Estava a folhear o primeiro livro de Eduardo Prado Coelho, O Reino Flutuante, quando, pela badana, reparei que teria completado setenta anos em Março último se fosse vivo. Posso não ter dado por isso mas não vi em lado algum - e, se calhar, não tinha de ver - qualquer "lembrança" dele. O que não deixa de fazer algum sentido na falta de sentido que tudo tende a levar. Anos a fio, nos jornais, nas revistas ou nas televisões, Eduardo aparecia com a frequência adequada ao seu "estatuto", praticamente isolado, do académico que preferiu prestar mais atenção ao mundo do que à academia. Naquela estonteante prolixidade, naquele entusiasmo ora álacre ora exausto, muitas vezes brilhava a "pequenina luz bruxuleante" do verso de Sena e que distingue as coisas. Nem sempre Eduardo era "justo", se o termo se pode aplicar, nessas distinções. Ou, então, errava deliberadamente nelas porque era "preciso" distinguir aquele ou aquela naquele momento, ou não distinguir aquele ou aquela a seguir. Perdia-se aqui ou ali no labirinto da facilidade do "ter de estar sempre actualizado", na prisão superficial de um quotidiano geralmente medíocre em relação ao qual ele persistia narrar um qualquer esplendor. Mas, repito, mesmo que escondida, a "pequenina luz" teimava em brilhar. Se me lembro dele é sobretudo porque muito poucos já se lembram dele. Não é possível, salvo em dois ou três casos, reter-se um nome ou sequer uma frase da multidão debitatória presente nos media actuais. Pouca "luz" tem ocasião para brilhar nesta torrente demencial de palradores e de escrevinhadores de "redacção única". Eduardo por fim escrevia todos os dias (como com certeza lia), é certo, mas separava. Esta gente não separa - que é a origem do termo "criticar" - porque não tem nada para separar ou que os separe. Ninguém falará de nós quando morrermos.
Foto: Luísa Ferreira
4 comentários:
Permito-me discordar.
Só morremos quando ninguém de nós se lembrar.
Não é o caso do EPC como aqui se demonstra.
Quando morrerem muitos dos de agora, certamente alguém ainda se lembrará de um ou outro livro, de uma ou outra frase de EPC.
E assim ele voltará a "viver".
Quem sabe até a nós. mais a si do que a mim, estará reservada sorte semelhante.
Nos tempos de leitura diária do Público o artigo de Eduardo Prado Coelho fazia parte da minha rotina diária, e era um gosto.
pois não
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