19.3.14

O fardo da liderança, segunda parte

Um "fórum" juntou os ministros das finanças dos últimos doze anos. Divididos pela dívida e, em parte, pelo chamado "pós-troika", os antigos ministros Ferreira Leite, Bagão Félix, Teixeira dos Santos e Vítor Gaspar (faltou Campos e Cunha) mostraram ter mais dúvidas do que evidências, ou certezas, sobre as matérias. Gaspar, aliás, voltou indirectamente a recordar ao seu epígono de estimação, Passos Coelho, que este arrosta com o fardo da liderança política, designadamente que lhe convém optar por um "seguro" acautelatório depois de Junho. Teixeira dos Santos - o qual, honra lhe seja feita, foi o primeiro a afirmar publicamente que os cortes não voltavam atrás, em 2010, e agora explicou de novo que vai ser mesmo assim - também comunga, com os outros, desta opinião. Barroco em matéria de renegociação da dívida, Gaspar teve de sofrer as explicações de F. Leite e B. Félix, respondendo à primeira com o mau gosto (talvez fosse ironia inspirada pelas conversas "cultas" com M. J. Avillez) de lhe referir o bisavô. E ainda teve de ouvir que os excessos austeritários (que ele, por carta de 1 de Julho de 2013, reconheceu terem minado a sua crediblidade pelas suas consequências financeiras, económicas e sociais) do "ajustamento" emperram-nos o futuro por muitos e bons anos, por muitas e boas gerações "certas" ou "erradas". A actual ministra, num registo ora activo ora omissivo, mas muito adequado aos tempos eleitorais que se avizinham, falou entretanto no parlamento de um "alívio" virtual do mencionado fardo. Seja lá qual for (e é lastimável que se cale o que se segue quando ex-responsáveis falam desempoeiradamente sobre isso em conjunto), o fardo da liderança é coisa que, por natureza, não se "consensualiza". O cálice, como recordou o dr. Gaspar a quem de direito, é para beber até ao fim.

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