26.12.10

UM PAÍS CHEIO DE PROSPERIDADES


«O Natal acabou, o que este ano não deixa de ser um alívio. Os lisboetas, pelo menos, não pareceram dar pela crise. A julgar pelo trânsito e pelas multidões que enchiam o Colombo e congéneres, continuamos manifestamente a pensar que Portugal é um país próspero, "europeu", "modernizado" e rico e nada nos tira isso da cabeça. Claro que andam pela televisão e pelo jornais meia dúzia de indivíduos (má gente) a resmungar contra a pobreza, o défice e a dívida. E que o Presidente da República resolveu declarar - não se percebe porquê - a nossa bela situação "insustentável". Mas sem grande efeito. A classe média, carregada de embrulhos ou à espera do próximo avião para mais verdes pastagens, não se comoveu. O que será, será - e, por enquanto, o que é, é suportável. Há de resto nisto tudo um lado prazenteiro. Cavaco e o Governo fizeram uma reuniãozinha, muito bem postos, para se dar mutuamente boas-festas. E o admirável Sócrates veio mesmo num carro a electricidade, certamente com o propósito de exibir o espantoso progresso de Portugal. Também os srs. ministros esqueceram o aperto financeiro e as várias desgraças de outra espécie de que por aí se fala, para sossegar a populaça com um sorrisinho de beatitude. Cavaco e Sócrates, como lhes compete, juraram lealdade, fidelidade, responsabilidade e amor, enquanto presumivelmente afiavam as facas com doçura. A hipocrisia é de graça e consta que promove a confiança dos mercados. Só faltou ao quadro Teixeira dos Santos, que anda por aí à procura de um tostão perdido. E as celebrações não ficaram por aqui. Um jornal benévolo revelou o que tencionam comer (ou já comeram) os cinco (ou talvez nove) patriotas que temerariamente se candidatam a Belém: bacalhau cozido, peru recheado, cabrito, capão, bolo-rei e arroz-doce. Infelizmente, Cavaco não nos confessou como se esperava consolar. Mas, de qualquer maneira, não se pode dizer que esta importante parte da nação se alimenta mal. Nem que ande muito angustiada com o seu futuro. O Presidente conta continuar Presidente e o primeiro-ministro primeiro-ministro. E os que, entretanto, escorregarem na indiferença do país têm sempre o gozo do tal quarto de hora de celebridade, que amacia o ego e adoça a insignificância por um tempo. Os portugueses sabem sempre aproveitar.»

Vasco Pulido Valente, Público

8 comentários:

Anónimo disse...

Ganda capa! A fotografia da capa é só por ela um objecto de estudo antropologico-cutural. Lembro-me do jornal M.E.R.D.A., qq coisa como Movimento Esquerda Revolucionária dos Democratas Anarquistas. (Mesmo anarquistas eramos de esquerda), onde grandes frases como a reproduzida eram titulos de qq esquina.

Anónimo disse...

O VPV, às vezes, tem coisas de parvo. Grande parte da classe média vive do estado e passa bem sem aquela migalha que vai dar para a crise. De resto, tudo está na mesma e os problemas são lá mais abaixo. O futuro? Esta gente é a mesma que elegeu Sócrates e achava Manuela Ferreira Leite ultrapassada e pouco sofisticada.

Garganta Funda... disse...

"«Para serem mais honestos do que eu tem que nascer duas vezes» disse Cavaco num dos debates televisivos da campamha presidencial.
O homem considera-se sempre melhor do que os outros. Tem uma falta de humildade que ate assusta."

In Arrr..goladas.blogspot.com

Socrates e Cavaco: as duas personagens mais representativas daquilo que se convencionou chamar «Portugal dos pequeninos».

Anónimo disse...

Vasco Pulido Valente não percebeu que este ano é o mais rico de sempre em Portugal. Só os Estado pediu emprestado mais de 15 mil milhões de Euros.
E depois os embrulhos são baratos.
Pois não são produzidos no Estado Caro:
Da Justiça Cara
Da Escola Cara
Da Saúde Cara.
Da Energia Cara.

lucklucky

Núncio disse...

Comparar Sócrates com Cavaco é do risível. A vida pessoal e profissional de cada um fala por si.

Estamos no Natal, não no Carnaval.

Anónimo disse...

Comparemos então: Socrates vive numa casa de luxo com contas ainda por esclarecer.Cavaco vive num apartamento com marquise.
Socrates veste armani: Cavaco veste casaco aos quadrados, camisa ás riscas e gravata de bonecos.
Socrates foi capaz de tudo para ser governante. Cavaco passou pela figueira da foz.Podem continuar...

Cáustico disse...

Julgo que já é tempo de os portugueses começarem a pensar na vida a sério. O tempo presente é mau e o que se avizinha será péssimo. Deixemo-nos de larachas e passemos à acção. Cavaco não faz o que entendemos deve ser feito? Temos eleições em Janeiro. Mas Sócrates, corram de imediato com semelhante besta política e com toda a súcia dos seus boys.

Anónimo disse...

Nunca mais descobrem petróleo em Peniche ? Mas que merda é esta, hein ?!