17.7.14

A Europa das normas


 


«O efeito da mercantilização da vida é, assim, o de mudar radicalmente a perspectiva que se tem sobre tudo, quer se trate da liberdade, da maternidade, da educação, da democracia, etc. Voltando ao GES, e ao BES, é talvez tempo de se perceber que o aumento desmesurado do poder da banca privada, e da sua perigosidade, na União Europeia, está estreitamente ligado à norma - que é urgente que seja alterada, ela não existe nos outros bancos centrais - que impede o Banco Central Europeu de emprestar dinheiro aos Estados e de impor, para o fazer, a via indirecta da banca privada, permitindo-lhe fazer lucros extravagantes em vez de estimular a economia real. É o que acaba de acontecer mais uma vez com a decisão de o BCE emprestar à banca europeia até Dezembro 400 mil milhões de euros, à taxa de 0,1%. Como comentou Jacques Attali, embora o BCE diga que o que pretende é orientar os bancos para o financiamento das empresas, o que na verdade faz é institucionalizar o financiamento monetário da dívida pública, com benefícios enormes para o sector financeiro e em detrimento do contribuinte, que paga, e bem, por aquilo que podia ter gratuitamente. Como se, depois de tudo o que se tem passado nos últimos anos, os poderes públicos devessem ser considerados mais incapazes de visar e promover o bem comum e o interesse da generalidade dos cidadãos do que os poderes privados. A Europa das normas obscuras tem de dar lugar à Europa das opções claras. Porque esta Europa das normas tornou-se nas últimas décadas o mundo do "não há alternativas", do que tem de ser sem se saber porquê, da necessidade sem justificação nem debate, da decisão sem legitimidade, da autoridade que não se sabe bem de onde vem mas apenas que é imperativo obedecer-lhe, dando à intimidação um papel central no discurso político. A Europa das normas só conhece as regras do cinismo, ela é em boa parte a sua consagração burocrática, o que significa naturalmente, a prazo, a completa desvitalização, ou mesmo o colapso, da própria democracia.»


 


Manuel Maria Carrilho, DN


 


Foto: AFP

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