28.8.14

Nós e um amor de Proust


 


Ontem, no canal ARTE, passou um documentário sobre Marcel Proust e o La Recherche. Ou melhor, um documentário feito a partir de depoimentos de leitores de Proust. Para aquelas pessoas, Proust é uma presença permanente desde cedo nas suas vidas. Falavam dele, dos lugares e dos nomes na obra como se estivessem em família. Comparavam as suas experiências, a saber amorosas, com a arte de Proust e com Proust sempre a ganhar à vida como indicava Oscar Wilde. Como a circunstância de um primeiro beijo representar o primeiro passo da despedida em vez de, como frivolamente se entende, dar início a algo verdadeiramente jubilatório. As deambulações proustianas, nas vozes daqueles leitores privilegiados, carregam, na sua ironia desencantada, uma "verdade" que está para além de mera "literatura". Proust não concebeu a sua opus magnum para nos "aliviar" do quotidiano mediante longas descrições de puros movimentos, de situações imprevistas, de evocações de espaços e das deslocações físicas e anímicas das personagens neles, entre eles e entre elas. É um longo labor de aprendizagem, dele e nosso, como Deleuze explicou magnificamente. Não imagino documentário semelhante entre nós. A "identidade nacional" não passa pela presença forte de um escritor nela. Alguns, como Camões, Eça, Pessoa ou, com este regime, o Saramago, têm servido para propósitos alheios aos destes leitores do documentário francês: patrioteirismos saloios, análises "sociológicas" de 2ª classe, promoções comerciais ou regimentais, epigonismos de merda. Se arriscassem, por exemplo, coisa parecida com Pessoa ou Eça, fora dos circuitos dos seus crónicos masturbadores, o que é que deveríamos esperar? "Está à venda no Continente como o sr. Rodrigues dos Santos?", uma pergunta bem plausível. Não. Nos rostos e nas falas daqueles cidadãos franceses, mais novos ou mais velhos, homens ou mulheres, literatos ou menos literatos, estava inscrita uma coisa demasiado simples e demasiado complexa para este nosso aqui e agora que, no fundo, é um triste desde sempre: "um amor" de Proust, ou seja, "um" amor pela "palavra essencial" e pela vida tal qual ela foi, é ou vai um dia deixar simplesmente de ser.

2 comentários:

Costa disse...

Por cá, a literatura reduzida a resumos e "fichas" e ainda, parece, parcialmente afastada por textos de revistas e jornais, supõe-se que para não cansar excessivamente as cabecinhas dos frágeis adolescentes (e facilitar o sucesso estatístico do ensino; o único que verdadeiramente interessa a quem pensa e nos pastoreia a quatro anos - se tanto - de distância), bastamo-nos, emocionamo-nos, idolatramos, tomamos como exemplo máximo e máximo embaixador desta terrinha, certo Ronaldo. E com ele certa D. Dolores e o seu séquito familiar de formas abundantes, roupagem excêntrica, declarações hilariantes (de um riso sem ilusões, entenda-se).


É o que temos; o que nos é estremecidamente servido à náusea. O que interessa. E está muito bem assim e não podia ser de outra maneira.


Costa  

Isabel de Deus disse...

Por cá, há décadas que o digo, o genocídio cultural dos nossos jovens. Com resultados cada vez mais evidentes.