30.9.03

A AMBIGUIDADE LUMINOSA

Via cidadão livre, apreendo que Eduardo Prado Coelho já escreve num blogue. Trata-se de uma iniciativa do PS/Lisboa, aparentemente para "malhar" no Presidente da Câmara de Lisboa, para já. Prado Coelho, cuja obra ensaística muito aprecio, não é propriamente um "modelo" no comentário dito mais "político". Não que isso tenha a ver exclusivamente com questões de "coerência" (quase todos os governantes do mundo, quase todos os "intelectuais", mais cedo, ou mais tarde, são "incoerentes"), mas sobretudo porque Prado Coelho, farejando "poder" ou uma sua aparência, é capaz de entrar inesperadamente numa espécie de ambiguidade luminosa, relativamente bem calculada. Isso tem-se passado em relação a Santana Lopes. É que não se sabe - nem Prado Coelho - o que é que o futuro e o Deus de Lopes lhe reservam. Uma coisa é certa, e isto em relação ao referido blogue: quanto mais se "bate" em Santana Lopes, mais alguém "gosta" dele. Mas essa é uma outra história, talvez de luminosidade ambígua.

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A AMBIGUIDADE LUMINOSA

Via cidadão livre, apreendo que Eduardo Prado Coelho já escreve num blogue. Trata-se de uma iniciativa do PS/Lisboa, aparentemente para "malhar" no Presidente da Câmara de Lisboa, para já. Prado Coelho, cuja obra ensaística muito aprecio, não é propriamente um "modelo" no comentário dito mais "político". Não que isso tenha a ver exclusivamente com questões de "coerência" (quase todos os governantes do mundo, quase todos os "intelectuais", mais cedo, ou mais tarde, são "incoerentes"), mas sobretudo porque Prado Coelho, farejando "poder" ou uma sua aparência, é capaz de entrar inesperadamente numa espécie de ambiguidade luminosa, relativamente bem calculada. Isso tem-se passado em relação a Santana Lopes. É que não se sabe - nem Prado Coelho - o que é que o futuro e o Deus de Lopes lhe reservam. Uma coisa é certa, e isto em relação ao referido blogue: quanto mais se "bate" em Santana Lopes, mais alguém "gosta" dele. Mas essa é uma outra história, talvez de luminosidade ambígua.
O CÉU QUE NOS PROTEGE

Anuncia-se a fusão entre a Air France e a KLM, a que se juntam naturalmente as respectivas companhias associadas. No actual estado da discussão iniciática acerca da famosa "constituição europeia", este exemplo "federalista" é muito interessante. Mais do que falar da Europa nos forae ou de ter medo dela em casa, esta perspectiva de um "céu único" , através da primeira companhia aérea "europeia", ajuda a perceber a lógica da coisa. Também ajuda a entender o papel insubstituível e fundamental que, na Europa a vinte e tais, desempenham determinados países. Eu sei que não é politicamente correcto dizer isto, mas eu simpatizo com a "velha europa". Não me incomoda rigorosamente nada. Prefiro a solidez de uma Europa comandada por "ela" a uma Europa de "bordas" meramente esforçadas e de "patos-bravos" tagarelas. Alguém verdadeiramente acha que, entre nós, se vai alguma vez perceber o que é isso da "constituição europeia" ou o "federalismo"? O que é que isso interessa ao português da "vida videirinha", muito cioso das suas "coisinhas"? Nada. Nunca irá entender nada deste "céu" que nos protege.

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O CÉU QUE NOS PROTEGE

Anuncia-se a fusão entre a Air France e a KLM, a que se juntam naturalmente as respectivas companhias associadas. No actual estado da discussão iniciática acerca da famosa "constituição europeia", este exemplo "federalista" é muito interessante. Mais do que falar da Europa nos forae ou de ter medo dela em casa, esta perspectiva de um "céu único" , através da primeira companhia aérea "europeia", ajuda a perceber a lógica da coisa. Também ajuda a entender o papel insubstituível e fundamental que, na Europa a vinte e tais, desempenham determinados países. Eu sei que não é politicamente correcto dizer isto, mas eu simpatizo com a "velha europa". Não me incomoda rigorosamente nada. Prefiro a solidez de uma Europa comandada por "ela" a uma Europa de "bordas" meramente esforçadas e de "patos-bravos" tagarelas. Alguém verdadeiramente acha que, entre nós, se vai alguma vez perceber o que é isso da "constituição europeia" ou o "federalismo"? O que é que isso interessa ao português da "vida videirinha", muito cioso das suas "coisinhas"? Nada. Nunca irá entender nada deste "céu" que nos protege.

29.9.03

ANTIGOS

Depois da apólice de seguro que o Dr. Barroso ofereceu ao Dr. Portas, sem aparente prazo de validade, nada como buscar o conforto nos mais modernos, os antigos. Bem anda Pacheco Pereira que nos induz ao convívio com Píndaro, por exemplo. Um homem dos tempos em que o gozo da competição era apenas isso, um puro gozo. E em que a "vitória" era apenas celebrada simbolicamente com uns ramos na cabeça, sem compensações materiais, como mera "honra". A glória daquele desaparecido mundo pagão residia nessa felicidade arrancada ao quotidiano, partilhada por homens esbeltos e de forte alma, eternizados nus em estátuas conhecidas. Tem razão a Professora Maria Helena da Rocha Pereira a quem pertence a tradução dos versos que se seguem. É bem melhor viver com os antigos.

Uma só é raça dos homens e dos deuses.
Ambas respiramos, vindas da mesma mãe.
Porém, um poder bem distinto nos separa.
Uma nada é: e o brônzeo céu, esse permanece
sempre seguro.
No entanto, algo nos aproxima dos imortais,
ou o espírito sublime
ou o corpo, apesar de não sabermos que caminho,
de dia ou de noite,
o destino traçou para nós percorrermos.


Referência: Sete Odes de Píndaro, selecção, apresentação, tradução do grego e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Porto Editora, 2003.

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ANTIGOS

Depois da apólice de seguro que o Dr. Barroso ofereceu ao Dr. Portas, sem aparente prazo de validade, nada como buscar o conforto nos mais modernos, os antigos. Bem anda Pacheco Pereira que nos induz ao convívio com Píndaro, por exemplo. Um homem dos tempos em que o gozo da competição era apenas isso, um puro gozo. E em que a "vitória" era apenas celebrada simbolicamente com uns ramos na cabeça, sem compensações materiais, como mera "honra". A glória daquele desaparecido mundo pagão residia nessa felicidade arrancada ao quotidiano, partilhada por homens esbeltos e de forte alma, eternizados nus em estátuas conhecidas. Tem razão a Professora Maria Helena da Rocha Pereira a quem pertence a tradução dos versos que se seguem. É bem melhor viver com os antigos.

Uma só é raça dos homens e dos deuses.
Ambas respiramos, vindas da mesma mãe.
Porém, um poder bem distinto nos separa.
Uma nada é: e o brônzeo céu, esse permanece
sempre seguro.
No entanto, algo nos aproxima dos imortais,
ou o espírito sublime
ou o corpo, apesar de não sabermos que caminho,
de dia ou de noite,
o destino traçou para nós percorrermos.


Referência: Sete Odes de Píndaro, selecção, apresentação, tradução do grego e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Porto Editora, 2003.
PELA SAÍDA

O sorriso idiota do Sr. Blair ameaça emudecer. Para além das características pessoais que o tornam irritante, tem por esposa uma senhora advogada que verdadeiramente nunca conseguiu descolar daquela imagem de há seis anos, no dia seguinte à eleição do marido, em que apareceu à porta de casa com ar estremunhado e em "chemise de chambre", a aceitar umas florzinhas. Blair, a esplendorosa encarnação da "terceira via", que comoveu tanta "esquerda caviar" por esse mundo de Cristo, parece que já não convence nem os seus próprios correlegionários. É que andar de braço dado com Clinton, era uma coisa, e passar a vida a correr para o rancheiro do Texas, é outra. As mentirolas acerca da "ameaça" que constituía o armamento do Sr. Saddam, começam a pagar-se caras. E o exercício iraquiano é o sucesso que se conhece. Blair vai tentar uma saída para ficar. O melhor mesmo seria ficar-se pela saída.

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PELA SAÍDA

O sorriso idiota do Sr. Blair ameaça emudecer. Para além das características pessoais que o tornam irritante, tem por esposa uma senhora advogada que verdadeiramente nunca conseguiu descolar daquela imagem de há seis anos, no dia seguinte à eleição do marido, em que apareceu à porta de casa com ar estremunhado e em "chemise de chambre", a aceitar umas florzinhas. Blair, a esplendorosa encarnação da "terceira via", que comoveu tanta "esquerda caviar" por esse mundo de Cristo, parece que já não convence nem os seus próprios correlegionários. É que andar de braço dado com Clinton, era uma coisa, e passar a vida a correr para o rancheiro do Texas, é outra. As mentirolas acerca da "ameaça" que constituía o armamento do Sr. Saddam, começam a pagar-se caras. E o exercício iraquiano é o sucesso que se conhece. Blair vai tentar uma saída para ficar. O melhor mesmo seria ficar-se pela saída.
REMOVER OS ESTILHAÇOS

No dia 8 de Agosto, com o país em labaredas, e perante uma extraordinária conferência de imprensa do presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, Leal Martins, e sem saber que era só a primeira "fase" da combustão, escrevi isto:

No meio da catástrofe, aparece, via tv´s, o presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. O senhor garantiu que os fogos que estão ainda por aí, são já os "normais para a época". E acrescentou que fez uma visita a vários locais sinistrados, falou com muitas velhinhas e pediu à comunicação social que não mostrasse imagens dos incêndios no seu esplendor de morte - as palavras são minhas -, mas antes desse imagens de um bombeiro ou outro, de uma mangueira, enfim, uma versão "música do coração" do combate aos fogos. Eu ouvi e espero que seja repetido várias vezes, para que se acredite. Num País a sério, ou mesmo em África, este cavalheiro já estaria na rua. Aqui, não só ainda mexe, como dá conferências de imprensa palonças. Será que a culpa é só dele?

Eis que, no entanto e nestes últimos dias, o Dr. Figueiredo Lopes andou bem. No caso do (já cansativo) helicóptero e, agora, ao "aceitar" a demissão de Leal Martins. Este era só o topo da coisa, mas ainda há mais uns quantos lugares-tenentes para o seguirem. É bom que se comece a remover os estilhaços.

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REMOVER OS ESTILHAÇOS

No dia 8 de Agosto, com o país em labaredas, e perante uma extraordinária conferência de imprensa do presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, Leal Martins, e sem saber que era só a primeira "fase" da combustão, escrevi isto:

No meio da catástrofe, aparece, via tv´s, o presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. O senhor garantiu que os fogos que estão ainda por aí, são já os "normais para a época". E acrescentou que fez uma visita a vários locais sinistrados, falou com muitas velhinhas e pediu à comunicação social que não mostrasse imagens dos incêndios no seu esplendor de morte - as palavras são minhas -, mas antes desse imagens de um bombeiro ou outro, de uma mangueira, enfim, uma versão "música do coração" do combate aos fogos. Eu ouvi e espero que seja repetido várias vezes, para que se acredite. Num País a sério, ou mesmo em África, este cavalheiro já estaria na rua. Aqui, não só ainda mexe, como dá conferências de imprensa palonças. Será que a culpa é só dele?

Eis que, no entanto e nestes últimos dias, o Dr. Figueiredo Lopes andou bem. No caso do (já cansativo) helicóptero e, agora, ao "aceitar" a demissão de Leal Martins. Este era só o topo da coisa, mas ainda há mais uns quantos lugares-tenentes para o seguirem. É bom que se comece a remover os estilhaços.
TEMPORADAS

Esta semana começam algumas temporadas "musicais". Leio nos jornais e no crítico musical. Aliás, neste até leio mais qualquer coisa:

Temporada Gulbenkian a começar 4 de Outubro, Festival de Mafra a abrir as portas.
Apenas a Temporada do S. Carlos a faltar, mas atendendo ao que se lá tem passado talvez seja melhor fechar as portas e passarmos todos a ir a Espanha, sempre se poupam uns dois milhões de contos ao erário público, o que para não se fazer nada é realmente muito dinheiro... creio que é uma solução ao gosto liberal. Voltarei ao tema do S. Carlos, o Portugal dos pequeninos não perde pela demora, terá em breve, aqui um comentário que, em tão boa hora solicitou.


Enquanto aguardo o prometido comentário, faço eu uns quantos:

1. Como sócio de "Os Amigos do SãoCarlos", recebi um folheto a explicar a mini-temporada que se inicia quarta-feira no S. Luiz. Esta mini-temporada é um bom pretexto para escutar a excelente Orquestra Sinfónica Portuguesa, um dos corpos artísticos do Teatro, tanta vez desaproveitada e mal coordenada, ao lado do Coro, sobre o qual deixo ao crí­tico quaisquer apreciações mais "técnicas", sobretudo acerca da sua discutida e discutível direcção musical. No primeiro concerto, canta a soprano Elisabete Matos, a quem já dediquei umas prosas (ver aqui os posts O Anel da Cultura II e III, e aqui , o post Cantar Cá Dentro).

2. No referido folheto de "Os Amigos de São Carlos" há um lapso que importa corrigir. A temporada lírica não se inicia em Janeiro de 2004 por haver obras no palco do Teatro. O mais perto do palco que estará qualquer coisa, é apenas do fosso da orquestra, cujo soalho deverá ser levantado, limpo e convenientemente desinfectado. Nada mais. Essa ideia de ligar o fecho do Teatro, até Janeiro, a obras no palco, é puramente mitómana, e pode induzir os incautos a pensar que se está a proceder a uma grande remodelação, como se nos tempos que correm se pudesse fazer o que quer que fosse de vulto. Sei isto porque fui eu, à altura no Conselho Directivo, com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, quem planeou, com o dinheiro que havia, estas intervenções.

3. O dia 1 de Outubro, data do início da tal mini-temporada, é o Dia Mundial da Música. Ignoro se a entrada é livre, mas suspeito que não, a não ser para a longa lista dos convidados da direcção do Teatro e da nomenklatura. Eu, pelo sim, pelo não, comprei bilhetes no S. Luiz (sim, vendem-se alguns bilhetes...) uma vez que, por causa da minha carta de demissão, o Sr. director considerou que o tinha "traído" (sic) e que, como tal, mesmo tendo sido membro do conselho directivo, não tinha direito a ser convidado. Para um director que, em dois anos e meio de mandato, já viu passar cinco vogais na sua direcção, trata-se de uma estranha inversão de conceitos. Como há mais de 20 anos que vou ao TNSC, sem nunca ter sonhado em fazer parte da sua direcção, comprando quase sempre o meu honrado bilhete, é para o lado que durmo melhor. Aliás, dada a muito significativa e especial apetência que, pelo menos, dois dos membros do actual conselho directivo têm pela chamadas "relações públicas", temo pelo esvaziamento, a prazo curtí­ssimo, do magnífico desempenho, em prol dos interesses do Teatro, da efectiva titular das "relações públicas", ainda recentemente agraciada, por causa desse mesmo desempenho, por Jorge Sampaio.

4. O site do São Carlos, para além de ter custado o que custou e de valer o que vale, tem a informação "parada" no final da temporada 2002-2003. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita...

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TEMPORADAS

Esta semana começam algumas temporadas "musicais". Leio nos jornais e no crítico musical. Aliás, neste até leio mais qualquer coisa:

Temporada Gulbenkian a começar 4 de Outubro, Festival de Mafra a abrir as portas.
Apenas a Temporada do S. Carlos a faltar, mas atendendo ao que se lá tem passado talvez seja melhor fechar as portas e passarmos todos a ir a Espanha, sempre se poupam uns dois milhões de contos ao erário público, o que para não se fazer nada é realmente muito dinheiro... creio que é uma solução ao gosto liberal. Voltarei ao tema do S. Carlos, o Portugal dos pequeninos não perde pela demora, terá em breve, aqui um comentário que, em tão boa hora solicitou.


Enquanto aguardo o prometido comentário, faço eu uns quantos:

1. Como sócio de "Os Amigos do SãoCarlos", recebi um folheto a explicar a mini-temporada que se inicia quarta-feira no S. Luiz. Esta mini-temporada é um bom pretexto para escutar a excelente Orquestra Sinfónica Portuguesa, um dos corpos artísticos do Teatro, tanta vez desaproveitada e mal coordenada, ao lado do Coro, sobre o qual deixo ao crí­tico quaisquer apreciações mais "técnicas", sobretudo acerca da sua discutida e discutível direcção musical. No primeiro concerto, canta a soprano Elisabete Matos, a quem já dediquei umas prosas (ver aqui os posts O Anel da Cultura II e III, e aqui , o post Cantar Cá Dentro).

2. No referido folheto de "Os Amigos de São Carlos" há um lapso que importa corrigir. A temporada lírica não se inicia em Janeiro de 2004 por haver obras no palco do Teatro. O mais perto do palco que estará qualquer coisa, é apenas do fosso da orquestra, cujo soalho deverá ser levantado, limpo e convenientemente desinfectado. Nada mais. Essa ideia de ligar o fecho do Teatro, até Janeiro, a obras no palco, é puramente mitómana, e pode induzir os incautos a pensar que se está a proceder a uma grande remodelação, como se nos tempos que correm se pudesse fazer o que quer que fosse de vulto. Sei isto porque fui eu, à altura no Conselho Directivo, com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, quem planeou, com o dinheiro que havia, estas intervenções.

3. O dia 1 de Outubro, data do início da tal mini-temporada, é o Dia Mundial da Música. Ignoro se a entrada é livre, mas suspeito que não, a não ser para a longa lista dos convidados da direcção do Teatro e da nomenklatura. Eu, pelo sim, pelo não, comprei bilhetes no S. Luiz (sim, vendem-se alguns bilhetes...) uma vez que, por causa da minha carta de demissão, o Sr. director considerou que o tinha "traído" (sic) e que, como tal, mesmo tendo sido membro do conselho directivo, não tinha direito a ser convidado. Para um director que, em dois anos e meio de mandato, já viu passar cinco vogais na sua direcção, trata-se de uma estranha inversão de conceitos. Como há mais de 20 anos que vou ao TNSC, sem nunca ter sonhado em fazer parte da sua direcção, comprando quase sempre o meu honrado bilhete, é para o lado que durmo melhor. Aliás, dada a muito significativa e especial apetência que, pelo menos, dois dos membros do actual conselho directivo têm pela chamadas "relações públicas", temo pelo esvaziamento, a prazo curtí­ssimo, do magnífico desempenho, em prol dos interesses do Teatro, da efectiva titular das "relações públicas", ainda recentemente agraciada, por causa desse mesmo desempenho, por Jorge Sampaio.

4. O site do São Carlos, para além de ter custado o que custou e de valer o que vale, tem a informação "parada" no final da temporada 2002-2003. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita...

28.9.03

UMA FOTO

Neste blogue discutem-se de vez em quando, e quase sempre criticamente, as posições do Dr. Portas. Nada de pessoal. Fomos colegas na universidade, em jornais e, há cinco anos, não me desagradou a ideia da "AD" de Marcelo. Portas estragou tudo em 45 minutos, numa entrevista assassina a Margarida Marante. Também já aqui escrevi que sou adepto de um PSD maioritário, sem acólitos. Como julgo que será útil ao PS pensar da mesma maneira, para o futuro. A perspectiva de 2010, com este PP às cavalitas, é assaz desagradável. Como escrevi anteontem, o congresso do CDS foi uma espécie de celebração eucarística destinada a ungir e a quase beatificar o líder. Têm razão. Se estão no poder, a ele o devem. Em suma, Portas é o que ele é, na melhor tradição shakespeariana. Dito isto, julgo, porém, que não merecia a maldade da foto da página 2 da edição impressa de hoje do Público. Nela vemos um líder hirto, tenso, olhar determinado, com as massas por detrás, meio desfocadas... e com o braço direito estendido, naquela conhecida maneira dos anos 30. Portas estava seguramente a pedir aos congressistas para não aplaudirem, mas a maldade ficou feita. E, a meu ver, não tem graça nenhuma. A foto não sabe "dizer" aquilo que dá a "ver". Ou então quer "dizer" mais do que o que dá a "ver", o que é bem pior. Há fotógrafos que deviam ler "A Câmara Clara", de Roland Barthes.

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UMA FOTO

Neste blogue discutem-se de vez em quando, e quase sempre criticamente, as posições do Dr. Portas. Nada de pessoal. Fomos colegas na universidade, em jornais e, há cinco anos, não me desagradou a ideia da "AD" de Marcelo. Portas estragou tudo em 45 minutos, numa entrevista assassina a Margarida Marante. Também já aqui escrevi que sou adepto de um PSD maioritário, sem acólitos. Como julgo que será útil ao PS pensar da mesma maneira, para o futuro. A perspectiva de 2010, com este PP às cavalitas, é assaz desagradável. Como escrevi anteontem, o congresso do CDS foi uma espécie de celebração eucarística destinada a ungir e a quase beatificar o líder. Têm razão. Se estão no poder, a ele o devem. Em suma, Portas é o que ele é, na melhor tradição shakespeariana. Dito isto, julgo, porém, que não merecia a maldade da foto da página 2 da edição impressa de hoje do Público. Nela vemos um líder hirto, tenso, olhar determinado, com as massas por detrás, meio desfocadas... e com o braço direito estendido, naquela conhecida maneira dos anos 30. Portas estava seguramente a pedir aos congressistas para não aplaudirem, mas a maldade ficou feita. E, a meu ver, não tem graça nenhuma. A foto não sabe "dizer" aquilo que dá a "ver". Ou então quer "dizer" mais do que o que dá a "ver", o que é bem pior. Há fotógrafos que deviam ler "A Câmara Clara", de Roland Barthes.
MODERNOS

XENÓFANES

Dito de Cólofon, terá vivido cerca de 570 - 470 a.C. Filósofo pré-socrático, pensador, poeta e rapsodo, andou por toda a Grécia a declamar a sua poesia. Foi expulso de Cólofon aos 25 anos, passando desde então a levar uma vida de errância, fugindo persistentemente ao domínio persa. Toda a sua obra foi composta em verso. Xenófanes terá sido o primeiro pensador a evidenciar a "unidade" como o "princípio (arché) da realidade" (physis). Segundo o entendimento de Xenófanes, a "verdade" acerca das coisas é inatingível aos homens. Para ele, o que se constrói acerca da realidade é somente aparência e opinião. Em suma, um filósofo para ler e meditar nestes nossos complexos dias. Deixo aqui um seu poema, traduzido por Maria Helena da Rocha Pereir.

Elogio da Sabedoria

Mas se alguém alcançar a vitória com a velocidade
dos pés, ou do pentatlo, - onde fica o santuário de Zeus,
junto das águas de Pisa, em Olímpia - ou na luta,
ou porque sabe a arte dolorosa do pugilato,
ou ainda num concurso terrível, chamado o pancrácio,
será mais ilustre à vista dos seus concidadãos,
terá o lugar de honra mais aparatoso nos jogos
e alimentação a expensas públicas
da sua cidade, e uma dádiva, que será para ele um tesouro.
E, se ganhar com cavalos, tudo isto ele obterá,
sem ser digno como eu. Pois melhor do que a força
de homens e corcéis é a nossa sabedoria.
É isso um modo de pensar leviano, e não é justo
preferir a força à notável sabedoria.
Pois bem que viesse entre o povo um valente pugilista,
ou um homem hábil no pentatlo ou na luta,
ou na corrida, que tem ainda a preferência,
e tantos actos de força demonstrasse no combate,
nem por isso a cidade estaria em melhor ordem.
Pequeno prazer seria para a urbe
que alguém vencesse nas provas das margens do Pisa.
Pois não é isso que enche os cofres da cidade.

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MODERNOS

XENÓFANES

Dito de Cólofon, terá vivido cerca de 570 - 470 a.C. Filósofo pré-socrático, pensador, poeta e rapsodo, andou por toda a Grécia a declamar a sua poesia. Foi expulso de Cólofon aos 25 anos, passando desde então a levar uma vida de errância, fugindo persistentemente ao domínio persa. Toda a sua obra foi composta em verso. Xenófanes terá sido o primeiro pensador a evidenciar a "unidade" como o "princípio (arché) da realidade" (physis). Segundo o entendimento de Xenófanes, a "verdade" acerca das coisas é inatingível aos homens. Para ele, o que se constrói acerca da realidade é somente aparência e opinião. Em suma, um filósofo para ler e meditar nestes nossos complexos dias. Deixo aqui um seu poema, traduzido por Maria Helena da Rocha Pereir.

Elogio da Sabedoria

Mas se alguém alcançar a vitória com a velocidade
dos pés, ou do pentatlo, - onde fica o santuário de Zeus,
junto das águas de Pisa, em Olímpia - ou na luta,
ou porque sabe a arte dolorosa do pugilato,
ou ainda num concurso terrível, chamado o pancrácio,
será mais ilustre à vista dos seus concidadãos,
terá o lugar de honra mais aparatoso nos jogos
e alimentação a expensas públicas
da sua cidade, e uma dádiva, que será para ele um tesouro.
E, se ganhar com cavalos, tudo isto ele obterá,
sem ser digno como eu. Pois melhor do que a força
de homens e corcéis é a nossa sabedoria.
É isso um modo de pensar leviano, e não é justo
preferir a força à notável sabedoria.
Pois bem que viesse entre o povo um valente pugilista,
ou um homem hábil no pentatlo ou na luta,
ou na corrida, que tem ainda a preferência,
e tantos actos de força demonstrasse no combate,
nem por isso a cidade estaria em melhor ordem.
Pequeno prazer seria para a urbe
que alguém vencesse nas provas das margens do Pisa.
Pois não é isso que enche os cofres da cidade.

27.9.03

A MARCHA

Sobre a "marcha branca" da Dona Catalina, do Dr. Strecht e das fantásticas associações das "famílias numerosas", está tudo dito pelo Pacheco.

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A MARCHA

Sobre a "marcha branca" da Dona Catalina, do Dr. Strecht e das fantásticas associações das "famílias numerosas", está tudo dito pelo Pacheco.
CÂNDIDA

A procuradora geral adjunta Cândida de Almeida, por quem tenho grande estima, mostrou-se "chocada" com o resultado final do mega-processo das FP-25 em que interveio com principal protagonista pelo lado da acusação. O Estado, através de Ministério Público, tinha então contado com a colaboração dos chamados "arrependidos", peças fundamentais no desmantelamento e prisão dos principais responsáveis da organização. À nossa melhor maneira, depois de todas as peripécias por que passou o processo, foram os "arrependidos" quem acabaram condenados. O Estado, via Procuradoria Geral da República, deixou entretanto passar o prazo para recurso, tornando definitiva a condenação que obriga os "arrependidos" a pagar indemnizações às vítimas dos atentados terroristas das FP-25. Isto quando tinha assumido o compromisso "de honra" de diligenciar para obter uma isenção de pena para estas criaturas. Cândida, que candidamente tinha dado a cara por esta promessa e que é da "casa", ficou naturalmente interdita. Nós, os que vemos de fora, também ficámos. A PGR supostamente vela pelo interesse público, pelos desvalidos e desprotegidos e pela realização do famigerado direito. O facto de muitos magistrados, quer do MP, quer judiciais, viverem na estratosfera e de lhes escapar o tal "sentimento jurídico colectivo", não pode servir de desculpa a este miserável desfecho. Convinha que o Sr. PGR tomasse uma posição, de preferência sentado à secretária. Não é aceitável que a PGR se faça de "cândida" quando, na realidade, o não é.

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CÂNDIDA

A procuradora geral adjunta Cândida de Almeida, por quem tenho grande estima, mostrou-se "chocada" com o resultado final do mega-processo das FP-25 em que interveio com principal protagonista pelo lado da acusação. O Estado, através de Ministério Público, tinha então contado com a colaboração dos chamados "arrependidos", peças fundamentais no desmantelamento e prisão dos principais responsáveis da organização. À nossa melhor maneira, depois de todas as peripécias por que passou o processo, foram os "arrependidos" quem acabaram condenados. O Estado, via Procuradoria Geral da República, deixou entretanto passar o prazo para recurso, tornando definitiva a condenação que obriga os "arrependidos" a pagar indemnizações às vítimas dos atentados terroristas das FP-25. Isto quando tinha assumido o compromisso "de honra" de diligenciar para obter uma isenção de pena para estas criaturas. Cândida, que candidamente tinha dado a cara por esta promessa e que é da "casa", ficou naturalmente interdita. Nós, os que vemos de fora, também ficámos. A PGR supostamente vela pelo interesse público, pelos desvalidos e desprotegidos e pela realização do famigerado direito. O facto de muitos magistrados, quer do MP, quer judiciais, viverem na estratosfera e de lhes escapar o tal "sentimento jurídico colectivo", não pode servir de desculpa a este miserável desfecho. Convinha que o Sr. PGR tomasse uma posição, de preferência sentado à secretária. Não é aceitável que a PGR se faça de "cândida" quando, na realidade, o não é.
UM OLHAR FRIO

Fez 35 anos que Marcello Caetano substituiu Salazar na chefia do Governo. Depois de trinta e tal anos como Presidente do Conselho, o regime, apardalado e sem saber o que fazer com o espectro humano que restava de António de Oliveira Salazar, depois da estadia na Cruz Vermelha, alimentou-lhe a ficção até à sua morte, em Julho de 1970. Salazar julgava-se ainda Presidente e o seu pequeno conforto caseiro de São Bento não lhe foi sonegado. Marcello vivia na sua casa. Quatro anos passados, era Marcello que caía, não de uma cadeira, mas apeado pelos jovens oficiais do Exército, cansados de despromoções e da guerra. Para o bem e para o mal, o século XX português e político, foi o século de Salazar. A estupidez revolucionária de apagar vestígios em pontes, estátuas e ruas, não abalou a evidência. Muito do que é hoje o chamado "país profundo", é obra dele. Nos traços de carácter, nos rostos endurecidos, no "viver tranquilo", na desconfiança do Outro, na simplicidade perversa e no analfabetismo insolente das "nossas gentes", impenetráveis a Europas cosmopolitas, recorta-se, ainda e sempre, o olhar frio de Salazar.

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UM OLHAR FRIO

Fez 35 anos que Marcello Caetano substituiu Salazar na chefia do Governo. Depois de trinta e tal anos como Presidente do Conselho, o regime, apardalado e sem saber o que fazer com o espectro humano que restava de António de Oliveira Salazar, depois da estadia na Cruz Vermelha, alimentou-lhe a ficção até à sua morte, em Julho de 1970. Salazar julgava-se ainda Presidente e o seu pequeno conforto caseiro de São Bento não lhe foi sonegado. Marcello vivia na sua casa. Quatro anos passados, era Marcello que caía, não de uma cadeira, mas apeado pelos jovens oficiais do Exército, cansados de despromoções e da guerra. Para o bem e para o mal, o século XX português e político, foi o século de Salazar. A estupidez revolucionária de apagar vestígios em pontes, estátuas e ruas, não abalou a evidência. Muito do que é hoje o chamado "país profundo", é obra dele. Nos traços de carácter, nos rostos endurecidos, no "viver tranquilo", na desconfiança do Outro, na simplicidade perversa e no analfabetismo insolente das "nossas gentes", impenetráveis a Europas cosmopolitas, recorta-se, ainda e sempre, o olhar frio de Salazar.

26.9.03

BREVES

1. Ser e estar. Ontem à noite o lí­der do CDS/PP esteve na RTP. Neste fim de semana, junta o seu pequeno exército em congresso. É mais uma missa de acção pela sua graça do que propriamente um congresso. Para além da insistência obscena em ligar o desemprego com a questão da imigração, Portas é agora uma sombra do interessante "anarquista de direita" que foi. O brilho oratório foi substituído pelo calculismo sentimental e pela dissimulação retórica baça. E aquele ar inseguramente composto não cola definitivamente ao personagem. Estava ali toda a diferença entre o ministro de estado que "está" e o estadista que nunca chegará a "ser".

2. Ser e estar II. Trata-se de outro preocupante equívoco. Ninguém, ou muito pouca gente, presta atenção ao que diz o Dr. Ferro. É grave para um pretendente sério a São Bento. O aparelho jura-lhe fidelidade quotidiana e, na sombra, com Sócrates e outros, prepara-lhe o tapete. Ele também não ajuda. Falta-lhe em rasgo e audácia o que lhe sobra em teimosia e em seriedade. As "circunstâncias ocorrentes" não lhe foram propícias. "Está" secretário-geral, mas, malgré lui, não "é" uma alternativa.

3. Um direito e o Direito. Os quatro acordãos do Tribunal Constitucional acerca de recursos no processo Casa Pia devolveram alguma tranquilidade ao chamado "sentimento jurí­dico colectivo". Obrigam o juiz de 1ª instância a trabalhar com outra cautela, estando em causa a situação de arguidos presos. E garantem o elementar direito ao recurso e a apreciação superior das decisões jurisdicionais nos termos constitucionais. É quanto basta para se falar em Estado de direito.

4. Um helicóptero. O objecto devia ajudar a combater incêndios, na zona de Lamego, mas acolitava turistas. A irresponsabilidade inconsequente e leviana não tem limites neste País. A falta de vergonha também não. Desta vez o ministro não perdeu tempo e pôs os meliantes com dono. Quantas mais tontarias deste género haverá por este Portugal de pequeninos?

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BREVES

1. Ser e estar. Ontem à noite o lí­der do CDS/PP esteve na RTP. Neste fim de semana, junta o seu pequeno exército em congresso. É mais uma missa de acção pela sua graça do que propriamente um congresso. Para além da insistência obscena em ligar o desemprego com a questão da imigração, Portas é agora uma sombra do interessante "anarquista de direita" que foi. O brilho oratório foi substituído pelo calculismo sentimental e pela dissimulação retórica baça. E aquele ar inseguramente composto não cola definitivamente ao personagem. Estava ali toda a diferença entre o ministro de estado que "está" e o estadista que nunca chegará a "ser".

2. Ser e estar II. Trata-se de outro preocupante equívoco. Ninguém, ou muito pouca gente, presta atenção ao que diz o Dr. Ferro. É grave para um pretendente sério a São Bento. O aparelho jura-lhe fidelidade quotidiana e, na sombra, com Sócrates e outros, prepara-lhe o tapete. Ele também não ajuda. Falta-lhe em rasgo e audácia o que lhe sobra em teimosia e em seriedade. As "circunstâncias ocorrentes" não lhe foram propícias. "Está" secretário-geral, mas, malgré lui, não "é" uma alternativa.

3. Um direito e o Direito. Os quatro acordãos do Tribunal Constitucional acerca de recursos no processo Casa Pia devolveram alguma tranquilidade ao chamado "sentimento jurí­dico colectivo". Obrigam o juiz de 1ª instância a trabalhar com outra cautela, estando em causa a situação de arguidos presos. E garantem o elementar direito ao recurso e a apreciação superior das decisões jurisdicionais nos termos constitucionais. É quanto basta para se falar em Estado de direito.

4. Um helicóptero. O objecto devia ajudar a combater incêndios, na zona de Lamego, mas acolitava turistas. A irresponsabilidade inconsequente e leviana não tem limites neste País. A falta de vergonha também não. Desta vez o ministro não perdeu tempo e pôs os meliantes com dono. Quantas mais tontarias deste género haverá por este Portugal de pequeninos?

25.9.03

QUANDO TUDO CAI

Um estudo qualquer veio demonstrar que há umas boas dezenas de pontes prontas para cair a qualquer momento. Julgo que o distrito mais penalizado por esta eventualidade é Viana do Castelo. A célebre vaga do betão não pôde, pelos vistos, acudir a tudo. Mesmo as preciosas auto-estradas, os itinerários principais, as vias de circulação internas e externas ou as circulares, estão quase sempre em permanentes alargamentos ou encolhimentos. Até uma obscura rua de uma qualquer nossa cidade, não escapa ao esventramento. A paisagem assemelha-se muitas vezes a um estaleiro. Infelizmente nada disto chega para prevenir o pior. Fica-se com a sensação de que nada se planeia e que tudo é fruto do improviso e da adivinhação. Entretanto, as estruturas envelhecidas e em apodrecimento irreversível, vão cedendo. Como bons parolos, vivemos à superfície armados em "modernos". Só quando tudo cai é que se vê, que, por baixo, não há nada.

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QUANDO TUDO CAI

Um estudo qualquer veio demonstrar que há umas boas dezenas de pontes prontas para cair a qualquer momento. Julgo que o distrito mais penalizado por esta eventualidade é Viana do Castelo. A célebre vaga do betão não pôde, pelos vistos, acudir a tudo. Mesmo as preciosas auto-estradas, os itinerários principais, as vias de circulação internas e externas ou as circulares, estão quase sempre em permanentes alargamentos ou encolhimentos. Até uma obscura rua de uma qualquer nossa cidade, não escapa ao esventramento. A paisagem assemelha-se muitas vezes a um estaleiro. Infelizmente nada disto chega para prevenir o pior. Fica-se com a sensação de que nada se planeia e que tudo é fruto do improviso e da adivinhação. Entretanto, as estruturas envelhecidas e em apodrecimento irreversível, vão cedendo. Como bons parolos, vivemos à superfície armados em "modernos". Só quando tudo cai é que se vê, que, por baixo, não há nada.
QUANDO TUDO ARDE II

Um outro sinal de reconhecimento externo de algumas coisas nossas veio da Roménia. Os seus "colegas" escritores decidiram atribuir o denominado Prémio Ovídio a António Lobo Antunes, cronista e romancista publicado pela D. Quixote. Para não irmos mais longe, recomendo o "Auto dos Danados", "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" e as "Crónicas", que são dois livros. Por falar em livros, saiu em português, desse complexo escritor ironista que é Vladimir Nabokov, o primeiro volume dos seus "Contos Completos", editados simultaneamente pelo Círculo de Leitores e pela Teorema. Só falo nisto pela razão simples de que, a ler, nunca perdemos tempo.

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QUANDO TUDO ARDE II

Um outro sinal de reconhecimento externo de algumas coisas nossas veio da Roménia. Os seus "colegas" escritores decidiram atribuir o denominado Prémio Ovídio a António Lobo Antunes, cronista e romancista publicado pela D. Quixote. Para não irmos mais longe, recomendo o "Auto dos Danados", "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" e as "Crónicas", que são dois livros. Por falar em livros, saiu em português, desse complexo escritor ironista que é Vladimir Nabokov, o primeiro volume dos seus "Contos Completos", editados simultaneamente pelo Círculo de Leitores e pela Teorema. Só falo nisto pela razão simples de que, a ler, nunca perdemos tempo.

24.9.03

QUANDO TUDO ARDE

Vi ontem, na SIC Notícias, uma reportagem com um rapaz que vai entrar este ano na universidade. Tinha estado numas olimpíadas de matemática, na Argentina, se bem entendi, e trouxe de lá uma medalha de prata. Teve 20 na disciplina e parece-me que entra no IST com média de 19. Disse à  jornalista que gosta de jogar jogos de computador, que não tem namorada e que não pratica desporto. Tem, como mundo suficiente, a matemática. Nota-se-lhe a discreta ambição no gozo com que desfaz uma equação ou explica uma fórmula. A notí­cia passou praticamente despercebida, como é natural. Um País que passa o tempo a dar ouvidos e voz a tagarelas imbecis, não pode prestar atenção à felicidade deste rapaz. Provavelmente, e se for esperto, a seu tempo irá lá para fora. O que é que ele fica cá a fazer quando tudo arde ?

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QUANDO TUDO ARDE

Vi ontem, na SIC Notícias, uma reportagem com um rapaz que vai entrar este ano na universidade. Tinha estado numas olimpíadas de matemática, na Argentina, se bem entendi, e trouxe de lá uma medalha de prata. Teve 20 na disciplina e parece-me que entra no IST com média de 19. Disse à  jornalista que gosta de jogar jogos de computador, que não tem namorada e que não pratica desporto. Tem, como mundo suficiente, a matemática. Nota-se-lhe a discreta ambição no gozo com que desfaz uma equação ou explica uma fórmula. A notí­cia passou praticamente despercebida, como é natural. Um País que passa o tempo a dar ouvidos e voz a tagarelas imbecis, não pode prestar atenção à felicidade deste rapaz. Provavelmente, e se for esperto, a seu tempo irá lá para fora. O que é que ele fica cá a fazer quando tudo arde ?
PERSIGNAÇÕES

O Mundo e o País do "respeitinho" têm novas causas. Recomendo três exemplos:

-no Portugal e Arredores, um post que me dá conta de que a igreja católica, o mundo de incenso, disciplina e trevas em que cresci e em que fui mais ou menos educado - sem aparentes grandes resultados - se prepara para castrar a alegria de algumas das suas celebrações eucarísticas e de manifestações externas de religiosidade, privilegiando o soturno, a segregação e a circunspecção balofa;

-no Pulha - que imensa injustiça a desta auto-flagelação toponímica - está um post sobre "comportamentos sociais", digamos assim, nas primeiras classes dos nossos comboios, uma excelente observação de um pequeno mundo de pequenos privilegiados;

- na Administração Pública, que não é um blogue, mas que podia ser, desenvolve-se paulatinamente a doutrina do "atento, venerando e obrigado" de outras ocasiões, sob a capa da modernidade e da recuperação de valores "empresariais" (o que é isto?). O "mundo cão" que já era, vai tornar-se muito melhor por causa da anunciada caça à "excelência". Enquanto o "mérito" for estar sentado a horas e sair a horas, mesmo que haja um imenso vazio nesse intervalo, prenhe de "respeitinho" e de "espertinhos", o que é que interessa o "produto final"?

Amen.

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PERSIGNAÇÕES

O Mundo e o País do "respeitinho" têm novas causas. Recomendo três exemplos:

-no Portugal e Arredores, um post que me dá conta de que a igreja católica, o mundo de incenso, disciplina e trevas em que cresci e em que fui mais ou menos educado - sem aparentes grandes resultados - se prepara para castrar a alegria de algumas das suas celebrações eucarísticas e de manifestações externas de religiosidade, privilegiando o soturno, a segregação e a circunspecção balofa;

-no Pulha - que imensa injustiça a desta auto-flagelação toponímica - está um post sobre "comportamentos sociais", digamos assim, nas primeiras classes dos nossos comboios, uma excelente observação de um pequeno mundo de pequenos privilegiados;

- na Administração Pública, que não é um blogue, mas que podia ser, desenvolve-se paulatinamente a doutrina do "atento, venerando e obrigado" de outras ocasiões, sob a capa da modernidade e da recuperação de valores "empresariais" (o que é isto?). O "mundo cão" que já era, vai tornar-se muito melhor por causa da anunciada caça à "excelência". Enquanto o "mérito" for estar sentado a horas e sair a horas, mesmo que haja um imenso vazio nesse intervalo, prenhe de "respeitinho" e de "espertinhos", o que é que interessa o "produto final"?

Amen.
A MERDA E O ESTADO

Nos idos de 75, a expressão "merda", na versão "bardamerda", foi introduzida no léxico do Estado pelo então primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo. Alguns grupos folclóricos da época, acusavam-no de "fascista" e ele, no seu estilo desbragado e sincero, mandou-os "à parte". Naquela altura, era só mais um fait divers. Em 2003, na comemoração dos cento e muitos anos da veneranda instituição que dá pelo nome de Supremo Tribunal de Justiça, onde têm assento umas obscuras e subtis figuras que, em última análise, podem decidir radicalmente as nossas vidas, o termo foi inesperadamente recuperado. Andava a pobre da Sofia Pinto Coelho, da SIC, a saltitar de magistrado em magistrado para saber se era jubilado, conselheiro ou outra coisa qualquer de suma importância, quando passou por ela o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Sofia tentou perguntar-lhe qualquer coisa, mas a criatura atalhou "que não queria dizer nada". E, virando-se para a câmara, foi dizendo, ameaçando, que "ainda partia aquela merda toda". Eu ouvi e está no video da reportagem. Este cavalheiro é um magistrado judicial, presidente de um tribunal superior e um órgão de soberania do Estado português. Não é um vulgar acosssado, daqueles que enchem os noticiários das televisões, a quem se quer, a todo o custo, arrancar uma declaração. Convinha, por consequência, que cuidasse da língua. E que não fosse tão lesto a confundir o Estado com a merda, apesar de tudo.

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A MERDA E O ESTADO

Nos idos de 75, a expressão "merda", na versão "bardamerda", foi introduzida no léxico do Estado pelo então primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo. Alguns grupos folclóricos da época, acusavam-no de "fascista" e ele, no seu estilo desbragado e sincero, mandou-os "à parte". Naquela altura, era só mais um fait divers. Em 2003, na comemoração dos cento e muitos anos da veneranda instituição que dá pelo nome de Supremo Tribunal de Justiça, onde têm assento umas obscuras e subtis figuras que, em última análise, podem decidir radicalmente as nossas vidas, o termo foi inesperadamente recuperado. Andava a pobre da Sofia Pinto Coelho, da SIC, a saltitar de magistrado em magistrado para saber se era jubilado, conselheiro ou outra coisa qualquer de suma importância, quando passou por ela o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Sofia tentou perguntar-lhe qualquer coisa, mas a criatura atalhou "que não queria dizer nada". E, virando-se para a câmara, foi dizendo, ameaçando, que "ainda partia aquela merda toda". Eu ouvi e está no video da reportagem. Este cavalheiro é um magistrado judicial, presidente de um tribunal superior e um órgão de soberania do Estado português. Não é um vulgar acosssado, daqueles que enchem os noticiários das televisões, a quem se quer, a todo o custo, arrancar uma declaração. Convinha, por consequência, que cuidasse da língua. E que não fosse tão lesto a confundir o Estado com a merda, apesar de tudo.

23.9.03

EMPADÃO

O Dr. Santana Lopes tem na SIC, às terças-feiras, uma bancada solitária para exibir o seu esplendor oratório. Acontece que Lopes, exímio gladiador no debate e no combate, em versão a solo, parece um empadão. Para além disso, concorre com Miguel Sousa Tavares, na TVI, que possui a mais-valia de ter a língua completamente solta e uma audiência relativamente fiel. Por mais que se esforce, seja por uma alfinetada discreta ao Governo, seja por uma posição supostamente menos ortodoxa, aqui ou ali, Lopes só pode cumprir mediaticamente a velha máxima de Salazar: "decididos até onde ir, não devemos ir mais além". Tolhido pela chefia de um executivo camarário como o de Lisboa e pela primeira vice-presidência do PSD, Santana Lopes verdadeiramente não comenta. Limita-se a mostrar-se. O que para ele, já deve chegar.

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EMPADÃO

O Dr. Santana Lopes tem na SIC, às terças-feiras, uma bancada solitária para exibir o seu esplendor oratório. Acontece que Lopes, exímio gladiador no debate e no combate, em versão a solo, parece um empadão. Para além disso, concorre com Miguel Sousa Tavares, na TVI, que possui a mais-valia de ter a língua completamente solta e uma audiência relativamente fiel. Por mais que se esforce, seja por uma alfinetada discreta ao Governo, seja por uma posição supostamente menos ortodoxa, aqui ou ali, Lopes só pode cumprir mediaticamente a velha máxima de Salazar: "decididos até onde ir, não devemos ir mais além". Tolhido pela chefia de um executivo camarário como o de Lisboa e pela primeira vice-presidência do PSD, Santana Lopes verdadeiramente não comenta. Limita-se a mostrar-se. O que para ele, já deve chegar.
FRACASSOS

Nas Nações Unidas, em Nova Iorque, o grande timoneiro globalizado, George. W. Bush, vai reconhecer, perante o Mundo, Chirac e outros, que a sua estratégia para o Iraque falhou. Como esta se cruza com o mais vasto e obsessivo combate contra o terrorismo, pode juntar-lhe outro fracasso. De facto, passados dois anos, o Sr. Bin Laden continua vivo e protagonista de videos naturistas, em enquadramentos escarpados e aparentemente tranquilos. Os seus amigos talibans, ao que se julga, reorganizam-se serenamente. O Sr. Saddam, mais dado à actividade radiofónica, anda a monte. No Iraque, os pobres soldados americanos e a ONU são diariamente imolados pelas balas e pelas bombas. Finalmente, os últimos dados revelados pela Organização Mundial de Saúde e debatidos na Assembleia que antecedeu a Geral que hoje arranca, demonstram que um em cada dez africanos está infectado pelo vírus da SIDA. O que vai fazer-se em seguida para atalhar este drama, apenas cobrirá 5% dos potenciais infectados, o que representa estar a falar de cerca de seis milhões de seres humanos desse continente maldito e esquecido cá por cima. Tudo isto nos devia deixar preocupados. São demasiados fracassos num século que ainda mal começou.

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FRACASSOS

Nas Nações Unidas, em Nova Iorque, o grande timoneiro globalizado, George. W. Bush, vai reconhecer, perante o Mundo, Chirac e outros, que a sua estratégia para o Iraque falhou. Como esta se cruza com o mais vasto e obsessivo combate contra o terrorismo, pode juntar-lhe outro fracasso. De facto, passados dois anos, o Sr. Bin Laden continua vivo e protagonista de videos naturistas, em enquadramentos escarpados e aparentemente tranquilos. Os seus amigos talibans, ao que se julga, reorganizam-se serenamente. O Sr. Saddam, mais dado à actividade radiofónica, anda a monte. No Iraque, os pobres soldados americanos e a ONU são diariamente imolados pelas balas e pelas bombas. Finalmente, os últimos dados revelados pela Organização Mundial de Saúde e debatidos na Assembleia que antecedeu a Geral que hoje arranca, demonstram que um em cada dez africanos está infectado pelo vírus da SIDA. O que vai fazer-se em seguida para atalhar este drama, apenas cobrirá 5% dos potenciais infectados, o que representa estar a falar de cerca de seis milhões de seres humanos desse continente maldito e esquecido cá por cima. Tudo isto nos devia deixar preocupados. São demasiados fracassos num século que ainda mal começou.
TIRO DE PARTIDA

O Dr. Mário Soares, de Estrasburgo, disse que estava "radiante" pela circunstância de o Dr. António Vitorino não ter sido escolhido para secretário-geral da NATO. Esclareceu que o espera - ao Dr. Vitorino - "um destino e uma missão" muito importantes em Portugal. Não sei se, ao dizer isto, Soares já está a "arrumar" o "braço de ferro" e a sugerir outro rosto para liderar a inevitável alternativa ao Dr. Barroso. Uma coisa é certa. Vitorino está praticamente imaculado no partido e no País. Tem vindo progressivamente a esbater aquela imagem de irrequieto político que gosta de dizer umas graçolas, sem que, com isso, tenha perdido o sentido de humor, que é coisa bem diferente. A passagem europeia serenou-o e credibilizou-o. O Dr. Barroso ironicamente também põs a mão por baixo. Mais dia, menos dia, com a preciosa ajuda das televisões, vamos estar fartos dos mesmos, dos "sempre-em-pé" dos partidos que interessam. Ora para mandar, interessam o PSD e o PS. Desconheço o que passa pela cabeça de Vitorino, uma bela cabeça, aliás. Eu, que não concebo predestinados, aprecio preparados. Suspeito que, sem se mexer muito, Vitorino já começou involuntariamente a sua "maratona". Soares, o pai da Pátria, limitou-se a dar o tiro de partida.

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TIRO DE PARTIDA

O Dr. Mário Soares, de Estrasburgo, disse que estava "radiante" pela circunstância de o Dr. António Vitorino não ter sido escolhido para secretário-geral da NATO. Esclareceu que o espera - ao Dr. Vitorino - "um destino e uma missão" muito importantes em Portugal. Não sei se, ao dizer isto, Soares já está a "arrumar" o "braço de ferro" e a sugerir outro rosto para liderar a inevitável alternativa ao Dr. Barroso. Uma coisa é certa. Vitorino está praticamente imaculado no partido e no País. Tem vindo progressivamente a esbater aquela imagem de irrequieto político que gosta de dizer umas graçolas, sem que, com isso, tenha perdido o sentido de humor, que é coisa bem diferente. A passagem europeia serenou-o e credibilizou-o. O Dr. Barroso ironicamente também põs a mão por baixo. Mais dia, menos dia, com a preciosa ajuda das televisões, vamos estar fartos dos mesmos, dos "sempre-em-pé" dos partidos que interessam. Ora para mandar, interessam o PSD e o PS. Desconheço o que passa pela cabeça de Vitorino, uma bela cabeça, aliás. Eu, que não concebo predestinados, aprecio preparados. Suspeito que, sem se mexer muito, Vitorino já começou involuntariamente a sua "maratona". Soares, o pai da Pátria, limitou-se a dar o tiro de partida.

22.9.03

ÓPERA NÃO BUFA II

...até os anjos se preocupam com o São Carlos. Aguardamos uma opinião crítica, sempre bem vinda.

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ÓPERA NÃO BUFA II

...até os anjos se preocupam com o São Carlos. Aguardamos uma opinião crítica, sempre bem vinda.
ÓPERA NÃO BUFA

Depois de assistir ao concerto de abertura do Festival de Órgão de Lisboa, numa noite da semana passada, fui, com uns amigos ligados à cultura, à música e à ópera, cear algures perto da Sé. As conversas foram, pois, em torno da cultura, da música e da ópera. Quando digo ópera, digo Teatro Nacional de São Carlos. Pelo meio, alguém lembrou um texto de 1998, em que o Teatro era referido. Corria então na Gulbenkian um seminário sobre a "Europa e a Cultura". Maria Filomena Mónica perorou acerca do "Estado e a Cultura". Eu estava lá e ouvi muito bem. Fui à minha estante consultar as actas do Seminário, publicadas pela Fundação Gulbenkian e encontrei o texto. Tem cinco anos, mas julgo oportuno, no contexto do início da temporada minimalista do Teatro de ópera nacional, e ainda dentro do "ciclo" de posts que decidi dedicar à matéria, reproduzir aqui a parte da comunicação de Filomena Mónica sobre o dito. Antes, porém, uns comentários prévios:

1. A autora é bem mais radical do que eu quanto ao assunto. No entanto, já há cinco anos, alguém bem mais notório, notável e interessante do que eu, achava que o Teatro devia parar para pensar, como sugeri na minha carta de demissão deste ano.
2. A autora é muito crítica em relação a Manuel Maria Carrilho, à altura, o ministro da Cultura. Eu nem tanto. Teve pelo menos o mérito de acabar com a terrível Fundação de São Carlos, um embuste destinado a sorver dinheiros públicos sobre a capa respeitável da figura jurídica da "fundação".
3. A relação custo/benefí­cio num teatro de ópera, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, é qualquer coisa de complicado. Os problemas do São Carlos começaram muito cedo. Na década de 70 do século XIX, por exemplo, e para não irmos mais para trás, houve quem pensasse em entregar a exploração do Teatro a uma concessionária privada, mediante concurso. Meu caro A. M. Seabra, a famosa "sub-orçamentação" já vem de longe, como muito bem recorda. A questão dos famosos não-pagantes, "nomenklatura" e respectivos serventuários e amigos, mantêm-se quase inalterada, o que se justifica por ser porventura a única maneira de, a maior parte deles, ir, por uma vez, à ópera. O estudo de Carlos Barros referido no texto deverá, em breve, ser "actualizado, já que o autor pediu, enquanto eu estava no Teatro, dados recentes.
4. A formação de novos públicos e a ligação do Teatro com a escola, está na lei como letra-morta. Seja por causa dos dinheiros, seja por causa da absoluta ausência de um pensamento integrado e estratégico para o Teatro, ou seja, sobretudo, porque este tipo de investimento não pesa no curricula dos directores, nem dos maestros titulares, nem nas críticas amáveis, bem podem os espectadores ir morrendo de velhinhos...
5. O Teatro, agora, praticamente não"monta" uma produção e, sobretudo nos últimos anos, tem apostado em algumas co-produções. Mesmo em períodos anteriores aos referidos no texto de Filomena Mónica, designadamente com José Ribeiro da Fonte, isso já acontecia.

Dito isto, segue a citação.

(...) Durante anos, com base na tese de que uma sociedade civilizada teria de oferecer aos seus cidadãos um local onde se pudesse encenar ópera, argumentei que, independentemente dos custos, não se poderia fechar o Teatro Nacional de São Carlos. Não porque o frequentasse, mas porque, apesar de tudo, ali tinha assistido a algumas interpretações notáveis. A ópera, quando bem tocada, cantada e representada, é um prazer de tal forma sofisticado que gostaria de o tornar acessível a todos. Mas o projecto não se revelou de fácil execução. Por um lado, o São Carlos teima em fechar-se sobre si, e, por outro, a televisão não se interessa por divulgar o que ali é apresentado. Mais importante, a população não tem preparação para apreciar o que ali é cantado.
Um dia, em 1994, fiz as minhas contas. Previa que, num teatro de tão reduzida dimensão o custo por bilhete fosse elevado, mas nunca pensara que ascendesse a 31.740$00. Como, em média, os bilhetes da plateia andavam à volta de onze contos, isto significava que, de cada vez que eu assistia a um espectáculo, o Estado me dava um bónus de cerca de vinte contos. Mesmo assim continuei a defender a intervenção pública. Não em nome dos ricos - que se podem deslocar com facilidade a qualquer capital europeia - mas em nome da comunidade. Pensava que, com mais e melhor educação, os filhos da classe operária seriam, um dia, tão capazes de apreciar a "Tosca" quanto os filhos da burguesia. O montante do subsídio não me chocava, desde que o Estado se empenhasse em ensinar os meninos, todos os meninos, a ler uma pauta de música. Portugal não era suficientemente rico para que do seu solo brotassem mecenas capazes de organizar "Glyndebournes". Teria de ser o estado a colmatar a lacuna.
Mas as coisas foram-se complicando. Em primeiro lugar, o Estado não dava mostras de mudar fosse o que fosse no que à aprendizagem musical dizia respeito. Em segundo lugar, descobri algo de escabroso. Na base das estatísticas relativas aos bilhetes do São Carlos, entre 1989 e 1994, um professor do ISEG, Carlos Barros, concluiu que, nos trinta e seis espectáculos que o São Carlos organizara, das setecentas e quarenta e três pessoas que, em média, a eles tinha assistido, um terço, digo bem, um terço, não tinha comprado bilhete. Esta estranha fauna, composta pelos amigos dos ministros e pelos amigos dos amigos dos ministros, tinha recebido gratuitamente os bilhetes.
Eis senão quando verifico que o custo real de um bilhete do São Carlos é hoje (1997) de noventa e cinco contos. Sentindo talvez que o montante poderia chocar, o actual minsitro decidiu acrescentar o seguinte, após aquela revelação: "Temos que subsidiar o povo que vai à ópera". O povo?! Será que Manuel Maria Carrilho não reparou que, nem mesmo na geral, jamais se sentou um representante das classes populares? Hoje, penso que, enquanto as escolas portuguesas não tiverem professores de música, o São Carlos deve ser encerrado. Não quero que os meus impostos sejam utilizados para que a "nomenklatura" assista gratuitamente a récitas no São Carlos.
Sei que o problema não ficará resolvido. Continuo a pensar que uma comunidade precisa de uma sala onde possa ouvir ópera. Mas, para o fazer, convêm saber amá-la. E, sem estar educado, é impossível. A melhor forma de justificar uma companhia nacional seria através da sua capacidade para, em simultâneo, servir de escola para jovens intérrpretes, papel que o SãoCarlos nunca desempenhou. Aliás, terão todos os países, mesmo os mais pequenos e pobres, de possuir uma companhia lírica própria? Não se poderia, por exemplo, montar co-produções, que sucessivamente se apresentariam nas capitais europeias?

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ÓPERA NÃO BUFA

Depois de assistir ao concerto de abertura do Festival de Órgão de Lisboa, numa noite da semana passada, fui, com uns amigos ligados à cultura, à música e à ópera, cear algures perto da Sé. As conversas foram, pois, em torno da cultura, da música e da ópera. Quando digo ópera, digo Teatro Nacional de São Carlos. Pelo meio, alguém lembrou um texto de 1998, em que o Teatro era referido. Corria então na Gulbenkian um seminário sobre a "Europa e a Cultura". Maria Filomena Mónica perorou acerca do "Estado e a Cultura". Eu estava lá e ouvi muito bem. Fui à minha estante consultar as actas do Seminário, publicadas pela Fundação Gulbenkian e encontrei o texto. Tem cinco anos, mas julgo oportuno, no contexto do início da temporada minimalista do Teatro de ópera nacional, e ainda dentro do "ciclo" de posts que decidi dedicar à matéria, reproduzir aqui a parte da comunicação de Filomena Mónica sobre o dito. Antes, porém, uns comentários prévios:

1. A autora é bem mais radical do que eu quanto ao assunto. No entanto, já há cinco anos, alguém bem mais notório, notável e interessante do que eu, achava que o Teatro devia parar para pensar, como sugeri na minha carta de demissão deste ano.
2. A autora é muito crítica em relação a Manuel Maria Carrilho, à altura, o ministro da Cultura. Eu nem tanto. Teve pelo menos o mérito de acabar com a terrível Fundação de São Carlos, um embuste destinado a sorver dinheiros públicos sobre a capa respeitável da figura jurídica da "fundação".
3. A relação custo/benefí­cio num teatro de ópera, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, é qualquer coisa de complicado. Os problemas do São Carlos começaram muito cedo. Na década de 70 do século XIX, por exemplo, e para não irmos mais para trás, houve quem pensasse em entregar a exploração do Teatro a uma concessionária privada, mediante concurso. Meu caro A. M. Seabra, a famosa "sub-orçamentação" já vem de longe, como muito bem recorda. A questão dos famosos não-pagantes, "nomenklatura" e respectivos serventuários e amigos, mantêm-se quase inalterada, o que se justifica por ser porventura a única maneira de, a maior parte deles, ir, por uma vez, à ópera. O estudo de Carlos Barros referido no texto deverá, em breve, ser "actualizado, já que o autor pediu, enquanto eu estava no Teatro, dados recentes.
4. A formação de novos públicos e a ligação do Teatro com a escola, está na lei como letra-morta. Seja por causa dos dinheiros, seja por causa da absoluta ausência de um pensamento integrado e estratégico para o Teatro, ou seja, sobretudo, porque este tipo de investimento não pesa no curricula dos directores, nem dos maestros titulares, nem nas críticas amáveis, bem podem os espectadores ir morrendo de velhinhos...
5. O Teatro, agora, praticamente não"monta" uma produção e, sobretudo nos últimos anos, tem apostado em algumas co-produções. Mesmo em períodos anteriores aos referidos no texto de Filomena Mónica, designadamente com José Ribeiro da Fonte, isso já acontecia.

Dito isto, segue a citação.

(...) Durante anos, com base na tese de que uma sociedade civilizada teria de oferecer aos seus cidadãos um local onde se pudesse encenar ópera, argumentei que, independentemente dos custos, não se poderia fechar o Teatro Nacional de São Carlos. Não porque o frequentasse, mas porque, apesar de tudo, ali tinha assistido a algumas interpretações notáveis. A ópera, quando bem tocada, cantada e representada, é um prazer de tal forma sofisticado que gostaria de o tornar acessível a todos. Mas o projecto não se revelou de fácil execução. Por um lado, o São Carlos teima em fechar-se sobre si, e, por outro, a televisão não se interessa por divulgar o que ali é apresentado. Mais importante, a população não tem preparação para apreciar o que ali é cantado.
Um dia, em 1994, fiz as minhas contas. Previa que, num teatro de tão reduzida dimensão o custo por bilhete fosse elevado, mas nunca pensara que ascendesse a 31.740$00. Como, em média, os bilhetes da plateia andavam à volta de onze contos, isto significava que, de cada vez que eu assistia a um espectáculo, o Estado me dava um bónus de cerca de vinte contos. Mesmo assim continuei a defender a intervenção pública. Não em nome dos ricos - que se podem deslocar com facilidade a qualquer capital europeia - mas em nome da comunidade. Pensava que, com mais e melhor educação, os filhos da classe operária seriam, um dia, tão capazes de apreciar a "Tosca" quanto os filhos da burguesia. O montante do subsídio não me chocava, desde que o Estado se empenhasse em ensinar os meninos, todos os meninos, a ler uma pauta de música. Portugal não era suficientemente rico para que do seu solo brotassem mecenas capazes de organizar "Glyndebournes". Teria de ser o estado a colmatar a lacuna.
Mas as coisas foram-se complicando. Em primeiro lugar, o Estado não dava mostras de mudar fosse o que fosse no que à aprendizagem musical dizia respeito. Em segundo lugar, descobri algo de escabroso. Na base das estatísticas relativas aos bilhetes do São Carlos, entre 1989 e 1994, um professor do ISEG, Carlos Barros, concluiu que, nos trinta e seis espectáculos que o São Carlos organizara, das setecentas e quarenta e três pessoas que, em média, a eles tinha assistido, um terço, digo bem, um terço, não tinha comprado bilhete. Esta estranha fauna, composta pelos amigos dos ministros e pelos amigos dos amigos dos ministros, tinha recebido gratuitamente os bilhetes.
Eis senão quando verifico que o custo real de um bilhete do São Carlos é hoje (1997) de noventa e cinco contos. Sentindo talvez que o montante poderia chocar, o actual minsitro decidiu acrescentar o seguinte, após aquela revelação: "Temos que subsidiar o povo que vai à ópera". O povo?! Será que Manuel Maria Carrilho não reparou que, nem mesmo na geral, jamais se sentou um representante das classes populares? Hoje, penso que, enquanto as escolas portuguesas não tiverem professores de música, o São Carlos deve ser encerrado. Não quero que os meus impostos sejam utilizados para que a "nomenklatura" assista gratuitamente a récitas no São Carlos.
Sei que o problema não ficará resolvido. Continuo a pensar que uma comunidade precisa de uma sala onde possa ouvir ópera. Mas, para o fazer, convêm saber amá-la. E, sem estar educado, é impossível. A melhor forma de justificar uma companhia nacional seria através da sua capacidade para, em simultâneo, servir de escola para jovens intérrpretes, papel que o SãoCarlos nunca desempenhou. Aliás, terão todos os países, mesmo os mais pequenos e pobres, de possuir uma companhia lírica própria? Não se poderia, por exemplo, montar co-produções, que sucessivamente se apresentariam nas capitais europeias?

21.9.03

FLORILÉGIO DOMINGUEIRO

1º O que é que comunica a comunicação social? Perguntava, há uns anos, o José Pacheco Pereira. Dele têm vindo algumas reflexões críticas sobre o poder dos media e dos jornalistas, face à política, à sociedade, aos costumes. Porém, ele sabe bem como explorar o filão. Eu acompanho. É a sua forma, aliás intelectualmente estimulante, de "fazer política". Sem ter que se ajoelhar ou berrar.

2º Regressado. É o António Barreto, às crónicas de domingo no Público. Deve-se-lhe - é bom não esquecer - o melhor retrato feito nos últimos anos ao Engº António Guterres. Tem, por vezes, um desempenho de sibila, muito british, o que em nada diminui a qualidade das prosas e das análises. E começa bem. Sugere a remodelação do Governo e a remoção do Dr. Ferro.

3º Sexo, mentiras e videos. É a melhor síntese que consigo encontrar para as peripécias "Casa Pia" e respectivas adjacências. Alguns ilustres "colegas bloguistas" andam indignadíssimos como o "tal" blogue. Que me perdoem, mas eu não consigo enxergar grande diferença entre "ele", os rostos tapados e as vozes distorcidas que praticam quase diariamente assassinatos de carácter em directo nas televisões, e nos jornais, sem que ninguém se importe particularmente com o exercício. Trata-se apenas de formas diversas de explorar o anonimato cobarde. Quanto ao "processo" propriamente dito, prossegue ao ritmo de telenovela mexicana: hoje um recurso, amanhã, um video, depois de amanhã, uma carta, para a semana, um comunicado, etc. etc. Mas, descansai, está tudo em segredo de justiça.

4º VI Festival Internacional de Órgão de Lisboa. Estive no concerto de abertura, na Sé. Continua por lá, por Mafra, São Vicente de Fora, Basílica da Estrela, Mártires, Igrela Evangélica Alemã e Igreja de São Luis dos Franceses. A entrada é livre, e decorre até ao dia 6 de Outubro. Para quem, como Cioran, ache que sem Bach, Deus seria uma entidade de terceira categoria, pode ir hoje comprová-lo às 16.30, à Sé Patriarcal de Lisboa.

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FLORILÉGIO DOMINGUEIRO

1º O que é que comunica a comunicação social? Perguntava, há uns anos, o José Pacheco Pereira. Dele têm vindo algumas reflexões críticas sobre o poder dos media e dos jornalistas, face à política, à sociedade, aos costumes. Porém, ele sabe bem como explorar o filão. Eu acompanho. É a sua forma, aliás intelectualmente estimulante, de "fazer política". Sem ter que se ajoelhar ou berrar.

2º Regressado. É o António Barreto, às crónicas de domingo no Público. Deve-se-lhe - é bom não esquecer - o melhor retrato feito nos últimos anos ao Engº António Guterres. Tem, por vezes, um desempenho de sibila, muito british, o que em nada diminui a qualidade das prosas e das análises. E começa bem. Sugere a remodelação do Governo e a remoção do Dr. Ferro.

3º Sexo, mentiras e videos. É a melhor síntese que consigo encontrar para as peripécias "Casa Pia" e respectivas adjacências. Alguns ilustres "colegas bloguistas" andam indignadíssimos como o "tal" blogue. Que me perdoem, mas eu não consigo enxergar grande diferença entre "ele", os rostos tapados e as vozes distorcidas que praticam quase diariamente assassinatos de carácter em directo nas televisões, e nos jornais, sem que ninguém se importe particularmente com o exercício. Trata-se apenas de formas diversas de explorar o anonimato cobarde. Quanto ao "processo" propriamente dito, prossegue ao ritmo de telenovela mexicana: hoje um recurso, amanhã, um video, depois de amanhã, uma carta, para a semana, um comunicado, etc. etc. Mas, descansai, está tudo em segredo de justiça.

4º VI Festival Internacional de Órgão de Lisboa. Estive no concerto de abertura, na Sé. Continua por lá, por Mafra, São Vicente de Fora, Basílica da Estrela, Mártires, Igrela Evangélica Alemã e Igreja de São Luis dos Franceses. A entrada é livre, e decorre até ao dia 6 de Outubro. Para quem, como Cioran, ache que sem Bach, Deus seria uma entidade de terceira categoria, pode ir hoje comprová-lo às 16.30, à Sé Patriarcal de Lisboa.
O PÁSSARO GLORIOSO

Em condições normais, suas, Vasco Pulido Valente deveria ver hoje publicada mais uma crónica no Diário de Notícias. Infelizmente, e sobretudo para ele, tal não tem sido possível. Gore Vidal, num ensaio célebre que dedicou a Tenessee Williams, chamou-lhe "the glorious bird", o pássaro glorioso. A mim agrada-me pensar que, à sua impenitente maneira, Pulido Valente é o nosso pássaro glorioso. Alguém que pensa nisto e que, por entre um aparente desdém sobranceiro e cínico, paira por sobre um "país em diminutivo", com uma secreta, teimosa e revoltada esperança de que, um dia, qualquer coisa mude. Uma vez mais, aqui fica uma sua crónica passada, e o meu, nosso, desejo de o ver voar de novo no seu esplendor certeiro e mordaz, o único que vale a pena.

DESAPARECER?

por Vasco Pulido Valente


António Barreto acha «errado e nefasto» acreditar que os países não desaparecem e previne que Portugal pode desaparecer num futuro próximo, por efeito conjunto da globalização, da União Europeia e do peso da Espanha. Excepto no seu sentido corrente, a palavra «país» está longe de ser precisa. Significa simultaneamente «região», «província», «território», «terra», «terra onde se nasceu» e por aí fora. Como também Estado, nação e Estado-nação. Se António Barreto quer dizer que Portugal pode desaparecer como Estado, claro que sim. Perante a indiferença _ e o aplauso _ de quase toda a gente, o que dantes se chamava a «soberania» portuguesa é dia a dia absorvido pela «Europa», pela NATO e por uma multidão de organizações de beneficência duvidosa, que mandam cá dentro como em sua casa. Pior ainda: se a soberania exige (e não há dúvida que exige) um suporte económico com alguma independência, Portugal já desapareceu ou não tardará muito a desaparecer, coisa que eu não considero necessariamente uma desgraça. Mas, por baixo disto, fica sempre a nação: uma língua, uma cultura (e não falo aqui da cultura «erudita») e uma história. E o desaparecimento desse Portugal implica que os portugueses deixem de existir ou, pelo menos, que deixem de existir enquanto portugueses. O que não me parece provável. As nações da Europa moderna foram construídas pela força do Estado, que eliminou as diferenças locais para construir uma entidade única e uma única fidelidade patriótica. De resto, em certos casos, só superficialmente, como na Itália ou em Espanha. Hoje, os tempos não favorecem essa espécie de exercício. O risco é Portugal continuar marginal, vegetativo e pobre, e até com a ficção de um Estado, sem maneira de influenciar ou decidir o seu destino

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O PÁSSARO GLORIOSO

Em condições normais, suas, Vasco Pulido Valente deveria ver hoje publicada mais uma crónica no Diário de Notícias. Infelizmente, e sobretudo para ele, tal não tem sido possível. Gore Vidal, num ensaio célebre que dedicou a Tenessee Williams, chamou-lhe "the glorious bird", o pássaro glorioso. A mim agrada-me pensar que, à sua impenitente maneira, Pulido Valente é o nosso pássaro glorioso. Alguém que pensa nisto e que, por entre um aparente desdém sobranceiro e cínico, paira por sobre um "país em diminutivo", com uma secreta, teimosa e revoltada esperança de que, um dia, qualquer coisa mude. Uma vez mais, aqui fica uma sua crónica passada, e o meu, nosso, desejo de o ver voar de novo no seu esplendor certeiro e mordaz, o único que vale a pena.

DESAPARECER?

por Vasco Pulido Valente


António Barreto acha «errado e nefasto» acreditar que os países não desaparecem e previne que Portugal pode desaparecer num futuro próximo, por efeito conjunto da globalização, da União Europeia e do peso da Espanha. Excepto no seu sentido corrente, a palavra «país» está longe de ser precisa. Significa simultaneamente «região», «província», «território», «terra», «terra onde se nasceu» e por aí fora. Como também Estado, nação e Estado-nação. Se António Barreto quer dizer que Portugal pode desaparecer como Estado, claro que sim. Perante a indiferença _ e o aplauso _ de quase toda a gente, o que dantes se chamava a «soberania» portuguesa é dia a dia absorvido pela «Europa», pela NATO e por uma multidão de organizações de beneficência duvidosa, que mandam cá dentro como em sua casa. Pior ainda: se a soberania exige (e não há dúvida que exige) um suporte económico com alguma independência, Portugal já desapareceu ou não tardará muito a desaparecer, coisa que eu não considero necessariamente uma desgraça. Mas, por baixo disto, fica sempre a nação: uma língua, uma cultura (e não falo aqui da cultura «erudita») e uma história. E o desaparecimento desse Portugal implica que os portugueses deixem de existir ou, pelo menos, que deixem de existir enquanto portugueses. O que não me parece provável. As nações da Europa moderna foram construídas pela força do Estado, que eliminou as diferenças locais para construir uma entidade única e uma única fidelidade patriótica. De resto, em certos casos, só superficialmente, como na Itália ou em Espanha. Hoje, os tempos não favorecem essa espécie de exercício. O risco é Portugal continuar marginal, vegetativo e pobre, e até com a ficção de um Estado, sem maneira de influenciar ou decidir o seu destino

20.9.03

CARTÃO DE APRESENTAÇÃO

Ficou-se a saber que o Sr. Rumsfeld, amigo íntimo do Dr. Portas, achou que o Dr. Vitorino, para além de ser objectivamente brilhante e inteligente, era "europeísta". Como tal, não serve os desígnios dos EUA na NATO. É natural esta reacção do secretário da Defesa norte-americana. Ele está habituado ao convívio com seres como George W. Bush, cujas aptidões intelectuais são mundialmente conhecidas. Nada, pois, como baixar o nível de QI para chegar ao "melhor" nível. Não consta que o nosso "eurocalmo" de serviço tenha intercedido a favor do brilhantismo do Dr. Vitorino. Se calhar devia tê-lo feito. É que, mais dia, menos dia, Vitorino largará a Comissão Europeia. E, à falta de melhor, pode tentar-se a voltar às lides partidárias. O Dr. Costa já deu esta semana o tom, ao zurzir um dos pilares mais frágeis da actual maioria, a recuperação económica. A pior coisa que pode acontecer ao Dr. Barroso é ter um "desejado" pela frente. E segundo Rumsfeld, brilhante e europeísta. É um belo cartão de apresentação para os próximos tempos.

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CARTÃO DE APRESENTAÇÃO

Ficou-se a saber que o Sr. Rumsfeld, amigo íntimo do Dr. Portas, achou que o Dr. Vitorino, para além de ser objectivamente brilhante e inteligente, era "europeísta". Como tal, não serve os desígnios dos EUA na NATO. É natural esta reacção do secretário da Defesa norte-americana. Ele está habituado ao convívio com seres como George W. Bush, cujas aptidões intelectuais são mundialmente conhecidas. Nada, pois, como baixar o nível de QI para chegar ao "melhor" nível. Não consta que o nosso "eurocalmo" de serviço tenha intercedido a favor do brilhantismo do Dr. Vitorino. Se calhar devia tê-lo feito. É que, mais dia, menos dia, Vitorino largará a Comissão Europeia. E, à falta de melhor, pode tentar-se a voltar às lides partidárias. O Dr. Costa já deu esta semana o tom, ao zurzir um dos pilares mais frágeis da actual maioria, a recuperação económica. A pior coisa que pode acontecer ao Dr. Barroso é ter um "desejado" pela frente. E segundo Rumsfeld, brilhante e europeísta. É um belo cartão de apresentação para os próximos tempos.
LER

Já há uns tempos que não evoco aqui leituras. Sem prejuízo de, a um ou a outro, vir a dedicar um post brevemente, deixo três escolhas. A primeira, é um texto muito interessante de Martin Amis, em torno da figura de Staline e das atrocidades do totalitarismo, com o seu pai, o autor Kingsley Amis, do grupo dos "angry young men",pelo meio, e que foi comunista nos seus "early days" . Está traduzido pela Teorema como Koba, O Terrível. A segunda refere-se ao último ensaio de Susan Sontag, publicado pela Gótica, Olhando o Sofrimento dos Outros, uma reflexão em torno do poder da imagem essencialmente sobre a violência, retomada vinte e tal anos após os seus Ensaios sobre Fotografia (On Photography), então editados - e esgotados (atenção Nelson) - pela D. Quixote. Finalmente a minha última escolha vai para um livro de bolso em espanhol (Ed. Punto de Lectura), de Mario Vargas Llosa, La Verdad de las Mentiras, que reúne um conjunto de ensaios do autor peruano acerca de obras literárias do século XX.

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LER

Já há uns tempos que não evoco aqui leituras. Sem prejuízo de, a um ou a outro, vir a dedicar um post brevemente, deixo três escolhas. A primeira, é um texto muito interessante de Martin Amis, em torno da figura de Staline e das atrocidades do totalitarismo, com o seu pai, o autor Kingsley Amis, do grupo dos "angry young men",pelo meio, e que foi comunista nos seus "early days" . Está traduzido pela Teorema como Koba, O Terrível. A segunda refere-se ao último ensaio de Susan Sontag, publicado pela Gótica, Olhando o Sofrimento dos Outros, uma reflexão em torno do poder da imagem essencialmente sobre a violência, retomada vinte e tal anos após os seus Ensaios sobre Fotografia (On Photography), então editados - e esgotados (atenção Nelson) - pela D. Quixote. Finalmente a minha última escolha vai para um livro de bolso em espanhol (Ed. Punto de Lectura), de Mario Vargas Llosa, La Verdad de las Mentiras, que reúne um conjunto de ensaios do autor peruano acerca de obras literárias do século XX.

19.9.03

O EUROCALMO

Quase uma semana depois do Dr. Portas ter feito aquelas declarações sui generis sobre imigração, no seu comício caseiro, parece que houve finalmente algum sobressalto no partido maioritário e no Governo relativamente ao assunto. E parece que houve quem não tivesse apreciado, embora, como vem sendo costume, não se retirem quaisquer consequências mais sérias do episódio. Este fenómeno da "anestesia" cívica que começou com Guterres, está para durar, ao que tudo indica. Agora, na sua moção ao congresso do PP, Portas diz-se "eurocalmo". Podia ser uma marca de indutor do sono, um sabonete ou um creme depilador. Não, nada disso: é mesmo o adjectivo escolhido pelo líder para caracterizar a postura do "braço direito" em relação às eleições europeias do próximo ano. Portas quer coligação, mas vai dizendo que não se importa de ir singularmente a votos. Daí o "eurocalmo", para que a eventual parceria não pareça demasiado escandalosa. Para quem é adepto da "política democrática" no sentido que lhe tenho atribuído neste blogue, ou para quem adopte uma perspectiva "republicana" e "europeia" do exercício das funções públicas, ter o Dr. Portas por companhia, naquelas eleições, mesmo em versão "calma", não é seguramente muito recomendável. O melhor mesmo será o "braço direito" ir oportunamente à sua vida.

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O EUROCALMO

Quase uma semana depois do Dr. Portas ter feito aquelas declarações sui generis sobre imigração, no seu comício caseiro, parece que houve finalmente algum sobressalto no partido maioritário e no Governo relativamente ao assunto. E parece que houve quem não tivesse apreciado, embora, como vem sendo costume, não se retirem quaisquer consequências mais sérias do episódio. Este fenómeno da "anestesia" cívica que começou com Guterres, está para durar, ao que tudo indica. Agora, na sua moção ao congresso do PP, Portas diz-se "eurocalmo". Podia ser uma marca de indutor do sono, um sabonete ou um creme depilador. Não, nada disso: é mesmo o adjectivo escolhido pelo líder para caracterizar a postura do "braço direito" em relação às eleições europeias do próximo ano. Portas quer coligação, mas vai dizendo que não se importa de ir singularmente a votos. Daí o "eurocalmo", para que a eventual parceria não pareça demasiado escandalosa. Para quem é adepto da "política democrática" no sentido que lhe tenho atribuído neste blogue, ou para quem adopte uma perspectiva "republicana" e "europeia" do exercício das funções públicas, ter o Dr. Portas por companhia, naquelas eleições, mesmo em versão "calma", não é seguramente muito recomendável. O melhor mesmo será o "braço direito" ir oportunamente à sua vida.
UM PONTO FINAL

Vamos lá tentar concluir o raciocínio do post de ontem sobre o Teatro de São Carlos. De caminho, pode servir para outros, designadamente o D. Maria. O ministério da Cultura dispunha, desde 1997/1998, de um corpo legislativo razoavelmente harmónico, de um conjunto de diplomas orgânicos razoavelmente bem feitos e adequados aos propósitos dos organismos. Depois, havia uma base também razoável de sustentação orçamental para aquilo tudo. E, finalmente, dado nada dispiciendo, havia o ministro, Manuel Maria Carrilho. Os governantes têm, quase todos, a irreprimível tendência para deixar a sua marca, e o caminho mais fácil, num país de "jurisabundância", é fazer mais leis. Para os teatros, as tutelas, em vez de se preocuparem com o problema orçamental, só pensam em alterar os respectivos estatutos. O resultado está à vista: um túmulo no Rossio, uma trapalhada no Chiado. Do que se sabe, pretende-se que sejam geridos por conselhos de administração chorudamente pagos, deixando fora destes as direcções artísticas, como os treinadores nas famosas "sad's". Presume-se que o director artístico também venha a ser bem pago, como é já o caso do Teatro São Carlos, cuja lei orgânica foi alterada exclusivamente para permitir a entrada do actual titular. Acho isto tudo um razoável disparate. Não só não vejo necessidade, depois do péssimo exemplo da defunta Fundação São Carlos, e no actual contexto orçamental, de presumíveis prebendas despropositadas para gerir os teatros, como entendo que os directores artísticos, sem prejuízo de poderem integrar o órgão de gestão, não devem ser os presidentes ou directores dos teatros. O que vi e conheci no São Carlos bastou-me para, se tinha quaisquer dúvidas, ficar sem elas, nesta matéria. O D. Maria repousa, para já, num quase eterno descanso. O São Carlos vive um frenesim vazio, virado para dentro, e sem que nada de verdadeiramente estimulante lá se passe, como vimos ontem. Como tudo isto custa dinheiro aos contribuintes e paciência aos trabalhadores, conviria pôr-lhe um digno ponto final.

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UM PONTO FINAL

Vamos lá tentar concluir o raciocínio do post de ontem sobre o Teatro de São Carlos. De caminho, pode servir para outros, designadamente o D. Maria. O ministério da Cultura dispunha, desde 1997/1998, de um corpo legislativo razoavelmente harmónico, de um conjunto de diplomas orgânicos razoavelmente bem feitos e adequados aos propósitos dos organismos. Depois, havia uma base também razoável de sustentação orçamental para aquilo tudo. E, finalmente, dado nada dispiciendo, havia o ministro, Manuel Maria Carrilho. Os governantes têm, quase todos, a irreprimível tendência para deixar a sua marca, e o caminho mais fácil, num país de "jurisabundância", é fazer mais leis. Para os teatros, as tutelas, em vez de se preocuparem com o problema orçamental, só pensam em alterar os respectivos estatutos. O resultado está à vista: um túmulo no Rossio, uma trapalhada no Chiado. Do que se sabe, pretende-se que sejam geridos por conselhos de administração chorudamente pagos, deixando fora destes as direcções artísticas, como os treinadores nas famosas "sad's". Presume-se que o director artístico também venha a ser bem pago, como é já o caso do Teatro São Carlos, cuja lei orgânica foi alterada exclusivamente para permitir a entrada do actual titular. Acho isto tudo um razoável disparate. Não só não vejo necessidade, depois do péssimo exemplo da defunta Fundação São Carlos, e no actual contexto orçamental, de presumíveis prebendas despropositadas para gerir os teatros, como entendo que os directores artísticos, sem prejuízo de poderem integrar o órgão de gestão, não devem ser os presidentes ou directores dos teatros. O que vi e conheci no São Carlos bastou-me para, se tinha quaisquer dúvidas, ficar sem elas, nesta matéria. O D. Maria repousa, para já, num quase eterno descanso. O São Carlos vive um frenesim vazio, virado para dentro, e sem que nada de verdadeiramente estimulante lá se passe, como vimos ontem. Como tudo isto custa dinheiro aos contribuintes e paciência aos trabalhadores, conviria pôr-lhe um digno ponto final.

18.9.03

UM BAILE DE MÁSCARAS

Um rápido relance aos jornais e vejo que o Ministério da Cultura, nas excelentes pessoas do ministro e do secretário de Estado, se associou à apresentação da "temporada de Outono" do único teatro de ópera português, o São Carlos. Óperas propriamente ditas, verdadeiramente só a partir de Janeiro. Agora o teatro está fechado para obras de manutenção, particularmente na zona de apoio - não na zona pública, nem no palco - as quais, grossomodo, foram ainda planeadas por mim, quando fazia parte do conselho directivo da casa. Quando me demiti dali em Abril, expliquei que o fazia por duas ou três razões fundamentais que, pelo que vejo, se mantêm: um orçamento desproporcionado, para baixo, em relação às necessidades de programação, uma organização interna cheia de vícios corporativos e praticamente inamovível e uma direcção errática, mais virada para o seu próprio umbigo do que para a instituição que dirige. O Ministério da Cultura podia ter-se poupado ao exercício algo patético ontem proporcionado pelo conselho directivo do TNSC e hoje, de alguma forma, denunciado pelos artigos dos jornais: "a conta-gotas" ou "onde está a temporada de ópera?". Tudo tem um princípio, um meio e um fim. Será que os actuais titulares da Cultura ainda não entenderam que está na hora de agradecer ao director artístico do São Carlos a prestação dos últimos anos e de partir para outra? Até quando se irá manter este funesto "baile de máscaras"?

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UM BAILE DE MÁSCARAS

Um rápido relance aos jornais e vejo que o Ministério da Cultura, nas excelentes pessoas do ministro e do secretário de Estado, se associou à apresentação da "temporada de Outono" do único teatro de ópera português, o São Carlos. Óperas propriamente ditas, verdadeiramente só a partir de Janeiro. Agora o teatro está fechado para obras de manutenção, particularmente na zona de apoio - não na zona pública, nem no palco - as quais, grossomodo, foram ainda planeadas por mim, quando fazia parte do conselho directivo da casa. Quando me demiti dali em Abril, expliquei que o fazia por duas ou três razões fundamentais que, pelo que vejo, se mantêm: um orçamento desproporcionado, para baixo, em relação às necessidades de programação, uma organização interna cheia de vícios corporativos e praticamente inamovível e uma direcção errática, mais virada para o seu próprio umbigo do que para a instituição que dirige. O Ministério da Cultura podia ter-se poupado ao exercício algo patético ontem proporcionado pelo conselho directivo do TNSC e hoje, de alguma forma, denunciado pelos artigos dos jornais: "a conta-gotas" ou "onde está a temporada de ópera?". Tudo tem um princípio, um meio e um fim. Será que os actuais titulares da Cultura ainda não entenderam que está na hora de agradecer ao director artístico do São Carlos a prestação dos últimos anos e de partir para outra? Até quando se irá manter este funesto "baile de máscaras"?

17.9.03

TOYS'R'US

Comecei por ficar muito satisfeito por nos saber ao lado e acima de muitos dos nossos "colegas" da OCDE em matéria de investimento no ensino básico. Segundo aquela organização, Portugal é um dos países que mais dinheiro tem colocado naquele segmento da nossa população escolar. Depois veio o resto. Ao investimento realizado, não tem correspondido um resultado satisfatório no que concerne ao "rendimento" dos meninos. Eu, como decerto têm reparado, ando aqui há cerca de três meses a esforçar-me por encontrar coisas nossas, boas, e em bom. Verdadeiramente não tenho culpa de que haja quase sempre muito pouco que mereça ser puxado para cima. Julgo, enfim, que deve haver qualquer problema com esta raça. Eu ainda hoje me admiro como é que foi possível a aventura militar e tecnológica do desembarque de 1415 em Ceuta. Ou mesmo o que se seguiu por esses mares e terras em que, certamente por engano, ancoraram portugueses. Mais uns anitos, e as criancinhas básicas do básico ouvirão vagamente falar de tudo isto, como se de uma aventura à Potter se tratasse. Para eles, como para os mais crescidos, de muitos anos já feitos, será apenas mais uma brincadeira deste original "toys'r'us".

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TOYS'R'US

Comecei por ficar muito satisfeito por nos saber ao lado e acima de muitos dos nossos "colegas" da OCDE em matéria de investimento no ensino básico. Segundo aquela organização, Portugal é um dos países que mais dinheiro tem colocado naquele segmento da nossa população escolar. Depois veio o resto. Ao investimento realizado, não tem correspondido um resultado satisfatório no que concerne ao "rendimento" dos meninos. Eu, como decerto têm reparado, ando aqui há cerca de três meses a esforçar-me por encontrar coisas nossas, boas, e em bom. Verdadeiramente não tenho culpa de que haja quase sempre muito pouco que mereça ser puxado para cima. Julgo, enfim, que deve haver qualquer problema com esta raça. Eu ainda hoje me admiro como é que foi possível a aventura militar e tecnológica do desembarque de 1415 em Ceuta. Ou mesmo o que se seguiu por esses mares e terras em que, certamente por engano, ancoraram portugueses. Mais uns anitos, e as criancinhas básicas do básico ouvirão vagamente falar de tudo isto, como se de uma aventura à Potter se tratasse. Para eles, como para os mais crescidos, de muitos anos já feitos, será apenas mais uma brincadeira deste original "toys'r'us".
SAUDAÇÃO....
.... a mais um cidadão do mundo, que me parece livre (não confundir com "liberal", esse poço bcbg em que toda a gente adora mergulhar)

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SAUDAÇÃO....
.... a mais um cidadão do mundo, que me parece livre (não confundir com "liberal", esse poço bcbg em que toda a gente adora mergulhar)

16.9.03

CREIO NO INFERNO, É PORTANTO AÍ QUE ESTOU...

....a frase é de Arthur Rimbaud, vista no Almocreve, mas é também por aí que eu ando. Daí ou daqui ( o Inferno é estar sentado no deserto, por exemplo), saúdo o regresso de Ulisses à Pátria, e saúdo ainda os papéis velhos e a gente viva do Abrupto. Os outros, os mortos-vivos prenhes de neurónios de que fala, podem, delicadamente, deslizar.

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CREIO NO INFERNO, É PORTANTO AÍ QUE ESTOU...

....a frase é de Arthur Rimbaud, vista no Almocreve, mas é também por aí que eu ando. Daí ou daqui ( o Inferno é estar sentado no deserto, por exemplo), saúdo o regresso de Ulisses à Pátria, e saúdo ainda os papéis velhos e a gente viva do Abrupto. Os outros, os mortos-vivos prenhes de neurónios de que fala, podem, delicadamente, deslizar.
A RECEITA E O BARÓMETRO

Houve para aí uma pequena agitação doméstica por causa da receita. Não se trata de nada verdadeiramente novo. A execução orçamental é, em regra, e desde há anos, razoavelmente medíocre no que concerne à receita. Seja pela exiguidade do universo efectivamente tributado - isto é, notórios contribuintes e notórios pagantes -, seja pela correspondente evasão fiscal jamais erradicada ou diminuída, seja pelo nível da fiscalidade que convida a essa mesma elisão ou fuga, seja, ainda, pela erosão da máquina fiscal, o certo é que as nossas famosas contas hão-de andar sempre assim, coxinhas. Por outro lado, o ministro da economia, que de vez em quando desce à Terra, descobriu uma coisa extraordinária: que isto, afinal, não é tão mau, que nós não somos maus, só produzimos é pouco... Pois é. Esperemos para ver o que dá até 2010, diz o Dr. Barroso. Até lá, mais conversa sobre "produtividade" e "competitividade". E um "barómetro" para medir os putativos sucessos. A receita não medra, os nossos empresários também não crescem de " geração expontânea", a longa manus do Estado é o que se vê, e as famílias, que adoram gastar, vão começar a não achar graça nenhuma ao resultado. Mas também aqui não há qualquer problema. Na realidade, ninguém sabe onde é que isto vai parar. Nem julgo que verdadeiramente alguém se importe. Para quê?