21.4.13

Introdução ao estudo do consenso

À semelhança de Napoleão, não aprecio correntes de ar. Também me dou mal com as mudanças bruscas de tempo: época de alergias, de dores de olhos e de cabeça, etc., etc. Depois o país não ajuda e, talvez, fosse outra a idade, preferisse outro país, outro lugar como nuns versos mortos do Joaquim Manuel Magalhães. A semana que passou foi sobretudo marcada pelo vocábulo "consenso". Os delíquios e os transportes românticos que imediatamente se seguiram à enunciação do termo ilustram o estado geral da arte. Até há uns dias atrás não havia "consenso" algum. Depois, graças à figura retórica da anáfora, o "consenso" entrou no léxico corrente com a mesma velocidade e frequência de coisas como "ajustamento", "mercado" ou "troika". Quando era adolescente e comecei a prestar alguma atenção a isto, acreditava no valor salvifíco do "consenso". O então PR Eanes socorria-se dele em abundância, já nessa altura, para criticar os governos que o não assegurassem. Todavia a "época" era outra e a legitimação da democracia e o progressivo fim da revolução exigiam ao Presidente o combate institucional pelos "consensos". Mas, cedo, Sá Carneiro (ou os Reformadores antes dele) exigiu rupturas e demarcações claras de território. E Cavaco, em 1985, assim que pôde acabou com o "consenso" do bloco central para instaurar a maioria monopartidária que trouxe estabilidade (e algum famoso e atrasado "crescimento") ao país. O "consenso" de que se fala hoje aparentemente é outra coisa e para outros efeitos. Pulido Valente resumiu a farta equanimidade "consensual" no Público. «Ninguém se deu à excessiva franqueza de explicar exactamente em que consiste. A troika quer o consenso, por motivos que não se compreendem e que, de qualquer maneira, não convém que a ralé conheça. Como a troika quer, de quando em quando o governo conversa com o PS ou manda uma cartinha ao dr. Seguro, com o propósito de exibir a sua obediência e magnanimidade; e o PS, que se acha “enxovalhado” e “humilhado”, responde com duas pedras na mão. Aqui, chega a altura de o PSD também se sentir “humilhado” e “enxovalhado” e de se cobrir dignamente com a gravidade do Estado. Sucede, ainda por cima, que o PS nunca aceitará a política do PSD, nem o PSD a do PS (...). E é assim que com meia dúzia de horas de “debate” por noite a nata do nosso querido país pratica a democracia e, com dificuldade, vai educando a ralé.» Como dizia Eanes no 25 de Abril de 1977, citado neste livro, "não se pode continuar a iludir o futuro com as frustrações do passado".

1 comentário:

Anónimo disse...

"À semelhança de Napoleão..."

Introdução ao estudo da hipertrofia do ego. (Spoiler alert: cura-se com amputação. Temos pena...)