
«Vim a Bogotá com alguma desconfiança inicial, confesso. Mas quando ouvi um dos oradores da sessão inaugural citar da tribuna, em tradução espanhola, a entrada de Baco no palácio de Neptuno no Canto VI de Os Lusíadas e, na manhã seguinte, pude visitar as cosmologias apresentadas nas peças excepcionais do Museo del Oro y de la Esmeralda, testemunhando de um cruzamento local de culturas de milénios, devo dizer que me comoveu o confronto dessas presenças do mito naquilo em que, seja ele o que for (até o pessoano "nada que é tudo") pode contribuir para a identidade de dois povos tão diferentes como os que aqui têm estado em presença: o mito pode simbolizar o cosmos e o papel do homem na sua passagem através dele e na luta a que tem de se entregar para vencer a adversidade. Por falar em mito, e entendendo agora a palavra em termos hábeis: o jovem comissário luso-colombiano, Jerónimo Pizarro, professor da Universidad de los Andes, está muito provavelmente a caminho de se tornar o maior especialista mundial de Fernando Pessoa da sua geração. Não sendo eu "pessoano", nem de perto nem de longe, entendo dever sublinhar o seguinte: esta foi uma ocasião extremamente bem sucedida em tudo aquilo que referi e que vai a crédito do Governo Português, em especial do Ministro da Economia e do secretário de Estado da Cultura (no caso, eu diria exactamente o mesmo se o Governo responsável pela nossa vinda fosse do PS). Nesse quadro, que tem de ter um futuro positivo, será importante que o papel que Jerónimo Pizarro pode ter na investigação e actuação qualificada ao serviço da cultura portuguesa não seja relegado, ao sabor de burocracias inócuas, para uma prateleira de coisas em que se há-de pensar um dia. Esse mito não nos serviria para nada... A universidade portuguesa sabe-o muito melhor do que eu e a política portuguesa deve passar a sabê-lo ainda melhor do que a universidade.»
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