31.12.13

De um para outro ano


 


«Os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, não se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas já não acontecem onde aconteciam (...). Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra (...). Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me (....). Aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta anos, distraí-me, por umas horas ou por uns meses. E depois? Quando olhei para mim, estava parecido com eles, com os meus queridos inimigos. Com importância e afabilidade, interesses e respeito. Com um lugar na vida e a ciência de que há lugares na vida. Em veloz movimento e absolutamente inerte (...). As portas que não se abriram ou se fecharam, as vidas que não se viveram, custam cada vez mais a carregar. A privação do que não se quis aumenta, mesmo quando sem a sombra de uma dúvida se tornaria a não querer (...). Fora do corpo, não existe progresso e decadência. Existe apenas adição. Existem parcelas que se juntam: pessoas e palavras, o melhor e o pior e o inominável.»


 


Vasco Pulido Valente

3 comentários:

Isabel Vicente disse...

Um bom ano para ti.

Hannah Arendt disse...

Eu chamei a essa aproximação das pessoas, forçada porque resultante da supressão da esfera pública e do espaço de diálogo entre diferentes, "cinta de ferro" (iron bond), e esse é provavelmente o rosto do eternamente novo totalitarismo: o Homem Único (de gigantescas proporções), indecifrável na sua arbitrariadade, esmagador, guiado pelas leis do movimento (continuamente acelerado) da Natureza e das História. O mal banalizou-se e (quase) todos somos já como Eichman: incapazes de Pensar. Por mim continuarei enquanto viver do lado "errado" da História, incluindo a Natural.

P disse...

Coitadinhos dos Pelicanos