26.3.14

Execução capital

Condenados até à morte - pelo menos a minha geração e as anteriores - a aturar a lenga-lenga do "financês", é impossível escapar a umas brevíssimas palavras sobre a execução orçamental de Janeiro e Fevereiro. Do lado da receita, continua a registar-se uma "evolução positiva" sobretudo à conta do IRS. O dr. Duarte Pacheco, deputado do PSD, veio na sua santíssima ingenuidade atribuir a coisa à circunstância de haver mais empregos e, por conseguinte, mais pessoas a "descontar" e mais "economia" (o IVA também cresceu insignificativamente). Não lhe ocorreu (ou ocorreu, mas já estamos em campanha eleitoral) que o "enorme aumento de impostos" anunciado a seu tempo pelo dr. Gaspar prossegue os seus efeitos para além do dr. Gaspar. O "segredo" está nas alíneas do orçamento de Estado dedicadas ao referido imposto  - v.g. as taxas de retenção - e que pouca gente lê. Ou achará o dr. Pacheco que são os impostos decorrentes de uns parcos milhares de salários tremidos e, em geral, de três dígitos que "engrossaram" o IRS? Do lado da despesa, os juros da dívida encareceram mais de 47% enquanto, por via dos cortes, as despesas com pessoal diminuíram (e o mesmo aconteceu com as prestações sociais). O que retira qualquer "autoridade" a quem, de direito e de facto, apoda de "masoquistas" e de "irrealistas" aqueles que defendem a renegociação honrada e responsável da dívida. Como dizia o Medeiros Ferreira, isto traduz-se em puxar a vida das pessoas para baixo mesmo que a "macroeconomia" envie os tais sinais ténues que satisfazem os adeptos precários do "país melhor". Tal acontece porque tal puxar não pára. Não era esta a segunda fase da legislatura que defendi. Esta, pelo contrário, tem sido o prolongamento da mesma fase da legislatura com um ou outro rosto diferente, em geral para pior. Por tudo isto, o défice de 31 milhões atingido no final de Fevereiro vale o que vale. Designadamente perante a emergência de dois milhões de compatriotas nossos em risco de pobreza. Nas palavras de Jorge de Sena, noutros contextos, uma verdadeira execução capital.


 


Adenda: Para além da pobreza propriamente dita, há ainda a pobreza de espírito.

1 comentário:

Pedro disse...


Para que os Paulos e os Coelhos não nos enganem. Nunca mais.


http:/ www.youtube.com /watch?v=gNu5BBAdQec