
Passa hoje o octogésimo nono aniversário de Mário Soares e trinta e três anos sobre a reeleição de Ramalho Eanes para a Presidência da República. Se recordo estes eventos é porque, depois de ter lido os jornais do dia, estes homens, cada um à sua maneira e entre luzes e sombras, representam um país que pura e simplesmente está em vias de desaparecer. Para que isso não aconteça é preciso sobrepor a austeridade da liberdade - e a coragem física e cívica - aos não-valores que dominam a nossa precária democracia. Nenhuma nação sobrevive apenas pelo dinheiro ou pela subserviência instintual por causa do dinheiro. Precisa de símbolos e de memória. Depois de Soares e de Eanes qualquer coisa passou a ser verosímil entre nós. Sem eles, nada teria sido sequer possível.
Foto: Lusa
8 comentários:
De homens providências ou insubstituíveis está o mundo farto e os cemitérios cheios deles.
Ontem (contaram-me) um choroso ouvinte perguntava numa televisão perto de nós "O que será do Mundo agora sem Mandela".
Pois eu digo, vai continuar a girar sem ele, sem estes dois, sem mim sem si e ninguém vai dar pelas nossas faltas.
E Portugal só para desmentir Medina Carreira também vai continuar a existir.
Se me permite: há qualquer coisa errada neste panegírico que aqui publica ao juntar estes dois homens. É que não vejo como é que a boutade possa ser aceite como estratégia ou sequer o facciosismo como inteligência. Se vergonhas presentes não apagam glórias passadas, está por demonstrar, digo-o sinceramente, a magnitude dessas glórias. Como se isso não bastasse, cada um corporiza os antípodas do outro em termos públicos e políticos, com óbvia vantagem, na minha óptica, para Eanes.
O seu "vizinho", que eu tinha por um tipo normal, é que se tem revelado um "homem providencial". Consta que até na cozinha. Cpts.
EANES E SOARES
Concordo com João Gonçalves. Eanes e Soares são as duas maiores figuras do Portugal democrático. Cada qual com o seu estilo, cada qual pelo seu caminho. Ambos perseguindo sem tréguas os mesmos valores: a liberdade de todos e a dignidade de cada um. Ambos lutaram até onde puderam, com ilimitada persistência e generosidade, por esses dois valores supremos. Cada qual com o seu estilo, cada qual pelo seu caminho. Como cidadão e como português a ambos agradeço. Em partes iguais.
Muito obrigado.
A vizinhança ainda que não me dê nem honra nem benesse (nem era caso para isso) não me incomoda.
Não sei se é "providencial" mas que apanhou um comboio desgovernado a caminho de um precipício parece-me evidente. Aparentemente conseguiu ir travando devagarinho o descarrilamento.
Podia ter travado mais, por exemplo eliminando todos os subsídios às fundações e dando a RTP.
Mas se apenas por cortar 10% a um dos da foto têm sido crucificado todos os dias, imagine-se se ele tinha mesmo avançado com este obtusa ideia.
Melhores cumprimentos.
Só consigo ver um grande e respeitável. Eanes. O resto é Vaidade, Avidez e Eminência Parda dos Impasses reformistas do Regime.
"vai continuar a girar sem ele, sem estes dois, sem mim sem si e ninguém vai dar pelas nossas faltas"
Caramba, essa é profunda, Fado Alexandrino. Mas que você se ache irrelevante, sem nenhuma marca de passagem pelo mundo, é consigo. Mas não se coloque no mesmo saco do Mandela, que era humilde mas não era burro, e sabia bem que fez algo pelo menos pelo seu povo. Nem do Soares, nem do Eanes, já agora, pense você o que pensar deles (que é irrelevante ;))
Muito obrigado.
Por norma não mantenho diálogo em casa alheia que tomo por simpático aluguer e por isso não lhe vou responder, apenas que tomei muito boa nota da sua elegante intervenção.
Enviar um comentário