxa subiria para os 46,9% dos portugueses. No entanto, as verbas entregues como prestações sociais (doença, desemprego, inserção social, abono de família) fazem-na descer para os tais 18,7%.» É por estas e por outras que não pode haver "consensos" e, em compensação, existem "frentes nacionais" que florescem. Mas como é que se pode explicar isto a uma nação diariamente infantilizada e embrutecida pelas suas "elites"?
1 comentário:
Não se explica. Acarinha-se estremecidamente o embrutecimento e a infantilização, com verdadeiro zelo sacerdotal, a doses maciças de futebol, manhãs e tardes nos canais generalistas e outros suplementos anestésicos afins. E uma vez adoptada, essa via não tem retorno. Nem pode abrandar. Torna-se demasiado perigoso pretender inverter o processo. Há que manter ou aumentar a dosagem da droga, sob pena do drogado ficar fora de controlo.
Costa
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