
Depois de amanhã comemora-se o bicentenário do nascimento de Richard Wagner. Devia ter para aí dezasseis anos quando vi O Navio Fantasma, o meu primeiro contacto com Wagner. Praticamente a seguir veio O Anel - uma quase impossibilidade intelectual poder abarcar a densidade "global" daquilo tudo até aos vinte e poucos anos - e, na televisão, a produção Boulez/Chereau para Bayreuth em 1976. No São Carlos, no principio desta década, concebeu-se a versão Graham Vick do Anel cuja metade última acabou por ser exibida após a saída de Paolo Pinamonti da direcção artística do Teatro, em 2007. Agora não há dinheiro e, presumivelmente, a coisa talvez fique pela reposição em ecrã grandote daquela versão (já não era mau). De resto, é preciso sair daqui para ver Wagner que é o que pude fazer nos últimos dez anos. Parece entretanto que saiu um livrinho sobre Wagner e os alemães. E que nesse livro o autor escreve que «Wagner, ou se adora, ou se detesta, tanto pela música como pela própria pessoa», classificando-o como «um ser monstruoso». Acho que era pessoalmente detestável e, na relação com o formoso Luís da Baviera, um oportunista. Mas talvez sem essas características, e sem essas relações (com as mulheres, nomeadamente), alguma da sua obra teria sido inverosímil e destituída da genialidade que a caracteriza. A beatitude, em geral, só produz idiotia e moleza. É-me pois indiferente que Wagner fosse "monstruoso". Sei que sem ele tudo seria mais difícil do que já é.
2 comentários:
Dir-se-ia o mesmo de Beethoven,talvez Mozart...
Na Literatura Sena poetou sobre "quando já só ossos"sobrem e nem cheiro persista do Autor.Mais cordato Vergílio Ferreira advertia:leiam os livros para falarem com o Autor,comigo teriam uma desilusão.Isto deve ser sabedoria milenar,lembrei-me destes dois.
José
Raio de feitio de se porem a bisbilhotar a vida dos outros. Ninguém precisou saber quem era Homero, se era simpático ou monstruoso, para lhe apreciar a genialidade.
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