
«A referência à poesia passa por encarar a política como uma simplificação das coisas complexas, mas uma simplificação honesta», revela Poiares Maduro numa entrevista ao Expresso quando o confrontam com um dito seu no sentido de que "o bom político é uma mistura de cartógrafo, poeta e juiz". Está tudo errado nesta asserção do ministro adjunto, salvo o devido respeito. Apesar de a poesia ser geralmente entendida como um, entre muitos outros, uso possível das palavras, ela não emerge para "simplificar" nada. Pelo contrário, se for boa e não mero versejar infantil - em que, por exemplo, "ama" rima com "cama" no mínimo umas doze vezes no mesmo "poema" ou meros fenómenos da natureza "batem leve, levemente" nos limiares de um "pastoral" grotesco - é ela própria que "complica" e que nada "simplifica". O doutor Johnson, Wordsworth, Eliot, Empson, Bloom ou o nosso Pessoa fartaram-se, cada um à sua maneira, de explicar o "estranhamento" que decorre do contacto com os chamados poetas" fortes" e nunca perderam tempo com "simplificações". A política, sim, é, por aquilo em que se transformou e por causa dos seus protagonistas, simplificadora, mimética e shallow enquanto o poeta forte será complexo, ambíguo e uncanny - "desfamiliariza" tudo o que até ali era "familiar" através do uso, do alinhamento das palavras. Neste sentido, o poeta é sempre mais "honesto" na sua intrínseca desonestidade que o político porque "finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente". O político estará mais perto da ceifeira que "canta, canta sem razão" porque "canta, pobre ceifeira, /julgando-se feliz talvez". Mas isto é um mero verso e, como é sabido, a poesia não reenvia para lado algum. Muito menos para a política.
1 comentário:
Muito bem visto! E não esquecer que a ceifeira de Pessoa, a simbolizar algo, será a morte. Quem mandará todos estes sapateiros tocar rabecão? Por que não se calam?
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