"Para evitar a repetição da I Guerra e das cenas de 1940, Mitterrand resolveu exigir o euro, que teoricamente evitaria uma nova hegemonia de Berlim. Mal preparado e mal pensado, o euro levou em pouco tempo ao resultado contrário: ao empobrecimento dos países mais fracos, da própria França ao nosso pindérico Portugal, e estabeleceu a Alemanha como a única potência económica e financeira da região – o que não deixa de a consolar e satisfazer e a conduziu a um isolamento pacato e certamente feliz, que não quer ver perturbado pelas raças inferiores do Sul e os seus sarilhos. O acordo entre os socialistas do SPD e as tropas de Merkel revela bem o estado da Alemanha em 2013. O SPD conseguiu alguns limitados gestos a benefício da populaça mais pobre. Merkel conseguiu que não se mexesse no resto, nomeadamente na política europeia: nada de dívidas soberanas, nada de défices para esconder a miséria de cada um e, principalmente, nada de eurobonds para obrigar o contribuinte alemão a pagar a irresponsabilidade e a incúria de estranhos. O contribuinte alemão usará as suas poupanças para viver bem, embora modestamente, e para se passear no Verão por climas quentes, como de resto inteiramente merece. Do que Merkel mais gosta na Alemanha são janelas bem calafetadas. Chegou agora a altura de calafetar a Alemanha. Por aqui, nem a esquerda, nem a direita falaram disso. Continuam ainda em 1988."
Vasco Pulido Valente, Público
*O título do post é impropriamente sonegado a José Medeiros Ferreira. E o post à crónica de ontem de VPV. No "nosso pindérico Portugal", como Medeiros tem alertado, já vigoram duas moedas. A generalidade dos portugueses é pago numa - os portugueses dos cortes, do assédio fiscal e da declinante classe média - e o resto, o sistema financeiro e meia dúzia de felizardos, "circula" noutra. O que a Alemanha nos augura é pois, e de novo, uma mão cheia de nada e outra de juros por interpostas entidades credoras. Não é por acaso que o tesouro alemão se recomenda vivamente a si mesmo. Depois de Junho, e contrariamente ao que a propaganda diária e infantil designadamente do senhor vice nos quer fazer crer, as coisas mudam pouco. Entre outros aspectos menores que sobretudo se prendem connosco e com quem nos pastoreia, a Alemanha não muda. E isso faz toda a diferença para o regresso clandestino do escudo e para a manutenção da fatal pinderiquice. Com ou sem 1º de Dezembro para consolo dos crédulos que apreciam bacalhau com couves portuguesinhas pelo natal.
1 comentário:
Pois hoje, domingo, 1 de Dezembro, VPV escreve no Público um texto lamentável. Pela sobranceria, arrogância, mistificação histórica, utilidade cultural e social , etc. Um texto de manifesto fastio, para despachar.
Apetece dizer "Por que no te callas?"
VPV pode ter pressa, pode achar uma chatisse alimentar o Público e os papalvos que continuam a lê-lo, pode até estar nostálgico do Gambrinus e do Prof Marcelo (doúnico, do verdadeiro) e, curiosamente, eu também estou...
Mas com lamentáveis nacos de prosa como aquele que pariu, certamente por achar que "para quem é, bacalhau basta", bem pode reverter a interrogação que lhe dá título: é que a questão não é a de saber quem nos toma a sério (e todos sabemos que ninguém), a questão é cada vez mais a de saber quem o toma a sério a ele (e será apesar de tudo pena que possam ser cada vez mais.
Enfim, o Público hoje tem uma página a menos: a última. É preferível ler as cartas do Tarot; os fiéis leitores de domingo mereciam um preço mais barato...
Enviar um comentário