Fui dar com um exemplar da revista Ler, de Julho de 2009, com uma entrevista a Vasco Pulido Valente. Estes nossos anos - e outros tantos, de outros tempos e séculos, por causa da história - jamais serão devidamente entendidos sem se ler VPV. E mais dois ou três da geração que o antecedeu e na qual se "formou" como Magalhães Godinho, Borges de Macedo ou, noutro plano, Orlando Ribeiro e Sedas Nunes. Lá diz que já não tem paciência para "remastigar Portugal" porque «a dimensão histórica das pessoas perdeu-se.» Perdeu-se e não são os "cristãos-novos" ao serviço da "esquerda moderna" ou do "liberalismo", neo ou em portuguesíssimo saloio, que a irão recuperar. Vale entretanto a pena ler na íntegra a crónica de hoje, domingo, no Público, a propósito desta perda da dimensão histórica das pessoas e ao que isso, mais do que o inferno em excel e uma fatal inclinação para a superficialidade, nos pode conduzir. «Nasci numa família comunista e cheguei a adulto durante a guerra das colónias, o que naturalmente não me inclinou para o nacionalismo ou sequer para qualquer espécie de patriotismo ardente. Mas de qualquer maneira, quando o sr. Schäuble fala de Portugal como falaria de um protectorado longínquo e recalcitrante, não consigo escapar a um estado de fúria e de frustração que julguei que nunca conscientemente teria. A Alemanha e a troika, muito para lá da “austeridade”, estão a inspirar (talvez sem perceber) sentimentos de um radicalismo que tarde ou cedo mudarão um país, na aparência calmo e resignado a um destino de miséria. A humilhação que se acumula já fez desaparecer a mais leve ideia de responsabilidade pela catástrofe em que nos metemos (ou em que nos meteram). Ficou só o ódio. E nem sequer um ódio cerimonioso e disfarçado. A vida pública começa a tomar um “tom” muito semelhante às piores fases do PREC. Comentadores da televisão, que eram pessoas em geral pacatas, passaram de repente a oradores de comício, que propõem, ou aceitam, mesmo o indizível para se verem livres do governo e da intervenção estrangeira. Nos debates, cada partido (ou representante de um partido) estoira de indignação perante as “verdades”, frequentemente razoáveis, da outra parte. Os jornais não hesitam em distorcer ou inventar os factos e acabaram num coro de queixas quase completamente inútil. As sessões da Assembleia da República parecem as sessões da última câmara monárquica na sua agonia. Não se sabe quem manda no governo ou se o governo realmente manda. E o dr. Cavaco arranjou para si um “exílio interior”, que o protege das baixas realidades do mundo. O ministro das Finanças altera impostos, taxas, contribuições (parece que até hoje 65 vezes), para se conformar aos “conselhos” da troika, que são os da Alemanha. O próprio Ricardo Salgado (do Banco Espírito Santo) declara com impecável clareza: “Não há nada absolutamente garantido”; e de facto não há — nem o presente nem o futuro —, a não ser que Portugal caiu e, a seguir, foi empurrado para um buraco sem fundo. E, como sempre, o desespero inspira e multiplica a mentira: a mentira sistemática ou a mentira ocasional. Toda a gente mente, com raiva e com maldade ou pura e simplesmente por inconsciência. Portugal entrou numa nova era de pobreza, de conflito e de isolamento: e essa era promete durar.»
Adenda: Mais ou menos na mesma altura, VPV também foi entrevistado pelo Expresso ao qual disse que este "mundo" não tinha um interesse por aí além e que, por consequência, não estava particularmente empenhado em viver muitos mais anos. VPV falava, imagino, mais de questões do "espírito" do que de quaisquer outras. Todavia, tudo indica que aquilo a que costumo chamar de "vida material" deixará de poder ser acessível, com um módico de qualidade, aos chamados, e sobretudo, futuros pensionistas e reformados. Nem sei sequer se haverá com que lhes pagar apesar dos descontos "legais" precisamente instituídos para esse efeito os quais, afinal, "pagam" o presente dos actuais pensionistas, reformados e desempregados. Este país não será de certeza para velhos. Mais vale ficar pelo caminho.
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