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29.10.15

Os tempos e os dias

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Passos Coelho, quando tomar posse amanhã, tem de sinalizar inequivocamente que não chefiará qualquer "governo de gestão". Quem votou PàF votou num governo para quatro anos e, na circunstância, minoritário. Tudo o mais no parlamento deve ser deixado nas mãos daqueles que decidiram rasurar, pela 1ª vez depois do "25 de Abril", o resultado de uma eleição legislativa. Quem bebe pelo gargalo compra a garrafa.


Dá-me ideia que os meus amigos PàF no parlamento ainda não se aperceberam que foram cercados "dentro" do próprio parlamento e não foi por operários da construção civil da cintura industrial de Lisboa. Vem tudo explicado, por exemplo, na monografia de Vasco Pulido Valente sobre a 1ª República. No Observador de certeza é que não vem.


No lugar da "esquerda" ávida não mostraria tanta indignação com a escolha de Sérgio Monteiro para o que foi escolhido. É que um dia destes pode sair por aí uma "biografia política" do homem e consta que o prefaciador é o "senador" Jorge Coelho.


Parece-me que o que Jerónimo de Sousa tem andado a dizer hoje é mais ou menos isto: em matéria de "palavra dada é palavra honrada" à esquerda só mesmo o PC. O que não surpreende.


Como a "esquerda" proibiu a realização de sessões plenárias na AR durante uma semana - o cerco da Constituinte foi mais curto - é natural que não apareça nenhum deputado com uma tshirt ou um cartaz com o logotipo do CM. Tudo é explicável como o José Pacheco Pereira não se cansa de explicar.


Está certo que se trata de decisão judicial, recorrível e discutível como, aliás, o próprio demandante não se cansa de recordar em actos e perorações quando lhe diz respeito. Dito isto não vamos ter direito àquele friso inesquecível de prosélitos da liberdade de expressão e de imprensa, à porta da CML, erguendo cartazes a dizer "je suis Correio da Manhã" e "je suis Sábado"?


 


Foto: Bruno Aleixo. Nazaré, Outubro de 2015


 

27.10.15

Crónica do tempo que passa


 


Está formado um governo patriótico em resultado das eleições legislativas. Todos o são, claro, mas pelas circunstâncias este é-o famosamente.


Se há altura para Passos recuperar o Ministério da Cultura é esta (escrito no domingo)


Se dúvidas houvesse quanto ao que vem a novíssima "arca da aliança" parlamentar é só atentar no que disseram os representantes de tão ilustre saco de gatos no programa da Fátima Campos Ferreira. Sobretudo os do Bloco, os mais recentes "donos disto tudo".


Dizem-me do Bloco, mas sobretudo do PC, que não há como não existir acordo com o PS: Costa, para espanto das criaturas, aceita tudo. E, acrescento eu, o outro PS (o dos bananas e do Assis preguiçoso) também.


A não-esquerda, para não lhe chamar direita como a esquerda gosta, está frouxa, timorata, complacente, ambígua e acívica perante o assalto da nova "arca da aliança" pós-eleitoral. Até as presidenciais andam a toque de caixa desta mistificação não tarda muito "consensual". Aliás, pergunto-me se a não-esquerda, ou a direita como preferem os filisteus, terá algum candidato que não tenha vergonha em se assumir dela.


Marcelo revê-se na presidência Sampaio. Tal como, suponho, mais dois ou três candidatos.Tanto que lhe copia o slogan da primeira campanha: "todos por um" e "um por todos". Convinha, porém, tal como fez em relação ao incumbente pela negativa, esclarecer que partes da presidência Sampaio o encantaram. Digamos que é um conselho amigo.

9.6.15

Pequenitos pequeninos


Vem aí mais um "10 de Junho", um dia particularmente dado às maiores inaninades pátrias. Sobretudo num ano eleitoral em que parece ter aberto a caça ao dito mais cretino e irrelevante. Já vimos o Doutor Cavaco a aproximar-se subtilmente de Lamego através de cestinhos de cerejas de Resende. Ou o dr. Passos, em Coimbra, nos 75 anos do Portugal dos Pequenitos enfiado, com ela, num bule rendilhado da inominável Vasconcelos. Ou o regime inteiro a visitar as vaquinhas e a tomatada da Feira da Agricultura de Santarém, o nosso Davos dos pequeninos a par com a Ovibeja, mais dada a ovelhas e a carneirada. Ou o perdido dr. Costa num fórum radialista a tentar sacudir o precursor Sócrates (amanhã explico isto melhor no Jornal de Notícias). Ou, ainda, os candidatos presidenciais no "terreno" - Henrique Neto, Paulo Morais do distinto Café Piolho e António Nóvoa, até da coligação se lhe pedirem para ir lá "transportar" o seu "desassossego"- demasiado enamorados por si próprios. Também há, em Lisboa, a Feira do Livro. Há dias, certamente por equívoco, o respeitável psiquiatra Coimbra de Matos "apresentava", numa estância editorial qualquer, um livro de uma senhora. Estava muita gente e percebi que a "autora" em causa era uma tal Raquel Varela que eu ignorava que sabia falar quanto mais escrever. Desandei para casa com um digníssimo Grisham de bolso. Mas vinha isto a propósito de nada e do "10 de Junho". O Doutor Salazar celebrava Camões e o Dia da Raça distribuindo e mandando distribuir veneras pelos órfãos e viúvas da sua estúpida guerra. Este regime manteve o Bardo, mudou os destinatários das veneras e lembrou-se dos emigrantes a quem chamou pomposamente "comunidades portuguesas". O que nada tem, releve-se, de "mito urbano". Estas, as de lá de fora, estão-se muito justamente nas tintas para esta tralha toda junta. A partir de certa idade só se liga a trampa distraído.

14.2.15

Uma "Europa" irreformável


 
«O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia. Sim, porque se o PASOK tem culpas no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais: foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”, a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio. E os gregos não querem austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social, uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem Cavaco nem Passos dizem, é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos queria para a Grécia, com aquela cegueira que têm os acólitos e que continua mesmo quando os mestres já estão noutra (...). Ora, a questão não é a de validar o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco e Passos querem extirpar.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


«A “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença (...). Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo. A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável.»


 


Vasco Pulido Valente, idem

10.2.15

Os caminhos da senhora


 


Vimos ontem o dr. Portas, rodeado pela "sua gente" no governo, muito contentinho com os dados da balança comercial em 2014. O senhor vice parece-se cada vez mais com algumas das personagens em que Alice tropeça nos livros de Lewis Carroll: «If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?». Não, o senhor PM não "apanha" e está como o melancólico Rei: «"I see nobody on the road," said Alice. "I only wish I had such eyes," the King remarked in a fretful tone. "To be able to see Nobody!» Entre eles, porém, erguem-se os caminhos da Senhora, a fórmula feliz do Medeiros Ferreira para se referir a Merkel, a "Raínha" desta pobre historieta: «if I lose my temper, you lose your head! Understand?» Percebem?

3.11.14

Ai, Timor?


 


O que Timor fez com alguns portugueses, nomeadamente magistrados, que "cooperavam" com aquele país é o que se costuma fazer em casos anti-diplomáticos limite, tipo espionagem. Decerto ainda nos lembramos dos belos esforços do bonzinho Guterres junto de Bill Clinton para evitar o pior naquele território que a Indonésia quis seu. E os do então PR Sampaio ou da embaixadora Ana Gomes. Sem contar com o dinheiro investido nas "digressões patrióticas" mundiais de futuros dirigentes timorenses. Por cá fizeram-se corredores humanos, acenderam-se velas, vestiram-se t-shirts brancas, cantou-se "ai, Timor!", etc., etc. Sampaio, aliás, antes e depois fartou-se de verter lágrimas honestíssimas pela causa. Só que Timor, como se costuma dizer, "evoluiu". Fora a Nossa Senhora de Fátima, desde o português a outras coisas, praticamente tudo a vizinha Austrália atraiu fundamentalmente por causa do petróleo. Aos poucos, Portugal tornou-se uma fraquíssima memória distante. A derradeira cimeira da CPLP, onde foi admitida a Guiné Equatorial, como que culminou este deslaçamento e tornou risível a "comunidade". O que sucedeu agora não só é deplorável, como escreve o MNE, como representa uma humilhação desnecessária. Portugal não deve ficar por aí. Chame, para consultas, o nosso embaixador (presumo que não haja menos do que isso por lá) e depois logo se vê. Deus manda-nos ser bons mas não nos manda ser parvos.

29.10.14

Os outros rankings

«O IPO do Porto está a adiar cirurgias por falta de camas. Os doentes mais afectados, segundo noticia a RTP, são os que sofrem de tumores na mama, próstata e aparelho digestivo. Também a área da reconstrução mamária está com atrasos: a espera pela cirurgia pode ir até aos quatro anos. Em declarações à estação pública, Laranja Pontes, presidente do conselho de administração do IPO do Porto, admite que as longas esperas se devem a restrições orçamentais: "não abro mais camas porque não tenho condições para isso". E o problema poderá piorar, assinala a RTP, devido à impossibilidade da instituição hospitalar contratar pessoal, por falta de autonomia. Para minorar o problema das listas de espera para cirurgias, já foram retiradas camas aos cuidados paliativos.» Lê-se no Diário de Notícias e lamentavelmente acredita-se. Tal como se acredita que, um mês e meio depois, ainda há alunos sem aulas, professores por colocar e um Crato a esvoaçar por aí. Ou uns subalternos para "punir" no "caso Citius". Ou o embuste da "reforma do Estado". Ou uma revista de ciências sociais, outrora prestigiada e livre, agora proibida de circular por causa do respeitinho. Ora se isto tudo somado não é um país de merda, mesmo que "suba" no ranking* dos países bons para "negócios" (da China), o que será um país de merda?


 


* Portugal subiu quinze lugares no ranking do World Economic Forum e seis no Doing Business. As "reformas" assinaladas para o efeito ocorreram fundamentalmente quando Álvaro Santos Pereira era ministro da economia e visaram, sobretudo, o "factor trabalho" centrifugado, a meu ver, em excesso face a outros. Mas quem ouvir as cucarachas do dr. Lima no México ainda pode julgar que foi ele.

27.9.14

Visto do lado de cá


 


«O episódio da “Tecnoforma”, qualquer que seja o seu fim, impedirá Passos Coelho de readquirir o respeito do cidadão comum e, por isso, em última análise, a sua presente autoridade sobre o partido. Se o PSD perder as legislativas de 2015, ficará por força à mercê das luzes de meia dúzia de autarcas, que, além de não se interessarem pelo país, vêem tudo pela fresta dos seus negócios locais. Do lado do PS, a campanha das primárias não serviu, como Seguro julga, para “democratizar” a eleição de um putativo chefe, serviu principalmente para nos mostrar o partido por dentro; o ódio fraternal que é a força motora daquela agremiação de ressentimentos. O partido não ganhará a famigerada “maioria absoluta”, que por aí apregoa, e o seu destino não irá além de uma coligação impotente, que, com ou sem o PSD, consumará o desastre.» Isto é Vasco Pulido Valente no Público. E isto é Donna Tartt no excelente O Pintassilgo, e vai dar sensivelmente ao mesmo visto do lado de cá. «Eu parava a meio de um passo no passeio, pasmado. De alguma forma, o presente tinha-se transformado num lugar mais pequeno e muito menos interessante.»

26.7.14

«Merecidos vexames»

 



 


«Não interessa evidentemente comentar o comportamento da diplomacia indígena no caso da CPLP. Como sempre, foi miserável. Nem interessa dizer muito sobre o dr. Cavaco, que ninguém espera que defenda a dignidade da República ou se porte bem numa situação apertada. Mesmo com o dr. Passos Coelho não se pode contar, se lhe acenam com uns negócios para o seu empobrecido Portugal. O petróleo da Guiné Equatorial e a vontade de Angola pesam mais do que qualquer outra consideração presente ou futura. A nós que por aqui andamos a contar tostões não nos faz mal o vexame público do país, que é uma tradição histórica e, pior ainda, um hábito de vida. Embora obedecer ao Império Britânico seja em princípio menos comprometedor do que obedecer a um bando de cleptocratas. Sobretudo quando esse bando de cleptocratas tem razão. O Jornal de Angola escreveu sobre o assunto um editorial, em prosa duvidosa, mas no essencial cheio de razão. Depois de injuriar meticulosamente a opinião de cá (“preconceituosa”, “incoerente” e “estrábica”), o preopinante continua: “Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é (…) pior. Escrever e falar português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP”. Descontando a hipérbole e um certo desconhecimento do que de facto acontece em Portugal, o Jornal de Angola não se engana. Desde 1976 nenhum Governo se ocupou seriamente da defesa da língua. O Dicionário da Academia de Ciências não passa de uma triste imitação do Oxford Shorter, não há uma gramática decente e acessível ao leigo ou um Thesaurus ou sequer, com as confusões do Acordo, um prontuário ortográfico decente e fiável. Também não há uma edição completa e crítica dos “clássicos” reconhecidos, nem a investigação universitária redescobriu a literatura do século XVI ao século XIX, que merecia outra sorte. Em matéria de língua, os Governos ficaram entre a ignorância e o desdém. Ou seja, abandonaram o principal interesse de Portugal e um dos seus melhores meios de influência. Nunca o Jornal de Angola escreveria o que escreveu se nós lhe pudéssemos responder com uma política e uma obra. Mas não podemos.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

27.6.14

A bater bolas


 


Por esta hora, os "carregadores" dos "sonhos e da esperança" dos portugueses estão a fazer os malotes. O "melhor jogador do mundo" - também conhecido pelos penteados originais, pelas contas-poupança, pelos champôs e pela griffe em cuecas - não foi além da marcação de um golo no Brasil. As conferências de imprensa dos jogadores, dos médicos, do treinador e dos "federadores" retrataram melhor o país do que cem debates sobre o "estado da nação" ou as infinitas sessões comentadeiras de cá para lá perpetradas pelos tagarelas do costume: aquilo era, de facto, o "estado da nação". Talvez para não acabar tão abruptamente com os referidos "sonhos e esperanças", o senhor Presidente da República decidiu continuar a "bater bolas" convocando um Conselho de Estado irrelevante para presumivelmente discutir a "clara noite do nada" (Heidegger) em que consiste o presente e o futuro desta traquitana absurda chamada Portugal. Como se isto não bastasse, o dr. Passos andou pelo "cemitério dos portugueses", em França, a carpir os mortos domésticos da Guerra 14-18. O gesto é inequivocamente bonito e patrioteiro mesmo que a história subjacente não seja a mais edificante. No dia 9 de Abril de 1918, o mítico Corpo Expedicionário Português, quase todo enfiado no dito cemitério, foi literalmente dizimado pela ofensiva alemã chefiada por Ludendorff depois da debandada dos britânicos em cujo exército o CEP estava integrado. Os pobres dos portugueses ficaram, como sempre estiveram, entregues à sua má sorte e à sua irremediável iliteracia: não sabiam inglês e não perceberam a tempo que tinham pura e simplesmente de fugir. Ironia das ironias, tudo aconteceu no dia em que os ingleses se preparavam para render os esfarrapados militares do CEP em La Lys. Esse local acabou por se tornar famoso e por tornar famosos aqueles mortos heróicos, os únicos que temos para apresentar nos "teatros de guerra" em que participámos no século passado. Porque a má consciência, o temor reverencial e o "fardo" de Kipling impedem-nos de nomear os "heróis" da "guerra colonial". Os de La Lys foram simplesmente abandonados ao seu esforço inglório e à sua dramática ignorância. Passaram cem anos e continuamos a não ser exemplo para ninguém em lado algum.

O futuro não se recomenda


 


«O governo de Sócrates, ajudando entusiasticamente à bancarrota, e o de Passos Coelho, que andou sempre a tropeçar em contradições, mudanças de estratégia, polémicas sem sentido e reformas falsas, tiraram ao executivo o vago prestígio com que saíra de um pequeno período de prosperidade, inteiramente devido aos subsídios da “Europa” e, a seguir, ao euro. Hoje ninguém confia em nenhum ministro, a começar pelo primeiro-ministro. Sofremos, por impotência e por desespero, uma anarquia mansa de que ninguém vê o fim e a que muita gente se resignou. O Presidente da República, ansioso por evitar sarilhos no último ano do seu mandato, prega docemente aos peixes, sem se importar que o ouçam ou não ouçam e, de facto, a generalidade dos políticos não o ouve. Quase não vale a pena falar da extrema-esquerda. O ódio fraternal entre os vários grupinhos, que em conjunto a formam, não tem diluição ou concerto, como se viu em 25 de Maio. Os chefes são personagens de comédia ou aventureiros sem vergonha. Para ajudar à história, o PS resolveu cometer em público um suicídio longo e degradante, que o deixará dividido por muito tempo. Nem Costa, nem Seguro devem pensar que, lavada a roupa suja (que aparentemente é inesgotável), as coisas voltarão à ordem e tranquilidade do passado. Não voltarão. Cada um se ilude a seu gosto. Mas também Coelho e Portas aceitam ainda o absurdo postulado de que o PSD e CDS resistirão a quatro anos de “austeridade”. Erro deles. Seja como for, a República está presa por arames. E o futuro não se recomenda.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

20.6.14

"Como raio estas coisas nos podem suceder?"

«Qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?»


 


Vasco Pulido Valente, Público

18.5.14

Da espetada de baratas a Ronaldo


 


«Não se percebe o que o dr. Cavaco e a mulher do dr. Cavaco, com uma comitiva de cem empresários (de quê?) e uns tantos ministros, foram fazer à China. É muito compreensível que a China apeteça a quem gosta de viajar: há a “cidade proibida” para ver e uma espetada de baratas para comer. Melhor ainda, numa “visita oficial” não se espera no aeroporto e um exército de senhores mesureiros abre as portas em toda a parte e sabe onde são os melhores restaurantes. O dr. Cavaco andou sempre muito bem-disposto, com os privilégios que o seu cargo lhe oferece. Mas, para consumo interno, inventou uma teoria para vender ao Presidente lá da terra e, suponho, para impressionar o indígena de cá. Nem os jornais, nem a televisão disseram que espécie de efeito tinha tido este esforço intelectual. A teoria é de facto impressionante e com certeza ficará na história com o nome de “o ponto e o triângulo”. Convém explicar. Segundo o dr. Cavaco, a China deve fazer de Portugal o seu “ponto de entrada” na Europa e poderemos por isso esperar daqui a pouco tempo dezenas de milhões de chineses a desembarcar por essa costa com biliões de coisas para vender à Finlândia ou à Dinamarca, a pretexto de que Sines fica mais perto dos mercados do que, por exemplo, Dover ou Southampton. E Cavaco não pára nesse pequenino “ponto”, quer também que Portugal sirva de intermediário entre Pequim e os PALOPS, que andam ansiosos por arranjar quem tome conta deles, para os defender da roubalheira geral do Ocidente. Esta parte “triângulo” da teoria mostra bem a profundidade de espírito do nosso inspirado Presidente. Só que o sr. Xi, apresentado ao ilustre representante dos nossos navegadores, e pretendendo ser amável, puxou pela cabeça e, depois de muito puxar, saiu com um único nome: Ronaldo. Não se julgue que um homem tão sério como ele planeava trocar Ronaldo pela importação imediata de 300.000 pastéis de Belém, com o intuito perverso de pôr Ronaldo a ensinar futebol a um bilião de chineses e transformar a China em campeã do Mundo e da Europa. De maneira nenhuma. Na bruma, que certamente é o resto da terra para um mandarim, o sr. Xi não se lembrou de mais nada sobre Portugal. Na sua sereníssima cabeça, Portugal é Ronaldo e foi mesmo uma trabalheira para o convencer que o próprio Cavaco, apesar da sua idade avançada, não era Ronaldo. De qualquer maneira, esta viagem serviu para afastar as nuvens que existiam entre os dois grandes países, para nos revelar o fundo do pensamento do nosso querido presidente e para ele descansar durante a campanha eleitoral.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

2.4.14

Uma triste procissão



«Vamos «regressar aos mercados» em 2014 num trapézio com uma rede rarefeita, tecida pelo EUROGRUPO - ou seja por uma nova troika ad-hoc isenta das perplexidades do FMI - em sucessivas reuniões, de finais de Janeiro até 1 de Abril. Há tudo a temer desses ministros das Finanças sem pinga de sentido do que possa ser o «interesse geral» da zona euro. Disse-o desassombradamente o ministro da República de Irlanda quando anunciou o desinteresse de Dublin por um «programa cautelar» porque receava que esse processo negocial- de que o seu governo tudo desconhecia ainda no final de Novembro- pudesse acabar «pelas três da manhã, em Dezembro, transformado numa espécie de nova crise irlandesa por muitos ministros sequiosos de aparecerem como campeões do rigor perante a opinião»! Não estaremos isentos dessa oscilação entre um paternalismo patético e ofensivo e a pressão para fazer de Portugal uma cobaia do primeiro ensaio intergovernamental do até aqui virgem Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira. Sem novas eleições em Portugal chegaremos fracos e desarmados a essa prova de fogo da invenção de um programa cautelar intergovernamental. Ainda por cima somos uma população em decadência, com cada vez menos habitantes, com uma baixa de natalidade superior a qualquer outro período contemporâneo a que se hão-de acrescentar as estimativas da Comissão Europeia apontando para um decréscimo da população residente de cerca de 130.000 pessoas empurradas pela «ordem para emigrar» explícita em algumas medidas do «Memorando de Entendimento». Portugal será assim o único país sob resgate a perder recursos humanos até 2015, uma altura decisiva para as tarefas de reconstrução e crescimento. Só alguns países do leste nos acompanham nessa triste procissão: Bulgária, Croácia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia e Roménia.»


 


José Medeiros Ferreira, Córtex Frontal, 31.12..2013

31.3.14

A vantagem gaulesa


 


Sem eleições presidenciais ou para a Assembleia Nacional, e após uma derrota brutal nas autárquicas, François Hollande nomeou um novo primeiro-ministro, Manuel Valls, um social-democrata do PS e, até agora, ministro do interior. Os problemas da França, salvaguardadas as devidas distâncias, são semelhantes aos nossos: desemprego, ausência de crescimento, diminuição do rendimento disponível. E os socialistas gauleses têm exercido o poder praticamente da mesma forma que os governos de centro-direita na Europa da chanceler Merkel. Infelizmente o sistema de governo doméstico não permite a substituição do primeiro-ministro nos termos constitucionais em que é possível fazê-lo em França. Porque, se fosse, Passos Coelho deveria ser substituído, depois das "europeias" e do encerramento formal do programa de ajustamento, por outra personalidade oriunda do PSD uma vez que não parece verosímil a ocorrência de eleições legislativas antes do próximo ano. O primeiro-ministro evidencia, sempre que pode e com aparente gosto, que se "esgota" politicamente no cumprimento do programa que termina em Maio e na consolidação orçamental, custe o que custar. Assim auto-limitado e auto-complacente, revela não possuir qualquer outro desígnio para o país que não seja o de puxar a vida das pessoas para baixo por conta de uns poucos "indicadores" variáveis para cima. É curto.

20.3.14

Portugal em transe

«Medeiros Ferreira utilizou os últimos meses de vida a pensar no futuro de todos nós. Meditou sobre a encruzilhada dolorosa de Portugal e a sua umbilical ligação à crise europeia. Escreveu uma obra para ser lida com muita atenção, Não há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia, Lisboa, Edições 70, 2013. O livro analisa as raízes, paradoxos, caminhos perdidos e esperanças de uma Europa que tenta salvar-se da sua pulsão suicidária, e de um Portugal que procura encontrar uma habitação pós-imperial no seu continente originário. O autor não esconde as dificuldades. Sem recusar a "inspiração federal" adverte: "As perspectivas comunitárias vão mais num sentido centralista e burocrático do que numa via federal e política. A "governação económica" da UE, como se está a desenhar, é o contrário do federalismo" (p. 141). Recorda-nos Mendés France, esse grande político francês de origem portuguesa, que em 1957, na alvorada da CEE, nos advertia para os riscos de a política europeia ser capturada por uma tecnocracia indiferente à justiça social. Aconselha prudência: Portugal não pode sair da zona euro para cair num "isolamento" trágico. Aponta-nos o caminho da luta por Portugal. Dentro de uma Europa que também é nossa por direito próprio. Uma certeza: "Não pode haver aprofundamento da União sem aprofundamento da democracia a todos os níveis" (p.155). A prudência rima sempre com coragem, eis a lição do estadista.»


 


Viriato Soromenho-Marques, DN


 


«Loureiro dos Santos, Vasco Cordeiro, Mário Soares e Ramalho Eanes, em breves discursos, referiram-se à vida, à obra e ao pensamento de Medeiros Ferreira. A inteligência também pode comover. Ouvindo-os, passámos em revista o percurso desse açoriano, paradoxalmente nascido no Funchal, que marcou os nossos tempos e as nossas vidas. Ali estavam a exposição da memória de um homem que nunca foi simples, jamais cedeu ao impulso da vulgaridade e que nos deixa um legado de uma subtileza rara. Ao ouvi-los, não poderíamos deixar de estabelecer um paralelo com os tempos presentes. Por vezes, aos 49 anos, sinto a nostalgia de outras épocas. Será isso a primeira manifestação dessa estação etária, hoje tão amaldiçoada e outrora tão respeitada, as primícias da velhice? A verdade é que, olhando para o discurso preponderante na actualidade, temos tendência a sentirmo-nos póstumos em relação a nós próprios. Quando ouço ministros, secretários de Estado, editorialistas da moda a falarem da Europa, da crise e da questão da dívida, com o dogmatismo que a ignorância proporciona, lembro-me desses homens políticos, hoje tão raros, que conheciam a História. Valerá a pena aconselhar a leitura do último livro de Medeiros Ferreira a essa gente? Infelizmente, não tenho a certeza. Nesta época em que o lugar-comum, o soundbite esperto e a pequena astúcia prevalecem no pensamento rigoroso e profundo, parece destinado a uma condição menor.»


 


Francisco Assis, Público


 


«Portugal afunda-se completamente, não parecendo capaz de tomar qualquer decisão soberana. Basta alguém sequer aventar essa hipótese, como sucedeu com o manifesto dos 74, hoje cada vez com mais apoios, para ser imediatamente acusado de crime de lesa-majestade, por indispor os verdadeiros soberanos, neste caso os credores. Como já aqui escrevi, esta situação começa a parecer-se com o fim do Estado Novo. Os nossos governantes passaram a dedicar-se exclusivamente à encenação. O actual Primeiro-Ministro, numa prática inaugurada pelo seu antecessor, passou a ir a despacho a Berlim, o que considera um acto de grande soberania. De lá, ao lado da verdadeira soberana, pretende convencer-nos que a Alemanha aguarda com expectativa a decisão do Governo Português, e que a apoiará qualquer que ela seja. Como se nós não tivéssemos percebido que a decisão já foi tomada pela chancelerina alemã, e que o Governo se limitará a executá-la. Porque se não o fizesse, nas imortais palavras do outro, estaria o caldo entornado. Vai estar de qualquer maneira, mas para quem conta isso pouco importa. Mas a encenação mais grave foi a do Presidente na sua comunicação de ontem. Pretendeu, em primeiro lugar, convencer-nos que, depois de uma audição aos partidos políticos, tinha decidido marcar a data das eleições europeias para 25 de Maio. Como se nós não soubéssemos que essas eleições estão marcadas pelo Conselho Europeu desde 14 de Junho passado, só podendo os Estados-Membros decidir sobre se se realizam entre a quinta-feira e o domingo, sendo que o Reino Unido opta habitualmente pelo primeiro dia e os restantes Estados-Membros pelo último. Em segundo lugar o Presidente, numa nova versão de que a pátria não se discute, pede aos partidos políticos que apenas discutam os temas europeus e não os nacionais. Estou mesmo a imaginar um debate entre os portugueses sobre se o melhor presidente da Comissão será Alexis Tsipras, Martin Schulz, Guy Verhofstadt, ou Jean-Claude Juncker. Depois o Presidente pede aos portugueses que sejam bem comportados, e evitem crispações, para não prejudicar os "futuros consensos", que naturalmente outros se encarregarão de decretar. E finalmente o Presidente termina dizendo que o futuro da Europa é o futuro de Portugal. Esta frase lapidar significa apenas que o país já não tem futuro. Como num prefácio recente o Presidente fez questão de explicar.»


 


Luís Menezes Leitão, Delito de Opinião


 


«É verdade que o manifesto dos 70 isola Passos Coelho no seu fanatismo que exclui qualquer alternativa. É também inegável que ele expõe Cavaco Silva no seu ziguezagueante conformismo. Mas é preciso mais, muito mais, sobretudo se se quiser aproveitar a oportunidade para dar consistência às alternativas possíveis e mobilizar os portugueses para a sua concretização. Porque ou o manifesto corre o País, ou morrerá na secretária dos seus autores. Seria por isso muito útil - é a minha proposta - que se constituísse um "comité do manifesto" com meia dúzia dos seus subscritores, que promovesse reuniões públicas para discutir e avaliar iniciativas, propostas e timings, dando-lhe abertura e interação mediática com a criação simultânea de um site. Neste contexto de pré-campanha para as eleições europeias que já se vive, o momento é o ideal. Porque o que falta ao manifesto, por paradoxal que tal possa parecer, é precisamente ambição política. Isto é, capacidade e arte para traçar as trajectórias concretas que respondam aos nossos problemas, tendo em conta as circunstâncias actuais e as que já se pressentem. E de o fazer - este ponto é fundamental - com uma linguagem que não reproduza o insuportável europês tecnocrático que é hoje o primeiro instrumento de dominação da "pensamento único" austeritário. Precisamos de novas perspectivas e de novas propostas, mas também de novas palavras. Como um dia ensinou Freud, "quando se começa a ceder nas palavras, acaba a ceder-se nas coisas..."Deslocar o debate do défice para a dívida é, a meu ver, o maior e o melhor contributo do manifesto. Porque é aí que se concentram os maiores equívocos e reside o maior problema.»


 


M.M. Carrilho, DN


 


«O que afectou o establishment, que vai muito além do Governo, no Manifesto dos 70, foi a questão ser colocada em termos políticos. Traduziu-se assim a consciência que qualquer pessoa pode ter, rudimentar economista que seja. de que a nossa dívida é impagável mesmo com as mais optimistas taxas de crescimento dentro do domínio da realidade e não da ficção científica. Aliás, quando perguntados à bruta - como se deve perguntar aos governantes para não fugirem com subterfúgios - sobre como é possível diminuir a divida para os valores do pacto orçamental, nos prazos do mesmo pacto, ou vão para os longuíssimos prazos da economia (em que, como dizia Keynes, estamos todos mortos) ou para os impossíveis prazos da política em democracia. O Presidente fez isso e, apontando números de crescimento que todos sabem não ser realistas, chegou a mais de 20 anos do mesmo. Portanto alguma coisa tem de acontecer, a bem ou a mal. É muito provável que aconteça, na melhor das hipóteses, no contexto europeu a reboque de idênticos problemas da França e da Itália e que sobrem algumas migalhas para nós. Então essas migalhas, sob a forma de uma qualquer reestruturação da dívida, serão saudadas como sendo no tempo certo. No entretanto encolhemos, empobrecemos, subjugamo- nos e, como de costume, quem paga esse preço nem sequer terá tempo de vida para receber as benesses possíveis. De quê? Da reestruturação da dívida concedida como uma esmola e não como urna política...»


 


José Pacheco Pereira, Sábado

7.3.14

O "pastel"


 


«Para explicar o que foi o “consenso” em Portugal, talvez seja melhor começar pela Carta Constitucional de 1826, “outorgada” por D. Pedro IV. A Carta pretendia reconciliar o radicalismo “vintista” com o antigo regime, e a alta nobreza tradicional com a classe média e a plebe das cidades. Não se dizia “consenso” nessa altura, mas mais gramaticalmente “compromisso” e, em certos casos, “fusão”. O compromisso de 1826 provocou uma guerra civil que durou com intermitências para lá de 1834 e definiu uma regra básica: não podia haver entendimento de espécie alguma entre a esquerda e a direita, com o Estado em bancarrota e fome no país. Por isso, mesmo depois da vitória e a perseguição aos miguelistas, não houve paz que durasse entre campeões da liberdade. Com outros protagonistas, o ódio fervia como na véspera. Em 1836, o radicalismo do Exército e da plebe de Lisboa resolveram abolir a Carta e combinaram com a rainha (que resistiu) pôr simultaneamente em vigor a Carta e a Constituição de 1822. Portugal, num exemplo de “fusão” a que toda a gente chamava o “pastel”, ficou com duas Constituições, enquanto se preparava a terceira para as substituir. Essa terceira devia ser “o mais parecida possível” com a Carta, para contentar os “revolucionários” de Setembro e o partido com quem eles tinham alacremente corrido. Em 1838, estava pronta e tomou o nome solene de “Ordem”. Não existiria desordem porque, em princípio, o acordo era universal. Só que não era e a “Ordem” deslizou suavemente para a direita e acabou a restaurar a velha Carta (de 1826 e 1834) em 1842. Costa Cabral,  o dono da nova situação, imaginou então fabricar um compromisso pela força, o juste milieu. Aguentou com dificuldade quatro anos e caiu com uma guerra civil, a da “Patuleia”. O Estado devia ao mundo inteiro e a fome continuava. Em 1851, Saldanha, apoiado por uma intervenção prévia da Espanha e da Inglaterra, estabeleceu a concórdia universal e Fontes Pereira de Melo sustentou essa concórdia com dinheiro da Inglaterra e da França. Veio logo a época dourada da “Regeneração”, com um pequeno intervalo (cinco anos) em que a diminuição em quantidade e valor das remessas do Brasil levou os partidos que andavam em litígio fingido a uma verdadeira “fusão”, em que partilharam irmãmente Portugal. A fome não apertava tanto e o Estado parecia solvente. Em 1890-1893, a ilusão morreu. Dali em diante, como entre 1817 e 1851, uma guerra civil larvar ou activa não deixou os portugueses. Salazar, com a censura, o Exército e a polícia política, abafou essas longas festividades. Hoje, o Governo que fala em “consenso” e o PS que o recusa por razões triviais não percebem que o “consenso” implica um Estado com dinheiro, e muito dinheiro, e crescimento económico. Não sabem história.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

22.2.14

Portugal está "desempregado"


 


«Não há um cantinho da nossa vida que não se compare com a Europa e não há triunfo que não consista em encontrar semelhanças entre as coisas de lá e as coisas de cá. Por outro lado, os governos proclamam a nossa singularidade atlântica ou (nos casos de incurável loucura) mundial. O país balança entre um "papel" na Europa, que não encontrou, e um "papel" em Angola, no Brasil ou numa selva qualquer da África ou da Ásia, que manifestamente o excede. De qualquer maneira, como lamentava Eça, nesta apregoada época de "globalização", Portugal está "desempregado". Ninguém precisa dele e ele precisa urgentemente de sair da sua velha irrelevância. Imitando, sem imitar, claro. Como de costume e com os resultados do costume.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


Foto: Vítor Rios/Global Imagens

20.2.14

A bordo do porta-aviões

 



 


 


«Há um antes e um depois da crise do Verão passado. Até então prevalecia uma obsessão programática que tinha fundamento, horizonte e sentido. Estava errada, a meu ver, pela razão simples de descurar uma rigorosa avaliação da realidade. Agora o que subsiste é outra coisa: um discurso que vagueia entre a propaganda e o lugar-comum, desprovido de projecto e igualmente distante da realidade nacional. Este livro de Maria João Avillez e Vítor Gaspar tem, entre outros, um inegável mérito: confronta-nos com a distância que existe entre o erro da inteligência e o erro da mediocridade. Dir-se-á que o resultado é o mesmo. Infelizmente não é: o erro da mediocridade tem sempre um especial deficit de grandeza.»


 


Francisco Assis, Público


 


 «O combate da exclusão, da perpetuação institucionalizada da desigualdade e da desigualdade social, associado à vital necessidade de mecanismos de mobilidade social, em que o estado tem um papel fundamental, são as bases de uma política alternativa em que quem governa mantém uma empatia essencial com o destino dos portugueses, mantendo um sentido de pertença e de comunidade. Exactamente o contrário do que tem acontecido, em que um discurso punitivo do viver acima das suas posses legitima uma espoliaçáo brutal de recursos dos do meio, dos de baixo . Mais do que isso - e disso o PS não fala e permite -, o afunilamento e a destruição dos canais que permitiam uma mais justa distribuição dos rendimentos, por exemplo, como o pagamento do trabalho. É que se esquece que quando se paga um salário não se está a fazer um acto de caridade que se pode encolher a seu bel-prazer, mas a retribuir trabalho e esse trabalho tem valor social e económico. Estas políticas alternativas não são nem as do PCP, nem as da extrema-esquerda, como a enorme deslocação à direita do espectro político pode levar a crer e alguns ignorantes papagueiam como acusação. São politicas na tradição social-democrata e é tal vez por isso que muitos sociais-democratas e alguns democratas cristãos têm sido mais eficazes a combater - a palavra é mesmo essa - o programa de desigualdade social assente numa hierarquia de poder, dinheiro e establishment, do que os socialistas. O que não se pode admitir é que o discurso da retoma, da recuperação económica, seja sempre apresentado como tendo como condição não haver qualquer recuperação social . É por isso que o Governo, ao mesmo tempo que mantém e justifica manter milhões de portugueses numa perspectiva de depressão social prolongada para décadas, pode considerar que tem alguma coisa para festejar.»


 


José Pacheco Pereira, Sábado


 


 «Infelizmente, como certamente vamos confirmar no próximo fim de semana com o Congresso do PSD - mas podia ser de qualquer outro partido - a situação mantém-se inalterada, o apocalipse partidário continua sem nenhum verdadeiro fim à vista. Na verdade, o que hoje é preciso é começar a olhar mais para a sociedade do que para os partidos, deixando de fazer deles os bodes expiatórios do que a sociedade não quer, ou não consegue, ver. Talvez assim se compreenda melhor porque é que, apesar de tantas e tão contundentes críticas aos partidos que temos, não aparece de facto nenhuma alternativa, ou seja, nenhum partido mais aberto, mais credível, mais inovador, mais mobilizador, mais dedicado ao bem comum, enfim, mais virtuoso. E a resposta a este impasse encontra-se na sociedade, não se encontra nos partidos.»


 


M.M.Carrilho, DN


 


 «Ao contrário do que se diz, poucas instituições conhecem a macroeconomia portuguesa tão bem como o FMI. Eles não nos visitaram três vezes - estão cá desde a primeira. Nunca saíram de Portugal, há mais de trinta anos que têm delegação fixa e tê-la-ão pelo menos mais vinte, para cuidar dos seus empréstimos. Não são senhores de preto que aterram e descolam. Eles estão. É o FMI, não o Bloco de Esquerda, que escreve: "O ajustamento externo tem sido conseguido, em larga parte, devido à compressão das importações de bens que não sejam combustíveis e, ultimamente, ao crescimento das exportações de combustíveis". É o FMI, não o PS, que prossegue: "Esta dependência (...) arrisca enfraquecer os ganhos conseguidos até à data, assim que as importações recuperarem de níveis anormalmente baixos e as unidades de refinação eventualmente esgotem a sua capacidade 'extra', ao mesmo tempo que a melhoria na exportação de serviços é vulnerável a choques à procura de turismo." (...) É um anticlímax. Oportuno. (...) A partir de meados do ano passado, o consumo privado voltou a subir, sustentando grande parte da retoma económica. Ou seja, os portugueses estoiraram parte do que haviam poupado. Isto significa que a poupança não serviu essencialmente para financiar investimentos (através de crédito bancário a empresas), mas para consumo. Olhando para os hotéis, para as vendas de "tablets" no Natal e de automóveis em Janeiro, percebe-se em quê. Há uma boa parte da nossa retoma que é cíclica. Isso não tem mal nenhum, mas ajuda a relativizar o "milagre". (....) Muitas reformas estruturais não foram feitas, começando pela anedota (já lá vamos) da reforma do Estado, que anda há mais de um ano de gaveta vazia em gaveta vazia. Perdeu-se oportunidade para reestruturar grande parte da nossa economia e a dívida pública está a um nível assustador. No final do ano passado, o Banco de Portugal surpreendeu com um relatório crédulo e optimista: a economia portuguesa, escreveu o Banco, tinha mudado para sempre. As famílias portuguesas tinham-se tornado poupadas, as empresas tinham-se tornado exportadoras, éramos um País novo. Soou mais a vontade do que a diagnóstico. Ainda desejo que o Banco de Portugal esteja certo. Mas para isso o FMI tem de estar errado. Redondamente errado. Porque o relatório que publicou hoje é paralelepipedicamente o contrário dessa crença. E logo agora que isto estava tudo a correr tão bem. PS: Finalmente, a anedota: o Governo português garantiu à troika que o guião da reforma do Estado de Paulo Portas vai transformar-se em propostas concretas em Março.»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso

29.12.13

Os dias por vir


 


O suplemento dominical do Correio da Manhã é dedicado a 2013. Tem fatalmente Ronaldo na capa como, noutros tempos, poderia ter Amália, Eusébio, a fantástica Irmã Lúcia ou o computador Magalhães. Mais, porém do que o "balanço" por áreas - a da cultura, com o devido respeito e amizade pelo Francisco José Viegas, está devidamente emulado pela fotografia do primeiro-ministro a olhar para o tecto de um Palácio da Ajuda cheio de Joana Vasconcelos por todo o lado e com ela cheia dela mesma ao lado do primeiro-ministro - interessa-me o futuro espelhado no excelente ensaio de José Medeiros Ferreira intitulado "A troika nem sempre existiu". Medeiros Ferreira, aliás, é o autor do livro que escolheria, e aconselharia ao referido primeiro-ministro, no transe de 2013 para 2014 ou mais. Saiu na mesma editora que publica os seus gurus hiper-liberais de São Bento e, agora, das Necessidades pelo que é fácil chegar lá. Depois de o ter lido, escrevi que os ministros e outros dignitários, quando se deslocam, deviam obrigatoriamente levar na pasta o Não há mapa-cor-de-rosa, A história (mal)dita da integração europeia. No ensaio de hoje, Medeiros retoma alguns tópicos do livro e pondera os próximos e decisivos meses da vida pública nacional. Como não diria melhor, passo a citar sem mais comentários (porque os fiz no tempo e nos lugares adequados durante dois anos e,  em  especial, ao longo do pastoso mês de Julho), congratulando-me por uma amizade duradoura e sempre renovada, esperançosa e combativa como deve ser a nossa vontade nos dias por vir. «O período do advento para a saída da troika, e o consequente regresso aos mercados, foi assim em grande parte perdido no segundo semestre de 2013 pela má apreciação prospectiva de Cavaco Silva e dos seus conselheiros, e pela paralisia que introduziu no sistema da governação, prolongando por expedientes artificiosos a coligação PSD-CDS. Teve tudo nas mãos para criar novas condições de governação que preparasse melhor a saída da troika, com as duas cartas de demissão dos ex-ministros das Finanças e do MNE. Bastaria ter levado a sério o testamento de Vítor Gaspar de 1 de Julho, que escreveu ser necessária "a rápida transição para uma nova fase do ajustamento: a fase do investimento! Esta evolução exige credibilidade e confiança". Exactamente o que falta ao governo de Passos Coelho e à sua coligação com Paulo Portas. Obcecado com a necessidade de consensos entre os partidos do "arco da governação", Cavaco Silva não sabe como os estabelecer, ou se quer mesmo fazê-los. Uma coisa é certa, Passos Coelho não irá muito mais além do que esperar que o IGCP consiga colocar uns títulos no mercado dos "institucionais", trocar umas maturidades pelo aumento sedutor das taxas de juro, e esperar que o ECOFIN e o Eurogrupo ponham à disposição do Tesouro uma linha de crédito de alguns milhares de milhões. Passos Coelho é o principal obstáculo a qualquer entendimento mais abrangente para dotar a República Portuguesa de um governo capaz de responder ao choque da saída da troika. Devia sair com ela.»