8.5.13

Ninguém sabe dizer nada




«Ninguém sabe dizer nada do triste Acordo Ortográfico, a não ser que uma comissão parlamentar de acompanhamento, adrede constituída, vai recolhendo informações e ainda não se terá considerado em condições de concluir seja o que for em matéria que, afinal, é tão simples...A novidade mais importante parece ser a de que, no âmbito do trabalho dessa comissão e fora dele, se verifica uma certa mobilização de professores impacientes e desesperados, que vêm dizer de sua justiça e da sua amarga experiência. E também nos jornais, em vários registos e com vários argumentos, a luta continua. Mas continua a não acontecer nada de especial e ninguém sabe dizer nada.A grande questão é a de saber se não seria já tempo de fazer avançar as coisas. Vejamos. A diplomacia portuguesa tem falhado sistematicamente as suas tentativas de acelerar a ratificação de uma coisa que ela mesma não sabe muito bem explicar aos seus interlocutores aquilo que seja ou em que consiste. Ou então, se tem feito tais tentativas, é incapaz de ler os sinais, todos eles absolutamente inequívocos, que vão sendo dados sobretudo a partir do Brasil e de Angola, ficando inabilitada para transmitir uma análise proficiente da situação ao Governo português. Em qualquer caso, e essa análise permitiria uma sinopse tão rápida quanto expeditiva, é assim: a coisa não vai por diante.É de notar que a situação se arrasta penosamente desde há não sei quantos anos, tendo variado numa escala que vai percorrendo todos os graus imagináveis, do triunfalismo irresponsável ao mutismo embaraçado. Da CPLP aos diplomatas portugueses (dos outros não faço ideia, a não ser que mantêm de Conrado o habitual prudente silêncio), encontrem-se eles a funcionar com base na multilateralidade ou na bilateralidade, ninguém sabe dizer nada. Ninguém é, sequer, capaz de escutar exactamente aqueles profissionais da utilização quotidiana da língua (escritores, professores, jornalistas, etc.) de quem, todos os dias, lemos em nota de rodapé aos artigos que escrevem, que não aceitam a aplicação das normas do dito acordo. Quanto a tais posições, em que a minha própria se inclui, ninguém sabe dizer nada...E todavia esses respeitáveis funcionários do MNE entram a estralejar em alvoroço esfuziante se há dia em que podem recortar, mandar para a cifra e transmitir a Lisboa duas linhas, ou meio parágrafo, ou qualquer coisa porventura insinuada obliquamente entre parêntesis, num texto mais ou menos anódino sobre o país a cujo serviço estão...A questão fica assim metida numa espécie de camisa de onze varas ou de anestesia paralisante no que toca às decisões urgentes de suspensão e revisão do Acordo que deveriam ter sido tomadas há muito tempo e não o foram, o que acarreta consequências trágicas que se avolumam à medida que os meses vão passando.»




Vasco Graça Moura, DN

1 comentário:

Perplexo disse...

Mas então não há nada a fazer? O Vasco, que tem contactos, peso político, influência cultural, não consegue por de pé um movimento que acabe com este disparate?
(Agora até dava jeito aos tubarões editores de livros didáticos, que teriam que fazer uma nova leva pós-acordo...)
A língua tem de evoluir por si, da rua para os media, dos media para os livros (a maior parte é assim, embora às vezes os escritores neologizem um bocadinho, e muito bem). A língua não pode evoluir por acordo das academias, pela vontade de académicos que ficam nas suas torres de marfim a pensar como é que hão-de ficar na História.