
Passei grande parte do feriado religioso a rever os sete episódios de A Toupeira - no original de Le Carré, Tinker, Tailor, Soldier, Spy - protagonizados por Alec Guiness no papel de George Smiley. Na véspera, consolora-me no cinema (o termo é inadequado para as "histórias" de Carré porque não existe consolo algum nas suas personagens principais) com Um homem muito procurado, um dos derradeiros trabalhos de Seymour Hoffman. Smiley é um homem sem ilusões quanto à vida privada e profissional. A mulher trai-o, os colegas também. Numa conversa com um "fiel" que escolhe para o ajudar a descobrir a "toupeira", Smiley admira-se por aquele ainda não ter sido "corrido" como ele fora. "Você é uma boa pessoa, leal e discreto. Como é que não o demitiram?". Gunther/Hoffman trabalha praticamente na clandestinidade, com meia dúzia de confiáveis, para, conforme lhe tinha explicado uma hipócrita burocrata da CIA que o trairía uma segunda vez, prosaicamente "tornar o mundo um lugar melhor'. Estes grandes solitários, Smiley e Gunther, guiam-se por uma "moral" incompreendida que nem as vidas íntimas ou, muito menos, as de trabalho em geral consentem. Suportam a traição com um estoicismo simultaneamente desencantado e profissional. Smiley será bem sucedido, Gunther não. São homens de mundos abolidos. Ainda há alguns, poucos, por aí sempre dispostos a tentar e a fracassar. E a tentar de novo e a fracassar melhor. São homens, nas palavras de Le Carré sobre Gunther/Hoffman, que circulam «à volta da Lua sete vezes por cada vez que nós o fazemos», que se perguntam, sem nunca conseguirem encontrar resposta, «em que ponto exactamente é que eu perco todo o sentido de moderação? Por que é que insisto em continuar com tudo isto quando bem lá no fundo sei que apenas pode acabar em tragédia?»
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