
Os meus níveis de tolerância geral aumentaram razoavelmente. Apesar de continuar a evitar atropelamentos por carros gigantes de bébés (presumo que incluem, pela dimensão, sanita e bidé), já consigo encarar com um módico de ternura o seu conteúdo rosáceo e ranhoso. Também consigo aguentar trinta e seis notícias seguidos sobre o "união de Leiria" e a "ameaça" de, pelo menos, quatro horas de emissão monotemática com Rui Santos com apenas meio Lexotan. Ou as reportagens néscias em torno dos pacóvios "dias da música" do CCB, a chuva despropositada ou o simulacro de feira do livro estacionado no Parque Eduardo VII com a outra metade. O melhor sinal desta súbita beatitude - se tens de viver daqui para diante sem o chamado sentimento estético da vida, agarra-te ao corrimão e ao Lexotan - manifesta-se igualmente com o recuperado gosto pelas falas da Maria Filomena Mónica. Para além de partilharmos o Verdi, outras coisas nos "unem". «E do ponto de vista cultural? Tem sido tudo muito lento. Se falo de Stendhal ou de Balzac, alguns alunos meus, que até são espertos e muito bons alunos, nunca ouviram falar, porque os avós são analfabetos e os pais não têm livros em casa. A evolução cultural leva tempo, é obra de duas ou três gerações. Falhámos a escola pública, que tem um papel fundamental, e isto afecta muito profundamente o país. Os meus filhos andavam numa escola pública, é através da escola pública que as gerações se podem tornar mais cultas, porque infelizmente os pais e avós não lhes podem dar o Verdi, não lhes podem explicar o que é a “Traviata”. (...) Conheço muitos casos, alunos que fazem mestrados e arrastam bolsas pagas pela Europa, através da FCT, sem nunca terminar. Em primeiro lugar, porque não houve uma selecção adequada, não houve a apreciação de um júri que percebesse que este ou aquele jovem nunca fará um doutoramento na vida – não por não ser inteligente, mas porque não tem pertinácia. E porque não há vigilância – a FCT não pede aquilo que até a Gulbenkian pedia no meu tempo: que um supervisor escreva um relatório de três em três meses que diga se o jovem está a cumprir ou se anda só a passear. (...) Quando vejo as crianças de hoje sempre ocupadas com jogos, consolas, etc., penso que este tipo de tédio que nós tínhamos faz muita falta às crianças.(...) Que avaliação faz do debate de ideias na sociedade portuguesa? Sempre foi péssimo, continua péssimo e possivelmente será sempre péssimo. As pessoas debatem tudo em termos pessoais, não são treinadas para organizar um pensamento racional, dedutivo, calmo. Isto treina-se na escola desde pequeninos. Interrompem-se todos, tudo muito emocional. E os portugueses não são bons a debater também porque acham que há sempre interesses ocultos por trás. Se disser que não gosto de futebol, vão pensar “Ah, isto deve ser porque ela tinha um pai que era futebolista” ou “Ela está ligada a um clube”. A ideia de que alguém pode genuína e independentemente ter uma opinião é difícil de aceitar para os portugueses. E, mais uma vez, é por sermos um país pobre e pequeno.» É mais ou menos isto, de facto.
2 comentários:
RODA DE SOMBRAS
Destruir o céu com bolas de fogo
Invadir o inferno com lanças de papel
Partir a janela penetrar no espaço;
Destruir o piano e fazer um poema
Apagar o sol engolir o mar
Erigir um marco no centro do mundo
Ensaiar alturas rastejar servil
Ocupar palácios esmolar a fome
Cercar o castelo e servir o rei
Empunhar a bandeira de novo senhor
Correr em círculo e gritar em frente
E contemplar inerte
As sombras do esbracejar grotesco
O FCT é, na minha opinião a maior fraude no ensino. Falo porque tenho estado ligada a uma e vejo o que se passa. Com Bolonha! ao fim de três anos exige-se uns milhares de euros para o dito"mestrado". Ora os alunos requerem bolsas. O facto é que como dizia alguém após uma prova de mestrado, meu Deus.......,"bem bom, pelo menos sabia escrever!" Ora, eu própria já fui lesada porque alguém agarrou num trabalho meu e fez o "mestrado na Nova , diga-se com c. de 40 pp. Ora, enfim, abafar, abafar, abafar, é a palavra de ordem, não vá babal caír no chão. Aquilo que acho muita piada em Filomena Mónica é que ela vê o que eu vejo, no entanto hoje ninguém vai contra o sistema, os próprios professores vivem também de quê???? E o António Barreto vive dec quê? Quantos subsídios têm os professores universitários e os alunos? Por fim, hoje tudo é investigador, com bolsa a qual permite alugar casa e até passear pela Europa e ir ver o Benfica , é verdade. O problema é que Investigação a sério quem faz? Andamos a brincar. A essa gente !investigadora" que berra nas ruas mandava-os trabalhar!
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