«Como se fosse uma lista de baixas numa guerra, ficámos a saber que o PIB do país recuou ao nível do ano 2000 e o emprego tombou até ao ano de 1996. Em dois anos e meio foram destruídos 328 mil empregos. Tudo isto para combater uma dívida pública bruta excessiva, que, no mesmo período, subiu de 94% para quase 130% (ultrapassando em 15% as precisões da troika)! (...) No século xix, dois grandes europeus, Antero de Quental e Nietzsche escreveram, ao mesmo tempo, quase a mesma coisa: o que separa os homens é a maior ou menor capacidade que têm de "suportar" a verdade de que depende a dignidade da vida. A verdade dói, mas a mentira mata.»
«Rosanvallon sustenta por isso, e bem, que viver em sociedade é antes do mais, para cada um, ver a sua existência apreendida na sua realidade e reconhecida na sua verdade quotidianas. De resto, é a invisibilidade de tudo isto que nos nossos dias estimula a inflação da linguagem política tal como ela se pratica cada vez mais, isto é, saturada de abstracções e sem ligação com o real, alimentando por isso todos os tipos de decepções com a política e de rejeições dos seus discursos. A "conversa de treta" das últimas semanas sobre a saída - limpa ou suja!...- do programa de ajustamento em que Portugal tem vivido é um bom exemplo desta desconexão, que só atordoa os cidadãos.»
«Confesso que vejo com alguma dificuldade que Adriano Moreira seja masoquista. Ou Bagão Félix. Ou Alberto Ramalheira. Ou António Saraiva. Ou Diogo Freitas do Amaral. Ou Fausto Quadros. Ou João Vieira Lopes. Ou José Silva Lopes. Ou Luís Braga da Cruz. Ou Manuel Porto. Ou Manuela Ferreira Leite. Ou Miguel Cadilhe, que não assinou mas publicou um artigo concordando no essencial com ele [o manifesto pela reestruturação da dívida] e lembrando que há mais de dois anos defende uma renegociação "honrada" da dívida. Ou Vítor Martins e Sevinate Pinto. Eu confesso que vejo com alguma dificuldade que no Governo tenham existido pessoas que, por estes critérios, podem ser consideradas masoquistas, como Vítor Gaspar, que conseguiu estender os prazos de pagamento da dívida e descer as taxas de juro aplicadas. Eu confesso que vejo com alguma dificuldade que o Conselho das Finanças Públicas, presidido por Teodora Cardoso, seja um ninho de masoquistas, já que mesmo com números superiores aos apresentados pelo primeiro-ministro (excedente primário de 2,5% e crescimento nominal de 3,5% contra 1,8% e 3% defendidos por Passos) isso só permitirá reduzir a dívida para 84,7% do PIB em 2035. Eu confesso que vejo com alguma dificuldade que a Comissão Europeia seja constituída por um grupo de masoquistas, já que mandatou um grupo de peritos para apresentar propostas para a criação de um fundo europeu para a amortização da dívida antes das próximas eleições para o Parlamento Europeu, que são já a 25 de Maio. Eu confesso que vejo com alguma dificuldade como é que este grupo de masoquistas não se vai alargar exponencialmente, dentro e fora de portas, quando em Setembro entrarem em vigor as novas regras de contabilização da dívida pública definidas pelo Eurostat e que vão levar a que a nossa dívida pública aumente em cerca de 10 pontos percentuais, aproximando-se dos 140%.»
Sem comentários:
Enviar um comentário