
«Vemos a cada dia que passa que os portugueses não sabem nada, ou praticamente nada, sobre o seu país. A ignorância histórica atinge as raias da obscenidade. Quando muito refastelamo-nos nuns ecos idiotas do tempo dos Descobrimentos, mal sabendo do que estamos a falar. Da Geografia, seja física, seja humana, ainda menos. Não conhecemos bem o território que habitamos, nem a relação da nossa vida com ele. Temos uma frequência sumariamente turística e petisqueira com alguns lugares mais promovidos. Da cultura portuguesa e no que toca às artes, fora este ou aquele monumento mais visitados ao domingo durante a volta dos tristes, somos de uma fúnebre obtusidade. Da língua, estamos falados. Não me refiro apenas ao desconhecimento da sua história. Sucessivas gerações ligadas ao ensino têm dado cabo dela e contribuído para o seu abastardamento. Práticas diárias na comunicação social coadjuvam essa torpeza. É estropiada por toda a gente em todas as áreas do quotidiano e do saber. Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente. Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias.»
Adenda: Por falar em "artes", faz hoje anos Manoel de Oliveira. Os brutos acham-no "parado", uma vulgaridade sem tom nem som. O ironista Manoel, no dia do seu aniversário, como se deve rir deles e da gente improvável que "toma conta" da cultura oficial, e oficiosa, inexistente. Parabéns.
3 comentários:
Há anos fui com a mulher ver um filme do Oliveira.Ainda havia cinemas.Mais ninguém na sala.O volume sonoro era de apocalipse.Junte-se o crítico herman,todos a colaborar...
Pois, penso que não é um problema exclusivo de Portugal e tem muito a ver com os tempos que correm, onde o que foi feito de bom no passado está ultrapassado e alguma mediania do presente é publicitada como obra-prima.
Nos últimos tempos fiz uma viagem por clássicos de literatura do século XIX e XX... e que grandeza não aproveitada hoje em dia!
Uma dor de alma o que se passa no panorama da nova literatura. Os Hugos Mães desta geração acham-se o máximo, coitados, e o pior, ainda, é que uma parte da comunicação social, em especial de esquerda, leva-os a sérios.
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