
«O comportamento do Governo na campanha presidencial foi vergonhoso. Promoveu e alimentou calúnias e infâmias contra Cavaco Silva, com a conveniente cumplicidade de uns tantos palhaços e de um numeroso bando de idiotas úteis. Para culminar a sua actuação, impediu milhares e milhares de portugueses de exercerem o seu direito de voto na vã esperança de aumentar a abstenção e assim poder levar o seu triste candidato a uma mais do que improvável segunda volta. Como tudo falhou, resta-lhe espalhar por aí que, afinal, o grande vencedor de dia 23 acabou por perder e ficou ferido na sua credibilidade para exercer em pleno o seu mandato. Perante este quadro de miséria, não basta decretar tolerância zero ao senhor engenheiro relativo. A bem da Nação, exige-se do Presidente da República uma implacável vigilância.»
António Ribeiro Ferreira, CM
«Em 23 de Janeiro, com a reeleição do Presidente da República extinguiram-se não apenas a maioria que o elegeu mas também, e sobretudo, as minorias que se polarizaram nos candidatos derrotados. Descontado o eventual interesse dos elementos de análise que fornecem, os valores percentuais respectivos não servem rigorosamente para nada, nem dão qualquer autoridade ou força política aos vencidos. Por sua vez, a autoridade de Aníbal Cavaco Silva não sai beliscada, nem de perto nem de longe. Mas ainda há, aqui e ali, uns trejeitos ranhosos de gente que não desarma e, como não pode contestar a legitimidade da sua eleição, continua a regougar, a ratar, a roer, talvez a regurgitar e a remoer de novo, a propósito da figura e da força do Presidente, o qual, a despeito de vencedor, teria saído ingloriamente enfraquecido da eleição. Cavaco Silva não apenas ganhou com uma confortável maioria, como ganhou em todos os distritos, do Continente e das regiões autónomas, mas para essa malta é como se não tivesse ganho. Ganhou, mas agora há quem garanta que afinal ele... perdeu! Este prodígio dialéctico tem um intuito evidente, que é o de tentar desagregar na opinião pública os poderes que a Constituição confere ao Chefe do Estado, ou pela via de lhe quererem descortinar na prática uma diminuição de estatuto e de autoridade, ou pela das conclusões extraídas a fórceps de variados malabarismos aritméticos sobre os resultados eleitorais, ou ainda pela da crítica ao seu discurso de vitória na noite das eleições, em que, opinam eles de sobrolho contristado, deveria ter perdido a memória, oferecido a outra face e estendido a mão caridosa e conciliadora a quem o insultou sem escrúpulos (...). Dizendo as coisas por outras palavras: as minorias vencidas extinguiram-se, mas ficaram no terreno uns agentes póstumos, ao serviço de uma conveniência política manhosa e obscura.»
João César das Neves, DN