14.2.13

O olho cosmológico


 


O Francisco José Viegas introduziu abruptamente no léxico político-mediático a problemática do olho cosmológico (fórmula "henrymilleriana" que encontro para não nomear a coisa a bem da moral e dos bons costumes) a propósito de outra problemática, desnecessária (houvesse mundo em quem a gerou), em torno, no fundo, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos (vamos, por uma vez, dar aqui o nome às coisas). Só não lhe aplaudo - ele sabe e damos-nos bem com isso - o "acordografês" do texto. Por isso, e para a troca, ofereço ao Francisco prosa boa de João Ubaldo Ribeiro que ele aprecia, tirada do extraordinário monólogo feminino A Casa dos Budas Ditosos. «Provavelmente nunca mais será ouvida a pergunta imortal que um amigo meu escutou, depois de enfrentar galhardamente a primeira com uma portuguesa belíssima, ele que antes estava até com medo de broxar. Ele me contou que, satisfeito e aliviadíssimo, estava fumando o tradicional cigarrinho "post coitum", quando ela olhou para ele e falou: "E ao cu, não me vais?". Fantástico, disse ele; emocionante. E fui-lhe ao cu, disse ele, que maravilha. Imagine aqui no Brasil, uma mulher fazer uma pergunta dessas, não faz. Eu morei no bairro de Alvalade, dava para ir andando ao Campo Pequeno, cansei de ir às corridas somente para ver as bundas apertadinhas dos forcados. Sou contra essa teoria segundo a qual os brasileiros têm belas bundas e alimentam uma fixação patológica por bundas somente por causa dos africanos. Isto é preconceito, as belas bundas da nossa gente vêm tanto de África quanto de Portugal, tanto assim que eu não tenho sangue africano nenhum, pelo menos que eu saiba, e sempre portei uma bunda acima de qualquer crítica, até hoje não envergonho. Duvido que, se eu disser a algum homem que me coma e "ao cu, não me vais?", ele não vá imediatamente.»

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