Quando ouvi num noticiário da rádio o modo da morte do actor Robin Williams, lembrei-me imediatamente de outro Williams, Tennessee, que saiu daqui da mesma maneira. Robin era talvez mais conhecido pelos seus papéis ditos cómicos, como A Gaiola das Loucas ou Mrs. Doubtfire. Mas nas interpretações ditas dramáticas, Williams foi extraordinário - no solitário empregado de uma loja de fotografias que "vivia" por interpostas imagens de famílias que exalavam a felicidade que ele apenas podia recriar na sua imaginação depois da revelados os rolos, no improvável assassino numa remota cidadezinha no Canadá onde o sol nunca se punha ou no professor do premonitório "clube dos poetas mortos". Pessoas como Robin ou Tennessee pertenciam àquela noite do mundo da qual nunca conseguiram sair nem sequer pelo efeito histriónico da representação. É-lhes insuportável encarar até ao fim o espectáculo patético da vida mesmo que, em momentos fulgurantes, tenham conseguido fazer do espectáculo uma vida. Parece que aquele sorrriso escondia, afinal, uma dor profunda e uma impossibilidade vital. Diz-se que há duas coisas que o homem não consegue encarar de frente: o sol e a morte. É falso. Há seres maravilhosos, como Robin ou Tennessee, "o pássaro glorioso" de Gore Vidal, que tiveram a coragem de os enfrentar. Porque um não vai sem a outra. Não adianta explicar.
2 comentários:
Belíssimo texto, este. Talvez o melhor que hoje li sobre a morte de Robin Williams.
Um Homem que fica para a história do cinema como sendo um dos grandes.
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