
«Ocorrera entretanto a adesão de Portugal à CEE e abriram-se as novas décadas das especiarias e das pedras preciosas, agora sob a forma de fundos. Escusado será dizer que, nesses vinte anos de êxitos, de progresso, de negócios e de clientelas, quase nenhum espaço foi feito na praça pública aos «profetas desarmados», para usar a expressão com que Maquiavel contemplou os homens que, como nós, entrevêem o futuro sem os meios necessários para o influenciar. A colaboração nos jornais aí está para atestar essas preocupações mas o país modernizava-se aceleradamente e não cuidava de advertências. As elites portuguesas passaram a ser tão acriticamente europeias como haviam sido africanistas. O sucesso era mais uma vez obra do acaso. Ou seja, corria o risco de terminar um dia abruptamente sem se perceber porquê. Esse direito à Praça Pública veio através da miraculosa blogosfera. Todos os cidadãos ficaram a um clique da irradiação das suas opiniões e julgamentos. O nosso autor aproveitou soberbamente a novidade e a autonomia associada. O fenómeno literário «João Gonçalves» não seria possível hoje sem a liberdade que os blogues permitem, assim como permitem a rapidez na publicação, e a abordagem individual dos temas sem a subordinação a qualquer tipo de intermediários. Há qualquer coisa de pirata na blogosfera que encanta os aventureiros da escrita. Considero João Gonçalves um dos melhores cronistas deste século XXI, um «século ainda tão pequeno», como Karl Kraus considerou o vigésimo na véspera da Grande Guerra de 1914. Esse mesmo Karl Kraus que ostracisava os jornais de referência que ele tinha por responsáveis da hecatombe em preparação. Daí que editasse o seu próprio jornal Die Fackel, várias vezes apreendido pelas autoridades da Viena, imperial mas a desfazer-se. Para o súbdito austríaco o mais importante no público é a faculdade de julgar, e não a de opinar. Pois considero haver algumas analogias entre um pensador como o autor de «Esta grande época ainda tão pequena» e o nosso João Gonçalves. Ambos convocam o escândalo do julgamento e a errância de caminhos. Ambos marcam a sua época em meios de expressão fora do «sistema».(...) Se Dante nos visitasse reconheceria na maioria dos comentadores no activo aqueles espíritos «neutros» e «mornos» que avistou nos diversos círculos do Inferno que criou.»
José Medeiros Ferreira, prefácio do livro Portugal dos Pequeninos, 2009 (fora do mercado)
Foto: Lançamento do livro, em Junho de 2009. Medeiros Ferreira, ao centro, na primeira fila, ao lado de Manuela e António Ramalho Eanes
1 comentário:
Vão morrendo, os mestres capazes de tão sucintas e sólidas lições. E não se vê quem lhes suceda.
Costa
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