
«Tudo o que seja previsões de políticos, comentadores, governantes ou outros protagonistas mediáticos é valorizado em manchetes e títulos e citado em espiral de auto-referenciação noutros media. Haverá razões de carácter nacional para a obsessão com o futuro – o fado, a vivência no sonho – mas explico o fenómeno pelo comodismo. As previsões não implicam investigação, não remetem para quaisquer factos verificados. Não trazem maçadas de nenhum género a quem as reporta e quem as profere assegura protagonismo. Acontece que Passos é avesso a previsões. Em vez de prometer amanhãs que cantam, como outros políticos, tem preferido manter o seu discurso político no presente. Isso deveria ser bem-vindo, por trazer realismo e sensatez ao discurso político, mas é criticado por políticos, comentadores, incluindo do seu próprio partido, como Marcelo Rebelo de Sousa, e, mais espantosamente, por muitos jornalistas comentadores que parecem preferir políticos mentirosos aos que, mesmo escondendo verdades, pelo menos não mintam. Quando comentadores dizem que Passos deveria acentuar o "discurso da esperança", já se sabe que estão a sugerir ao primeiro-ministro que comece a mentir. Parte do jornalismo português, viciado nas mentiras cor-de-rosa do anterior governo, anda desaustinada com um primeiro--ministro que recusa aderir a essa má prática política e jornalística. Ele repete que não quer prever e prometer o que não pode. Mas os microfones sedentos de previsões não o largam. Quando esse jornalismo anseia que lhe contem mentiras, que se pode esperar dele?
A inscrição "Paços Coelho" na entrevista do primeiro-ministro na TVI não foi uma simples gralha. Assinalou uma total ignorância sobre a vida nacional. Este terá sido o erro gramatical mais gritante da última década, mas acontece tantas vezes em todos os canais que se trata já de uma característica estrutural da informação na TV portuguesa. Quando falo com jornalistas jovens, verifico que, faltando-lhes cultura geral, vêem-se à nora para escrever sobre matérias de que nada sabem — e não podem informar-se devidamente porque não lhes dão tempo para escrever. A proletarização dos jornalistas é responsável pela decadência, nos velhos e nos novos media, da prática jornalística, que de indústria cultural vai passando a indústria "desculturalizada".»
4 comentários:
na política, sobretudo na ar é o mesmo analfabetismo. alguns comentadores também.
às vezes penso não ter ouvido bem.
as judites são uma calamidade. esganiçam-se em lugar de serem naturais
O jornal Publico publica hoje um artigo reconstruindo o que se passou nas últimas horas antes do pedido de ajuda ao FMI, concluído com a mensagem do PM José Sócrates ao país. Veremos, em poucas horas, se a esses jornalistas, por omissão, falta também dignidade, ou não. É que o que se conclui do que ali está escrito é que nem o pequeno discurso do "estou bem assim, Luis ?" escapou às mentiras descaradas. Sócrates não decidiu pedir ajuda internacional com base nas consultas que manteve, como foi dito; bem pelo contrário, ocultou e enganou novamente o país, até nessa altura, porque foi Teixeira dos Santos e todos os outros intervenientes quem o decidiu por necessidade urgente, retirando-o das twilight zones manhosas e perversas onde nada como peixe, de resto a única zona em que aparentemente sabe viver, e que utiliza sem escrúpulos para emparedar a verdade sobre o país, como se retira da mesma leitura. Isto é uma notícia e não é das que concorrem com o Braga-Benfica. Isto é a história da desgraça de Portugal e de como ela poderia ter sido, porque o país poderia ter reeleito uma pessoa que os ludibriava, novamente e manhosamente, enquanto se aguentava pondo os banqueiros a pagar um buraco gigatesco para revelar só depois das eleições, enquanto sacava às empresas privadas para não expor a desgraça a que foi conduzido o Estado. E não venham cá com a treta do homenzinho que já lá vai, porque o PS que ele deixou não só lhe tomou a "cultura" política, como se deixou enredar de um tal modo que já não sabe viver de outra coisa nem é capaz de cortar o cordão humbilical que os continua a unir, e bem. Que se registe e informe os portugueses que foi Teixeira dos Santos quem à revelia de seu chefe avançou, e que as relações foram cortadas por este e por o ter feito. Pelo menos, que a história guarde para aquele Ministro a decisão, ainda que lhe sirva apenas para se limpar mal das asneiras que andou a fazer ao lado do ilusionista.
Só um reparo : não são canais, são caneiros...
Eu, professor proletarizado, solidarizo-me com os lamentáveis jornalistas proletarizados.
Que saudade ler ECT!
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