17.5.13

E se melhor for impossível?


 


Não tenho muito a acrescentar ao que escrevi o ano passado sobre a possibilidade de adopção (ou de co-adopção) de crianças por casais do mesmo sexo. Em suma, os maiores partidos andaram bem em conceder liberdade de voto aos seus deputados e eu votaria favoravelmente o projecto da deputada Isabel Moreira ou outro qualquer que consagre a adopção plena nesse contexto parental. Defendo, sem hesitações, a adopção seja por quem for que prove ter condições para melhorar a vida de crianças que estariam bem pior sem essa possibilidade. Os conceitos de "pai" e de mãe" -e, até, de "família" - estão há muito destruídos nos arquivos dos tribunais que foram, anos e anos a fio, de família dita "tradicional". A maior parte dos autos testemunham, afinal, como os "princípios" são negociáveis e, por tabela, os filhos também ao lado das casinhas e dos automóveis. Isto onde há "família". Imagine-se onde nunca houve.


 


Nota: Os filhos da Jodie Foster, na foto, são biologicamente dela e da então companheira dela, Cydney Bernard, que os co-adoptou como seus.


 


Nota2: O projecto encabeçado pela deputada Isabel Moreira foi aprovado. Um módico de civilização.


 


Nota3: Vale a pena recordar umas palavrinhas de Richard Rorty por causa de eventuais acessos trogloditas: «Uso o termo "ironista" para designar o tipo de pessoa que encara frontalmente a contingência das suas próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais - alguém suficientemente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia de que essas crenças de desejos centrais estão relacionados com algo situado para além do tempo e do acaso. Os ironistas liberais são pessoas que incluem entre esses desejos infundáveis a sua esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar.» Este tipo de coisas tem a ver com isto, com a "esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar."

7 comentários:

PSC disse...

"Ás vezes m'espanto, outras m'avergonho" - Sá de Miranda (poeta - Séc.xvi)

fado alexandrino disse...

Eu sei que o senhor não vai deixar passar este apontamento, mas pergunto-me (sem espanto nenhum) que valores é que dois gays vão incutir no bebé que agora adorna a casa?

pepe disse...

Oportuna referência aos litígios na justiça e ao retrato de família que nos dão. E os jornais, abundantemente, oferecem outros retratos onde a violência e o abuso são a nota dominante.

A lei aprovada, ao contrário do que os seus opositores possam pensar, valoriza a família no que lhe é essencial (afectos, segurança, compromisso e projecto).

E o modo tranquilo, tão longe do histerismo do debate noutros países, como se processou a discussão e aprovação da lei talvez seja evidência, por parte das instituições e da sociedade em geral, do reconhecimento de que tudo o que se possa fazer para melhorar, nunca será demais.

RG disse...

Como escreve sabiamente uma amiga no seu Face:

"Nao percebo por que julga uma certa direita que os homossexuais podem zelar pelo futuro de um povo, mas nao pelo de uma criança."

Enfim.

Manuel Santos disse...

Orfãos de pai e mãe - e houve e há tantos milhares - foram e são criados por avós ou tios ou parentes - que os não adoptam, e que à partida nem detinham o poder paternal (mais certamente ainda no caso de uma morte conjunta e inesperada dos pais).
O instituto jurídico que serve para tais situações poderá servir para a situação que se apregoa querer proteger.
O resto é servir-se da homossexualidade - que Freud classificava como uma patologia grave ( mas terão havido descobertas, entretanto, que por obtusa ignorância desconheço), - para a agenda do politicamente correcto - que Vc parece bem saber o que é e o que encobre.
O texto de Rorty deve ser lembrado aos a. da lei.

M.S. disse...

A lei trata das ambições de alguns homossexuais e é claramente inconstitucional, desde logo porque não se norteia pelo supremo interesse da criança.
A excitação será que conste no registo de nasicmento o nome de duas pessoas do mesmo sexo, numa monotonia imposta à diversidade da natureza.
Quanto à discussão "sem histeria" o que aconteceu no Parlamento não é nada do que diz: é indiferença, deixa-andar, desleixo e anomia.
Aquém e além das costumadas obediências a diversas lojas e internacionais.

m s disse...

Um pais não é uma criança. As crianças, ao contrário dos países não se regem por ficções legislativas.
Não conheço nenhum homossexual que tenha zelado eficazmente pelo futuro do seu pais, enquanto seu chefe político. Se me quiser lembrar algum, terei muito gosto.