
Também adormeci.
«Somos poucos mas vale a pena construir cidades e morrer de pé.» Ruy Cinatti joaogoncalv@gmail.com


«Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem com dor de dentes que houvesse recebido uma fortuna — a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) à alegria e à dor. Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!»


Estreou ontem o programa da foto. Não é um puro momento de papagaios nem de exibições regimentais. Um matemático, um economista e um jurista com formação económica não prometem tagarelice de efeito fácil destinado a "liderar audiências" e em torno do derradeiro arroto do dia. Não são conversas íntimas entre íntimos que se fingem adversariais para garantir o espectáculo. Um plano inclinado não é a mesma coisa que uma quadratura do círculo, uma espécie de prolongamento de reuniões parlamentares entre gente que fala numa linguagem, afinal, única. De outros mais vale guardar silêncio e eles calarem-se. Gosto de alguém que firmemente atire para o caixote do lixo das redacções anos e anos de redacção única. Medina Carreira, por exemplo, dirá sempre a mesma coisa como referem imbecilmente os seus inimigos analfabetos. Mas dizer sempre a mesma coisa quando a coisa é para ser dita e entendida é mérito e não defeito. Cioran dizia que se devia ler um livro para aí umas seis vezes para o "perceber". Daqui a uns dias, quando não se puder andar na rua por causa das horríveis compras de natal, a irresponsabilidade colectiva atingirá o cume. É daí, aliás, que brota aquela tolice - bem reveladora do plano inclinado em que vivemos - que consiste em afirmar-se ser o natal quando um homem quiser. O homem quer, o natal acontece, a sucata cresce, o plano persiste inclinado. Força.



