«O que neste momento mais agrava as dificuldades dos países que enfrentam a crise das dívidas soberanas é a desigualdade de acesso ao dinheiro em condições razoáveis: internamente, a austeridade levou-lhes toda a riqueza sobejante; externamente, os mercados trucidam-nos precisamente por eles estarem em dificuldades. Os países envolvidos no nosso resgate financiam-se a 1% e emprestam-nos dinheiro a 3,2%: chamam a isso ajuda a um Estado-membro. Passos Coelho tinha razão quando dizia que pedir mais tempo para pagar o empréstimo significava pagar mais — mas, contra a sua própria razão e à vista dos factos, foi isso mesmo que fez e saudou a prorrogação dos prazos como um “sucesso”. Esta semana, tivemos outro “grande sucesso”: experimentámos a alternativa e fomos ao mercado pedir dinheiro a dez anos e conseguimos um juro de 5,6%. No mesmo dia, a Alemanha pediu também dinheiro a dez anos (sim, a Alemanha também pede dinheiro emprestado!) e obteve uma taxa de juro negativa de 0,4%. Ou seja: os “investidores” não se importam de perder dinheiro desde que ele esteja seguro na Alemanha, e a Alemanha consegue a proeza de ganhar dinheiro quando o pede emprestado. Eis a União em todo o seu esplendor! Assim é fácil pregar a austeridade aos outros! Emprestem-nos dinheiro à taxa de -0,4% durante dez anos e nós teremos todos os problemas resolvidos... Do que verdadeiramente não precisamos é de que nos ameacem com a “solução cipriota” para que as pessoas retirem o dinheiro dos bancos nacionais e o vão transferir para a banca alemã ou holandesa, arruinando de vez a nossa banca, a economia e o país. Será assim tão difícil de explicar isto ao eleitorado alemão? (...) Os eurodecisores, que ninguém elegeu, estão-se nas tintas para os estados de alma dos Paulo Portas que possam existir nas 27 capitais. Aliás, estão-se nas tintas para tudo o resto: as moções de censura ou as manifestações de rua, o funcionamento democrático de cada Estado-membro ou o sentimento da sua opinião pública. Podem eles fazer o que quiserem, desde que acabem por fazer sempre o que o directório europeu ordena. Quanto aos 19 milhões de desempregados, aos milhares de falências, à recessão, à imigração, ao desespero, ao enterro de um sonho europeu construído sobre as ruínas de um continente devastado e alimentado ao longo de 60 anos, é-lhes indiferente. É apenas uma estatística, uma abstracção, um encolher de ombros de quem sabe, ou pensa saber, que esse sonho não passa de uma utopia imbecil. Perante o virtuosismo e o mérito da Europa que triunfa, o resto é apenas paisagem. A Grécia ou a Itália, que ensinaram à Europa o que eram a democracia e a civilização, ou a Espanha e Portugal, que lhe ensinou o que era o mundo, não contam para nada. E, em breve, nem mesmo a França, cuja revolução foi fundadora do que são as democracias modernas, contará para nada.»
Miguel Sousa Tavares, Expresso

3 comentários:
É bom ler Sousa Tavares, eu, por exemplo, não sabia que Portugal estava a ser subsidiado por "países". Julgava eu que era por entidades vulgo FMI e BCE.
Estamos sempre a aprender.
Há quem ganhe a vida meditando.E há muitos candidatos no desemprego.
Outro tema(que a Europa nem sonhe):Porque é que este país está de mão estendida na
pedinchice pela 3ª vez em pouco tempo?Sendo que nas outras duas não pertencia à Eurolândia.
josé
Miguel Sousa Tavares sabe (ou devia saber) que os mercados emprestam dinheiro à Alemanha a -0,4% e a Portugal a 5,5% porque a probabilidade de "ficarem a arder" com o dinheiro que nos emprestam é muitíssimo maior do que "ficarem a arder" com o dinheiro que emprestam à Alemanha.
Também sabe (ou devia saber) que, ao emprestar-nos dinheiro a 3,2%, a troika está a assumir parte do "nosso" risco.
E sabe (ou devia saber) que, se a Alemanha pedir dinheiro emprestado a -0,4% e nos emprestar à mesma taxa, é a Alemanha que está a assumir todo o risco de nos emprestar dinheiro, sem ganhar nada com isso e sem ter uma palavra a dizer sobre como esse dinheiro é gerido.
Ora, se com taxas de juro de 6% a gestão que fizémos do "nosso" dinheiro foi o que se viu, imagine-se que nos emprestavam dinheiro a -0,4% e eram outros a assumirem a responsabilidade de o pagar. Além de que, se a Alemanha fizésse o que o Miguel Sousa Tavares "pede"(?), inevitavelmente acabaria a pagar muito mais do -0,4%, não apenas sobre o que fosse para nos emprestar mas sobre todo o dinheiro que pedisse aos mercados.
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