30.4.11

O CÉU QUE NOS PROTEGE

Algures durante a próxima semana, a troika apresenta o próximo governo de Portugal. Não as pessoas, evidentemente, mas o programa que essas pessoas - a escolher pelo "povo" a 5 de Junho - terão de aplicar. Por isso, coisas como "novas fronteiras", "estados gerais" ou "mais sociedade" só valem para os respectivos participantes falarem uns com os outros e para meia dúzia de "independentes" se "posicionarem" no futuro (deles) próximo. Tudo o que os partidos disserem fora do contexto elaborado pelo FMI, pelo BCE e pelo FEEF da Comissão Europeia equivale ao peso de farturas em feiras. Infelizmente a comunicação social, sempre chineleira e irresponsável, irá explorar até à vigésima quinta casa os fait divers, os ditos dos lellos de serviço, o make up, a frase mais ou menos "assassina" como se os tempos nacionais fossem de casamento real. Sucede que não são. Portugal teve de se baixar por causa de um alucinado com nome e por causa da sua endémica periferia material e instintual, responsabilidade de todos. Por isso, e como escreve Rui Ramos no Expresso, o tempo é de confrontos e não de consensos estilo pão de ló. Infelizmente os resultados de 5 de Junho serão de tal forma politicamente medíocres que as "pessoas mais influentes de Portugal", desde a fadista Marisa ao PR, reclamarão imediatamente um farto pastelão que possa servir morna a receita da troika. A sobredita comunicação social, com os seus comentadorzinhos igualmente previsíveis, mornos e horizontais, encarrega-se do resto, "puxando" e "enterrando" conforme o telefonema dos últimos cinco minutos. A "receita" externa conjuntural, por mais longa que seja, não muda uma "estrutura" nem uma mentalidade com séculos de inépcia burgessa como lastro. Não era granizo que nos devia cair em cima. Era o céu.

O CÉU QUE NOS PROTEGE

Algures durante a próxima semana, a troika apresenta o próximo governo de Portugal. Não as pessoas, evidentemente, mas o programa que essas pessoas - a escolher pelo "povo" a 5 de Junho - terão de aplicar. Por isso, coisas como "novas fronteiras", "estados gerais" ou "mais sociedade" só valem para os respectivos participantes falarem uns com os outros e para meia dúzia de "independentes" se "posicionarem" no futuro (deles) próximo. Tudo o que os partidos disserem fora do contexto elaborado pelo FMI, pelo BCE e pelo FEEF da Comissão Europeia equivale ao peso de farturas em feiras. Infelizmente a comunicação social, sempre chineleira e irresponsável, irá explorar até à vigésima quinta casa os fait divers, os ditos dos lellos de serviço, o make up, a frase mais ou menos "assassina" como se os tempos nacionais fossem de casamento real. Sucede que não são. Portugal teve de se baixar por causa de um alucinado com nome e por causa da sua endémica periferia material e instintual, responsabilidade de todos. Por isso, e como escreve Rui Ramos no Expresso, o tempo é de confrontos e não de consensos estilo pão de ló. Infelizmente os resultados de 5 de Junho serão de tal forma politicamente medíocres que as "pessoas mais influentes de Portugal", desde a fadista Marisa ao PR, reclamarão imediatamente um farto pastelão que possa servir morna a receita da troika. A sobredita comunicação social, com os seus comentadorzinhos igualmente previsíveis, mornos e horizontais, encarrega-se do resto, "puxando" e "enterrando" conforme o telefonema dos últimos cinco minutos. A "receita" externa conjuntural, por mais longa que seja, não muda uma "estrutura" nem uma mentalidade com séculos de inépcia burgessa como lastro. Não era granizo que nos devia cair em cima. Era o céu.

29.4.11

«COMPROMISSO NACIONAL»*


«Os quatro presidentes da República, para celebrar o "25 de Abril", vieram pedir aos portugueses nada mais, nada menos do que um "compromisso nacional". E o dr. Cavaco pareceu exigir (ou exigiu mesmo) um governo maioritário para depois do 5 de Junho. Dada a natureza angélica destas quatro entidades, é difícil compreender se estavam a falar a sério ou se conversavam directamente com o Altíssimo, porque em si própria a proposta não passa de uma piedade pretensiosa e estúpida. Não há maneira de garantir um "compromisso" entre os portugueses, nacional ou outro, no estado a que o país chegou, a não ser pela força; e não há maneira de misturar (ou fundir) o que é claramente e proclamadamente incompatível, a não ser que de princípio se desista de qualquer espécie de unidade de acção. Mas não importa. Os catequistas do entendimento patriótico não querem mudar o mundo. Querem com a modéstia que sempre os distinguiu um única coisa: que o PS não fique na oposição. Porquê? Porque gostam dele? Não. Porque têm medo que o PS um dia destes venha para a rua com o PC e o Bloco e com a gente que por aí anda na maior miséria. O "compromisso" nacional não se destina a estabelecer a fraternidade e o sossego entre a populaça. Ao que se destina é a isolar a extrema-esquerda e a privar o presumível descontentamento com as medidas do FMI e da "Europa" de uma cabeça política eficaz. Daí que ninguém se atreva a sugerir uma segunda Aliança Democrática: puro anátema para os crentes e quase uma provocação para o PS. Os presidentes não gostam disso. Nem os "negócios", nem a "burguesia", nem a "alta classe média". Antes de tudo, ordem e sossego. O PS precisa de entrar na sopa turva do poder. Ou directamente, fazendo parte do governo; ou indirectamente, estabelecendo um pacto parlamentar, público e solene, com o PSD. Esse pacto amarraria o PSD à vontade do eng. Sócrates (se ele se recusasse a sair de cena), não permitiria nenhuma reforma de substância (no ensino, na saúde, no funcionalismo ou na justiça) e deixava manifestamente o PS em boa posição para nos voltar a pastorear. O "compromisso nacional" não passa de um artifício (ou de uma tentativa) para influenciar os resultados do 5 de Junho, antes do 5 de Junho. Irá com certeza acabar na balbúrdia e na paralisia. Mas nunca Portugal assistirá às cenas lamentáveis que vimos na Grécia. Os presidentes são sábios.»

*Vasco Pulido Valente, Público

«COMPROMISSO NACIONAL»*


«Os quatro presidentes da República, para celebrar o "25 de Abril", vieram pedir aos portugueses nada mais, nada menos do que um "compromisso nacional". E o dr. Cavaco pareceu exigir (ou exigiu mesmo) um governo maioritário para depois do 5 de Junho. Dada a natureza angélica destas quatro entidades, é difícil compreender se estavam a falar a sério ou se conversavam directamente com o Altíssimo, porque em si própria a proposta não passa de uma piedade pretensiosa e estúpida. Não há maneira de garantir um "compromisso" entre os portugueses, nacional ou outro, no estado a que o país chegou, a não ser pela força; e não há maneira de misturar (ou fundir) o que é claramente e proclamadamente incompatível, a não ser que de princípio se desista de qualquer espécie de unidade de acção. Mas não importa. Os catequistas do entendimento patriótico não querem mudar o mundo. Querem com a modéstia que sempre os distinguiu um única coisa: que o PS não fique na oposição. Porquê? Porque gostam dele? Não. Porque têm medo que o PS um dia destes venha para a rua com o PC e o Bloco e com a gente que por aí anda na maior miséria. O "compromisso" nacional não se destina a estabelecer a fraternidade e o sossego entre a populaça. Ao que se destina é a isolar a extrema-esquerda e a privar o presumível descontentamento com as medidas do FMI e da "Europa" de uma cabeça política eficaz. Daí que ninguém se atreva a sugerir uma segunda Aliança Democrática: puro anátema para os crentes e quase uma provocação para o PS. Os presidentes não gostam disso. Nem os "negócios", nem a "burguesia", nem a "alta classe média". Antes de tudo, ordem e sossego. O PS precisa de entrar na sopa turva do poder. Ou directamente, fazendo parte do governo; ou indirectamente, estabelecendo um pacto parlamentar, público e solene, com o PSD. Esse pacto amarraria o PSD à vontade do eng. Sócrates (se ele se recusasse a sair de cena), não permitiria nenhuma reforma de substância (no ensino, na saúde, no funcionalismo ou na justiça) e deixava manifestamente o PS em boa posição para nos voltar a pastorear. O "compromisso nacional" não passa de um artifício (ou de uma tentativa) para influenciar os resultados do 5 de Junho, antes do 5 de Junho. Irá com certeza acabar na balbúrdia e na paralisia. Mas nunca Portugal assistirá às cenas lamentáveis que vimos na Grécia. Os presidentes são sábios.»

*Vasco Pulido Valente, Público

UM PROGRAMA


«A TVI lá fez mais uma entrevista a Sócrates, ajeitando-se à agenda do líder do PS. Como se comprovou no final, a entrevista foi, para o país, totalmente inútil. Zero de conteúdo. Quaisquer que sejam as perguntas, ele repete à exaustão as mesmas cinco frases memorizadas. Hábil a intimidar entrevistadores, ignora-lhes as perguntas, debitando o menu decorado e queimando tempo.
Judite Sousa não colocou diversas perguntas importantes e não obteve respostas às que colocou. Resultado: um festival de propaganda pessoal, mais um em poucas semanas. Sócrates só falou de si mesmo — o seu tema preferido — ou repetiu as cinco frases combinadas lá na Central de Propaganda. E, ajudado pela entrevistadora, alimentou a agora habitual confusão total entre primeiro-ministro e secretário-geral do PS.
A estranha última pergunta de Sousa sobre a vida privada de Sócrates foi colocada ao secretário-geral do PS na sede do governo de Portugal. Sousa apresentou Sócrates como “divorciado” e “com dois filhos” e perguntou-lhe se “tenciona fazer campanha eleitoral com a família”. Recorde-se que nas presidenciais apareceram familiares de todos os candidatos nas campanhas e nenhum jornalista, nem Sousa, os interrogou sobre isso.
A pergunta permitiu a Sócrates fazer exactamente o que disse que não vai fazer: usar os filhos. Mencionou duas vezes o “amor aos meus filhos”. Disse também “sempre os procurei proteger”. Ora, na campanha de 2009, em entrevista à SIC, Sócrates fez “referências premeditadas” aos filhos (como lhes chamou então um dirigente da agência de comunicação LPM). Também a sua vida privada foi usada em ocasiões escolhidas a dedo ao longo dos anos. Mais de uma vez as revistas cor-de-rosa souberam com antecipação onde ele estaria em momentos “privados” com uma alegada namorada; e numa entrevista ao Diário de Notícias na campanha de 2009 ele falou da alegada namorada (i, 21.09.09).
Na acção mediática de Sócrates não há nada, mas rigorosamente nada, que surja ao acaso. As “respostas” em entrevistas são frases decoradas. Toda a sua agenda e a do Estado que comanda estão planeadas para obter ou evitar efeitos mediáticos. Por exemplo, a correcção para baixo do défice foi divulgada pelo INE no sábado de Páscoa, com o país político ausente. A gestão de danos é brilhante: a Central obliterou Teixeira dos Santos dos media quando este, a bem de Portugal, traiu Sócrates e falou da necessidade da ajuda externa.
A Central vai debitando diariamente pequenos “casos” para a imprensa: através de dirigentes e outras figuras do PS (as ordinarices de Lello não são “arreliadoras deficiências tecnológicas” mas declarações públicas calculadas, cabendo a Lello o papel de abandalhar os políticos em geral); ou através de “fontes”, ou nem isso, como nas campanhas negras na Internet. Essa acção permanente da Central, 24 horas por dia, desgasta os adversários, em especial o principal partido da oposição, sem a mínima preparação para enfrentar uma organização profissionalíssima, que hoje atingiu a dimensão de um embrião de polícia política de informações, agindo exclusivamente através dos media e Internet, directamente ou através de apaniguados ou ingénuos.
O desgaste dos adversários ainda está no princípio. Dado que Cavaco Silva e os ex-presidentes pediram uma campanha eleitoral esclarecedora, caberá à Central de Propaganda oculta e semi-secreta ao serviço do PS encher os media e a blogosfera de “casos”, invenções, mentiras, factóides descontextualizados, etc. Esta Central tem acesso a informações, por métodos quase científicos de busca, selecção e organização de informações, a que os jornalistas não têm ou não podem ter acesso, ou nem sonham que existem. A Central conhece o passado de todos quantos agem no espaço público e ousam desagradar ao PS-Governo. A Internet é usada para divulgar elementos “comprometedores” da sua vida. Fernando Nobre e família foram alvo desses ataques mal ele se candidatou pelo PSD. Nos EUA tem crescido igual tipo de desinformação, como a campanha negra por republicanos mais primários de “dúvidas” acerca da nacionalidade de Obama.
A brutalidade da desinformação e das campanhas negras atinge não só os adversários políticos, mas todos os que exerçam livremente a liberdade de expressão. Como o PS-Governo vive exclusivamente dos media, a Central visa em especial os comentadores e jornalistas que considere fazerem algo negativo para os seus interesses.
A jornalista Sofia Branco foi recentemente demitida de editora na agência LUSA por se ter recusado, com critérios editoriais, a pôr em linha uma “notícia” oriunda da Central de Propaganda. Recorde-se que o director de Informação da LUSA foi uma escolha pessoal de Sócrates e que o seu administrador principal é amigo pessoal de Sócrates. A demissão teve carácter de exemplo, pois visa recordar a todos os jornalistas, começando pelos da LUSA, que “quem se mete com o PS leva”.
O caso revela a Central em acção. Uma correspondente da LUSA recolheu uma declaração dum assessor do primeiro-ministro que este atribuiu a Sócrates. A editora da LUSA não quis divulgar declarações dum assessor como se fossem de Sócrates (dado que não eram de Sócrates!); disponibilizou-se para ouvi-las do próprio, mas o assessor negou a hipótese. A editora rejeitou a “notícia”. Acontece que a Central precisava que a “notícia” fosse vomitada para os media naquele dia; por isso, a chefia da LUSA soube logo do caso e colocou a “notícia” em linha; a editora foi liminarmente demitida, retaliação que já seria de dureza totalmente desajustada ao normal funcionamento de uma redacção se a editora tivesse procedido mal. No dia seguinte, Sócrates disse a tal frase que fora dita pelo assessor: é o habitual processo de inculcação pela repetição.
Sofia Branco foi demitida por ser jornalista. Se houve “quebra de confiança”, como a direcção socretista da LUSA invocou, não foi no profissionalismo da editora, mas sim quebra de confiança da Central de Propaganda numa jornalista que agiu como jornalista. “Hoje, 27 anos depois do 25 de Abril, faz-se jornalismo com medo”, disse Sofia Branco ao P2 (25.04).
A pressão infernal sobre os jornalistas deu resultados extraordinários nestes seis anos. Somada a campanhas negras e cumplicidades no seio dos media, permitiu a Sócrates ganhar em 2009 e está a permitir-lhe recuperar nas sondagens em 2011.
A estratégia da Central para esta campanha já está delineada. Um dos elementos tem passado despercebido: através de pessoas como Lello e de comentários anónimos produzidos pela Central e despejados na blogosfera e caixas de comentários, repete-se a ideia de que os políticos são todos iguais, todos corruptos, nem vale a pena ir votar. A Central sabe que a percentagem do PS pode subir se a abstenção crescer. O paradoxo de um partido fomentar subrepticiamente a abstenção explica-se: como os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição, neutralizá-los diminui os votos nos outros e aumenta a proporção relativa do núcleo duro dos eleitores do PS.
Outro elemento que favorecerá essa estratégia será a habitual forma de as televisões cobrirem as campanhas na estrada. Apesar da crise no país, é provável que a cobertura televisiva se concentre, como habitualmente, nos almoços da “carne assada”, nas declarações da velhota na rua, do comerciante à porta, do militante de reduzida inteligência, no “isto está uma loucura” do jornalista empurrado por jornalistas, etc. Enfim, fait-divers sem conteúdo político e sem relação com o discurso dos responsáveis partidários.
Se as televisões juntarem às habituais reportagens da “carne assada” e da velha que grita na rua alguma cobertura aos “casos” emanados da Central, estará lançada a confusão que serve um único entre todos os partidos: o PS-Governo. Tudo o que não esclareça políticas, divirja para os “casos” do dia e para o diz-que-disse, em que a Central tem mestria absoluta, servirá para impedir um esclarecimento mínimo (desfavorável a quem governou) e para induzir descontentes a absterem-se. Se fizerem uma cobertura das campanhas como a de 2009, as televisões estarão a colaborar, não indirecta, mas directamente com a governação dos últimos anos e com a aplicação concreta, diária, da estratégia de desinformação e propaganda. »

Eduardo Cintra Torres, Público

UM PROGRAMA


«A TVI lá fez mais uma entrevista a Sócrates, ajeitando-se à agenda do líder do PS. Como se comprovou no final, a entrevista foi, para o país, totalmente inútil. Zero de conteúdo. Quaisquer que sejam as perguntas, ele repete à exaustão as mesmas cinco frases memorizadas. Hábil a intimidar entrevistadores, ignora-lhes as perguntas, debitando o menu decorado e queimando tempo.
Judite Sousa não colocou diversas perguntas importantes e não obteve respostas às que colocou. Resultado: um festival de propaganda pessoal, mais um em poucas semanas. Sócrates só falou de si mesmo — o seu tema preferido — ou repetiu as cinco frases combinadas lá na Central de Propaganda. E, ajudado pela entrevistadora, alimentou a agora habitual confusão total entre primeiro-ministro e secretário-geral do PS.
A estranha última pergunta de Sousa sobre a vida privada de Sócrates foi colocada ao secretário-geral do PS na sede do governo de Portugal. Sousa apresentou Sócrates como “divorciado” e “com dois filhos” e perguntou-lhe se “tenciona fazer campanha eleitoral com a família”. Recorde-se que nas presidenciais apareceram familiares de todos os candidatos nas campanhas e nenhum jornalista, nem Sousa, os interrogou sobre isso.
A pergunta permitiu a Sócrates fazer exactamente o que disse que não vai fazer: usar os filhos. Mencionou duas vezes o “amor aos meus filhos”. Disse também “sempre os procurei proteger”. Ora, na campanha de 2009, em entrevista à SIC, Sócrates fez “referências premeditadas” aos filhos (como lhes chamou então um dirigente da agência de comunicação LPM). Também a sua vida privada foi usada em ocasiões escolhidas a dedo ao longo dos anos. Mais de uma vez as revistas cor-de-rosa souberam com antecipação onde ele estaria em momentos “privados” com uma alegada namorada; e numa entrevista ao Diário de Notícias na campanha de 2009 ele falou da alegada namorada (i, 21.09.09).
Na acção mediática de Sócrates não há nada, mas rigorosamente nada, que surja ao acaso. As “respostas” em entrevistas são frases decoradas. Toda a sua agenda e a do Estado que comanda estão planeadas para obter ou evitar efeitos mediáticos. Por exemplo, a correcção para baixo do défice foi divulgada pelo INE no sábado de Páscoa, com o país político ausente. A gestão de danos é brilhante: a Central obliterou Teixeira dos Santos dos media quando este, a bem de Portugal, traiu Sócrates e falou da necessidade da ajuda externa.
A Central vai debitando diariamente pequenos “casos” para a imprensa: através de dirigentes e outras figuras do PS (as ordinarices de Lello não são “arreliadoras deficiências tecnológicas” mas declarações públicas calculadas, cabendo a Lello o papel de abandalhar os políticos em geral); ou através de “fontes”, ou nem isso, como nas campanhas negras na Internet. Essa acção permanente da Central, 24 horas por dia, desgasta os adversários, em especial o principal partido da oposição, sem a mínima preparação para enfrentar uma organização profissionalíssima, que hoje atingiu a dimensão de um embrião de polícia política de informações, agindo exclusivamente através dos media e Internet, directamente ou através de apaniguados ou ingénuos.
O desgaste dos adversários ainda está no princípio. Dado que Cavaco Silva e os ex-presidentes pediram uma campanha eleitoral esclarecedora, caberá à Central de Propaganda oculta e semi-secreta ao serviço do PS encher os media e a blogosfera de “casos”, invenções, mentiras, factóides descontextualizados, etc. Esta Central tem acesso a informações, por métodos quase científicos de busca, selecção e organização de informações, a que os jornalistas não têm ou não podem ter acesso, ou nem sonham que existem. A Central conhece o passado de todos quantos agem no espaço público e ousam desagradar ao PS-Governo. A Internet é usada para divulgar elementos “comprometedores” da sua vida. Fernando Nobre e família foram alvo desses ataques mal ele se candidatou pelo PSD. Nos EUA tem crescido igual tipo de desinformação, como a campanha negra por republicanos mais primários de “dúvidas” acerca da nacionalidade de Obama.
A brutalidade da desinformação e das campanhas negras atinge não só os adversários políticos, mas todos os que exerçam livremente a liberdade de expressão. Como o PS-Governo vive exclusivamente dos media, a Central visa em especial os comentadores e jornalistas que considere fazerem algo negativo para os seus interesses.
A jornalista Sofia Branco foi recentemente demitida de editora na agência LUSA por se ter recusado, com critérios editoriais, a pôr em linha uma “notícia” oriunda da Central de Propaganda. Recorde-se que o director de Informação da LUSA foi uma escolha pessoal de Sócrates e que o seu administrador principal é amigo pessoal de Sócrates. A demissão teve carácter de exemplo, pois visa recordar a todos os jornalistas, começando pelos da LUSA, que “quem se mete com o PS leva”.
O caso revela a Central em acção. Uma correspondente da LUSA recolheu uma declaração dum assessor do primeiro-ministro que este atribuiu a Sócrates. A editora da LUSA não quis divulgar declarações dum assessor como se fossem de Sócrates (dado que não eram de Sócrates!); disponibilizou-se para ouvi-las do próprio, mas o assessor negou a hipótese. A editora rejeitou a “notícia”. Acontece que a Central precisava que a “notícia” fosse vomitada para os media naquele dia; por isso, a chefia da LUSA soube logo do caso e colocou a “notícia” em linha; a editora foi liminarmente demitida, retaliação que já seria de dureza totalmente desajustada ao normal funcionamento de uma redacção se a editora tivesse procedido mal. No dia seguinte, Sócrates disse a tal frase que fora dita pelo assessor: é o habitual processo de inculcação pela repetição.
Sofia Branco foi demitida por ser jornalista. Se houve “quebra de confiança”, como a direcção socretista da LUSA invocou, não foi no profissionalismo da editora, mas sim quebra de confiança da Central de Propaganda numa jornalista que agiu como jornalista. “Hoje, 27 anos depois do 25 de Abril, faz-se jornalismo com medo”, disse Sofia Branco ao P2 (25.04).
A pressão infernal sobre os jornalistas deu resultados extraordinários nestes seis anos. Somada a campanhas negras e cumplicidades no seio dos media, permitiu a Sócrates ganhar em 2009 e está a permitir-lhe recuperar nas sondagens em 2011.
A estratégia da Central para esta campanha já está delineada. Um dos elementos tem passado despercebido: através de pessoas como Lello e de comentários anónimos produzidos pela Central e despejados na blogosfera e caixas de comentários, repete-se a ideia de que os políticos são todos iguais, todos corruptos, nem vale a pena ir votar. A Central sabe que a percentagem do PS pode subir se a abstenção crescer. O paradoxo de um partido fomentar subrepticiamente a abstenção explica-se: como os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição, neutralizá-los diminui os votos nos outros e aumenta a proporção relativa do núcleo duro dos eleitores do PS.
Outro elemento que favorecerá essa estratégia será a habitual forma de as televisões cobrirem as campanhas na estrada. Apesar da crise no país, é provável que a cobertura televisiva se concentre, como habitualmente, nos almoços da “carne assada”, nas declarações da velhota na rua, do comerciante à porta, do militante de reduzida inteligência, no “isto está uma loucura” do jornalista empurrado por jornalistas, etc. Enfim, fait-divers sem conteúdo político e sem relação com o discurso dos responsáveis partidários.
Se as televisões juntarem às habituais reportagens da “carne assada” e da velha que grita na rua alguma cobertura aos “casos” emanados da Central, estará lançada a confusão que serve um único entre todos os partidos: o PS-Governo. Tudo o que não esclareça políticas, divirja para os “casos” do dia e para o diz-que-disse, em que a Central tem mestria absoluta, servirá para impedir um esclarecimento mínimo (desfavorável a quem governou) e para induzir descontentes a absterem-se. Se fizerem uma cobertura das campanhas como a de 2009, as televisões estarão a colaborar, não indirecta, mas directamente com a governação dos últimos anos e com a aplicação concreta, diária, da estratégia de desinformação e propaganda. »

Eduardo Cintra Torres, Público

28.4.11

KIMS

Kim- Jong-il segue os passos do homólogo português e também está disposto a dialogar.

KIMS

Kim- Jong-il segue os passos do homólogo português e também está disposto a dialogar.

UMA CONVERSA


Com a Carla Quevedo, a Ana Cristina Leonardo, mas seguramente também com Sena e Magalhães Godinho, as eleições, os candidatos, os jornalistas, o dr. Pacheco, a troika, a Europa, a ruína, etc., etc., hoje, dia 28, pelas 19, na Almedina do Atrium Saldanha. A Carla pediu uma apresentação e lembrei-me - foi o Medeiros quem primeiro a evocou - da Marquise de Mertreuil, do Laclos: je suis mon ouvrage. É qualquer coisa como isto, na terceira pessoa. «Pessoalmente, nada do que possa dizer sobre si mesmo tem a menor relevância cósmica pelo que segue o lema do escritor e ensaísta norte-americano Gore Vidal: “I am not my own subject”. Publicamente, afirma-se próximo de um vago anarquismo de direita (uma coisa que não existe), considera o Papa a figura mundial mais interessante e estimulante dos nossos tempos, não descortina grandeza nas elites portuguesas contemporâneas, desconfia do chamado meio cultural português que considera uma falácia, admira dois ou três autores de língua portuguesa, a maior parte deles mortos, é ferozmente contra o acordo ortográfico, despreza comentadores que transformam pessoas e casos insignificantes em acontecimentos nacionais a começar por eles, odeia futebol e demais derivados pelo que deve ser dos poucos portugueses que nunca leu um jornal desportivo – nem mesmo A Bola que, dizem, era um modelo de jornalismo escrito quando era viva -, não tem o menor temor reverencial pelo jornalismo pátrio, sempre pronto a vender-se a quem pagar melhor, desconfia do humano que é quem mais coloca em causa a dignidade humana, em suma, e para citar o já referido Jorge de Sena – de quem acaba de publicar-se as chamadas “intervenções políticas” e afins entre 1959 e 1978, ano da sua morte precoce -, mantém o desejo secreto de permanentemente «exprimir o que entende ser a dignidade humana – uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo», uma «fidelidade à desconfiança e ao doloroso desprendimento com que tudo deve ser considerado.» Apareçam.

UMA CONVERSA


Com a Carla Quevedo, a Ana Cristina Leonardo, mas seguramente também com Sena e Magalhães Godinho, as eleições, os candidatos, os jornalistas, o dr. Pacheco, a troika, a Europa, a ruína, etc., etc., hoje, dia 28, pelas 19, na Almedina do Atrium Saldanha. A Carla pediu uma apresentação e lembrei-me - foi o Medeiros quem primeiro a evocou - da Marquise de Mertreuil, do Laclos: je suis mon ouvrage. É qualquer coisa como isto, na terceira pessoa. «Pessoalmente, nada do que possa dizer sobre si mesmo tem a menor relevância cósmica pelo que segue o lema do escritor e ensaísta norte-americano Gore Vidal: “I am not my own subject”. Publicamente, afirma-se próximo de um vago anarquismo de direita (uma coisa que não existe), considera o Papa a figura mundial mais interessante e estimulante dos nossos tempos, não descortina grandeza nas elites portuguesas contemporâneas, desconfia do chamado meio cultural português que considera uma falácia, admira dois ou três autores de língua portuguesa, a maior parte deles mortos, é ferozmente contra o acordo ortográfico, despreza comentadores que transformam pessoas e casos insignificantes em acontecimentos nacionais a começar por eles, odeia futebol e demais derivados pelo que deve ser dos poucos portugueses que nunca leu um jornal desportivo – nem mesmo A Bola que, dizem, era um modelo de jornalismo escrito quando era viva -, não tem o menor temor reverencial pelo jornalismo pátrio, sempre pronto a vender-se a quem pagar melhor, desconfia do humano que é quem mais coloca em causa a dignidade humana, em suma, e para citar o já referido Jorge de Sena – de quem acaba de publicar-se as chamadas “intervenções políticas” e afins entre 1959 e 1978, ano da sua morte precoce -, mantém o desejo secreto de permanentemente «exprimir o que entende ser a dignidade humana – uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo», uma «fidelidade à desconfiança e ao doloroso desprendimento com que tudo deve ser considerado.» Apareçam.

O PROGRAMA DE SÓCRATES

«As estatísticas foram o grande aliado da mitomania deslumbrada que nos tem governado nos últimos anos. Mas, como diz o Povo, "quem com ferro mata, com ferro morre". E o bumerangue dos números aí está, e é assustador: Portugal é a economia mais lenta do mundo e a única em recessão em 2012. Estamos com o mais baixo crescimento dos últimos 90 anos. A nossa dívida pública é a pior dos últimos 150 anos, mesmo sem contar com as empresas públicas ou as PPP. O nosso desemprego é o mais alto desde que há registos. Temos a segunda maior onda de emigração do último século e meio, com uma das maiores "fugas de cérebros" registadas pela OCDE. A nossa taxa de poupança é a pior dos últimos 50 anos e continuamos com o dobro do abandono escolar de toda a União Europeia, sendo o 2.º pior dos 27, logo a seguir a Malta.»

M.M. Carrilho, DN

Adenda: Um tipo do PS Europeu, com inequívoco ar de burgesso, sugere que o FMI, o FEEF e o BCE vão "demolir" a gloriosa protecção dos trabalhadores portugueses. Sucede que alguém devia explicar ao burgesso que ninguém mais do que o seu camarada Sócrates, pelo texto e pelo contexto, tudo tem prodigalizado a fim de "demolir" o país, em geral, e os referidos trabalhadores, em particular. Os "trabalhadores" não são uma entidade abstracta dos manuais de Bruxelas e dos programas da esquerda moderna neo-fascista que conheceu o seu esplendor ideológico com o farsante Blair. Os "trabalhadores" inserem-se em estruturas complexas, amplamente manipuláveis, designadamente por uma Europa cativa da burocracia mais demolidora de tudo. Se a Europa falhar - como parece que falhará - a estes iluminados e a mais dois ou três companheiros de estrada ditos de direita deve agradecer. Acabarem todos no tribunal internacional de Haia era pouco.

O PROGRAMA DE SÓCRATES

«As estatísticas foram o grande aliado da mitomania deslumbrada que nos tem governado nos últimos anos. Mas, como diz o Povo, "quem com ferro mata, com ferro morre". E o bumerangue dos números aí está, e é assustador: Portugal é a economia mais lenta do mundo e a única em recessão em 2012. Estamos com o mais baixo crescimento dos últimos 90 anos. A nossa dívida pública é a pior dos últimos 150 anos, mesmo sem contar com as empresas públicas ou as PPP. O nosso desemprego é o mais alto desde que há registos. Temos a segunda maior onda de emigração do último século e meio, com uma das maiores "fugas de cérebros" registadas pela OCDE. A nossa taxa de poupança é a pior dos últimos 50 anos e continuamos com o dobro do abandono escolar de toda a União Europeia, sendo o 2.º pior dos 27, logo a seguir a Malta.»

M.M. Carrilho, DN

Adenda: Um tipo do PS Europeu, com inequívoco ar de burgesso, sugere que o FMI, o FEEF e o BCE vão "demolir" a gloriosa protecção dos trabalhadores portugueses. Sucede que alguém devia explicar ao burgesso que ninguém mais do que o seu camarada Sócrates, pelo texto e pelo contexto, tudo tem prodigalizado a fim de "demolir" o país, em geral, e os referidos trabalhadores, em particular. Os "trabalhadores" não são uma entidade abstracta dos manuais de Bruxelas e dos programas da esquerda moderna neo-fascista que conheceu o seu esplendor ideológico com o farsante Blair. Os "trabalhadores" inserem-se em estruturas complexas, amplamente manipuláveis, designadamente por uma Europa cativa da burocracia mais demolidora de tudo. Se a Europa falhar - como parece que falhará - a estes iluminados e a mais dois ou três companheiros de estrada ditos de direita deve agradecer. Acabarem todos no tribunal internacional de Haia era pouco.

27.4.11

A FALÁCIA DO PROGRAMA

Sócrates apresentou o "programa eleitoral" do seu partido albanês. O apresentador é famoso por não cumprir programas eleitorais mas, contumaz, já vai no terceiro. O mais inútil de todos. Porque as pessoas que vão fazer o programa do próximo governo - FMI, FEEF, BCE - ainda estão a trabalhar nele. O que apresentador* apresentou foi uma falácia.

*depois há uma espécie de co-apresentadores sob a forma enganadora de "jornalistas", como a grande e patética socialista "europeia" Teresa de Sousa, que ajudam a embalar o berço e a transformar o apresentador-mor numa coisa nunca vista enquanto génio comunicacional e político mesmo que não comunique nada e, dentro do nada, o nada do mesmo - são dos tais burros que nascem burros (mesmo quando erráticos oportunistas) e nem que passem muitos anos por eles atingem o patamar de um cavalo.

A FALÁCIA DO PROGRAMA

Sócrates apresentou o "programa eleitoral" do seu partido albanês. O apresentador é famoso por não cumprir programas eleitorais mas, contumaz, já vai no terceiro. O mais inútil de todos. Porque as pessoas que vão fazer o programa do próximo governo - FMI, FEEF, BCE - ainda estão a trabalhar nele. O que apresentador* apresentou foi uma falácia.

*depois há uma espécie de co-apresentadores sob a forma enganadora de "jornalistas", como a grande e patética socialista "europeia" Teresa de Sousa, que ajudam a embalar o berço e a transformar o apresentador-mor numa coisa nunca vista enquanto génio comunicacional e político mesmo que não comunique nada e, dentro do nada, o nada do mesmo - são dos tais burros que nascem burros (mesmo quando erráticos oportunistas) e nem que passem muitos anos por eles atingem o patamar de um cavalo.

VITORINO MAGALHÃES GODINHO (1918-2011)


Pelo meu amigo do Médio Oriente e afins, fico a saber da morte de Vitorino Magalhães Godinho, aos 92 anos. Disse aqui repetidamente - e digo-o no livrinho ali à direita - que li de Magalhães Godinho uma das melhores sínteses daquilo que somos (e não somos) como nação e portugueses, A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa. Numa entrevista por ocasião dos seus 85 anos, Magalhães Godinho disse achar «que caímos num caixote do lixo muito triste» porque, segundo ele, «no século XX havia outra grandeza». Agora, «a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas.» Repare-se na amargura realista do historiador quando fala, não no corte das relações entre as pessoas, mas da rasura do humano nessas relações. Os seus Ensaios estão a ser repostos, ainda alguns revistos por ele. Se existe cultura portuguesa, ficou ontem mais pobre.

VITORINO MAGALHÃES GODINHO (1918-2011)


Pelo meu amigo do Médio Oriente e afins, fico a saber da morte de Vitorino Magalhães Godinho, aos 92 anos. Disse aqui repetidamente - e digo-o no livrinho ali à direita - que li de Magalhães Godinho uma das melhores sínteses daquilo que somos (e não somos) como nação e portugueses, A Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa. Numa entrevista por ocasião dos seus 85 anos, Magalhães Godinho disse achar «que caímos num caixote do lixo muito triste» porque, segundo ele, «no século XX havia outra grandeza». Agora, «a informática e outros meios de informação, como o telemóvel, acabaram por cortar as relações humanas entre as pessoas.» Repare-se na amargura realista do historiador quando fala, não no corte das relações entre as pessoas, mas da rasura do humano nessas relações. Os seus Ensaios estão a ser repostos, ainda alguns revistos por ele. Se existe cultura portuguesa, ficou ontem mais pobre.

COISAS QUE (ME ) INTERESSAM OU O HORROR DAS FALÁCIAS



Jorge de Sena é duplamente recordado por estes dias, em Lisboa e no Porto. Por cá, mais logo, na inauguração do Espaço Babel na Feira do Livro de Lisboa (a Babel está comprometida com a edição da obra completa do Autor, sob a direcção de Jorge Fazenda Lourenço: o próximo livro, a lançar na Feira, intitula-se Rever Portugal- textos políticos e afins, Guimarães, 2011) onde serão lidos poemas seus. No Porto, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto homenageia o seu antigo aluno «através da apresentação de documentos académicos e de testemunhos, feitos pelo próprio e por quem de perto o conheceu.» Como escreveu em carta a Eduardo Lourenço, «a minha formação Universitária, ainda que em outra esfera, não menos o foi - e mesmo me deu uma consciência técnica e um horror das falácias, que são das qualidades que me reconhecem (e também de certa petulância e de consciência, que irrita os amantes do vago e da "poesia").»

COISAS QUE (ME ) INTERESSAM OU O HORROR DAS FALÁCIAS



Jorge de Sena é duplamente recordado por estes dias, em Lisboa e no Porto. Por cá, mais logo, na inauguração do Espaço Babel na Feira do Livro de Lisboa (a Babel está comprometida com a edição da obra completa do Autor, sob a direcção de Jorge Fazenda Lourenço: o próximo livro, a lançar na Feira, intitula-se Rever Portugal- textos políticos e afins, Guimarães, 2011) onde serão lidos poemas seus. No Porto, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto homenageia o seu antigo aluno «através da apresentação de documentos académicos e de testemunhos, feitos pelo próprio e por quem de perto o conheceu.» Como escreveu em carta a Eduardo Lourenço, «a minha formação Universitária, ainda que em outra esfera, não menos o foi - e mesmo me deu uma consciência técnica e um horror das falácias, que são das qualidades que me reconhecem (e também de certa petulância e de consciência, que irrita os amantes do vago e da "poesia").»

GARAGE SALE EM LISBOA

Para quem vota em Lisboa, ter assistido ao desfile dos candidatos a deputados dos principais partidos a caminho do tribunal (curioso destino) para entrega das listas, constituiu um forte convite à neutralidade eleitoral. Qualquer garage sale em Xabregas ou nos antigos bairros sociais do Doutor Salazar é melhor que aquela pequena feira de horrores.

GARAGE SALE EM LISBOA

Para quem vota em Lisboa, ter assistido ao desfile dos candidatos a deputados dos principais partidos a caminho do tribunal (curioso destino) para entrega das listas, constituiu um forte convite à neutralidade eleitoral. Qualquer garage sale em Xabregas ou nos antigos bairros sociais do Doutor Salazar é melhor que aquela pequena feira de horrores.

26.4.11

É ASSIM TÃO DIFÍCIL DE ENTENDER?

Sócrates é o homem do passado e do passivo.

Créditos: François Mitterrand (dirigindo-se, num debate televisivo, a Giscard d'Estaing que derrotaria uns dias depois, em 1981)

É ASSIM TÃO DIFÍCIL DE ENTENDER?

Sócrates é o homem do passado e do passivo.

Créditos: François Mitterrand (dirigindo-se, num debate televisivo, a Giscard d'Estaing que derrotaria uns dias depois, em 1981)

PAVÕES


O mais "bonito" (ainda estou fundeado no espírito das "bonitas" celebrações belenenses do 25/4) da entrevista da sra. dra. Judite de Sousa ao senhor eng.º Sócrates (ah, a dra. Judite ainda não esqueceu respeitosamente o que é uma tv pública e um 1º ministro, mesmo em gestão, com aquela perguntinha encomendada sobre a família) foi o som dos pavões lá fora. Sim, verdadeiramente tratou-se de uma entrevista entre pavões. Dois dentro de casa e os outros, os genuínos, lá fora.

Adenda: Mudei para a tvi24, para ouvir Carrilho, e dou por um traste pavoento a falar com a Maria João Avillez e o prof. Cantiga Esteves. Paulo Magalhães costuma ser mais selectivo.

PAVÕES


O mais "bonito" (ainda estou fundeado no espírito das "bonitas" celebrações belenenses do 25/4) da entrevista da sra. dra. Judite de Sousa ao senhor eng.º Sócrates (ah, a dra. Judite ainda não esqueceu respeitosamente o que é uma tv pública e um 1º ministro, mesmo em gestão, com aquela perguntinha encomendada sobre a família) foi o som dos pavões lá fora. Sim, verdadeiramente tratou-se de uma entrevista entre pavões. Dois dentro de casa e os outros, os genuínos, lá fora.

Adenda: Mudei para a tvi24, para ouvir Carrilho, e dou por um traste pavoento a falar com a Maria João Avillez e o prof. Cantiga Esteves. Paulo Magalhães costuma ser mais selectivo.

AS LAGARTIXAS

Menos de 24 horas após o lancinante apelo dos PR's à concórdia e aos bons costumes pátrios e já os partidos estão de volta àquele inconfundível registo do "eu é que sou o presidente da junta" para a gloriosa edificação da nação, em geral, e da chamada "troika", em particular. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

AS LAGARTIXAS

Menos de 24 horas após o lancinante apelo dos PR's à concórdia e aos bons costumes pátrios e já os partidos estão de volta àquele inconfundível registo do "eu é que sou o presidente da junta" para a gloriosa edificação da nação, em geral, e da chamada "troika", em particular. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré.

O CLONE TEM CATARRO

Imagino que não é necessário recordar a Passos Coelho que não se fazem debates com subalternos políticos de outros partidos. E andou bem ao chamar a atenção para a "perversão" que consiste no nacional-unionismo do qual António Barreto e mais não sei quantas centenas de sistémicos são núncios apostólicos.

O CLONE TEM CATARRO

Imagino que não é necessário recordar a Passos Coelho que não se fazem debates com subalternos políticos de outros partidos. E andou bem ao chamar a atenção para a "perversão" que consiste no nacional-unionismo do qual António Barreto e mais não sei quantas centenas de sistémicos são núncios apostólicos.

DEFICIENTEMENTE DEPUTADO


Uma nação que elege deputados deste jaez ordinário tem tudo o que merece.

DEFICIENTEMENTE DEPUTADO


Uma nação que elege deputados deste jaez ordinário tem tudo o que merece.

25.4.11

AJUDA EXTERNA


Para quê?

AJUDA EXTERNA


Para quê?

O FAUNO NO BOSQUE

Mas o melhor do dia 25/4 estava reservado para os jardins de São Bento. Sócrates, sem se rir, disse às televisões que se o tivessem ouvido, nada disto tinha acontecido. E que - continuava sem se rir - sempre lutou, praticamente sozinho, pelo "consenso". Devia haver um limite. Já não digo ético. Mas de elementar bom gosto. Quando é que lhe dão a assinar o "compromisso" do dr. Barreto?

O FAUNO NO BOSQUE

Mas o melhor do dia 25/4 estava reservado para os jardins de São Bento. Sócrates, sem se rir, disse às televisões que se o tivessem ouvido, nada disto tinha acontecido. E que - continuava sem se rir - sempre lutou, praticamente sozinho, pelo "consenso". Devia haver um limite. Já não digo ético. Mas de elementar bom gosto. Quando é que lhe dão a assinar o "compromisso" do dr. Barreto?

OUTRO "DIA INICIAL, INTEIRO E LIMPO"

Foi muito "bonita" a cerimónia do "25 de Abril" em Belém. Foi muito consensual, "pedagógica" e querida. Já a quinta-feira de 1974, apesar de mais cinzenta, tinha sido assim: bonita, consensual, querida e florida. A Poeta chamou-lhe, até, "o dia inicial, inteiro e limpo". Não obstante tanta epifania e beatitude, chegámos aqui, a este imenso e perigoso falhanço colectivo. Estamos a precisar de outro "dia inicial, inteiro e limpo". O de 25.4.74 acabou.

Apontamento1: De Pedro Santana Lopes. Achou a cerimónia bonita, um termo recorrente no léxico político de Lopes que, por vezes, tende a ver a realidade com os olhos de um menino deslumbrado por um tubarãozinho azul, no Oceanário, a brincar com duas focas amestradas. Num aspecto, porém, tem razão. Os quatro palestrantes do dia "bonito", sem excepção, presidiram a partidos ou foram seus secretários-gerais. Dois deles chegaram, por isso, a primeiros-ministros. Até Lopes, aliás. O círculo do regime dos 37 anos é mesmo quadrado. De Gaulle, que execrava a IV República francesa, fundou uma outra, a V.

Apontamento2: No facebook, o sr. Lello apelidou Cavaco de "foleiro" por não ter convidado os deputados todos para Belém. O sr. Lello, desde que deixou de tingir o cabelo, ficou pior. Um pouco mais reles do que o habitual.

Apontamento3: Isabel da Nóbrega foi agraciada com uma venera qualquer em Belém. Fez bem o PR em a ter homenageado depois de o seu nome ter sido banido das dedicatórias originais pelo esposo da D. Pilar del Rio a quem o regime, certamente, deve ter dado mil e uma veneras e por quem nutria verdadeiro temor reverencial.

Apontamento4: Pequena história do local da "cerimónia bonita": «Este pátio [Pátio dos Bichos], cuja designação provém de lá terem estado em tempos, em celas próprias, bichos provenientes de África, que provocavam o encanto dos frequentadores do palácio, foi transformado, com o decorrer dos anos, para permitir que o local fosse frequentado por outros bichos (e bichas) mais consentâneos com a a modernidade.»

OUTRO "DIA INICIAL, INTEIRO E LIMPO"

Foi muito "bonita" a cerimónia do "25 de Abril" em Belém. Foi muito consensual, "pedagógica" e querida. Já a quinta-feira de 1974, apesar de mais cinzenta, tinha sido assim: bonita, consensual, querida e florida. A Poeta chamou-lhe, até, "o dia inicial, inteiro e limpo". Não obstante tanta epifania e beatitude, chegámos aqui, a este imenso e perigoso falhanço colectivo. Estamos a precisar de outro "dia inicial, inteiro e limpo". O de 25.4.74 acabou.

Apontamento1: De Pedro Santana Lopes. Achou a cerimónia bonita, um termo recorrente no léxico político de Lopes que, por vezes, tende a ver a realidade com os olhos de um menino deslumbrado por um tubarãozinho azul, no Oceanário, a brincar com duas focas amestradas. Num aspecto, porém, tem razão. Os quatro palestrantes do dia "bonito", sem excepção, presidiram a partidos ou foram seus secretários-gerais. Dois deles chegaram, por isso, a primeiros-ministros. Até Lopes, aliás. O círculo do regime dos 37 anos é mesmo quadrado. De Gaulle, que execrava a IV República francesa, fundou uma outra, a V.

Apontamento2: No facebook, o sr. Lello apelidou Cavaco de "foleiro" por não ter convidado os deputados todos para Belém. O sr. Lello, desde que deixou de tingir o cabelo, ficou pior. Um pouco mais reles do que o habitual.

Apontamento3: Isabel da Nóbrega foi agraciada com uma venera qualquer em Belém. Fez bem o PR em a ter homenageado depois de o seu nome ter sido banido das dedicatórias originais pelo esposo da D. Pilar del Rio a quem o regime, certamente, deve ter dado mil e uma veneras e por quem nutria verdadeiro temor reverencial.

Apontamento4: Pequena história do local da "cerimónia bonita": «Este pátio [Pátio dos Bichos], cuja designação provém de lá terem estado em tempos, em celas próprias, bichos provenientes de África, que provocavam o encanto dos frequentadores do palácio, foi transformado, com o decorrer dos anos, para permitir que o local fosse frequentado por outros bichos (e bichas) mais consentâneos com a a modernidade.»

24.4.11

O 25 DE ABRIL, A HISTÓRIA E OS SUB-37


As novas e as novíssimas gerações, sobretudo as da net e do telemóvel, não se "formaram" lendo, por exemplo, António José Saraiva ou Jorge de Sena, ambos autores portugueses para o século XXI já que viveram o XX, na parte que lhes coube, exilados fora e dentro do seu país. Não. As novas e as novíssimas gerações sub-37 cresceram a ler (os que sabem ler) gente que não sabe escrever, ler ou pensar. Cresceram, esses sub-37, com duas ou três tristes luminárias na cabeça porque elas lhes são impingidas, em casa, através da televisão. Ainda há pouco, o afilhado do Prof. Marcello Caetano debitava - rindo-se porque este é dos que ri - como se fosse o primeiro e último anti-fascista ao cimo da terra. Os sub-37 cresceram com uma parafernália de farsantes que, por definição e natureza deles, são tidos por democratas. Serão? No tempo em que os jornais publicavam textos polémicos e a coisa ainda não estava entregue à redacção única e à criminologia política acanalhada e analfabeta, em ambiente concierge, António José Saraiva escreveu no Diário de Notícias, em 1979, um artigo intitulado "O 25 de Abril e a História". Encontram-no no livro Os Filhos de Saturno, da Bertrand. É a pensar na geração sub-37 que aqui o reproduzo, sublinhando o que me pareceu de sublinhar em 2011. O resto é consigo, leitor. Nem "25 de Abril sempre" nem nunca.


«Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril. Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas:

Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar;

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.

Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar. Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril. Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regíme, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente.»

António José Saraiva, Os Filhos de Saturno

O 25 DE ABRIL, A HISTÓRIA E OS SUB-37


As novas e as novíssimas gerações, sobretudo as da net e do telemóvel, não se "formaram" lendo, por exemplo, António José Saraiva ou Jorge de Sena, ambos autores portugueses para o século XXI já que viveram o XX, na parte que lhes coube, exilados fora e dentro do seu país. Não. As novas e as novíssimas gerações sub-37 cresceram a ler (os que sabem ler) gente que não sabe escrever, ler ou pensar. Cresceram, esses sub-37, com duas ou três tristes luminárias na cabeça porque elas lhes são impingidas, em casa, através da televisão. Ainda há pouco, o afilhado do Prof. Marcello Caetano debitava - rindo-se porque este é dos que ri - como se fosse o primeiro e último anti-fascista ao cimo da terra. Os sub-37 cresceram com uma parafernália de farsantes que, por definição e natureza deles, são tidos por democratas. Serão? No tempo em que os jornais publicavam textos polémicos e a coisa ainda não estava entregue à redacção única e à criminologia política acanalhada e analfabeta, em ambiente concierge, António José Saraiva escreveu no Diário de Notícias, em 1979, um artigo intitulado "O 25 de Abril e a História". Encontram-no no livro Os Filhos de Saturno, da Bertrand. É a pensar na geração sub-37 que aqui o reproduzo, sublinhando o que me pareceu de sublinhar em 2011. O resto é consigo, leitor. Nem "25 de Abril sempre" nem nunca.


«Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril. Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime. Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas:

Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar;

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu.

Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do Exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas. Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos. Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar. Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril. Havia, também, um malefício imputado ao antigo regime, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regíme, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regime monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob a capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco. Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa História uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa História e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de Nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente. Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de Nação independente.»

António José Saraiva, Os Filhos de Saturno

O ESTADO DA COISA


Os meus camaradas Lanceiros, em duas frases, resumem a coisa. O estado da coisa.

O ESTADO DA COISA


Os meus camaradas Lanceiros, em duas frases, resumem a coisa. O estado da coisa.

QUATRO ESTAROLAS E UMA DEMOCRACIA PARA ESQUECER


«Guterres, Barroso, Santana e Sócrates levaram o país com a irresponsabilidade de sempre e sem obstáculos de maior, para o poço sem fundo em que hoje vivemos. Daqui a meia dúzia de anos, os portugueses não se lembrarão com certeza das virtudes desta democracia e não a verão como "o bom velho tempo" a que é preciso voltar. Fica a velha saída de a esquecer.»

Vasco Pulido Valente, Público

QUATRO ESTAROLAS E UMA DEMOCRACIA PARA ESQUECER


«Guterres, Barroso, Santana e Sócrates levaram o país com a irresponsabilidade de sempre e sem obstáculos de maior, para o poço sem fundo em que hoje vivemos. Daqui a meia dúzia de anos, os portugueses não se lembrarão com certeza das virtudes desta democracia e não a verão como "o bom velho tempo" a que é preciso voltar. Fica a velha saída de a esquecer.»

Vasco Pulido Valente, Público

MERECIDAMENTE

«O "cabeça de lista" do PS nos Açores é Ricardo Rodrigues, cidadão que subtraiu dois gravadores a jornalistas da Sábado quando estes o questionaram sobre um caso de pedofilia em que foi mencionado e um caso de fraude em que foi arguido. O "cabeça de lista" do PS na Guarda é Paulo Campos, o secretário de Estado que encomendou os chips das Scut à empresa gerida por um seu ex-assessor, que permitiu a dois assessores acumularem ilegalmente funções na administração da Fundação para as Comunicações Móveis e que nomeou para a administração dos CTT um amigalhaço acusado de falsificar a licenciatura (uma trivialidade, admito). O "cabeça de lista"" do PS em Leiria é Basílio Horta, histórico (no sentido museológico) do velho CDS, "homem às direitas" das presidenciais de 1991 e dilecto funcionário do actual Governo numa influentíssima Agência para o Investimento e Comércio Externo. O "cabeça de lista" do PS em Évora é Carlos Zorrinho, o ex-coordenador do Plano Tecnológico ouvido em Comissão de Inquérito pelos concursos de atribuição do poderoso computador Magalhães, o génio que o vento levou para as ventoinhas "renováveis" e o profeta que, em Janeiro último, garantia um futuro risonho para as nossas trocas comerciais com os países árabes. E por aí fora, de Helena André (Aveiro) a Pedro Silva Pereira (Vila Real), sobre os quais a decência recomenda discrição absoluta. À custa de figuras duvidosas, tristes serviçais e puro refugo, eis um retrato do descaramento. Mas se os comentadores próximos do PSD acertam ao alertar para a rematada baixeza dos primeiros candidatos socialistas (as segundas linhas incluem um ex-concorrente ao Big Brother), erram ao usá-la para, comparando-a, "justificar" por exemplo a escolha de Fernando Nobre, um desastre que nada justifica e quase nada permitia antecipar. Nem a miséria alheia legitima a própria nem ninguém prefere a miséria desconhecida à conhecida. O eleitorado percebe que o PS é um prodígio de incompetência (e não só). O eleitorado gostaria de perceber que o PSD é outra coisa. Não se vê como. Em vez de, nas "listas" e no resto, se mostrar uma alternativa capaz à toleima dos últimos seis anos, tarefa ao alcance de uma couve-galega ou do Pato Donald, o PSD decidiu empenhar-se numa série de acções suicidas destinadas a provar que talvez não valha a pena arriscar a mudança. Não se trata de saltar da frigideira para o fogo: trata-se de saltar da frigideira para uma frigideira diferente, exercício cansativo e escusado. Pelo menos é o que afirmam as sondagens, que súbita e previsivelmente colocaram PS e PSD no chamado empate técnico. Um sujeito que caísse hoje em Portugal, sobretudo se vindo de Plutão, julgaria que as "legislativas" prometem entusiástica disputa. Os sujeitos que cá vivem estão literalmente cansados de saber que a promessa é a inversa: salvo para os fanáticos, as eleições de Junho serão um acto de resignação colectiva, uma penosa corrida entre o bando responsável pela ruína pátria e o bando empenhado em tornar esse pormenor irrelevante. Ganhe quem ganhar, nós perdemos. Em larga medida, merecidamente.»

Alberto Gonçalves, DN

MERECIDAMENTE

«O "cabeça de lista" do PS nos Açores é Ricardo Rodrigues, cidadão que subtraiu dois gravadores a jornalistas da Sábado quando estes o questionaram sobre um caso de pedofilia em que foi mencionado e um caso de fraude em que foi arguido. O "cabeça de lista" do PS na Guarda é Paulo Campos, o secretário de Estado que encomendou os chips das Scut à empresa gerida por um seu ex-assessor, que permitiu a dois assessores acumularem ilegalmente funções na administração da Fundação para as Comunicações Móveis e que nomeou para a administração dos CTT um amigalhaço acusado de falsificar a licenciatura (uma trivialidade, admito). O "cabeça de lista"" do PS em Leiria é Basílio Horta, histórico (no sentido museológico) do velho CDS, "homem às direitas" das presidenciais de 1991 e dilecto funcionário do actual Governo numa influentíssima Agência para o Investimento e Comércio Externo. O "cabeça de lista" do PS em Évora é Carlos Zorrinho, o ex-coordenador do Plano Tecnológico ouvido em Comissão de Inquérito pelos concursos de atribuição do poderoso computador Magalhães, o génio que o vento levou para as ventoinhas "renováveis" e o profeta que, em Janeiro último, garantia um futuro risonho para as nossas trocas comerciais com os países árabes. E por aí fora, de Helena André (Aveiro) a Pedro Silva Pereira (Vila Real), sobre os quais a decência recomenda discrição absoluta. À custa de figuras duvidosas, tristes serviçais e puro refugo, eis um retrato do descaramento. Mas se os comentadores próximos do PSD acertam ao alertar para a rematada baixeza dos primeiros candidatos socialistas (as segundas linhas incluem um ex-concorrente ao Big Brother), erram ao usá-la para, comparando-a, "justificar" por exemplo a escolha de Fernando Nobre, um desastre que nada justifica e quase nada permitia antecipar. Nem a miséria alheia legitima a própria nem ninguém prefere a miséria desconhecida à conhecida. O eleitorado percebe que o PS é um prodígio de incompetência (e não só). O eleitorado gostaria de perceber que o PSD é outra coisa. Não se vê como. Em vez de, nas "listas" e no resto, se mostrar uma alternativa capaz à toleima dos últimos seis anos, tarefa ao alcance de uma couve-galega ou do Pato Donald, o PSD decidiu empenhar-se numa série de acções suicidas destinadas a provar que talvez não valha a pena arriscar a mudança. Não se trata de saltar da frigideira para o fogo: trata-se de saltar da frigideira para uma frigideira diferente, exercício cansativo e escusado. Pelo menos é o que afirmam as sondagens, que súbita e previsivelmente colocaram PS e PSD no chamado empate técnico. Um sujeito que caísse hoje em Portugal, sobretudo se vindo de Plutão, julgaria que as "legislativas" prometem entusiástica disputa. Os sujeitos que cá vivem estão literalmente cansados de saber que a promessa é a inversa: salvo para os fanáticos, as eleições de Junho serão um acto de resignação colectiva, uma penosa corrida entre o bando responsável pela ruína pátria e o bando empenhado em tornar esse pormenor irrelevante. Ganhe quem ganhar, nós perdemos. Em larga medida, merecidamente.»

Alberto Gonçalves, DN