O primeiro-ministro referiu-se depreciativamente às pessoas que subscreveram um manifesto favorável à reestruturação da dívida (e nunca ao seu "perdão", como uma "ideia" mentirosa das coisas insinuou pela voz dele e, hoje, do dr. Lima que falou em "tiros" como se estivesse montado no porta-aviões do seu mentor entretanto desaparecido) como "aquela gente". Não sendo íntimo nem tão pouco afim, política ou intelectualmente, de muitos dos subscritores, reconheço-me todavia no essencial do escrito e defendo, sem hesitações, o direito (que é, em democracia, também um dever cívico) a exprimirem opiniões distintas das que a correcção ilusionista manda que se exprimam. No fundo, o que sobressai é um medo dos nossos pequenos poderes, cuja autoridade moral diminui de dia para dia, perante interrogações que escapam à sua "visão" estreita e timorata dos problemas. Tudo, aliás, porque há Maio à vista. Com eleições e fim de programa de ajustamento que não significa qualquer melhoria na vida de ninguém. A austeridade continuará, reforçada e revivificada, através de "medidas" que muito "corajosamente" só serão conhecidas, ou entrarão plenamente em vigor, no segundo semestre, passado o confronto directo com o eleitorado. O primeiro-ministro não aprecia o cepticismo enquanto atitude cultural e política. Não admira. A interrogatividade não é o seu forte e os seus "explicadores" pelos vistos não o ajudam. Cada um tem o que merece.
2 comentários:
Não concordo, João.
Concordo, sim, com Manuel José Fernandes: «Portugal necessita de renegociar, ou de reestruturar, a sua dívida pública? Defendo a ideia de que alguma coisa terá de acontecer há bastante tempo. Pelo menos desde Abril de 2011, ainda era Sócrates primeiro-ministro. O problema está, como veremos adiante, no quando e no como.
Quer isto dizer que os subscritores do “manifesto dos 70” têm razão? Nem pensar nisso. Não têm razão nas razões que invocam. Não têm razão nos motivos que os movem. Não têm razão nos argumentos que utilizam. Não têm razão no processo que sugerem. Não têm razão no timing que escolheram.
A razão por que defendo alguma forma de reestruturação da dívida é porque acho que ela nunca poderá ser paga nos termos estabelecidos e anunciados. O Presidente da República recordou-nos esses termos este fim-de-semana, mas eles só os distraídos terão ficado surpreendidos. O problema dessas metas não é implicarem, como dizem os subscritores do manifesto, o prolongamento da austeridade, pois se há algo que temos de ter por adquirido é que não regressaremos aos tempos de vacas gordas pré-crise. O problema dessas metas é outro: é que elas pressupõem um ritmo de crescimento nos próximos 20 anos que é virtualmente irrealizável.»
O debate errado. É preciso debater alternativas como a que aqui apresento: http://marques-mendes.blogspot.pt/2014/03/reestruturacao-da-divida-publica-sim.html
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