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2.2.16

O negociador


 


Até aqui não se pode afirmar que Costa não tivesse tido sucesso nas negociações internas. Apesar da soberba peralvilha das raparigas do Bloco e  do compromisso "patriótico e de esquerda" do PC, a verdade é que o governo em funções é aquele que Costa quis, as pessoas que ele quis e os lugares dependentes do governo para as pessoas que o PS quer. Nem mais nem menos. Para recorrer a linguagem da história diplomática, Costa garantiu a sua soberania na ordem interna. Falta-lhe agora demonstrar que também a assegura na ordem externa sem beliscar a que decorre dos papéis assinados à sua esquerda. O embate das propostas orçamentais com Bruxelas serve parta testar as capacidades negociadoras, ou seja, políticas de Costa com os donos do Tratado Orçamental. Não creio que seja útil para o país - independentemente de se criticar o exercício e, mesmo, de o rejeitar na altura adequada no parlamento - aplaudir de fora para dentro, ou de dentro para fora, a "Europa" contra o governo. Uma coisa é deixar Costa e os seus aliados, como aliás ele reclamou, sozinhos defenderem a sua dama. Outra bem diferente é dizer mal da dama diante de terceiros. O palco é todo do negociador.

2.9.15

Merkel não foi a Castelo de Vide


 


Agosto, mês de férias, feiras e festas, manteve o país em remanso relativo. Só não foi absoluto por causa das eleições o que obrigou os protagonistas delas a alguma movimentação. O "povo", pareceu-me, absorveu as férias, as feiras e as festas até ao tutano e desprezou os ruídos que, de vez em quando, lhe chegavam do folclore partidário. O que pode ser um sinal interpretável para Outubro: a política não consta "inequivocamente" da lista de prioridades do "povo" como desejam os principais candidatos à pastorícia directa da nação. Mesmo assim houve esforços.


O PS acampou a juventude. O PSD ofereceu-lhe a habitual academia de Castelo de Vide. Apareceu uma candidata presidencial e desapareceu outro que antes de ser já não era. O dr. Passos, por força das circunstâncias, anda mais "social" na retórica mas carrega o Novo Banco às costas. O dr. Costa anda o que for preciso e mesmo assim pode não chegar. O dr. Portas, e como estão perfeitos um para o outro, prepara um talk show com a D. Heloísa Apolónia. Jerónimo espera mais deputados. E o Bloco é a Mariana Mortágua e basta. Não se dá praticamente pelos "novos" que, aliás, não fizeram muito para que se dê por eles. Sucede que fora desta pequenez caseirinha a Europa, a que nós estamos ligados mais pelo tratado orçamental do que por qualquer outra coisa, ficou obrigada a encontrar-se consigo própria (história, "valores", "princípios", economia, etc.) por causa dos chamados migrantes e refugiados.


Durão Barroso, o mais bonzo presidente da Comissão Europeia dos derradeiros tempos, passeou por Castelo de Vide a frivolidade que o tornou internacionalmente famoso. Sobre isto referiu que a Europa terá sempre as portas abertas mas não escancaradas. A Hungria ou a Sérvia - países cujo passado não os recomenda especialmente em matéria de direitos humanos - "aprenderam" mais depressa a "lição" de Barroso do que a rapaziada laranja. Foi preciso Merkel para retomar um olhar europeu, sensato e cosmopolita, sobre esta catástrofe. A Alemanha política e "da indústria" dispõe-se a receber 800 mil pessoas e reprova sem hesitações comportamentos xenófobos. Desafia, com a autoridade de quem pagou o preço elevado da devastação física e moral, a restante Europa, a que cabe na indigência oportunista dos Barrosos de Castelo de Vide. A chanceler, para já, devolveu uma "ideia de Europa" à Europa. E é dos textos que quem salva uma vida salva a humanidade inteira.


 


Jornal de Notícias


 

8.7.15

Foi você que pediu esta Europa?


Por aqui, as circunstâncias eleitorais explicaram parte do desvario jubilatório das esquerdas e da intimidação timorata das direitas. E o "carácter nacional", espalhado em muito comentadorismo, nas redes sociais e em algumas prosas do jornalismo oficioso, o resto: "dureza" e grosseria. Paulo Rangel perguntava ontem, num artigo no Público, "Grécia, Grécia, por que nos abandonaste", presumivelmente na sua recente qualidade de substituto de Alexandra Solnado na interlocução directa com Jesus. E o primeiro-ministro, mais terreno e jurado praticante do tratado orçamental, sugeria que cabia à Grécia escolher. Ou seja, apontou-lhe delicadamente a luz de presença "saída" na lógica, aliás, da aritmética do doutor Cavaco. Ora como preveniu Medeiros Ferreira em Abril de 2012, o Tratado Orçamental foi feito para dividir a Europa e não para a unir. É também isso que revela a tagarelice e a mesquinhice de muitas destas reacções ao transe grego o qual, lá por ser grego, não deixa de ser sobretudo europeu. Os sonsos das "instituições" - com Dijsselbloem à cabeça, Draghi nas mãos, Schulz no tronco e Juncker nos pés -, no lastro de um Conselho Europeu composto por impotentes políticos, activos ou passivos, espelham bem a inexistência de um pensamento sobre o futuro da União. Primeiro, cativa da alacridade dos Tratados desde 1992 e, agora, exclusivamente subordinada ao Tratado Orçamental de 2012 que apenas serviu para aumentar a desconfiança entre estados-membros. O episódio grego decorre fundamentalmente disto e do colapso de décadas de governações falaciosas caídas com estrondo sobre o perplexo e porventura impreparado Tsipras que não hesitou na imolação de Varoufakis. Porque (e volto a pedir emprestadas palavras a Medeiros Ferreira) "neste momento as instituições europeias não funcionam, nem dentro nem fora dos Tratados" dado "o erro inicial da fuga à vontade dos povos e ao escrutínio democrático a nível europeu". Obama e Putin não são meros observadores. Foi você que pediu esta Europa? Eu não.


 


Jornal de Notícias


 


 

3.7.15

DSK, a Grécia, a Europa e o FMI: aprender com os próprios erros


Strauss-Kahn um dia destes no Twitter. Uma forma de vida inteligente para variar.

17.6.15

A pedra


 


Findo, cerca da meia-noite, O Crepúsculo dos Deuses no canal Mezzo - as "elites" deviam ser fechadas numa sala durante aquelas quase cinco horas e "obrigadas" a ver aquilo para ver se finalmente percebem o que lhes acaba sempre por acontecer - passei pelas notícias domésticas. Sem som, li num rodapé que ilustrava a dra. Albuquerque que a mesma aludiu a uma "pedra". Ora "a pedra" seria a dívida. E os carregadores da dita seriam os portugueses ainda por muitos e bons anos. A dra. Albuquerque não mente e não erra. Não tem jeitinho nenhum mas não se engana. Aliás, a coisa persegue-nos desde que a história de Portugal passou a ser conspícua. A literatura da especialidade, e a outra, glosou amplamente a matéria sobretudo em torno do consabido binómio dívida-empréstimo. Com a "Europa", onde comemorámos outro dia 30 anos de adesão, o binómio conheceu as oscilações decorrentes dela (antes dela, nos anos 70, e com ela nos anos 80 e em 2011) e do convívio forçado com o benemérito FMI. De 2011 para cá, os juros do empréstimo aumentaram significativamente a dívida desequilibrando o binómio, na realidade o seu estado natural. O dr. Costa, cuja superficialidade nestas matérias assusta o último moderado, acha que a "pedra" se dissolve por artes mágicas da dita "Europa". Mas imagine o dr. Costa, homem assaz desprovido de imaginação, que a "Europa", ou melhor, o tratado orçamental que a constitui e comanda, se "dissolve" antes da nossa pesada "pedra". Aí, com certeza, não ficará pedra sobre pedra.

8.5.15

Mais uma derrota da "Europa"


Paradoxalmente, ou talvez não, a vitória conservadora na Inglaterra constitui mais uma derrota da "Europa": a de Barroso, de Juncker, da Senhora e de Hollande. O "nivelamento" a que praticamente todas as governações europeias se sujeitaram, sejam mais das esquerdas ou mais das direitas, por causa do "tratado orçamental" alterou profundamente aquilo a que o PC costuma chamar "a correlação de forças". O socialismo e a social-democracia, à força de não se distinguirem dos "conservadores" e "liberais"no austeritarismo e na mistificação política em que se tornou a "Europa", fazem com que a populaça prefira o original (com algumas "originalidades" tais como a ameaça de referendo sobre a pertença à Europa e a moeda própria) ou o "radical" quase inconsequente (como na Grécia) a cópias remoídas. Deve ser por isso que o dr. Costa, que possui um módico de literacia económica e financeira, não se entende politicamente com o "relatório técnico" que encomendou. Está entre aquele clássico querer e não querer o mesmo, "rebocado" pelos mesmos que já não vão a tempo de entender, para citar um título de Manuel Valls, que é preciso acabar com o velho socialismo para ser finalmente de esquerda.

20.4.15

A "Europa" e a morte


 


Já não sei quem escreveu que há duas coisas que o homem não consegue encarar de frente: o sol e a morte. Esta última é particularmente verdadeira para o homem ocidental e europeu, em especial. As tragédias consecutivas que têm lugar no Mediterrâneo, às portas da mirífica Europa, dizem muito sobre a impotência em que esta "União" caiu. No meio desta catástrofe - e a antecedê-la - está um pouco de tudo: negócios, medo, esperança, cobardia. O recalcado triunfa sobre a retórica judaico-cristã que, por exemplo, o Papa fez questão de "terrenizar" indo a Lampedusa. Também lá foi a burocracia europeia de Bruxelas, encabeçada ainda por Barroso, o cretino, para nada. A verdade é que a "Europa" não sabe o que fazer com estes milhares de pessoas que sonham com ela. Transformada numa gigantesca secção de contabilidade e de negocismo político rasca, a "Europa" apenas consegue aparentemente patrulhar a morte. A sua e a dos outros.


Foto: Público

22.3.15

Só temos o que merecemos


Com certeza Marine Le Pen terminará o dia com um sorriso maior. Rirá sobretudo dos pobres de espírito que arruinam politicamente a Europa à conta das folhas Excel que uns esquadrinham e outros preenchem obedientemente. A metáfora paroquial dos "cofres cheios" apenas denota esta infelicidade generalizada. A Le Pen, como a outros em países onde as opiniões públicas são fortes e pouco timoratas, basta aproveitar as brechas que os burocratas da democracia cavam todos os dias. Os "centrões", mais à esquerda ou mais à direita, acharam que o hiperliberalismo retórico das "reformas" (repare-se que nunca ninguém menciona, em concreto, o que é que entende por "reformas") os salvava. Começou com o estúpido Blair e acabou na Merkel da contabilidade pública comunitária. Agora amanhem-se. Só temos o que merecemos.

4.3.15

Jangada de pedra


 


O sr. Juncker, ignorando-se se foi em momento pré ou pós-prandial, atribuiu aos dois governos ibéricos uma "exigência" maior em relação à Grécia do que propriamente a Alemanha. Já se percebeu que o sr. Juncker, democrata-cristão, não navegou pelo livro vermelho do Grande Desdentado Mao contrariamente ao seu antecessor que nunca deu um ponto periférico sem nó germânico. Se as coisas não correrem bem à "Europa" e à Grécia - porque uma não vai sem a outra e vice-versa - Juncker pretende, desde já, "aliviar" as responsabilidades da Comissão passando-as politicamente para o Conselho Europeu e para o Eurogrupo onde alguns têm ido além da chinela. Por coincidência a Península também se junta em eleições. A Espanha não quer piorar as "condições" dos seus PEC' s e o dr. Passos não pretende dar início aos seus de volta à cauda como "aluno" insuficente em vez de bom. Porque se a Europa se entender quanto ao futuro próximo helénico, a anunciada "vigilância" será ainda mais apertada do que a prevista precisamente pela Comissão do amigo Juncker. A "jangada de pedra" precisa das bóias para se amparar. 

27.2.15

A Comissão e os jogos florais


 


A Comissão Europeia - que faz de preboste na execução do estúpido tratado orçamental, a verdadeira "constituição europeia" - veio lembrar a um dos seus melhores alunos, o governo português (em funções ou outro qualquer por vir), que o PEAF não só não chegou como da sua aplicação resultaram "desequilíbrios excessivos" (como se estes estupores não soubessem o que é que ia "resultar" na periferia) tais como o aumento da dívida, do desemprego e da pobreza. No fundo a Comissão escreveu o prefácio do primeiro PEC do governo do dr. Passos o qual entrará já em vigor na saison primavera-verão e em plena pré-campanha eleitoral doméstica. Ou seja, o "arco da governação" não pode ter outro programa a não ser o que lhe vai ser imposto pelas "entidades" do costume que resultam do dito tratado. É esse, também, o engulho do dr. Costa e menos a sabujice circunstancial a terceiros. O resto são jogos florais.

25.2.15

Schadenfreude dos nossos cãezinhos de Pavlov


 


«Em política, Pavlov reina como mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza, Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos "porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são sombrias. É verdade que muitos aproveitaram estes anos de ouro para se incrustar em lugares de nomeação ou influência governamental. E vão continuar lá. Claro que há de vez em quando uns pequenos grãos na engrenagem. Jardim, por exemplo, do "je suis Syriza", ou Marcelo que dá uma no cravo e outra na ferradura. Mas para estes pequenos propagandistas não pode haver hesitações. É o combate final e não há "mas", nem meio "mas", é tudo a preto e branco. Ou se é grego ou alemão. Animam-se com o facto de as manifestações pró-gregas terem pouca gente, mas ignoram as sondagens que mostram que muita gente ultrapassou os argumentos mesquinhos de Cavaco e Passos e tem simpatia pelos gregos. À direita e à esquerda, porque toda a gente precisava de um assomo qualquer de dignidade nacional numa União Europeia manietada pela elite política mais autoritária e escassamente democrática que chegou ao poder nestes últimos anos. Enganam-se se pensam que são os esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo. Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o "protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil servindo para fazer o sale boulot alemão.»


 


José Pacheco Pereira, revista Sábado

20.2.15

Ainda "lixo"

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Mesmo que ao de leve a "Europa" recuperou o lastro negocial, de boa tensão, que a instituiu. Até o "eixo franco-alemão", presentemente uma caricatura do que foi noutras alturas, se manifestou pela "segurança" do euro e pela permanência do Eurogrupo na sua presente configuração. O dr. Passos, aliás, já estava atrasado em relação a este "eixo" (ou à parte que lhe é mais simpática nele) quando, no parlamento, se pronunciou sobre países-membros que tem por pouco atiladinhos. Mesmo assim o nosso, apesar de mostrado ao mundo como "exemplar" cumpridor de programas ditos "indignos" e como pagador certinho de reembolsos a credores, não consegue sair do "lixo" da  Moody's. Constou que, entre outros, se teria "empertigado" contra as mais recentes decisões encontradas no Eurogrupo com outro Estado-membro. Também constituiria uma forma de "lixo".

19.2.15

A Europa Unter den Linden


Agora é que se vai ver se a "Europa" passou a ser um diktat contabilístico Unter den Linden ou se ainda se concebe como uma união política de soberanias. E também se vai ver, ou rever, até onde chega a capacidade de agachamento de alguns Estados-membros. Quanto às "instituições" tipo Comissão Europeia, o mea culpa farsolas do sr. Juncker só será válido se corresponder, como se diz no direito, a uma declaração séria no meio do monte do estrume que representa, desde as eleições helénicas, o princípio e o fim da conversa não democrática alemã. Não há mapas cor de rosa.

14.2.15

Uma "Europa" irreformável


 
«O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia. Sim, porque se o PASOK tem culpas no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais: foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”, a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio. E os gregos não querem austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social, uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem Cavaco nem Passos dizem, é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos queria para a Grécia, com aquela cegueira que têm os acólitos e que continua mesmo quando os mestres já estão noutra (...). Ora, a questão não é a de validar o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco e Passos querem extirpar.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


«A “construção” que a burocracia de Bruxelas promoveu foi abstracta e universalista. A realidade não interessava aos “pais” dessa utopia que se veio a chamar a “União”. Não distinguiam, nem queriam distinguir, entre um luterano da Turíngia e um ortodoxo de Salónica. Distribuíam direitos e deveres como se toda a gente entendesse os direitos da mesma maneira ou tomasse os deveres igualmente a sério. E o euro, além de ser um erro técnico (hoje reconhecido e lamentado), pela sua própria natureza ignora a diferença (...). Pouco a pouco um entendimento de pura mercearia acabou por se transformar na utopia da Europa política, exemplo para o mundo e grande potência. A Grécia vivera desde o século XV ao século XIX no império turco; a Itália até quase ao fim do século XIX era parte do Império austríaco, parte do Papa e parte dos Bourbons- Sicília, que tranquilamente continuavam no século XIX; a Alemanha nasceu em 1870; Portugal e Espanha só saíram das ditaduras de Franco e de Salazar em 1974-1976. Mas que importavam a cultura e a história? No grande saco de Bruxelas cabia fosse quem fosse, lambuzado de uma retórica vácua e de mão estendida à caridade do próximo. A “solidariedade” da “Europa”, que hoje se invoca, não se manifestou em mais do que alguns subsídios relutantes, em troca de uma arregimentação que ninguém pedira ou agradecia. Quando agora os portugueses discutem com exaltação se devem ou não devem apoiar a Grécia ou juram candidamente reformar a União, não se lembram, como de costume, que o seu peso é nulo e, pior ainda, que a “Europa” é irreformável.»


 


Vasco Pulido Valente, idem

11.2.15

Lamentável


 


O Doutor Cavaco foi primeiro-ministro da época política "dourada" da Europa. Mandavam Delors, Kohl e Mitterrand. A sra. Thatcher era um belíssimo contrapeso com um sentido pedestre das proporções. Todos "trouxeram" os EUA para a Europa e levaram a Europa até aos EUA. Com defeitos, não tinham nada a ver com os contabilistas e os paspalhões políticos que há mais de uma década mandam na "Europa". E que, à sua pequena medida, acham que inventaram agora a "Europa". Tudo somado, o Doutor Cavaco - que faz questão, sempre que pode, de mencionar à unidade os Conselhos Europeus a que assistiu - tem a estrita obrigação de saber "como se fez e faz" a Europa. Não é certamente com um argumentário deste jaez: mesquinho, anti-europeu, anti-cosmopolita e típico de uma periferia instintual que julgávamos ultrapassada. Lamentável.    

10.2.15

Os caminhos da senhora


 


Vimos ontem o dr. Portas, rodeado pela "sua gente" no governo, muito contentinho com os dados da balança comercial em 2014. O senhor vice parece-se cada vez mais com algumas das personagens em que Alice tropeça nos livros de Lewis Carroll: «If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?». Não, o senhor PM não "apanha" e está como o melancólico Rei: «"I see nobody on the road," said Alice. "I only wish I had such eyes," the King remarked in a fretful tone. "To be able to see Nobody!» Entre eles, porém, erguem-se os caminhos da Senhora, a fórmula feliz do Medeiros Ferreira para se referir a Merkel, a "Raínha" desta pobre historieta: «if I lose my temper, you lose your head! Understand?» Percebem?

5.2.15

Custe o que custar


 


Como costuma escrever o Rui Ramos a propósito de todos aqueles que não seguem as "boas práticas" políticas defendidas pelo Observador, os "oligarcas" não eleitos da "Europa estilo Draghi" - infelizmente com a complacência servil de periféricos eleitos - decidiram antecipar-se à boa-fé negocial do governo grego e despromoveram-lhe a dívida. Algumas alimárias domésticas aplaudiram o exercício porque "nós não somos a Grécia" e porque, no fundo, sofremos de uma mesquinhez pequeno-burguesa congénita. O "tratado orçamental" a que apreciam assoar-se, e eventualmente limpar outras partes do corpo, é aparentemente inamovível: as pessoas, as economias e as soberanias nacionais que se adaptem, mortas ou vivas, ao "tratado". Como se viu ontem a propósito de medicamentos, o dr. Passos comunga fervorosamente desta "tese" do "custe o que custar". Sucede que nós só nos livramos, para já, das NEP's do sr. Dragui porque há uma - uma e apenas uma - agência de notação canadiana que acha que a nossa dívida não é lixo e que serve para investimento. Senão estaríamos a negociar, como adultos e como a Grécia, com estes nossos tristes parceiros inconfiáveis e hipócritas. Assim continuamos sob o espectro da leveza, a pagar mais juros do que os gregos e com uma dívida directa do Estado que, no final do ano, ascendia a cerca 218 mil milhões de euros. Coragem, portugueses. Havemos de a pagar. Custe o que custar.

29.1.15

A "formiga" e a "cigarra"


 


No final do conselho de ministros doméstico, o dr. Marques Guedes - um homem afável, trabalhador e generosamente imaturo enquanto político - recorreu à famosa fábula para falar de nós e da Grécia. Segundo o ministro da presidência, Portugal seria a "formiga" e a Grécia uma "cigarra". Ninguém tem, ou deixa de ter, de louvar-se nos resultados das eleições gregas seja a título de mimetismos inaplicáveis, seja porque apenas concebe a "Europa" enquanto "tratado orçamental" e pouco mais. Mas, no mínimo, pode esforçar-se por tentar entender o que se passou. Por outro lado, um módico de cultura democrática manda que se respeite sufrágios mesmo quando, a final, não nos agradam. Todavia, e até agora, o governo de Portugal não tem feito outra coisa pela boca dos seus mais elevados dignitários do que apoucar o seu homólogo helénico. Não lhe dá, sequer (o que é ainda mais ridículo vindo de onde vem), o benefício da dúvida. O dr. Marques Guedes devia estar "embalado" pelas redução, em décimas anãs, das estatísticas do desemprego onde a sua formosa "formiga" ainda tem muito caminho pela frente. Porque a "notícia" continua a ser um patamar de quase 700 mil desempregados e um aumento do desemprego entre os mais jovens. Em matéria de insectos, rastejantes, estamos conversados.

28.1.15

Draghi sentado nos bancos


 


«Num ponto crucial os alemães conseguiram vencer. Esse ponto é o da repartição das perdas resultantes de eventuais "defaults". Draghi teve de aceitar que 80% dessas responsabilidades fossem assumidas pelos bancos centrais dos 19, ficando o BCE apenas com 20%. Esta opção é uma derrota clara para os países que defendem que eventuais prejuízos de políticas do BCE deveriam ser assumidos pelo BCE, dado haver uma zona monetária unificada. Itália e Irlanda manifestaram de imediato o seu desacordo acerca da repartição de riscos pelos 19. Portugal ficou calado, como de costume. A Espanha optou por um silêncio que, tal como o silêncio de Lisboa, só pode ter uma raiz ideológica desfasada da realidade... Agora, uma questão se coloca: será o QE suficiente para atingir os grandes objectivos pretendidos, ou seja, retoma económica, crescimento, combate ao desemprego? Uma primeira resposta é não. A compra de dívida pública e privada pelo BCE, mesmo em larga escala, por si só, não será suficiente. O que faltará então? Uma reforma inadiável: que a banca aproveite esta oportunidade para mudar o seu "mindset". Focando-se menos em operações de capital financeiro a curto prazo e na compra de dívida soberana. E centrando-se mais no financiamento às empresas e à economia real. Esse reposicionamento estratégico dos bancos implicará o desejo de assumirem um maior papel no "funding" de projectos - públicos ou privados - de desenvolvimento e criação de emprego. Essa mudança de foco da banca é crucial para o sucesso do QE na Zona Euro. E, naturalmente, também para o futuro do euro e da União Monetária.»


 


Carlos Vargas, Jornal de Notícias