«A linha de fractura que divide a Europa pode ser resumida sobre aquilo que deveremos fazer com as regras do jogo da nossa União Económica e Monetária e com o papel do Banco Central Europeu. A Alemanha e os seus aliados querem que a UEM continue a ser o garante de um mercado comum onde as exportações circulam sem sobressaltos causados pela desvalorização de sistemas monetários nacionais, como os anteriores ao euro. Sem o euro, há muito que a moeda alemã se teria valorizado face à desvalorização das moedas europeias concorrentes, e os lucros das empresas germânicas seriam muito menores. A UEM significou que os países abdicaram da sua política monetária própria. Não temos um Banco de Portugal capaz de fazer financiamento monetário da economia (causando com isso uma inflação com intenção terapêutica, que alivia a pressão sobre a dívida), nem poder cambial para equilibrar a nossa balança comercial através do estímulo das nossas exportações e do desencorajamento das importações (pela perda do poder aquisitivo da nossa moeda sobre bens do exterior). Berlim acha natural que tudo o mais seja de responsabilidade exclusivamente nacional, desde os bancos doentes à dívida excessiva. Acha natural que o BCE não intervenha para sacudir os ataques especulativos sobre as obrigações dos Estados em dificuldade. O outro lado da Europa fracturada diz: "O que precisamos é de um BCE que o seja a sério, isto é, que controle a inflação mas que, com igual importância, defenda a economia e o emprego em toda a zona euro." A resposta de Berlim, tornada dogma pelo Governo de Lisboa, continua a ser: "Tornem-se mais competitivos pelo empobrecimento..." Pensar que as nações abdicam voluntariamente da soberania para empobrecer é uma ideia estúpida, mas continua a ser a ideia oficial de quem comanda a Europa.»
1 comentário:
"inflação com intenção terapêutica"?!??! WTF?!? Decerto que o autor não apresenta tal estratégia como algo positivo! A soberania que a permite gerir é, obviamente, algo de bom num país com dirigentes responsáveis. Mas daí a louvar as virtudes da inflação é que não! Nada há de mais injusto para trabalhadores por conta de outrem. Por outro lado, se há coisa que a nossa experiência acumulada em resgates às finanças públicas demonstra é que não é por mudar o balde que as moscas emigram! Estamos na iminência do quarto em outras tanta décadas e, ainda assim, são poucos os que coram de vergonha. Com moeda própria ou sem ela, o regime que alimentamos e nos pastoreia desde o 25/4 tem sido pródigo em encontrar soluções para levar o país à bancarrota.
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