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18.11.15

Os candidatos presidenciais e a situação


 


Jornal de Notícias, 18.11.2015


A pirueta perpetrada no resultado das legislativas mantém as atenções centradas na chamada governabilidade. E em Cavaco Silva. Os mais inquietos, sobretudo os "transformistas de 4 de Outubro", abundam na necessidade de "rapidez" na decisão e nos insultos mais ou menos velados ao presidente. Mas, com os poderes cerceados pelos zelotas da revisão de 1982, este tem de decidir com a ponderação que as circunstâncias exigem. Circunstâncias que são da mais diversa natureza. Desde as formais impostas pela Constituição - Governo demitido e em gestão e impossibilidade de dissolução do Parlamento até 4 de Abril - até às políticas: emergência de uma maioria informal, atípica, que apenas aceita a "entrada em funções" de um Governo minoritário do PS devidamente "vigiado" pela ala mais minoritária da aritmética parlamentar. Onde existia uma coligação eleitoral e de Governo vencedora, sem maioria absoluta, passou a estar uma frente não eleitoral perdedora, disposta a somar votos de deputados para sustentar precariamente um segundo Governo minoritário. Se o PR não precisasse de tempo para avaliar estas subtilezas do espírito e da engenharia partidária é que seria preocupante. Tudo isto conduz a que as eleições presidenciais marchem a reboque destas circunstâncias. E que os candidatos presidenciais sejam rebocados pelo tacticismo que as mesmas impõem a todos os agentes políticos. Não há dia ou hora em que os candidatos não apareçam para comentar o curto termo como se não estivessem a candidatar-se a um mandato de cinco anos. E, mais relevante do que isso, para exercer em plenitude as competências que a Constituição prevê para o chefe do Estado. Julgo que um candidato presidencial não se propõe minimizar o seu papel político e institucional enquanto PR. Não se candidata, decerto, para poucochinho ou para "valet de chambre" de qualquer partido ou facção. Percebe-se assim que Marcelo, o mais provável sucessor de Cavaco Silva, não diga mais sobre o tempo que passa do que aquilo que pretende dizer. Mesmo que isso incomode a coligação e muitos dos seus putativos eleitores. Por falar em directo para o país, sem mediadores, é inevitável que o iconoclasta Marcelo desagrade a alguns por querer agradar a praticamente todos. Faz parte do guião. E Marcelo, até por ser o mais livre dos candidatos verosímeis, é o mais "natural" de todos eles. Quem de direito tome nota. Até porque não há outro no deserto das presidenciais.

25.7.15

Quem pede o quê


 


Na semana que passou ficámos a conhecer os candidatos a deputados pelo PS. Melhor. Ficámos a saber que Costa persiste fiel ao princípio que o determinou a correr com Seguro: incluir excluindo e excluir incluindo. Nos próximos dias segue-se a coligação PSD/CDS. Verdadeiramente só interessa observar o que vai fazer o PSD. Pessoal e politicamente não espero grande coisa. A tendência de quem está no poder é a de "reforçar" o pior do que não presta e não oposto. O mesmo se diga do programa eleitoral. Há muito que foi apresentado: em Bruxelas, junto de quem o valida. Estes "preparados" - do PS e da coligação - provavelmente ditarão uma proximidade no número de mandatos a alcançar por ambas as partes em Outubro. O Doutor Cavaco, com os já longos trinta anos que leva disto, pressentiu esse desfecho na alocução em que marcou a data das eleições. Um bocadinho mais à frente, um bocadinho mais a trás e uma vetusta abstenção valerão tempos interessantes e seguramente mais "políticos" do que os que temos vivido. Mas os partidos não servem só para o recreio infantil dos lugares. Será então altura de mostrar que percebem o que o eleitorado lhes exige. Porque é assim que isto funciona. Não são os partidos que pedem ao "povo" que lhes "dê" algo. É o "povo" que diz aos partidos o quer deles e, sobretudo, o que não quer. 

18.7.15

Só lá para Outubro


 


Confesso que os mais recentes "desenvolvimentos" europeus, a par com as exibições políticas caseiras por via da pré-campanha legislativa, empurraram-me para uma maior indiferença relativamente ao desfecho das eleições deste ano. Expliquei isso, em parte, no Jornal de Notícias. As sondagens, aliás, vêm confirmando que o "problema" não é apenas meu e que não há princípio da caridade que salve os principais protagonistas. De tal forma que estou propenso a concordar com o chefe da campanha do dr. Costa, Ascenso Simões, quando descortina algumas virtudes numa maioria relativa. Quando o dr. Passos, numa entrevista, afirmou ser-lhe indiferente que a maioria lhe pertença, ou ao dr. Costa, desde que seja absoluta para que o tratado orçamental vigore enquanto programa de governo, então mais vale guardar as bandeirinhas para outras legislativas precoces. Daí as presidenciais poderem ter mais interesse. Pelo menos para mim. Mas só lá para Outubro.

5.7.15

O presidente ainda não chegou às presidenciais


 


A uma vetusta notabilidade do PSD, o dr. Balsemão, venerando empresário de comunicação social desde o século passado, ocorreu que "milhões" de portugueses (palavra de honra) anseiam pela candidatura presidencial do dr. Rui Rio. Como tal, convidou-o a montar "o cavalo do poder" que raramente passa à porta de quem, como o dito Rio, terá tão nobre vocação político-tauromáquica. Ora segundo o sempre bem informado dr. Marques Mendes, Rio estará a selar o referido "cavalo" já para a segunda quinzena do mês corrente. Como o que vou dizer a seguir é mais do que do tempo e presença do dr. Balsemão, cuja prestação como 1º ministro persiste inolvidável em cabeças tão insuspeitas como a do Doutor Cavaco saison 1981-1985, talvez conviesse ao "número um" do PSD atentar em duas ou três coisas todas ligadas pela mesma funesta consequência política. Em 1980, precisamente nos idos de Julho, a então Aliança Democrática foi ao Rossio fazer um comício para apresentar o seu candidato presidencial: o general Soares Carneiro. Em Outubro, nas eleições legislativas, a AD renovou a maioria absoluta e, numa conferência de imprensa, anunciou-se essa vitória como a "primeira volta das presidenciais". Em Dezembro, após uma campanha tão dramática quanto trágica, o incumbente Eanes ficava. Cinco anos depois, já Cavaco presidia ao PSD e com eleições legislativas igualmente em Outubro, Freitas do Amaral recebeu o apoio do presidente do PSD para Belém num encontro na sua sede de candidatura. Cavaco ganhou as legislativas, sem maioria, mas, mesmo 1º ministro, empenhou-se de norte a sul na campanha de Freitas até Fevereiro de 1986. Soares ganhou na 2ª volta. Finalmente, vai para dez anos,  o mesmo Soares "impôs-se" ao PS maioritário de Sócrates como candidato a um terceiro mandato contra um Cavaco ainda por vir. Foi em Agosto, no Hotel Altis, diante da euforia de centenas de pessoas e das televisões. Citou-se até Pessoa por causa das finanças e das bibliotecas. Mas foi Cavaco, o último a aparecer, quem venceu e à 1ª volta. É evidente que em 2015 a situação é distinta. Nenhum dos principais contendores das legislativas declarou apoios presidencias. E nem sequer é previsível que o façam antes delas embora algumas "aparições" acabem por os obrigar a pronunciar-se como tem acontecido ao pobre dr. Costa vezes sem conta. O que não beneficia qualquer das partes a menos que haja algo assumido previamente, à semelhança das histórias que contei, o que, porém, não ressume a menor garantia de um desfecho feliz. Embora estime o candidato Henrique Neto, e mesmo com a eventualidade de um ensimesmado Rio presente nos próximos tempos, creio que o próximo PR ainda está para chegar às eleições presidenciais. E podem tirar o cavalinho (do poder) da chuva que ele não chegará seguramente antes de Outubro

A "dramática ilustração"


 


O dr. Costa - que preside à gloriosa agremiação que nos conduziu alegremente até ao resgate da Primavera de 2011- sugeriu, sem se rir, que há que dar graças pela circunstância de haver um PS (o dele) sem o qual seríamos uma outra Grécia. Ou seja, esta seria a "dramática ilustração" de um Portugal desprovido do concurso, salvífico e tonificador, da sua magnífica pessoa. Porquê? Porque o dr. Costa imagina-se a charneira entre aquilo a que apelida delicadamente de "esquerda radical" (cujos votos, aliás, não revela o menor pejo em catar) e a "direita" não menos "radical" que apenas jura pela austeridade. Na realidade, e com estes oxímoros permanentes, o que o dr. Costa anda a fazer ao PS é transformá-lo num caminho de ninguém, sem ideias fortes (más ou boas) ou um desígnio claro por mais curto que seja. Ele é, por consequência, a "dramática ilustração" de tudo o que o país agora menos precisa.

28.6.15

Pelo deserto


 


«Portugal não olhará com muita confiança para um governo de João Galamba, Jorge Lacão e Sónia Fertuzinhos. Claro que António Costa já arranjou com certeza quatro ou cinco dos “sábios”, que lhe andaram a escrever papéis, mas que o público não conhece e em que naturalmente não confia. E o que sobra entre a emigração para o Parlamento Europeu e os “negócios” da crise preferiu ficar de fora. O socialismo não enfraqueceu só politicamente, perdendo pelo mundo inteiro deputados, maiorias, governos, presidências. Pior do que isso, o regresso ao desemprego de massa e o fracasso anunciado do Estado Social transformaram um programa e uma doutrina numa escaramuça de retaguarda em defesa do funcionalismo público (da administração ou de qualquer EP), como se dele dependesse a salvação da humanidade. Hoje, por grande que fosse a indignação com Coelho e Cavaco, ninguém iria escolher essa pífia causa como fim e direcção da sua vida política. Basta ver televisão ou ler os jornais para constatar a distância que separa o cidadão comum do que por aí gritam os “jovens” do partido. António Costa anda por esse país a ser abraçado, mexido, beijocado. Anda sem ninguém: como quem atravessa um deserto.»


Vasco Pulido Valente, Público

25.6.15

Fazer a ponte entre pessoas com ideias diferentes


 


«O papel do Presidente é fazer pontes. Não é ter um programa de Governo, não é ter um programa político, não é fazer aquilo que tem na cabeça. É evidente que cada candidato tem as suas ideias (…), mas um candidato a Presidente não é um candidato a primeiro-ministro, não tem um programa de governo. Tem as suas ideias, sabe o que defende para o país, mas tem de ter a humildade para ser sobretudo alguém que faz a ponte entre pessoas com ideias diferentes. Pode acontecer que nos próximos cinco anos, termos um só Presidente e dois ou três governos. [Nesse sentido], vai ser preciso um grande esforço de aproximação e convergência para ultrapassar as clivagens [que existem entre PS e PSD] já daqui a três meses.»


 


Marcelo Rebelo de Sousa

Rio no seu labirinto



 


Como se isso interessasse a alguém, o dr. Rui Rio, uma emanação sebástica dos nevoeiros do Douro, fez saber (ou outros por ele apesar da excessiva paixão por si próprio) que tem "três cenários em aberto": candidatura presidencial, liderança do PSD ou "manter-se fora da política activa". Com a delicadeza e o bom feitio que o celebrizaram nas margens do referido Douro, e na generalidade dos meios de Comunicação Social, garantiu que não vai "alimentar a discussão sobre o tema, pelo que não vou confirmar, nem desmentir a afirmação (de que só decide após as legislativas); como também não confirmaria, nem desmentiria, se tivesse sido feita no sentido contrário". De onde procede, pois, tanta presunção e tanta contradição? Para além da austera formação de origem germânica e financeira (a primeira de pouco lhe serviu para a "acção cultural" da Câmara do Porto, na prática irrelevante quando foi seu presidente), Rio andou pela JSD do Porto, com o rival Menezes, até ser alcandorado em secretário-geral de Marcelo Rebelo de Sousa. Actualizou os ficheiros e saiu para deputado. Sovou monumentalmente Fernando Gomes, em Dezembro de 2001, e cumpriu os mandatos autárquicos que os portuenses lhe confiaram até ao limite legal. Pelo meio foi vice-presidente do breve consulado partidário de Santana Lopes. Em 2008, no Restelo, um grupinho de "elites" sociais-democratas tentou que ele sucedesse ao choroso Menezes. Terá dito que sim mas, mal chegado ao Porto, fez inversão de marcha política o que obrigou Manuela Ferreira Leite a avançar em nome desse luminoso grupo. Nos derradeiros anos como autarca aliou-se, e vice-versa, a António Costa nuns encontros melífluos, ora em Lisboa ora no Porto, para impressionar o "poder central" e as respectivas lideranças partidárias. Costa, como é sabido, não se ficou pelo chá e levou a sua conspiração a bom termo. Rio, por natureza e de acordo com as declarações do princípio da semana, está enfiado no "quadrado" - a expressão é do bardo Alegre em 2005 a pensar em Belém - que gizou para a sua extraordinária pessoa política desde sempre: tudo, alternadamente, e o nada, também alternadamente. O que, na dúvida, não o recomenda para nenhuma das "alternativas" que colocou. Nem mesmo a de "manter-se fora da política activa" - uma manha retórica dos políticos para lá ficar - apesar de ser a mais consistente das três. Quem não suporta a crítica, o erro ou a tentativa tem de meter explicador de democracia. Não lhe pode presidir.


 


Jonrnal de Notícias



 

19.6.15

Sem responsabilidade e sem brilho


 


«O PS nunca se distinguiu pela especial competência da gente que o dirigiu e governou o país durante mais de 20 anos. Algumas personagens foram com certeza melhor do que outras, mas nenhuma (tirando Salgado Zenha e José Manuel Medeiros Ferreira) deixou uma obra durável e uma memória presente e calorosa. Mesmo agora, com uma eleição decisiva à porta, o pequeno grupo que rodeia Costa não se recomenda pelo que fez, nem muito menos pelo que diz. Na intimidade presumo que se acha mutuamente uma esperança; em público não passa da cartilha que já repetia no tempo de Seguro, e volta hoje a repetir com Costa, ornamentada por um vaguíssimo calão económico e por meia dúzia de promessas, que o cidadão comum não leva a sério, tanto mais que são aéreas e na sua maior parte hipotéticas. O dr. Costa deu anteontem uma entrevista a este jornal em que, entre chover sobre o molhado e soltar livremente a sua fantasia, resolveu tratar de um problema real: a reforma do Estado. Pondo de lado a crítica sem sentido à coligação, Costa identificou três pontos, dignos do seu particular zelo: o mar, a modernização administrativa e (calculem!) o desenvolvimento e ordenamento regional. Mas, para chegar aos seus fins nestes três pontos cruciais, Costa não inventou melhor do que fabricar três novos ministérios, que permitam “existir um ministro (claro) com a função transversal”, que “articule” e defina as “políticas sectoriais”. Não quero dar um desgosto a este novo salvador da Pátria, só gostava de o informar que desde 1980 que se fala nessa tremenda habilidade; que Sá Carneiro teve um ministério da Reforma Administrativa; e Cavaco um ministério do Mar. Isto só serviu, como é natural, para provocar um prodigioso número de querelas de competências; para aumentar o funcionalismo; e para paralisar o Estado nas matérias em que precisamente se queria que aumentasse a sua putativa eficácia. O que na situação em que estamos não aquece, nem arrefece, mas mostra bem por dentro a cabeça de António Costa: uma cabeça de alto funcionário, dedicada a fortalecer a administração central, a diminuir a força e a autoridade dos privados (que “ganham milhões com o outsourcing”) e, entretanto, a rabiscar organigramas para deleite dos militantes, que lá se tencionam pendurar. O PS um partido moderno? Não, um partido de burocratas sem responsabilidade e sem brilho.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

14.6.15

Limpeza do pó

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A empresa de sondagens do dr. Oliveira Costa (Rui) perpetrou alguns "estudos" no Expresso. Se os tomarmos ao pé da letra, verificamos, por exemplo, que inexiste nos sondados o mesmo acrisolado amor pela TAP que é por aí vendido, a título de fervor patrioteiro sem sentido, pelas esquerdas e pelo cineasta Vasconcelos. O que as pessoas querem é partir e chegar a horas num qualquer avião que os leve e traga em sossego e com alguma qualidade. Também constatamos que não valeu de muito à camarilha do dr. Costa a Vendeia que correu com o dr. Seguro: este derradeiro estudo coloca o primeiro até mesmo abaixo dos piores momentos do segundo nas sondagens. E que a coligação "Portugal à frente" - um anagrama aparvalhado do "P'rá Frente Portugal" do prof. Freitas em 1986 -, sem "mitos", improvisos autocomplacentes ou "independentes" nulos, pode perfeitamente fazer "frente" ao assombrado candidato a 1º ministro do PS. Quanto a presidenciais, o "estudo" mostra relativamente o óbvio no "terreno" com o autor de Le Temps des Professeurs a "impor-se" ao referido PS (não terá sido  por acaso que o homem se formou por cá em teatro embora tal não conste das "biografias oficiais") antes que apareça o segundo homem ou a terceira mulher genuinamente "camarada"; com Henrique Neto, praticamente sem ninguém de jeito por trás, no encalço do centro-esquerda e manifestamente o único daí a poder embaraçar o artificialismo representado pelo emérito reitor; e com Marcelo, ainda por vir, como o preferido a partir do centro-direita para ir à conquista daquela "não esquerda" com a qual se ganham eleições. Dito isto, chove em Lisboa o que é bom para, pelo menos, a limpeza do pó.

12.6.15

«Conselhos de Cavaco»


 


«Cavaco já provavelmente descobriu que não haverá convergência alguma entre o PS e a coligação e, por isso, resolveu mudar de táctica e passou a dar conselhos professorais ao próximo governo, para que – segundo ele jura – os portugueses possam olhar para o “futuro colectivo com confiança”, “independentemente” do sr. Costa e do sr. Coelho. Isto, vindo de um Presidente da República, é uma inacreditável ingenuidade política ou uma inclassificável mentira. Mas tem de se ver Cavaco como assistente do ISE ou doutorando da universidade de York para o perceber. A receita está no livro a páginas 147 e só quem não a conhece persiste em “fazer um modo de vida da crítica inconsequente”, como o velho do Restelo e outros sócios de má morte, a que a heroicidade indígena não deve dar ouvidos. Cavaco oferece à Pátria quatro conselhos (a prosa é dele). Primeiro: garantir “o equilíbrio das contas do Estado e a sustentabilidade da dívida”. Segundo: garantir “o equilíbrio das contas externas e o controlo do endividamento para com o estrangeiro”. Terceiro: garantir “a competitividade da economia face ao exterior”. E, quarto: estabelecer “um nível de carga fiscal em linha com os nossos principais concorrentes”. Estas recomendações, que parecem uma lista de pecados mortais ou um folheto de 1930 para defender a castidade de meninas púberes, é, no fundo, como o género indica, uma enumeração de impossibilidades. Pior: uma enumeração que revela a profunda ignorância da história económica de Portugal e da Europa (digamos, desde meados do século XVIII) do Prof. Cavaco Silva. Se os conselhos que ele misericordiosamente nos comunicou em Lamego se tivessem seguido nunca Portugal haveria passado por qualquer espécie de crise e os nossos políticos andariam hoje espanejando o Paraíso com as suas asas. Mas não, não sejamos tão impiedosos com o nosso querido Presidente da República. Afinal ele estudou economia e finanças, disciplina irmã da roleta e do poker, e gosta de apostar: na espiral recessiva, na estagnação, na retoma, no que lhe apetecer. Os colegas também apostam e a bicharada dos partidos também. Mas convém que o povo não se exalte e não caia na asneira de acreditar nele. De Lamego que poderia ele comunicar ao país? Caros portugueses, estamos sem um tostão e deste sarilho não nos safamos tão cedo…? Nem o deixavam voltar a Lisboa.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

10.6.15

«Não tenho a certeza de que estamos contigo, Zé»


 


O fim-de-semana prometia consolo e amenidades ao PS do dr. Costa. A Convenção, no Coliseu de Lisboa, começava com um refrigério anunciado à última hora. António Capucho - uma rodilha política sem préstimo actual nem "pensamento" que o recomende, sequer, para guionista de talk shows de tardes de Júlias e Cristinas - abrilhantou a sala enquanto parte dela adequadamente debandava. Afirmaria, depois, a um jornal que "se o PS o convidar para altos voos" não dirá que não. Isto tem um nome conhecido na praça. Depois, a Convenção exibiu o "melhor" PS de sempre, ou seja, o PS de sempre com a devida rasura de Seguro, dos seus e dos anos em que dirigiu a agremiação. O precursor do evento era Sócrates, os seus e os "anos de oiro" que deu ao partido. Sem a maçada de o ter de ter ali ou de precisar ser nomeado. Até Assis, esse perigoso social-democrata, regressou ao redil. Apenas uma senhora reformada, de cabelo pintado, discutiu a TSU e Costa agradeceu-lhe o voto (um voto) contra na Convenção como exemplo da notável abolição do "pensamento único" no PS. O resto consistiu em explicar, em grupinhos, a solo ou com a ajuda da dedicada jornalista Anabela Neves, o "programa eleitoral" em prol de um "Estado forte, moderno e inteligente" a lembrar o doutrinador Oliveira Salazar que defendia sensivelmente o mesmo: um Estado tão forte que não necessitasse ser violento. Aí pelo final da tarde de domingo, Costa entregou às hostes e às solícitas televisões o seu longo "monólogo do vaqueiro". Ia nisto quando, nos rodapés, apareceu Sócrates por interposto Ministério Público que o queria remover de Évora para casa. João Lisboeta Araújo surgiu à porta do estabelecimento prisional eborense para a confirmação. A Convenção terminava, assim, ingloriamente na Rua das Portas de Santo Antão com os jornalistas, de microfone alçado, a quererem saber de Sócrates por Costa e a não quererem saber do "programa" para nada. É verdade que a Neves fez de tudo para manter a chama viva mas a coisa já tinha partido para destino incerto. Costa percebeu e apressou-se, num fórum da TSF, a garantir que o PS "não fazia acusação nem defesa" a, e de, ninguém, repetindo o cliché da separação da justiça da política. Mas ia tarde. Sócrates já marcara a semana política com uma declaração tão solitária quanto corajosa. Pelo, cito-o, «respeito que devo a mim próprio e com o respeito que devo aos cargos públicos que exerci.»


 


Jornal de Notícias


 


Adenda: Depois de escrita esta crónica soube-se que o Tribunal, a instância do Ministério Público representado pelo meu ilustre colega de curso Rosário Teixeira, decidiu manter José Sócrates em prisão preventiva. Só se pode retirar uma conclusão. Se o MP entendia há dois ou três dias que a medida de coacção mais grave podia ser levantada e a manteve, então o arguido está a ser punido por um "crime" inexistente: o delito de opinião.


 

9.6.15

Pequenitos pequeninos


Vem aí mais um "10 de Junho", um dia particularmente dado às maiores inaninades pátrias. Sobretudo num ano eleitoral em que parece ter aberto a caça ao dito mais cretino e irrelevante. Já vimos o Doutor Cavaco a aproximar-se subtilmente de Lamego através de cestinhos de cerejas de Resende. Ou o dr. Passos, em Coimbra, nos 75 anos do Portugal dos Pequenitos enfiado, com ela, num bule rendilhado da inominável Vasconcelos. Ou o regime inteiro a visitar as vaquinhas e a tomatada da Feira da Agricultura de Santarém, o nosso Davos dos pequeninos a par com a Ovibeja, mais dada a ovelhas e a carneirada. Ou o perdido dr. Costa num fórum radialista a tentar sacudir o precursor Sócrates (amanhã explico isto melhor no Jornal de Notícias). Ou, ainda, os candidatos presidenciais no "terreno" - Henrique Neto, Paulo Morais do distinto Café Piolho e António Nóvoa, até da coligação se lhe pedirem para ir lá "transportar" o seu "desassossego"- demasiado enamorados por si próprios. Também há, em Lisboa, a Feira do Livro. Há dias, certamente por equívoco, o respeitável psiquiatra Coimbra de Matos "apresentava", numa estância editorial qualquer, um livro de uma senhora. Estava muita gente e percebi que a "autora" em causa era uma tal Raquel Varela que eu ignorava que sabia falar quanto mais escrever. Desandei para casa com um digníssimo Grisham de bolso. Mas vinha isto a propósito de nada e do "10 de Junho". O Doutor Salazar celebrava Camões e o Dia da Raça distribuindo e mandando distribuir veneras pelos órfãos e viúvas da sua estúpida guerra. Este regime manteve o Bardo, mudou os destinatários das veneras e lembrou-se dos emigrantes a quem chamou pomposamente "comunidades portuguesas". O que nada tem, releve-se, de "mito urbano". Estas, as de lá de fora, estão-se muito justamente nas tintas para esta tralha toda junta. A partir de certa idade só se liga a trampa distraído.

7.6.15

O caminho


 «Durante quase meio século, as coisas foram andando (com um sobressalto ou outro) sem nenhum desastre de maior. Só o “fenómeno Sócrates”, que não é simplesmente um efeito do indivíduo Sócrates, conseguiu arruinar o difícil equilíbrio que até ali nos sustentara. Em 2007-8, já geralmente se sentia uma certa impaciência com a situação do país, que não crescia e, apesar de incessantes promessas, não se “modernizava”. A “poesia” da qualificação, da ciência e da cultura – historicamente um péssimo sinal – reapareceu com estrondo; e a megalomania de Sócrates, com dinheiro emprestado, tentou fabricar a aparência de um “progresso” falso, mas vistoso. A bancarrota, claro, chegou depressa. O Portugal de 2015 precisa de pagar as dívidas. Só que as dívidas não são o ponto decisivo. O ponto decisivo é meter solidamente na cabeça que o caminho para a Europa pede muito esforço, alguma pobreza e, sobretudo, muitas reformas.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

5.6.15

A tristeza de uma ruína


 


«Esta balbúrdia instituída no espírito dos portugueses vem de uma razão irremediável: o fim da ditadura do “progressismo”, que em várias doses se exerceu sobre a vida intelectual portuguesa. Para começar o “intelectual”, como autoridade moral e consciência do público letrado, desapareceu. O último, Eduardo Lourenço, serve intermitentemente de ornamentação a várias cerimónias sem sentido: e, fora isso, já não abre a boca. O que resta – sob o nome de economistas, politólogos, psicólogos, sociólogos, “críticos” disto e daquilo e de coisa nenhuma – é uma vozearia de acaso a que ninguém liga. O colapso do “socialismo real” arrastou como seria de prever as suas variações, incluindo o “socialismo”, que só em relação a ele se definiam. Até a linguagem da “esquerda”, falada ou escrita, deixou de aparecer, excepto por hábito e por erro. O que sobrou não passa de um lamento pela pobreza e pelo desemprego, que, demonstrando bons sentimentos, não leva a nada e, principalmente, a um plano de acção. A devoção pelo papa Francisco, que se tornou hoje numa das grandes personagens do “progresso”, é o perfeito atestado da dependência cultural do que dantes se chamava a “esquerda”: para lá de um certo ponto a caridade e a solidariedade começam a não se distinguir. Em 1970 ou mesmo em 80, nenhum “marxista” de nenhuma espécie aceitaria esta amálgama. Agora, tirando essas longas e, aliás, meritórias queixas sobre a miséria do país, não lhe sobra senão o silêncio. O que os políticos do PS discutem (e com o PSD e o CDS) é engenharia financeira: nada mais. Mas, numa eleição, as vantagens de um “projecto” ou de um conjunto de promessas (supondo que se percebem) não significam coisa alguma. A morte do “progressismo”, que mandou em nós durante meio século, deixou um deserto: meia dúzia de tiques, meia dúzia de asneiras (como a idolatria do Estado, por exemplo); e talvez também a tristeza de uma ruína.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

4.6.15

"Raízes de aço" pouco democráticas


«Rui Rio tem todo o direito de não gostar de certas notícias que são publicadas na comunicação social e achar que elas foram ali plantadas para o prejudicar em última análise, pode até ter razão, e boa parte da sua indignação ser inteiramente justificada. Só que depois ele mistura tudo e é nessa misturada, muito musculada, muito avinagrada e muito pouco ponderada, que eu vejo emergir demasiadas vezes um genezinho autoritário, que à noite sonha humidamente com uma comunicação social bem ordenada, em que os jornalistas nunca se enganam e raramente têm dúvidas. Porque, afinal, basta perguntarem a Rui Rio onde está a verdade, que ele trata logo de informar (...). Mas uma frase como “a liberdade de imprensa também pára à porta da liberdade de todos nós” não quer dizer coisa absolutamente nenhuma e é até de uma assinalável estultice. O que a liberdade de imprensa mais faz é invadir a vida de gente que se tivesse a liberdade de escolher preferiria que nada se soubesse. Rio parece apreciar watch dogs mansinhos, que só ladram quando ele estala os dedos. Ao fim de mais de 30 anos na política, esta falta de cultura democrática é muito preocupante sobretudo para quem anda a pensar instalar-se em Belém.»


 


João Miguel Tavares, Público

Glória


 


Numa sala exígua, quentíssima, no -2 de um hotel de Lisboa, a coligação apresentou as "linhas orientadoras" do programa para a próxima legislatura. Passei por lá com o João Villlalobos que tinha encontrado na feira do livro uns metros acima. Passámos aos corredores antes do começo do exercício. Observava-se melhor. A fauna era a trivial nestas ocasiões. Militantes "anónimos" (poucos), uma vaga criança, alguns do CDS ostentando o símbolo partidário na lapela não fosse alguém confundi-los, deputados angustiados sem saber se vão ou se ficam, membros de gabinetes e declinações permanentes disso, no PSD e no CDS, em idênticas circunstâncias, ministros e secretários de Estado também, uma ou outro dependente crónico, mais seboso, colocado aqui e ali em cargos de escolha "amigável" e, finalmente, os líderes e os seus homens mais à, e de, mão. Alguém presente enviou entretanto uma sms ao Villalobos a dizer que não lhe falava por ele "estar ao lado do João Gonçalves". O que, sem esse glorioso patriota sequer suspeitar, acaba por resumir eloquentemente o que escrevi atrás.


 


Foto do João Villalobos

27.5.15

O candidato artificial


 



A "biografia" começou, vai para três anos, num 10 de Junho sob o Alto Patrocínio do Senhor Presidente da República. Conseguiu cativar um pequeno núcleo académico que, de repente, o imaginou subtil depois de umas picardias televisivas espúrias contra o "socratismo" educativo. A seguir deu por si empurrado para as "grandoladas" promovidas pela nova "aliança ex-povo-ex-MFA", a saber, o dr. Soares, os seus bonzos, o notável coronel Lourenço e a extrema-esquerda festiva. Falou, debitou poesia e exibiu o cravo da praxe. Guardou-o para o congresso albanês do dr. Costa onde perorou sem ser ouvido. Ora este descendente apolítico de um híbrido improvável - que junta o "otelismo" GDUP de 1976 ao "movimento pelo aprofundamento da democracia (MAD)" da saudosa Lurdes Pintasilgo passando por alguma descendência nobre da ala militar triunfante no "25 de Novembro" e pelo efémero PRD - apresentou anteontem uma "carta de princípios", no Teatro Rivoli (sempre teatros) do Porto, daquilo que concebe como um mandato presidencial protagonizado pela sua magnífica pessoa. Com receio que o termo "presidencialismo" assuste algum PS mais perplexo, António Nóvoa promete não ser "passivo" nem "cerimonial". Prefere aventurar-se por um caudilhismo romântico e basista que alegadamente "respeita" o prevenido na Constituição para o PR. O resto é, sem remédio, o artificialismo Nóvoa. "É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir (aqui uma leve "inscrição" José Gil). Não há destinos marcados", um momento anti-Tony de Matos. Com Nóvoa o destino não marca a hora (marca-a ele, como veremos) porque vive "impacientemente" já que a "esperança é hoje". Talvez para os "jovens, rapazes e raparigas", à moda da Mocidade Portuguesa. Todavia, e apesar deste palavreado oco, "as palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro". É Gil outra vez: "inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta". Finalmente, a "mensagem". "Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal". É a resposta retórica da eminência Nóvoa a Pessoa quanto este pergunta "Quando é a Hora?", e mais adiante responde: "É a Hora!". A ideia de hordas de espectadores a abandonar teatros, à pressa, para ir cumprir "a hora de Portugal" do prof. Nóvoa é inverosímil. Tanto quanto o candidato que a quer mandar cumprir.


 



 


Jornal de Notícias


 


Adenda: Depois de escrita esta crónica, reparei que o General Ramalho Eanes baptizou António Nóvoa como "um provocador de reflexões". Já antes era tido por um "transportador de desassossego". Fica-se na dúvida a que é que o homem, na realidade, se candidata com tanto engendramento. A algum prémio literário parecido com aquele que Pessoa disputou com Mensagem e que foi arrebatado por A Romaria do Padre Vasco Reis? A Belém de certeza é que não.

26.5.15

Tenham juízo

Maria Luís Albuquerque até pode ter toda a razão financeira do mundo na questão da segurança social. O dr. Vieira da Silva, o incumbente há quatro anos juntamente com o actual edil de Lisboa, também. Mas aparentemente a matéria é demasiado séria e profunda para ser discutida entre croquetes e coca-colas fornecidos pela "jota". Ou em conferências de imprensa aviadas a correr para animar os jogos florais entre o PSD, o CDS e o PS. Não parece mas há pessoas pelo meio. Tenham juízo.

24.5.15

Incertezas

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Tem a sua piada ouvir o dr. Costa falar em "incerteza permanente" a propósito de uma fala qualquer da ministra das finanças sobre sustentabilidade da segurança social e das pensões. A "solução" abstrusa que o dr. Costa arranjou, ligando aquela aos "incentivos" ao mercado de arrendamento imobiliário, devia impedi-lo, pela natureza das coisas, de comentar as mais leves diatribes da dra. Maria Luís. Que parece apostada em seguir, com o dr. Passos a apoiá-la entusiasticamente, uma ideia do pragmatista norte-americano William James: primeiro continua-se, depois começa-se. A pré-campanha e a campanha legislativas ameçam, assim, tornar-se num chorrilho insuportável de disparates sobrepostos e de regurgitações parvas em "economês". De política, nada. Depois não se queixem da "incerteza" dos resultados.