23.3.14

A segunda parte

«Mário Crespo, agora de saída da SICN, criou o seu próprio estilo, o que é relevante no jornalismo, quer na forma quer no conteúdo. Gosta-se ou não, mas um estilo é mesmo assim. Não só acompanhou a agenda dos eventos relevantes, como trouxe temas novos e entrevistados fora da estafada lista de “conhecidos”, enriquecendo o debate público. Defendeu causas, o que não fica mal a um espaço jornalístico personalizado, destacando-o dos medrosos e sensaborões dos ecrãs. Sabe entrevistar, obtendo declarações que outros não conseguem (...). E, se na primeira parte do Jornal das 9 criou uma agenda própria, na segunda submeteu-se para além do razoável à partidarite parlamentar, com frente a frente desinteressantes e repetitivos de deputados papagueando posições das suas agremiações. Este aspecto é digno de nota. Os frente a frente com cabeças falantes dos partidos serviram como seguro de vida do programa. Parecia que, sem eles, o programa estaria sempre em risco. Tinha de ceder ao poder partidário para poder ter a primeira parte, mais livre e independente. O caso reflecte o que se passa na maioria dos canais: enchem os ecrãs com figurões dos partidos que pouco acrescentam ao debate público, em proporção com o tempo que lhe é dado; reproduzem posições partidárias, discutem palavras. Se os partidos têm decerto lugar nos espaços informativos e de debate, já o peso que lhes dá a maioria dos canais é exagerada para o que “produzem” em termos de informação e — a parte pior — resultam duma estratégia não expressa de os canais “estarem de bem” com o poder político em geral. O exagero da partidarite advém da fraqueza das empresas mediáticas e resulta numa limitação editorial. Por cada político sem nada para dizer fica por ouvir alguém que acrescentaria informação, conhecimento e opinião.»


 


Eduardo Cintra Torres, CM

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