
Estive a ler a entrevista do presidente da RTP a Nuno Azinheira, publicada no suplemento televisivo do JN e do DN. Enquanto adjunto do então ministro da tutela, assisti à "ascensão" de Alberto da Ponte ao lugar de Guilherme Costa em Setembro de 2012. Depois de uma reunião sui generis em 28 de Novembro desse ano, na presença do ministro e com o Conselho de Administração da RTP, decidi solicitar ao primeiro que deixasse de acompanhar o "dossiê RTP" o que foi prontamente aceite. Nesse período, com a ajuda dos consultores jurídicos e financeiros contratados pela RTP, procurou-se uma solução que passasse por um novo modelo de gestão da casa. Guilherme Costa tinha pedido a demissão por fundamentalmente discordar da "ideia" da concessão da exploração a privados de activos da RTP. Nunca se opusera a que, por exemplo, fosse privatizado um deles e a administração chegou a trabalhar nesse cenário. Pelo contrário, Alberto da Ponte declarou-se, no mesmo período, amplamente favorável ao cenário da concessão que era o mais bem "visto" pelo gabinete do PM. Foi então que, em finais de Outubro, perante o aparente "avanço" desse cenário, o dr. Portas decidiu "intervir" directamente no "dossiê" RTP e "parar" quaisquer alterações ao modelo de gestão. Apesar de só se ter demitido a 4 de Abril de 2013, Miguel Relvas na prática "perdeu" a tutela da televisão pública nessa reunião em São Bento nos idos de Outubro de 2012. Pouco depois dá-se o "episódio Nuno Santos". Começou com o pedido de demissão do então director de informação a que se seguiu um "inquérito" interno, algumas intervenções públicas mais exaltadas de ambas as partes e um processo disciplinar com vista a despedimento com "base" em delito de opinião. O "acordo" a que a RTP e Nuno Santos chegaram no âmbito do processo judicial movido pelo segundo contra a empresa por causa do dito despedimento, impediu que, para já, se possa contar a "história" completa dessas horas, dias e meses. O mais que Alberto da Ponte refere na entrevista é que «há um tempo para falar e um tempo para o silêncio» e que «este é o tempo do silêncio», embora «a decisão tomada em Março [fosse] a decisão certa», ou seja, o despedimento sem justa causa do jornalista. Mas o acordo, continua, é a decisão certa agora. Já que ficámos (plural majestático, evidentemente) sem conhecer a "história", defendo que pelo menos se possa oportunamente conhecer os termos da transacção, quer em valores "materiais", quer "imateriais", dado que a RTP não mudou de natureza jurídico-financeira e integra o perímetro do orçamento do Estado mesmo sem indemnização compensatória. O "tom" geral da entrevista é o do primado da primeira pessoa - o do presidente da RTP mesmo face à actual tutela - de desconfiança pelas propostas desta quanto ao modelo de gestão "administrativa" dita independente que um "conselho geral" assegurará, de total desfasamento em matéria de conteúdos de serviço público (alguém sabe o que é a "portugalidade global" fora a gloriosamente representada pela fatídica bola?), de desconfiança publicamente explicitada em relação ao exercício do controlo interno que, aliás, compete em primeira linha à administração como um qualquer gestor sabe de antemão e, por consequência, um monumental silêncio sobre uma função nuclear chamada direcção geral de conteúdos. Não desesperemos. Talvez o prof. Maduro e nós devamos esperar ainda alguma coisa do homem que passou «com distinção no famoso teste da CReSAP [Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública]. E que "ficou muito contente com isso".
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