15.3.14

Quem tem medo de Passos Coelho?


 


A pergunta não é meramente retórica nem representa uma paráfrase do título de uma peça célebre de teatro. A meio da semana, o primeiro-ministro agitou o papão dos mercados para contrariar a proposta de reflexão sobre a dívida efectuada por escrito por umas dezenas de pessoas. Ontem, face ao veto do Presidente da República ao diploma que aumenta a contribuição dos trabalhadores investidos em funções públicas para a ADSE, ameaçou com a avaliação da troika, e com o "compromisso" assumido com esta, que justifica a decisão de não alterar uma vírgula naquilo que foi devolvido ao parlamento. E que a maioria terá a "obrigação firme" de votar, bovina e unanimemente, sem pestanejar. Ou seja, para Passos não pode existir opinião pública - só a que se publica e que seja favorável à sua ortodoxia - nem Presidente da República que exerça os seus poderes constitucionais. Não vão uma e outro "incomodar" ora os mercados ora a troika. Isto prova que Passos, de há uns meses para cá, não tem outro "programa" que não seja o de "ajustamento". Coisa manifestamente pobre se, por exemplo no caso da dívida, os pressupostos para que "tudo acabe em bem" só estarão reunidos, segundo o Expresso, em 2159, daqui não a vinte mas a cento e quarenta anos. Mas aí todas as gerações que "preocupam" os plumitivos (e esta persistência em dividir novos e menos novos, quando os "novos" não pensam senão em sair daqui, já ressuma a desonestidade intelectual), "erradas" ou "certas", estarão todas mortas. O país e as outras instituições, nomeadamente o PR, não podem ficar reféns da insegurança das certezas de Passos Coelho. O chamado "manifesto dos 70" precisa de sequência política que não ceda ao medo imposto pelas toleimas do primeiro-ministro. Não se trata de um "delírio senil" como o apelidou, com leveza, Vasco Pulido Valente. Pode, pelo contrário, representar um ponto de partida para travar o afunilamento do debate público imposto pela pior forma do medo - o medo do próprio medo.

2 comentários:

João Vargas Moniz disse...

Tanto medo - queira VPV ou não - desaguará numa "guerra civil", com ou sem sangue, mas seguramente sem cravos ou outras flores.
O processo de destruição nacional que os órgãos de soberania (BANZAI!!!) persistentemente prosseguem corre o seu inexorável curso. 
Em menos de um fósforo seremos nada.
Lamento que este fósforo não se consuma antes da minha vida; tinha curiosidade de ver morrer um país, depois de ter visto morrer amigos, na mansidão da resignação e na tensão possível da resistência.
Confesso que o ocaso da pátria me deixa indiferente, acho-o merecido; pena, tenha de não conseguir (não conseguirei) salvar aqueles de quem gosto.
De resto, acho que me afundo com todos, e a vingança surda de saber que comigo vão os que merecem ir. 
Seja!
Seja, com a certeza de que alguns certos irão comigo.

fado alexandrino disse...

Olhe que não é bonito de ver. Eu já vi, chamava-se Moçambique e curiosamente a grande maioria dos que o mataram ainda estão vivos, de muito boa saúde e muito bem colocados na vida (e na vidinha).