1.6.14

Os barulhos propriamente ditos


 


«O que estas parlapatices da hipocrisia, do oportunismo e da má-fé podem interessar ao cidadão comum é coisa que não interessa aos “notáveis” que a televisão convida ou escrevem doutoralmente para um jornal qualquer. Nunca a “classe partidária” mostrou com maior clareza a sua vacuidade e o seu egoísmo. Trata sempre a situação do país como se tratasse do futuro de uma fábrica de sapatos: será que a baixa das vendas é irreversível ou temporária? Será que a concorrência vai aproveitar a oportunidade? Será que os lucros não são suficientes para investir e alargar o mercado? Não seria bom “lançar” um novo modelo, para aproveitar a moda? E não seria bom mudar de director?».


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


«Foram os próprios socialistas que depressa transformaram a "grande vitória" do PS num desastre. Ao longo dos dias seguintes, vultos maiores e menores do partido decidiram aliviar-se de reparos ao resultado das eleições, afinal uma miséria que não deveria passar sem reparo, leia-se a troca do Dr. Seguro pelo Dr. Costa. Em suma, o Dr. Costa, o Dr. Soares, o Dr. Lacão, o Dr. Ferro e luminárias afins, excitadíssimos a exigir sangue e um congresso extraordinário, é que estão ao serviço do Governo. Os indignados que falem com eles (...). Agora a sério, se possível: o PS acharia que a participação de José Sócrates na campanha beneficiaria o partido? O PS acharia que José Sócrates é uma lembrança feliz para a maioria dos cidadãos? O PS acharia que as pessoas são assim amnésicas ou, desculpem lá o termo, estúpidas? (...) Pela terceira ou quarta vez numa luminosa carreira, António Costa mostrou-se disponível para se disponibilizar para a liderança do PS e depor "Tozé" Seguro. O Dr. Costa é um mistério. Excepto por uma facção do seu partido e outra facção dos media (quando são distinguíveis entre si), que vêem nele o evidente destino da nação, não se consegue detectar-lhe uma única virtude pública. Sem grande originalidade, o homem é a típica figura do "aparelho", que sem a sombra de uma ideia saltita de cargo em cargo ao sabor das oportunidades e pelo caminho alimenta uma ambição que, a páginas tantas, chega a parecer-lhe fundamentada. Está no seu direito? Com certeza. Se há tendência a marcar o regime, é a capacidade de transformarmos irrelevâncias em potenciais estadistas. Como se tem notado, o regime não é tão eficaz na transformação de irrelevâncias em estadistas de facto.»


 


Alberto Gonçalves, DN

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