«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
28.2.06
LIMITAÇÕES - 2
LIMITAÇÕES - 2
ALEGRIA PASMADA
Pasmaceira é a palavra que me ocorre para definir o presente "estado da arte". O Carnaval é um período deprimente destinado a evidenciar, de forma colorida e brutal, a nossa endémica miséria. Basta olhar para as barriguinhas proeminentes das sambistas de província para perceber do que falo. Os pais das criancinhas esmeram-se por as idiotizar um pouco mais. E, em casos mais graves, são os próprios adultos que dão margem à sua alegria forçada exibindo trajes e trejeitos adequados à época. Uma das piores coisas do mundo consiste em fingir a alegria. Entre nós - país periférico, pobre, sem memória seja do que for e pronto a render-se ao primeiro espectáculo "mediático" que lhe aparecer pela frente justamente para se esquecer daquilo que é - é normal que se "finja" a alegria e que se afogue a tristeza em álcool ordinário. É por isso que esta nossa alegria é uma alegria pasmada, sem conteúdo real. No fundo, queremos gritar ao mundo que estamos na merda, mas que estamos vivos. Que fraca consolação.
ALEGRIA PASMADA
Pasmaceira é a palavra que me ocorre para definir o presente "estado da arte". O Carnaval é um período deprimente destinado a evidenciar, de forma colorida e brutal, a nossa endémica miséria. Basta olhar para as barriguinhas proeminentes das sambistas de província para perceber do que falo. Os pais das criancinhas esmeram-se por as idiotizar um pouco mais. E, em casos mais graves, são os próprios adultos que dão margem à sua alegria forçada exibindo trajes e trejeitos adequados à época. Uma das piores coisas do mundo consiste em fingir a alegria. Entre nós - país periférico, pobre, sem memória seja do que for e pronto a render-se ao primeiro espectáculo "mediático" que lhe aparecer pela frente justamente para se esquecer daquilo que é - é normal que se "finja" a alegria e que se afogue a tristeza em álcool ordinário. É por isso que esta nossa alegria é uma alegria pasmada, sem conteúdo real. No fundo, queremos gritar ao mundo que estamos na merda, mas que estamos vivos. Que fraca consolação.
27.2.06
ATLÂNTICO
Comprei e fui ler, bem mandado pelo Steiner, para um café. Ficaram lidas as duas prosas de Maria de Fátima Bonifácio, um excelente "obituário político" do "soarismo" (a ele voltarei) e uma outra sobre "costumes", a de Filomena Mónica sobre a ausência de Deus na vida dela (e só Deus sabe como ela tem andado às voltas com a sua "identidade"), a de Constança Cunha e Sá que termina com a sua chegada à blogosfera e a de José Manuel Fernandes. Há muito mais (a Carla, por exemplo, disserta sobre blogues), naturalmente, para ler aos bocados. De qualquer forma, era só para dizer que vale a pena.
ATLÂNTICO
Comprei e fui ler, bem mandado pelo Steiner, para um café. Ficaram lidas as duas prosas de Maria de Fátima Bonifácio, um excelente "obituário político" do "soarismo" (a ele voltarei) e uma outra sobre "costumes", a de Filomena Mónica sobre a ausência de Deus na vida dela (e só Deus sabe como ela tem andado às voltas com a sua "identidade"), a de Constança Cunha e Sá que termina com a sua chegada à blogosfera e a de José Manuel Fernandes. Há muito mais (a Carla, por exemplo, disserta sobre blogues), naturalmente, para ler aos bocados. De qualquer forma, era só para dizer que vale a pena.
CONTINUAR A FALAR
Não é preciso ler Habermas ou Paul Ricoeur para saber em que é que consiste a "normativização" ou a "regulação" dos "costumes" e da "vida" ou, mais do que isso, até onde se pretende chegar com o exercício. Os "reguladores" raramente possuem a noção do "justo" tal como Ricoeur, por exemplo, a enuncia. Não me debrucei o suficiente sobre a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social para escrever como a Constança. Todavia, como confio mais nela do que em qualquer coisa destinada a "regular" seja o que for - por natureza, sou alérgico, como já o era em relação à defunta Alta Autoridade -, dou por estabelecidas duas ou três coisas graves que nem as falinhas mansas do dr. Santos Silva chegam para disfarçar. Estão todas bem evidenciadas no texto da Constança. E estou à vontade. Sempre fui dos que não simpatizam com o temor, tantas vezes reverencial, com que se olha para a classe jornalística. Só que agora a coisa é outra e mais séria. E aí entra isto, nas palavras da Constança: "seria ainda melhor ver o que vamos fazer nós – e quando digo “nós” não estou a referir-me apenas aos jornalistas." Cá estaremos para ver. Eu não sou dado a pieguices deste género, mas lembrei-me das palavras do padre alemão Martin Niemöeller, que Brecht imortalizou, e que convém obviamente "descontextualizar", salvo na parte em que é importante que alguém continue a falar:
"Primeiro, vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista.
Depois, vieram buscar os judeus.
Nada disse, pois não era judeu.
Em seguida foi a vez dos operários, membros dos sindicatos.
Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado.
Mais tarde levaram os católicos.
Nem uma palavra pronunciei, pois sou protestante.
Agora, vieram buscar-me.
E, quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para falar."
CONTINUAR A FALAR
Não é preciso ler Habermas ou Paul Ricoeur para saber em que é que consiste a "normativização" ou a "regulação" dos "costumes" e da "vida" ou, mais do que isso, até onde se pretende chegar com o exercício. Os "reguladores" raramente possuem a noção do "justo" tal como Ricoeur, por exemplo, a enuncia. Não me debrucei o suficiente sobre a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social para escrever como a Constança. Todavia, como confio mais nela do que em qualquer coisa destinada a "regular" seja o que for - por natureza, sou alérgico, como já o era em relação à defunta Alta Autoridade -, dou por estabelecidas duas ou três coisas graves que nem as falinhas mansas do dr. Santos Silva chegam para disfarçar. Estão todas bem evidenciadas no texto da Constança. E estou à vontade. Sempre fui dos que não simpatizam com o temor, tantas vezes reverencial, com que se olha para a classe jornalística. Só que agora a coisa é outra e mais séria. E aí entra isto, nas palavras da Constança: "seria ainda melhor ver o que vamos fazer nós – e quando digo “nós” não estou a referir-me apenas aos jornalistas." Cá estaremos para ver. Eu não sou dado a pieguices deste género, mas lembrei-me das palavras do padre alemão Martin Niemöeller, que Brecht imortalizou, e que convém obviamente "descontextualizar", salvo na parte em que é importante que alguém continue a falar:
"Primeiro, vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista.
Depois, vieram buscar os judeus.
Nada disse, pois não era judeu.
Em seguida foi a vez dos operários, membros dos sindicatos.
Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado.
Mais tarde levaram os católicos.
Nem uma palavra pronunciei, pois sou protestante.
Agora, vieram buscar-me.
E, quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para falar."
26.2.06
LIMITAÇÕES (actualizadas)
1. No Origem das Espécies, "Regular, regular", 1 e 2. "Daqui a uns tempos, se os deixarmos à vontade, toda a nossa vida estará submetida a entidades reguladoras com padrecas especializados ou polícias encartados e nomeados pelo governo ou pelos partidos."
2. No Glória Fácil, "Gis", de Fernanda Câncio: "a não ser que depois do martírio, depois da inominável agonia, depois deste horror que estremece todas as noções, todos os adquiridos (que sabemos falsos mas mesmo assim guardamos) se queira agora enterrar a gis [de Gisberto, o homem morto no Porto às mãos de um bando de "jovens"] nas suas múltiplas exclusões em nome da reabilitação dos seus agressores, fazer de conta que o que se passou não foi assim tão mau e que, sobretudo, não foi, não pode ter sido consciente, quanto mais premeditado.como se pudéssemos -- e quiséssemos -- apagar a gis e o seu terrível destino, para não termos de encarar o que aconteceu e porquê."
3. No Blasfémias, "Direito de pernada em Democracia", de João Miranda: "é natural que os nossos deputados queiram decidir por que métodos e com que meios financeiros é que nós nos podemos reproduzir."
4. No Mais Actual, "Despertar": "A nova legislação, que permitiu a tomada de posse de uma nova entidade reguladora da comunicação, começa a despertar as consciências, dando origem a chamadas de atenção muito pertinentes.Apesar do alerta em devido tempo, nunca são demais as opiniões sobre um assunto sensível e fundamental para a sanidade do regime democrático.Ainda se vai a tempo de inverter uma legislação impensável do autor do célebre golpe constitucional?"
LIMITAÇÕES (actualizadas)
1. No Origem das Espécies, "Regular, regular", 1 e 2. "Daqui a uns tempos, se os deixarmos à vontade, toda a nossa vida estará submetida a entidades reguladoras com padrecas especializados ou polícias encartados e nomeados pelo governo ou pelos partidos."
2. No Glória Fácil, "Gis", de Fernanda Câncio: "a não ser que depois do martírio, depois da inominável agonia, depois deste horror que estremece todas as noções, todos os adquiridos (que sabemos falsos mas mesmo assim guardamos) se queira agora enterrar a gis [de Gisberto, o homem morto no Porto às mãos de um bando de "jovens"] nas suas múltiplas exclusões em nome da reabilitação dos seus agressores, fazer de conta que o que se passou não foi assim tão mau e que, sobretudo, não foi, não pode ter sido consciente, quanto mais premeditado.como se pudéssemos -- e quiséssemos -- apagar a gis e o seu terrível destino, para não termos de encarar o que aconteceu e porquê."
3. No Blasfémias, "Direito de pernada em Democracia", de João Miranda: "é natural que os nossos deputados queiram decidir por que métodos e com que meios financeiros é que nós nos podemos reproduzir."
4. No Mais Actual, "Despertar": "A nova legislação, que permitiu a tomada de posse de uma nova entidade reguladora da comunicação, começa a despertar as consciências, dando origem a chamadas de atenção muito pertinentes.Apesar do alerta em devido tempo, nunca são demais as opiniões sobre um assunto sensível e fundamental para a sanidade do regime democrático.Ainda se vai a tempo de inverter uma legislação impensável do autor do célebre golpe constitucional?"
BB COMO ELA É
A Carla exibe quase diariamente o seu desvelo fotogénico por Brigitte Bardot, na versão "boa". O acaso do zapping levou-me a um "canal de biografias" onde passava a da BB. Bardot era entrevistada na sua casa, com piscina ao fundo, e a conversa era entremeada com a história da vedeta, primeiro a preto-e-branco e depois a cores. A ex-diva já dobrou os setenta e "dobrou", como lhe competia, muitos homens. Porventura farta deles e dela própria, dedicou-se à causa animal. Isso aproximou-a de um outro filantropo de extrema-direita, amigo de Le Pen. No documentário chegou mesmo a falar da "admiração" que sentia pelo líder da Frente Nacional e confessou que nutre um enorme desprezo pela humanidade em geral. Bardot é hoje evidentemente uma ruína. Pelos vistos não apenas física, mas também "humana". A culpa, em parte, não é dela. Existe um mundo que a consumiu e que a secou oportunamente. Os animais são o seu último reduto, a singularidade frívola de uma loira septuagenária.
BB COMO ELA É
A Carla exibe quase diariamente o seu desvelo fotogénico por Brigitte Bardot, na versão "boa". O acaso do zapping levou-me a um "canal de biografias" onde passava a da BB. Bardot era entrevistada na sua casa, com piscina ao fundo, e a conversa era entremeada com a história da vedeta, primeiro a preto-e-branco e depois a cores. A ex-diva já dobrou os setenta e "dobrou", como lhe competia, muitos homens. Porventura farta deles e dela própria, dedicou-se à causa animal. Isso aproximou-a de um outro filantropo de extrema-direita, amigo de Le Pen. No documentário chegou mesmo a falar da "admiração" que sentia pelo líder da Frente Nacional e confessou que nutre um enorme desprezo pela humanidade em geral. Bardot é hoje evidentemente uma ruína. Pelos vistos não apenas física, mas também "humana". A culpa, em parte, não é dela. Existe um mundo que a consumiu e que a secou oportunamente. Os animais são o seu último reduto, a singularidade frívola de uma loira septuagenária.
UMA ESTÁTUA PARA TEIXEIRA-GOMES
Quase nas vésperas de abandonar o cargo, Jorge Sampaio ainda arranjou tempo para ir à Argélia. Entre outras coisas, vai inaugurar uma estátua de Manuel Teixeira-Gomes em Bejaia, antiga Bougie, onde o ex-presidente da República se exilou e morreu em 1941. Há uns anos, li a biografia dele por Norberto Lopes - "O Exilado de Bougie" - e uns capítulos do livro de Urbano Tavares Rodrigues, "M. Teixeira-Gomes, O Discurso do Desejo" (Edições 70). Teixeira-Gomes sempre me pareceu uma personagem atípica da vida política portuguesa, particularmente da vida "irreal" da I República. Estudou em Coimbra onde frequentou medicina sem lhe conceder a menor importância. A isso preferiu definitivamente a literatura e a boémia. Colaborou em revistas e jornais, nomeadamente "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "A Luta", de Lisboa. O pai era um produtor algarvio - bem "amanhado" - de figos secos e Teixeira-Gomes acaba a viajar, à conta dessa indústria, pela Europa e pelo Mediterrâneo onde desenvolve o seu interesse pela literatura em encontros vários. Começa a publicar. Em 1899, "Inventário de Junho", em 1904, "Agosto Azul" e em 1909, "Gente Singular". A sua vida política inicia-se em 1911 e prolonga-se até 1918, como representante de Portugal em Londres. Quando Sidónio emerge, chama-o e de demite-o do cargo. Teixeira-Gomes fixa-se então no Algarve como administrador das propriedades. Toda a sua obra literária "vive" de figuras algarvias: "Sabina Freire", por exemplo, é uma viúva de Portimão. Entre 1919 a 1923 volta à diplomacia em Madrid e de novo em Londres. Foi eleito presidente em 6 de Agosto de 1923, ganhando a Bernardino Machado. "A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros", escreveria. Dotado de uma fina e amargurada sensibilidade, incompatível com a mesquinhez do regime e dos seus servidores, resigna ao cargo em 1925 e parte para Bougie, na Argélia, que ele via como "uma Sintra à beira-mar". Os seus restos mortais só regressariam a Portugal em 1950. Durante o exílio poucos ou nenhuns contactos manteve com o país, família incluída. Era um sensualista que amava os prazeres indistintos que a vida lhe proporcionava, algo que a sua escrita, em grande medida, reflectia. Bem longe daqui, trocou a hipocrisisa nacional pela sua "verdade", fosse lá ela o que fosse. Norberto Lopes via-o, e bem, como uma "personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença". Manuel Teixeira-Gomes: mais um que se enganou no lugar onde nasceu.
UMA ESTÁTUA PARA TEIXEIRA-GOMES
Quase nas vésperas de abandonar o cargo, Jorge Sampaio ainda arranjou tempo para ir à Argélia. Entre outras coisas, vai inaugurar uma estátua de Manuel Teixeira-Gomes em Bejaia, antiga Bougie, onde o ex-presidente da República se exilou e morreu em 1941. Há uns anos, li a biografia dele por Norberto Lopes - "O Exilado de Bougie" - e uns capítulos do livro de Urbano Tavares Rodrigues, "M. Teixeira-Gomes, O Discurso do Desejo" (Edições 70). Teixeira-Gomes sempre me pareceu uma personagem atípica da vida política portuguesa, particularmente da vida "irreal" da I República. Estudou em Coimbra onde frequentou medicina sem lhe conceder a menor importância. A isso preferiu definitivamente a literatura e a boémia. Colaborou em revistas e jornais, nomeadamente "O Primeiro de Janeiro", do Porto, e "A Luta", de Lisboa. O pai era um produtor algarvio - bem "amanhado" - de figos secos e Teixeira-Gomes acaba a viajar, à conta dessa indústria, pela Europa e pelo Mediterrâneo onde desenvolve o seu interesse pela literatura em encontros vários. Começa a publicar. Em 1899, "Inventário de Junho", em 1904, "Agosto Azul" e em 1909, "Gente Singular". A sua vida política inicia-se em 1911 e prolonga-se até 1918, como representante de Portugal em Londres. Quando Sidónio emerge, chama-o e de demite-o do cargo. Teixeira-Gomes fixa-se então no Algarve como administrador das propriedades. Toda a sua obra literária "vive" de figuras algarvias: "Sabina Freire", por exemplo, é uma viúva de Portimão. Entre 1919 a 1923 volta à diplomacia em Madrid e de novo em Londres. Foi eleito presidente em 6 de Agosto de 1923, ganhando a Bernardino Machado. "A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros", escreveria. Dotado de uma fina e amargurada sensibilidade, incompatível com a mesquinhez do regime e dos seus servidores, resigna ao cargo em 1925 e parte para Bougie, na Argélia, que ele via como "uma Sintra à beira-mar". Os seus restos mortais só regressariam a Portugal em 1950. Durante o exílio poucos ou nenhuns contactos manteve com o país, família incluída. Era um sensualista que amava os prazeres indistintos que a vida lhe proporcionava, algo que a sua escrita, em grande medida, reflectia. Bem longe daqui, trocou a hipocrisisa nacional pela sua "verdade", fosse lá ela o que fosse. Norberto Lopes via-o, e bem, como uma "personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença". Manuel Teixeira-Gomes: mais um que se enganou no lugar onde nasceu.
O ESTÁDIO NATURAL
O ESTÁDIO NATURAL
25.2.06
UM PRIVILEGIADO
UM PRIVILEGIADO
24.2.06
INTERVALO E TENTATIVA
(publicado no Independente)
INTERVALO E TENTATIVA
(publicado no Independente)
23.2.06
TRUMAN
TRUMAN
FESTIM NU
Um bando de energúmenos, tratados gentilmente pelos costumes e pelo regime como "crianças", executaram fria e sadicamente um homem no Porto. Quando terminaram o festim, deitaram-no para um poço num prédio em construção. O homem em questão é-nos apresentado como "travesti", "toxicodependente" e "sem abrigo" e as "crianças" pertencem às oficinas de S. José, com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos. Avançou o habitual batalhão de polícias e de sábios da Lei Tutelar de Menores para aplicar "sanções". A seu tempo aparecerão os psicólogos sociais com as suas "equipas-projecto" para "acompanhar" as criancinhas criminosas. Supôe-se que terão ficado "traumatizadas" e, mesmo que esse não seja o caso, os psicólogos sociais encarregar-se-ão de arranjar qualquer coisa para se entreterem nos seus relatórios inócuos. Eu limito-me a citar o Eduardo Pitta: "o mergulhador do Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto que retirou o travesti do fundo do poço deparou-se "com o corpo a boiar de bruços, com as calças desapertadas e baixadas [...] a vítima tinha escoriações nas nádegas." Comentários para quê?" Sim, para quê?
FESTIM NU
Um bando de energúmenos, tratados gentilmente pelos costumes e pelo regime como "crianças", executaram fria e sadicamente um homem no Porto. Quando terminaram o festim, deitaram-no para um poço num prédio em construção. O homem em questão é-nos apresentado como "travesti", "toxicodependente" e "sem abrigo" e as "crianças" pertencem às oficinas de S. José, com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos. Avançou o habitual batalhão de polícias e de sábios da Lei Tutelar de Menores para aplicar "sanções". A seu tempo aparecerão os psicólogos sociais com as suas "equipas-projecto" para "acompanhar" as criancinhas criminosas. Supôe-se que terão ficado "traumatizadas" e, mesmo que esse não seja o caso, os psicólogos sociais encarregar-se-ão de arranjar qualquer coisa para se entreterem nos seus relatórios inócuos. Eu limito-me a citar o Eduardo Pitta: "o mergulhador do Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto que retirou o travesti do fundo do poço deparou-se "com o corpo a boiar de bruços, com as calças desapertadas e baixadas [...] a vítima tinha escoriações nas nádegas." Comentários para quê?" Sim, para quê?
KILAS
A RTP dá-nos hoje, provavelmente lá para as tantas, a possiblidade de revermos o filme Kilas, o mau da fita, de José Fonseca e Costa. E de vermos Mário Viegas, esse extraordinário actor português precocemente desaparecido, ao lado de Lia Gama Paula Guedes ou de Milu, que faz de "tia". A música é de Sérgio Godinho. É a uma tia escandalizada, a Milu, que Viegas/Kilas se dirige num momento de desabafo mais vernacular: "as mulheres são todas iguais, são todas umas putas...". A ver ou rever.
KILAS
A RTP dá-nos hoje, provavelmente lá para as tantas, a possiblidade de revermos o filme Kilas, o mau da fita, de José Fonseca e Costa. E de vermos Mário Viegas, esse extraordinário actor português precocemente desaparecido, ao lado de Lia Gama Paula Guedes ou de Milu, que faz de "tia". A música é de Sérgio Godinho. É a uma tia escandalizada, a Milu, que Viegas/Kilas se dirige num momento de desabafo mais vernacular: "as mulheres são todas iguais, são todas umas putas...". A ver ou rever.
ANTES DE CAIR
Pela Joana Amaral Dias fico a saber que o sr. ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, disse ao Público que as afirmações que proferiu sobre a polémica os cartoons correspondem a frases que "foram truncadas", "deturpadas" e alvo de "simplificações grosseiras". É Freitas no labirinto do respeitinho. E é sempre assim que se começa antes de cair.
ANTES DE CAIR
Pela Joana Amaral Dias fico a saber que o sr. ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, disse ao Público que as afirmações que proferiu sobre a polémica os cartoons correspondem a frases que "foram truncadas", "deturpadas" e alvo de "simplificações grosseiras". É Freitas no labirinto do respeitinho. E é sempre assim que se começa antes de cair.
22.2.06
UM MANDAMENTO
Hoje acordei* assim, com pouca vontade de olhar para o umbigo da blogosfera e, muito menos, para o meu. Tinha pensado em prescindir dos comentários anónimos já que o que menos custa é inventar um nome ou umas iniciais. Todavia, era só o que me faltava, nesta fase melancólica da existência, pôr-me aqui a pensar nisto com o sol ali fora.
UM MANDAMENTO
Hoje acordei* assim, com pouca vontade de olhar para o umbigo da blogosfera e, muito menos, para o meu. Tinha pensado em prescindir dos comentários anónimos já que o que menos custa é inventar um nome ou umas iniciais. Todavia, era só o que me faltava, nesta fase melancólica da existência, pôr-me aqui a pensar nisto com o sol ali fora.
21.2.06
A DERRADEIRA LÁGRIMA
O dr. Sampaio voou até Timor para verter uma derradeira e furtiva lágrima. Desta vez, a venera foi ao encontro do condecorado, o homólogo Xanana. Timor pesa-nos. É uma daquelas matérias que temos com nós mesmos que ficará eternamente mal resolvida. Fátima ou a língua portuguesa, duas coisas que apresentamos como ex libris do nosso relacionamento com Timor Leste, arriscam-se a ser cada vez mais uma memória, muitas vezes péssima. Andámos com o pathos timorense ao colo como se de uma cruz se tratasse. Pagámos os preços de todos os remorsos em todo o lado. Falta pagar mais um. Ramos Horta, o vaidoso ministro dos Negócios Estrangeiros, suspira pelo inútil cargo de secretário geral da ONU. Freitas do Amaral, o preclaro congénere português, já soltou o apoio. Deve seguir-se Sampaio, de preferência emocionado. Timor Leste merecia melhor sorte do que ter tido que depender de nós e dos caprichos de uma ditadura vizinha. Nós apenas nos "comovemos" e observamos, ao longe, o que se passa. A Austrália, afinal, é já ali ao lado e o inglês, a gramática global. Este tardio romantismo político de Sampaio, ao outorgar a Timor Leste uma simbólica e melancólica despedida, é inconsequente. A realidade política das coisas é o que ela é. Está longe de ser o que Sampaio, na sua frivolidade, pensa que ela é.
A DERRADEIRA LÁGRIMA
O dr. Sampaio voou até Timor para verter uma derradeira e furtiva lágrima. Desta vez, a venera foi ao encontro do condecorado, o homólogo Xanana. Timor pesa-nos. É uma daquelas matérias que temos com nós mesmos que ficará eternamente mal resolvida. Fátima ou a língua portuguesa, duas coisas que apresentamos como ex libris do nosso relacionamento com Timor Leste, arriscam-se a ser cada vez mais uma memória, muitas vezes péssima. Andámos com o pathos timorense ao colo como se de uma cruz se tratasse. Pagámos os preços de todos os remorsos em todo o lado. Falta pagar mais um. Ramos Horta, o vaidoso ministro dos Negócios Estrangeiros, suspira pelo inútil cargo de secretário geral da ONU. Freitas do Amaral, o preclaro congénere português, já soltou o apoio. Deve seguir-se Sampaio, de preferência emocionado. Timor Leste merecia melhor sorte do que ter tido que depender de nós e dos caprichos de uma ditadura vizinha. Nós apenas nos "comovemos" e observamos, ao longe, o que se passa. A Austrália, afinal, é já ali ao lado e o inglês, a gramática global. Este tardio romantismo político de Sampaio, ao outorgar a Timor Leste uma simbólica e melancólica despedida, é inconsequente. A realidade política das coisas é o que ela é. Está longe de ser o que Sampaio, na sua frivolidade, pensa que ela é.
BUROCRACIA ÚNICA
O Eduardo Pitta foi a um dos mais concorridos serviços de finanças de Lisboa, o de Alvalade. Conta que, para o multibanco funcionar, os telefones têm de estar desligados. Ou um ou o outro. Este serviço devia pura e simplesmente ser encerrado. Os seus funcionários trabalham num ambiente deplorável que se estende ao atendimento. Há dias eram os próprios funcionários que andavam a limpar e a mudar caixotes. Em vez de se preocupar com a bufaria - pôr cá fora listas de devedores para o vulgo devassar sem que isso garanta o que quer que seja ao Estado- o governo faria melhor em tratar destas "micro-causas". Quem diz isto, diz levar as coisas a um tal ponto "tecnológico" que o contribuinte fique "dispensado" de entregar o seu imposto já que o fisco, devidamente assenhoreado, passará a fazer isso por si. Dispensamos o "big brother" fiscal ou outro qualquer. O "pensamento único", extensível ao nosso miserável quotidiano e à burocracia, é uma ideia desagradável. Convém, no entanto, estar preparado para ela.
BUROCRACIA ÚNICA
O Eduardo Pitta foi a um dos mais concorridos serviços de finanças de Lisboa, o de Alvalade. Conta que, para o multibanco funcionar, os telefones têm de estar desligados. Ou um ou o outro. Este serviço devia pura e simplesmente ser encerrado. Os seus funcionários trabalham num ambiente deplorável que se estende ao atendimento. Há dias eram os próprios funcionários que andavam a limpar e a mudar caixotes. Em vez de se preocupar com a bufaria - pôr cá fora listas de devedores para o vulgo devassar sem que isso garanta o que quer que seja ao Estado- o governo faria melhor em tratar destas "micro-causas". Quem diz isto, diz levar as coisas a um tal ponto "tecnológico" que o contribuinte fique "dispensado" de entregar o seu imposto já que o fisco, devidamente assenhoreado, passará a fazer isso por si. Dispensamos o "big brother" fiscal ou outro qualquer. O "pensamento único", extensível ao nosso miserável quotidiano e à burocracia, é uma ideia desagradável. Convém, no entanto, estar preparado para ela.
20.2.06
PATOLAS
Estou perigosamente perto do local onde apareceu morto um ganso patola. Consta que o animal foi removido como um perigoso terrorista ou um produto químico para análise. A GNR, devidamente enquadrada, encarregou-se da transumância. Ficaram de ver se foi vítima da gripe aviária. Dificilmente terá sido. Todavia a ideia da conversa era outra. Passou um ano sobre Sócrates e um ano sobre as nossas "grandes esperanças". Eu apenas reclamei aqui e votei para que fosse feito o indispensável. Há um ano o indispensável era retirar Santana Lopes de cena para evitar fazer mais mal a ele próprio e, por tabela, ao país. O resto viria de soi. Veio? A ver vamos, como dizia o cego. Sócrates, graças a Deus, é imperfeito. Manda num partido onde o mandar é difícil. O partido, por sua vez, manda no governo. E as "cabeças" do aparelho mandam nos dois. Estamos melhor? Estamos vagamente na mesma, sem o entretenimento diário que Santana Lopes proporcionava. Sócrates merecia melhor e deve fazer por merecer melhor. Se fosse hoje, como eleitor, eu provavelmente faria a mesma coisa. Em 2005, mudei, em "legislativas" e pela primeira vez, o meu habitual sentido de voto. Como diria o Lampedusa, é preciso que alguma coisa mude (escrevi a frase sem me rir). Dito isto, somos uns meros patolas. Vivos, mas patolas.
PATOLAS
Estou perigosamente perto do local onde apareceu morto um ganso patola. Consta que o animal foi removido como um perigoso terrorista ou um produto químico para análise. A GNR, devidamente enquadrada, encarregou-se da transumância. Ficaram de ver se foi vítima da gripe aviária. Dificilmente terá sido. Todavia a ideia da conversa era outra. Passou um ano sobre Sócrates e um ano sobre as nossas "grandes esperanças". Eu apenas reclamei aqui e votei para que fosse feito o indispensável. Há um ano o indispensável era retirar Santana Lopes de cena para evitar fazer mais mal a ele próprio e, por tabela, ao país. O resto viria de soi. Veio? A ver vamos, como dizia o cego. Sócrates, graças a Deus, é imperfeito. Manda num partido onde o mandar é difícil. O partido, por sua vez, manda no governo. E as "cabeças" do aparelho mandam nos dois. Estamos melhor? Estamos vagamente na mesma, sem o entretenimento diário que Santana Lopes proporcionava. Sócrates merecia melhor e deve fazer por merecer melhor. Se fosse hoje, como eleitor, eu provavelmente faria a mesma coisa. Em 2005, mudei, em "legislativas" e pela primeira vez, o meu habitual sentido de voto. Como diria o Lampedusa, é preciso que alguma coisa mude (escrevi a frase sem me rir). Dito isto, somos uns meros patolas. Vivos, mas patolas.
19.2.06
EXIBIR A EXIBIÇÃO DO EXIBICIONISMO
"Globalizou-se um novo tipo de informação sobre os conhecidos que revelava o verdadeiro significado destes "conteúdos" da indústria cultural: é irrelevante o que as pessoas fazem na vida profissional, se é que a têm, só interessa a sua vida privada. Para isso contribuíram as manas Grimaldi do Mónaco e outras realezas, que pareciam limitar-se, no espaço público, a exibir a exibição do seu exibicionismo (...). A indústria das pessoas-marcas entrou numa espiral que arrasta uma incrível quantidade de publicações. E arrasta também os próprios conteúdos televisivos: a TV não só cria conhecidos, como cria programas para os conhecidos de darem a conhecer ainda mais ou outra vez".
Eduardo Cintra Torres in Público
EXIBIR A EXIBIÇÃO DO EXIBICIONISMO
"Globalizou-se um novo tipo de informação sobre os conhecidos que revelava o verdadeiro significado destes "conteúdos" da indústria cultural: é irrelevante o que as pessoas fazem na vida profissional, se é que a têm, só interessa a sua vida privada. Para isso contribuíram as manas Grimaldi do Mónaco e outras realezas, que pareciam limitar-se, no espaço público, a exibir a exibição do seu exibicionismo (...). A indústria das pessoas-marcas entrou numa espiral que arrasta uma incrível quantidade de publicações. E arrasta também os próprios conteúdos televisivos: a TV não só cria conhecidos, como cria programas para os conhecidos de darem a conhecer ainda mais ou outra vez".
Eduardo Cintra Torres in Público
QUESTÕES DE TODOS OS DOMINGOS
"O regime de escutas telefónicas é absurdo? O âmbito de competências das escutas telefónicas é excessivo, vago e descontrolado? As fugas de informação no sistema judicial são a regra? A violação do segredo de justiça, por parte dos operadores, é prática corrente? A Procuradoria é cada vez mais atabalhoada e impotente? Há, em simultâneo, incompetência e intenção dolosa por parte dos autores das fugas de informação? O despotismo de alguns magistrados é incontrolável? Não existe autoridade disciplinar efectiva no sistema de justiça? O Governo e o Parlamento mostram ser incapazes de reformar os procedimentos e a legislação? Tudo isso é secundário. A nada disso se responde."
António Barreto, in Público
QUESTÕES DE TODOS OS DOMINGOS
"O regime de escutas telefónicas é absurdo? O âmbito de competências das escutas telefónicas é excessivo, vago e descontrolado? As fugas de informação no sistema judicial são a regra? A violação do segredo de justiça, por parte dos operadores, é prática corrente? A Procuradoria é cada vez mais atabalhoada e impotente? Há, em simultâneo, incompetência e intenção dolosa por parte dos autores das fugas de informação? O despotismo de alguns magistrados é incontrolável? Não existe autoridade disciplinar efectiva no sistema de justiça? O Governo e o Parlamento mostram ser incapazes de reformar os procedimentos e a legislação? Tudo isso é secundário. A nada disso se responde."
António Barreto, in Público
18.2.06
O METRO
Para além da Casa da Música, o Porto também arranjou um sarilho chamado "Metro do Porto". De acordo com um relatório oficial que a "teoria da licenciosidade" em vigor não permite que se conheça na íntegra, a administração do dito tinha direito a uns "prémios" de gestão, uma simpática extravagância outorgada em 2000 pelo dr. Coelho na sua breve encarnação como ministro das obras públicas. Valentim Loureiro e os outros autarcas responsáveis pelo "Metro" avalizaram a coisa e o dinheiro foi distribuído em conformidade. Agora o governo quer "avocar" o "Metro", presumivelmente para colmatar os disparates que o tal relatório evidencia, mas que a opinião pública e pagante só pode conhecer "em parte". Nada disto seria muito importante se o referido "Metro" fosse um "modelo" em todos os sentidos e não apenas no estético e utilitário. Acontece que não é. É mais uma trapalhada onde, como dizia o ex-pai da Pátria, "o dinheiro aparece sempre".
O METRO
Para além da Casa da Música, o Porto também arranjou um sarilho chamado "Metro do Porto". De acordo com um relatório oficial que a "teoria da licenciosidade" em vigor não permite que se conheça na íntegra, a administração do dito tinha direito a uns "prémios" de gestão, uma simpática extravagância outorgada em 2000 pelo dr. Coelho na sua breve encarnação como ministro das obras públicas. Valentim Loureiro e os outros autarcas responsáveis pelo "Metro" avalizaram a coisa e o dinheiro foi distribuído em conformidade. Agora o governo quer "avocar" o "Metro", presumivelmente para colmatar os disparates que o tal relatório evidencia, mas que a opinião pública e pagante só pode conhecer "em parte". Nada disto seria muito importante se o referido "Metro" fosse um "modelo" em todos os sentidos e não apenas no estético e utilitário. Acontece que não é. É mais uma trapalhada onde, como dizia o ex-pai da Pátria, "o dinheiro aparece sempre".
COMEÇA BEM
O sr. Pedro Burmester, um dos expoentes da "cultura musical" portuguesa, que acumula com a de pianista e de gestor de equipamentos culturais, voltou à Casa da Música. A "inculta" Câmara Municipal do Porto e outros beneméritos da "direita" "conduziram" aparentemente Burmester para uma estrondosa demissão pela qual, aliás, recebeu a devida indemnização. Primeiro houve um "fadinho choradinho" em que participou o presidente da República com vista à "recuperação" do dito Burmester. Depois "traçou-se" um perfil de director artístico que, por mera coincidência, era o do pianista. Finalmente o próprio veio falar de "excessos", em jeito de mea culpa - não por causa da indemnização que prudentemente guardou, mas os dele contra Rui Rio - e aí o temos, de novo, ao leme do ex libris portuense. O que esta fantochada custa em dinheiro, não parece que custe muito em carácter. Razão tinha o dr. Soares que, numa das suas deambulações eleitorais, passou pela Casa da Música e lá foi dizendo que "o dinheiro aparece sempre". Para não destoar, a Casa da Música começa bem.
COMEÇA BEM
O sr. Pedro Burmester, um dos expoentes da "cultura musical" portuguesa, que acumula com a de pianista e de gestor de equipamentos culturais, voltou à Casa da Música. A "inculta" Câmara Municipal do Porto e outros beneméritos da "direita" "conduziram" aparentemente Burmester para uma estrondosa demissão pela qual, aliás, recebeu a devida indemnização. Primeiro houve um "fadinho choradinho" em que participou o presidente da República com vista à "recuperação" do dito Burmester. Depois "traçou-se" um perfil de director artístico que, por mera coincidência, era o do pianista. Finalmente o próprio veio falar de "excessos", em jeito de mea culpa - não por causa da indemnização que prudentemente guardou, mas os dele contra Rui Rio - e aí o temos, de novo, ao leme do ex libris portuense. O que esta fantochada custa em dinheiro, não parece que custe muito em carácter. Razão tinha o dr. Soares que, numa das suas deambulações eleitorais, passou pela Casa da Música e lá foi dizendo que "o dinheiro aparece sempre". Para não destoar, a Casa da Música começa bem.
FAZER SENTIDO
Precisamente há um ano, a dois dias das eleições legislativas, escrevia-se aqui o seguinte: "Quando descer do limbo à realidade, Sócrates estará prisioneiro da velha evidência de que a vida é infinitamente mais rica do que a imaginação. Nunca o PS teve a votação que terá no domingo, e nunca o PS terá tanto trabalho duro pela frente, tanto mais exigível quanto maior for a "maioria". O país não está em condições de dar um segundo de tranquilidade a Sócrates, e ele sabe disso. Até agora, o PS cavalgou mais ou menos tranquilamente o nosso "não-querer-Santana-Lopes-e-Portas". A seguir, Sócrates terá que dar provas da sua coragem fria para fazer outra coisa. É esse o sentido do voto de muitos portugueses que normalmente não votariam no PS. Caso contrário, esse voto não fará sentido nenhum." Um ano depois, terá mesmo feito "sentido"?
FAZER SENTIDO
Precisamente há um ano, a dois dias das eleições legislativas, escrevia-se aqui o seguinte: "Quando descer do limbo à realidade, Sócrates estará prisioneiro da velha evidência de que a vida é infinitamente mais rica do que a imaginação. Nunca o PS teve a votação que terá no domingo, e nunca o PS terá tanto trabalho duro pela frente, tanto mais exigível quanto maior for a "maioria". O país não está em condições de dar um segundo de tranquilidade a Sócrates, e ele sabe disso. Até agora, o PS cavalgou mais ou menos tranquilamente o nosso "não-querer-Santana-Lopes-e-Portas". A seguir, Sócrates terá que dar provas da sua coragem fria para fazer outra coisa. É esse o sentido do voto de muitos portugueses que normalmente não votariam no PS. Caso contrário, esse voto não fará sentido nenhum." Um ano depois, terá mesmo feito "sentido"?
DIZ O ROTO AO NU
O senhor "um milhão de votos", Manuel Alegre, permanece impavidamente em Marte. Perdeu as eleições, com os outros quatro, mas tem um "movimento" e tem "causas". Talvez por isto e por se supôr subtil e imprescindível, Alegre está à espera que José Sócrates lhe telefone. Imaginam para quê? Eu não e suponho que Sócrates também não. Como o primeiro-ministro não lhe telefona, Alegre manda-lhe recados. "Sócrates não tem experiência internacional e Freitas, no estado em que está, não dá garantias", disse o bardo. Realmente, Freitas não está - como, aliás, raramente esteve - em muito bom estado. Todavia será que Manuel Alegre já reparou no "estado" dele?
DIZ O ROTO AO NU
O senhor "um milhão de votos", Manuel Alegre, permanece impavidamente em Marte. Perdeu as eleições, com os outros quatro, mas tem um "movimento" e tem "causas". Talvez por isto e por se supôr subtil e imprescindível, Alegre está à espera que José Sócrates lhe telefone. Imaginam para quê? Eu não e suponho que Sócrates também não. Como o primeiro-ministro não lhe telefona, Alegre manda-lhe recados. "Sócrates não tem experiência internacional e Freitas, no estado em que está, não dá garantias", disse o bardo. Realmente, Freitas não está - como, aliás, raramente esteve - em muito bom estado. Todavia será que Manuel Alegre já reparou no "estado" dele?
OBRIGADINHA
"As posições de Freitas do Amaral enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros são posições do Governo."
OBRIGADINHA
"As posições de Freitas do Amaral enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros são posições do Governo."
17.2.06
TOMÁS TAVEIRA

Por causa de uma prosa que li no Hardblog o mês passado, reproduzida parcialmente aqui, percebi que reinava escândalo na cabeça de "ilustres" figuras da nossa "cultura" e da nossa arquitectura, em particular, por o arquitecto Tomás Taveira ter sido nomeado para o conselho consultivo do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR). O dito escândalo manifestou-se agora sob a forma de "carta aberta", com 150 assinaturas, entregue no ministério da Cultura. Entre outros mimos, as notabilidades consideram um "insulto" e um "ultraje" a presença de Taveira no referido conselho e lembram, quais inquisidores de dedinho espetado, que foi "reformado compulsivamente" da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Se lermos os nomes das notabilidades que se eriçam contra Taveira, encontramos a "nata" do establishment no sector. Ou seja, trata-se de uma reacção corporativa e tipicamente de capela por parte de umas criaturas talentosas - algumas são-no, de facto - que o regime tem protegido e abençoado. Estão lá praticamente todas. Esta gente, como na política, considera-se dona dos costumes e das coisas em que mexem e onde sobrevivem. Fazem parte de um petit comité que se protege mutuamente e que, quase sempre, encontra no poder alguém que se babe para cima deles. Muitos ocuparam anos a fio cargos oficiais e "custa-lhes" - o termo é este - que um "renegado" como Taveira também possa ocupar. Tomás Taveira é um grande nome da nossa arquitectura contemporânea e, para sua infelicidade, não é tão "perfeitinho" como os seus algozes. O seu nome caiu na "boca do mundo" apenas por ser um bom profissional com defeitos humanos. As "virgens ofendidas" da "carta aberta" imaginam-se modelos virtuosos e cumpridores de padrões "morais". São mais uns quantos que estão muito bem uns para os outros.
TOMÁS TAVEIRA

Por causa de uma prosa que li no Hardblog o mês passado, reproduzida parcialmente aqui, percebi que reinava escândalo na cabeça de "ilustres" figuras da nossa "cultura" e da nossa arquitectura, em particular, por o arquitecto Tomás Taveira ter sido nomeado para o conselho consultivo do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR). O dito escândalo manifestou-se agora sob a forma de "carta aberta", com 150 assinaturas, entregue no ministério da Cultura. Entre outros mimos, as notabilidades consideram um "insulto" e um "ultraje" a presença de Taveira no referido conselho e lembram, quais inquisidores de dedinho espetado, que foi "reformado compulsivamente" da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Se lermos os nomes das notabilidades que se eriçam contra Taveira, encontramos a "nata" do establishment no sector. Ou seja, trata-se de uma reacção corporativa e tipicamente de capela por parte de umas criaturas talentosas - algumas são-no, de facto - que o regime tem protegido e abençoado. Estão lá praticamente todas. Esta gente, como na política, considera-se dona dos costumes e das coisas em que mexem e onde sobrevivem. Fazem parte de um petit comité que se protege mutuamente e que, quase sempre, encontra no poder alguém que se babe para cima deles. Muitos ocuparam anos a fio cargos oficiais e "custa-lhes" - o termo é este - que um "renegado" como Taveira também possa ocupar. Tomás Taveira é um grande nome da nossa arquitectura contemporânea e, para sua infelicidade, não é tão "perfeitinho" como os seus algozes. O seu nome caiu na "boca do mundo" apenas por ser um bom profissional com defeitos humanos. As "virgens ofendidas" da "carta aberta" imaginam-se modelos virtuosos e cumpridores de padrões "morais". São mais uns quantos que estão muito bem uns para os outros.
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