Apareceu hoje no Público mais uma pérola "jurídica" ligada ao estafado processo Casa Pia, desta vez produzida por uma magistrada judicial. Uma juíza de turno da Boa Hora não resistiu a deixar a sua "marca" no prolixo processo e quis devolver à preventiva cinco dos arguidos. Entre outro argumentário, alegou que a medida "sossegará, com certeza, as eventuais vítimas deste processo e até potenciais vítimas nos meios sociais em que os arguidos se inserem, originando uma maior tranquilidade e paz social". Aos olhos da juíza Filipa Macedo isto é assim porque "os adolescentes vivem uma liberdade desmedida, passando os dias sozinhos e saindo à noite até altas horas da madrugada", o que os pode tornar "muito 'apelativos' nas suas indumentárias, pela descontracção com que actuam, pelo bronze e penteados que exibem, por indivíduos viciosos e podem ser considerados presas fáceis porque normalmente têm posses insuficientes para as solicitações da sociedade de consumo em que se integram e que os seduz". Esta extraordinária prosa, que mais parece inspirada num híbrido de Lombroso, Kavafis, Machado Pais e Carlos Castro, não convenceu, nem sequer o Ministério Público. Qualquer discípulo de Freud poderia talvez entreter-se a explicar. Eu não consigo. Num ensaio com mais de 50 anos, Eduardo Lourenço, partindo do Livro II da República de Platão, escreveu que "a justiça é apenas uma criação arbitrária da impotência ancestral e do medo dos outros". Este conceito tem, na terminologia burocrático-judiciária dos nossos dias, os seus equivalentes no "alarme social", na "tranquilidade e paz social", na "ordem pública", etc, termos estes que bastam para justificar quase tudo. Recomenda-se, por isso, parcimónia no seu uso. Porém, confesso que a parte que mais gostei no despacho da juíza, foi naturalmente a do "bronze" e dos "penteados" perseguidos avidamente por "indivíduos viciosos". É, sem dúvida, uma imagem perigosamente "apelativa".
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
31.8.04
O BRONZE
Apareceu hoje no Público mais uma pérola "jurídica" ligada ao estafado processo Casa Pia, desta vez produzida por uma magistrada judicial. Uma juíza de turno da Boa Hora não resistiu a deixar a sua "marca" no prolixo processo e quis devolver à preventiva cinco dos arguidos. Entre outro argumentário, alegou que a medida "sossegará, com certeza, as eventuais vítimas deste processo e até potenciais vítimas nos meios sociais em que os arguidos se inserem, originando uma maior tranquilidade e paz social". Aos olhos da juíza Filipa Macedo isto é assim porque "os adolescentes vivem uma liberdade desmedida, passando os dias sozinhos e saindo à noite até altas horas da madrugada", o que os pode tornar "muito 'apelativos' nas suas indumentárias, pela descontracção com que actuam, pelo bronze e penteados que exibem, por indivíduos viciosos e podem ser considerados presas fáceis porque normalmente têm posses insuficientes para as solicitações da sociedade de consumo em que se integram e que os seduz". Esta extraordinária prosa, que mais parece inspirada num híbrido de Lombroso, Kavafis, Machado Pais e Carlos Castro, não convenceu, nem sequer o Ministério Público. Qualquer discípulo de Freud poderia talvez entreter-se a explicar. Eu não consigo. Num ensaio com mais de 50 anos, Eduardo Lourenço, partindo do Livro II da República de Platão, escreveu que "a justiça é apenas uma criação arbitrária da impotência ancestral e do medo dos outros". Este conceito tem, na terminologia burocrático-judiciária dos nossos dias, os seus equivalentes no "alarme social", na "tranquilidade e paz social", na "ordem pública", etc, termos estes que bastam para justificar quase tudo. Recomenda-se, por isso, parcimónia no seu uso. Porém, confesso que a parte que mais gostei no despacho da juíza, foi naturalmente a do "bronze" e dos "penteados" perseguidos avidamente por "indivíduos viciosos". É, sem dúvida, uma imagem perigosamente "apelativa".
O IMPOSSÍVEL
Em alguns blogues muito respeitáveis, tipo Causa Nossa e Abrupto, questiona-se o Comandante Supremo da Forças Armadas, vulgo Presidente da República, acerca da intervenção e triste figura da Marinha Portuguesa, a mando de Portas, no caso do "barco do aborto". Julgo que eles entendem que o referido Comandante Supremo devia "fazer qualquer coisa", isto é, podia "tomar uma posição". Pelo menos são generosos. Partem do princípio que ele existe. E pedem o impossível.
O IMPOSSÍVEL
Em alguns blogues muito respeitáveis, tipo Causa Nossa e Abrupto, questiona-se o Comandante Supremo da Forças Armadas, vulgo Presidente da República, acerca da intervenção e triste figura da Marinha Portuguesa, a mando de Portas, no caso do "barco do aborto". Julgo que eles entendem que o referido Comandante Supremo devia "fazer qualquer coisa", isto é, podia "tomar uma posição". Pelo menos são generosos. Partem do princípio que ele existe. E pedem o impossível.
O PRINCÍPIO
Em entrevista ao Diário de Notícias, Fernando Ruas, o eterno presidente da Câmara de Viseu e da associação dos "Gauleiters" portugueses, avisou o seu querido amigo e "apoiado" Santana Lopes que eles, os "autarcas", "querem derramas sobre o IRS ou o IVA". Ou seja, querem mais dinheiro do orçamento de Estado para as suas preciosas quintinhas. Precisam naturalmente de "obra" para mostrar aos seus magnânimos eleitores. O esforço de Manuela Ferreira Leite é para espatifar aos pés de criaturas como estas? Parece que sim. E isto é apenas o princípio.
O PRINCÍPIO
Em entrevista ao Diário de Notícias, Fernando Ruas, o eterno presidente da Câmara de Viseu e da associação dos "Gauleiters" portugueses, avisou o seu querido amigo e "apoiado" Santana Lopes que eles, os "autarcas", "querem derramas sobre o IRS ou o IVA". Ou seja, querem mais dinheiro do orçamento de Estado para as suas preciosas quintinhas. Precisam naturalmente de "obra" para mostrar aos seus magnânimos eleitores. O esforço de Manuela Ferreira Leite é para espatifar aos pés de criaturas como estas? Parece que sim. E isto é apenas o princípio.
30.8.04
COMO É QUE A SENHORA AGORA SE SENTE?
...para ler no Bloguítica.Os repórteres televisivos comportam-se, perante a tragédia alheia, como abutres ignorantes a chafurdar em sangue. Assenta-lhes melhor a cobertura das festividades bárbaras de Barrancos, com entrevistas aos néscios locais, ou das florzinhas de plástico de Campo Maior que tanto inspiraram o Dr. Jorge Sampaio para mais uma sonolenta tirada sobre a justiça.
COMO É QUE A SENHORA AGORA SE SENTE?
...para ler no Bloguítica.Os repórteres televisivos comportam-se, perante a tragédia alheia, como abutres ignorantes a chafurdar em sangue. Assenta-lhes melhor a cobertura das festividades bárbaras de Barrancos, com entrevistas aos néscios locais, ou das florzinhas de plástico de Campo Maior que tanto inspiraram o Dr. Jorge Sampaio para mais uma sonolenta tirada sobre a justiça.
29.8.04
JORNAL DO GATO
No tempo em que a "literatura portuguesa" era viva, houve polémicas, grupos, ódios e amizades que celebravam o gozo de escrever e de publicar. A censura ajudava a selar algumas solidariedades. A semi-clandestinidade desse mundo aguçava o engenho e dividia os interesses. Dentro do grupo dito surrealista, a propósito de tudo e de nada, mas sobretudo por causa do "espólio" António Maria Lisboa, prematuramente desaparecido aos vinte e poucos anos, e da sua respectiva publicitação, particularmente por Cesariny, este e Luiz Pacheco trocaram epistolografia vária e zangaram-se. Pacheco vagueava intermitentemente pelas pensões e pelas prisões, por reiterados "atentados ao pudor", e, nos intervalos, era editor. Cesariny saía do país e voltava. A Assírio&Alvim publicou agora uma reedição do Jornal do Gato, de Cesariny. Tem por epígrafe um esclarecimento: contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas. Cesariny refere-se ao tomo de Luiz Pacheco, Pacheco versus Cesariny, folhetim de feição epistolográfica, publicado pela Editorial Estampa, colecção Novas Direcções, em 1974. Aliás, não faz grande sentido ler o primeiro sem ter por perto o segundo. O excerto de uma carta de Pacheco "a Pepe Blanco, à Estampa, Palácio do Limoeiro, Dezembro, 59" e um outro de Cesariny a Pacheco, de 66, parecem "surrealistas" aos olhos do nosso bem atestado convencionalismo epocal. Graças a um Deus que não é deles, estão ambos vivos e continuam e recomendar-se contra o convencionalismo literato que inunda as prateleiras da "literatura" em português.
Da carta de Pacheco a Pepe Blanco:
(...) Tenho notado, também que a missa (dia de Natal houve missa solene, com um coro de angelicais assassinos) não tem aqui muitos adeptos entre a rapaziada [referindo-se aos detidos no Limoeiro]. Esses gajos católicos para a missa! berravam eles. Mas um respondeu: Que se foda Deus! Vim aqui encontrar o Toninho, o mano do Zanaga, o famoso criador do negócio das listas telefónicas recolhidas de táxi. Está inteiramente familiarizado com o ambiente e já me prestou bons serviços. A vida dele é um eterno vai-vem entre o Lá Fora e o Estar Aqui Dentro. É uma cara familiar aos guardas e aos espelhos. É um tipo fixe. Contou-me ele cenas horrorosas de concupiscência e a palavra encena já a pequena sílaba que faz supor aquilo mesmo a que me quero referir. Eu ainda vira muito pouco (mas algo já me farejava de tais actividades secretas), mas ele jura e tresjura que os rabos (rabos virgens, pouco mais ou menos) são muito baratos, por exemplo: um rabo de 12 anos, loiro! 1 cigarro; um rabo de 15 a 18, "teddy-boy" do Bolero Bar, 2 tostões; e assim por diante; V. leia esta tabela ao Cesariny, para o enraivecer e mostrar-lhe que o lugar dele é aqui. Com os 5 escudos que ele costuma pagar na área da fragatas, são capazes de lhe ir encomendar um rabo lá fora, um rabo de chinês (que são os mais remexidos) ou até mesmo um rabo de polícia (que são os mais apertados). Com 5 escudos tem direito a fotografia, águas quentes ou frias, e sobremesa.(...)
Da carta de Cesariny a Pacheco:
(...)A tua verdade histórica é a merda. Diferente da minha neste ponto: é possível que a minha vida tenha dado cabo de mim, ou eu cabo de mim nela; o amor que tenho à vida fez-me sempre evitar dar cabo da vida dos outros. Não "enterrei" ninguém sempre até á última quis a vida dos outros. Tu incluído. A tua pressa em dar cabo dos outros, diz-me que vida é. E que espécie de cabo. (...) "O senhor não é palhaço, o senhor é escritor". estas linhas do Lisboa, cantei-tas várias vezes, em vários tons. Soube isso no teu texto dos Doutores, Salvação e Menino, que continua a ser para mim o texto lúcido que, em literatura, a época forneceu. Soube-o de novo, com imensa alegria, na publicação do Teodolito. Diante de um texto tal hão-de curvar-se, sem querer, todos os merdas do literário lisboeta. E, o que é mais: pela primeira vez encontrava a tua humanidade, a tua forma natural de sorrir - tens o sorriso mais bondoso, espanta-te, de quantos vi a tentar abrir lábios: sai quase sempre careta, lá diz o Lautréamont - diante das calamidades. Melhor, eras o homem que se confessava isso, homem, e em que mundo assim, de que maneira! Nada a ver com os teus papelinhos acusatórios, de boa ou má esguelha, para a vida ou para a morte dos outros. Creio que não piorei o texto publicando-o com as "emendas", ou "chaves" que tu próprio aceitaste. Acho mesmo que ficou melhor, o que decerto te ofende. Outros textos tens parido de igual, ou maior altura? Este o Luiz Pacheco que conheço, o único que de facto existe e posso amar, mesmo conservando na gaveta, como conservo, e não esquecendo, não são para esquecer, feridas abertas. Em corpo frágil.
JORNAL DO GATO
No tempo em que a "literatura portuguesa" era viva, houve polémicas, grupos, ódios e amizades que celebravam o gozo de escrever e de publicar. A censura ajudava a selar algumas solidariedades. A semi-clandestinidade desse mundo aguçava o engenho e dividia os interesses. Dentro do grupo dito surrealista, a propósito de tudo e de nada, mas sobretudo por causa do "espólio" António Maria Lisboa, prematuramente desaparecido aos vinte e poucos anos, e da sua respectiva publicitação, particularmente por Cesariny, este e Luiz Pacheco trocaram epistolografia vária e zangaram-se. Pacheco vagueava intermitentemente pelas pensões e pelas prisões, por reiterados "atentados ao pudor", e, nos intervalos, era editor. Cesariny saía do país e voltava. A Assírio&Alvim publicou agora uma reedição do Jornal do Gato, de Cesariny. Tem por epígrafe um esclarecimento: contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas. Cesariny refere-se ao tomo de Luiz Pacheco, Pacheco versus Cesariny, folhetim de feição epistolográfica, publicado pela Editorial Estampa, colecção Novas Direcções, em 1974. Aliás, não faz grande sentido ler o primeiro sem ter por perto o segundo. O excerto de uma carta de Pacheco "a Pepe Blanco, à Estampa, Palácio do Limoeiro, Dezembro, 59" e um outro de Cesariny a Pacheco, de 66, parecem "surrealistas" aos olhos do nosso bem atestado convencionalismo epocal. Graças a um Deus que não é deles, estão ambos vivos e continuam e recomendar-se contra o convencionalismo literato que inunda as prateleiras da "literatura" em português.
Da carta de Pacheco a Pepe Blanco:
(...) Tenho notado, também que a missa (dia de Natal houve missa solene, com um coro de angelicais assassinos) não tem aqui muitos adeptos entre a rapaziada [referindo-se aos detidos no Limoeiro]. Esses gajos católicos para a missa! berravam eles. Mas um respondeu: Que se foda Deus! Vim aqui encontrar o Toninho, o mano do Zanaga, o famoso criador do negócio das listas telefónicas recolhidas de táxi. Está inteiramente familiarizado com o ambiente e já me prestou bons serviços. A vida dele é um eterno vai-vem entre o Lá Fora e o Estar Aqui Dentro. É uma cara familiar aos guardas e aos espelhos. É um tipo fixe. Contou-me ele cenas horrorosas de concupiscência e a palavra encena já a pequena sílaba que faz supor aquilo mesmo a que me quero referir. Eu ainda vira muito pouco (mas algo já me farejava de tais actividades secretas), mas ele jura e tresjura que os rabos (rabos virgens, pouco mais ou menos) são muito baratos, por exemplo: um rabo de 12 anos, loiro! 1 cigarro; um rabo de 15 a 18, "teddy-boy" do Bolero Bar, 2 tostões; e assim por diante; V. leia esta tabela ao Cesariny, para o enraivecer e mostrar-lhe que o lugar dele é aqui. Com os 5 escudos que ele costuma pagar na área da fragatas, são capazes de lhe ir encomendar um rabo lá fora, um rabo de chinês (que são os mais remexidos) ou até mesmo um rabo de polícia (que são os mais apertados). Com 5 escudos tem direito a fotografia, águas quentes ou frias, e sobremesa.(...)
Da carta de Cesariny a Pacheco:
(...)A tua verdade histórica é a merda. Diferente da minha neste ponto: é possível que a minha vida tenha dado cabo de mim, ou eu cabo de mim nela; o amor que tenho à vida fez-me sempre evitar dar cabo da vida dos outros. Não "enterrei" ninguém sempre até á última quis a vida dos outros. Tu incluído. A tua pressa em dar cabo dos outros, diz-me que vida é. E que espécie de cabo. (...) "O senhor não é palhaço, o senhor é escritor". estas linhas do Lisboa, cantei-tas várias vezes, em vários tons. Soube isso no teu texto dos Doutores, Salvação e Menino, que continua a ser para mim o texto lúcido que, em literatura, a época forneceu. Soube-o de novo, com imensa alegria, na publicação do Teodolito. Diante de um texto tal hão-de curvar-se, sem querer, todos os merdas do literário lisboeta. E, o que é mais: pela primeira vez encontrava a tua humanidade, a tua forma natural de sorrir - tens o sorriso mais bondoso, espanta-te, de quantos vi a tentar abrir lábios: sai quase sempre careta, lá diz o Lautréamont - diante das calamidades. Melhor, eras o homem que se confessava isso, homem, e em que mundo assim, de que maneira! Nada a ver com os teus papelinhos acusatórios, de boa ou má esguelha, para a vida ou para a morte dos outros. Creio que não piorei o texto publicando-o com as "emendas", ou "chaves" que tu próprio aceitaste. Acho mesmo que ficou melhor, o que decerto te ofende. Outros textos tens parido de igual, ou maior altura? Este o Luiz Pacheco que conheço, o único que de facto existe e posso amar, mesmo conservando na gaveta, como conservo, e não esquecendo, não são para esquecer, feridas abertas. Em corpo frágil.
CASUS BELLI
Certamente para provar que é o "elemento masculino" da coligação, segundo o arquitecto Saraiva, Paulo Portas, qual general empertigado no seu fatinho às riscas, mandou atestar baterias contra o "barco do aborto". Inventou que a presença da referida embarcação em águas nacionais equivalia a epidemia, um verdadeiro atentado à "saúde pública". Não autorizou que o barco frequentasse nenhum porto da nossa imaculada costa. E, pelo sim, pelo não, pôs a marinha em alerta, talvez mesmo algum submarino, a sua arma preferida. Chegou inclusivé a pensar no rastreio sanitário das pobres candidatas a uma visita ao barco. Esta vigorosa manifestação de eugenia "macha" acabou por surpreender os próprios partidos da coligação, apesar do "master's voice" Pires de Lima ter vindo de imediato aplaudir tão nobre atitude. Portas apareceu por interposto secretário de Estado do Mar, um titubeante neófito popular que proferiu umas vulgaridades jurídicas adequadas à situação e à sua cabeça. Através deste exercício palonço, o governo apenas conseguiu chamar a atenção para uma coisa que podia perfeitamente ter passado quase despercebida, transformando um episódio meramente colorido num patético casus belli.
CASUS BELLI
Certamente para provar que é o "elemento masculino" da coligação, segundo o arquitecto Saraiva, Paulo Portas, qual general empertigado no seu fatinho às riscas, mandou atestar baterias contra o "barco do aborto". Inventou que a presença da referida embarcação em águas nacionais equivalia a epidemia, um verdadeiro atentado à "saúde pública". Não autorizou que o barco frequentasse nenhum porto da nossa imaculada costa. E, pelo sim, pelo não, pôs a marinha em alerta, talvez mesmo algum submarino, a sua arma preferida. Chegou inclusivé a pensar no rastreio sanitário das pobres candidatas a uma visita ao barco. Esta vigorosa manifestação de eugenia "macha" acabou por surpreender os próprios partidos da coligação, apesar do "master's voice" Pires de Lima ter vindo de imediato aplaudir tão nobre atitude. Portas apareceu por interposto secretário de Estado do Mar, um titubeante neófito popular que proferiu umas vulgaridades jurídicas adequadas à situação e à sua cabeça. Através deste exercício palonço, o governo apenas conseguiu chamar a atenção para uma coisa que podia perfeitamente ter passado quase despercebida, transformando um episódio meramente colorido num patético casus belli.
28.8.04
AGENDA POLÍTICO-DESPORTIVA
1. O ex-atleta Sampaio foi barrado por um segurança de um príncipe saudita à entrada de uma piscina no Algarve. Este ignorante e anónimo segurança, apesar de não saber quem era Sampaio, acabou por reconhecer, de uma forma absolutamente inesperada, a verdadeira importância do putativo banhista. O banho das filhas do dito príncipe pesou mais que o Chefe de Estado português em calções.
2. Soube ontem pela voz de um amigo do Dr. Santana Lopes, que por acaso é do governo, que estão cinco ministros (cinco!) a acompanhar as movimentações do "barco do aborto". O próprio "primeiro" também, esclareceu o amigo, "coordenando". Em sociedades menos primitivas, o ridículo supostamente mata. Entre nós, é uma agenda política.
3. A dois dias do final dos Jogos Olímpicos, a prestação nacional retratou com fidelidade aquilo que representava. Um país do "quase quase", do "deixa que eu chuto" e do "deixa-estar-como-está-para-ver-como-é-que-fica", da frase de Ruben A. As modestas conquistas de dois ou três segundos e terceiros lugares são exibidas como uma batalha de Aljubarrota pela idiotice patrioteira. No entanto, não se desespere, sobretudo do futebol. E siga-se o conselho do Almada Negreiros. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades.
AGENDA POLÍTICO-DESPORTIVA
1. O ex-atleta Sampaio foi barrado por um segurança de um príncipe saudita à entrada de uma piscina no Algarve. Este ignorante e anónimo segurança, apesar de não saber quem era Sampaio, acabou por reconhecer, de uma forma absolutamente inesperada, a verdadeira importância do putativo banhista. O banho das filhas do dito príncipe pesou mais que o Chefe de Estado português em calções.
2. Soube ontem pela voz de um amigo do Dr. Santana Lopes, que por acaso é do governo, que estão cinco ministros (cinco!) a acompanhar as movimentações do "barco do aborto". O próprio "primeiro" também, esclareceu o amigo, "coordenando". Em sociedades menos primitivas, o ridículo supostamente mata. Entre nós, é uma agenda política.
3. A dois dias do final dos Jogos Olímpicos, a prestação nacional retratou com fidelidade aquilo que representava. Um país do "quase quase", do "deixa que eu chuto" e do "deixa-estar-como-está-para-ver-como-é-que-fica", da frase de Ruben A. As modestas conquistas de dois ou três segundos e terceiros lugares são exibidas como uma batalha de Aljubarrota pela idiotice patrioteira. No entanto, não se desespere, sobretudo do futebol. E siga-se o conselho do Almada Negreiros. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades.
27.8.04
O ÚLTIMO DOS SANTANISTAS
Na mesma Visão onde Santana Lopes explicava as agruras de ter que governar 24 horas por dia ou os prazeres de um recanto bucólico nos jardins de S. Bento, "o preferido de Salazar", João Soares pedia que o comparassem a Santana através da sua "obra" em Lisboa. Ainda ninguém explicou ao Dr. Soares que esta obsessão pelo "Dr. Lopes" não o vai levar a lado nenhum. Por duas modestissimas razões. A primeira e desde logo a mais óbvia, consiste na própria natureza do cargo a que João Soares concorre. A circunstância de ter sido um razoável ou mesmo bom presidente de câmara não faz automaticamente dele um notável secretário-geral socialista e, muito menos, um bom primeiro-ministro. A segunda tem a ver com ele mesmo, João Soares. E aí ele tem alguma razão quande se compara a Santana Lopes, embora perca com o exercício. Ambos são voluntaristas, inconstantes, um pouco arrivistas e dados à bravata popularucha. Acontece que as pessoas preferem sempre o original a uma cópia requentada. E quando o original já lá está, então preferem-no a dobrar. Por tudo isto, é remota a possibilidade de os militantes, e muito menos a pátria, se entregarem nas mãos de João Soares, o último dos santanistas.
O ÚLTIMO DOS SANTANISTAS
Na mesma Visão onde Santana Lopes explicava as agruras de ter que governar 24 horas por dia ou os prazeres de um recanto bucólico nos jardins de S. Bento, "o preferido de Salazar", João Soares pedia que o comparassem a Santana através da sua "obra" em Lisboa. Ainda ninguém explicou ao Dr. Soares que esta obsessão pelo "Dr. Lopes" não o vai levar a lado nenhum. Por duas modestissimas razões. A primeira e desde logo a mais óbvia, consiste na própria natureza do cargo a que João Soares concorre. A circunstância de ter sido um razoável ou mesmo bom presidente de câmara não faz automaticamente dele um notável secretário-geral socialista e, muito menos, um bom primeiro-ministro. A segunda tem a ver com ele mesmo, João Soares. E aí ele tem alguma razão quande se compara a Santana Lopes, embora perca com o exercício. Ambos são voluntaristas, inconstantes, um pouco arrivistas e dados à bravata popularucha. Acontece que as pessoas preferem sempre o original a uma cópia requentada. E quando o original já lá está, então preferem-no a dobrar. Por tudo isto, é remota a possibilidade de os militantes, e muito menos a pátria, se entregarem nas mãos de João Soares, o último dos santanistas.
26.8.04
O FUTURO II
Há uns posts atrás, chamei a atenção para um texto de Maria de Fátima Bonifácio acerca da educação. Para além da óbvia qualidade da prosa, fi-lo por entender que é por lá que passa muita da nossa endémica miséria, a passada, a presente e a futura. Numa carta editada hoje no Público, a Eduarda Dionísio "responde" e comenta o escrito de Fátima Bonifácio. Não estou de acordo com tudo, embora goste do "tom" e de algumas observações. Nele há uma referência à "educação" dos nossos candidatos a jornalistas em que convém meditar. As vénias da praxe, pois, para o jornal e para a autora.
Li há uns dias um artigo da Fátima Bonifácio - que julgo que ainda era aluna, quando eu já era professora - que faz um diagnóstico do "estado dos alunos" que poderia a traços largos subscrever. Como ela, penso que a questão do dinheiro não é a principal, se não falarmos em que é utilizado e como... ("Mais dinheiro para a Educação?", 15/08/04). Mas sobre a evolução desse "estado" - que não é assim tão recente... - as causas apontadas e a sugestão dos "remédios" é que me parecem ser mais perigosas do que à primeira vista parecem e são aqueles que não levarão nunca a qualquer melhoria, nem transformação.
Quatro notas:
1. O habitual método de comparar o que já foi (ou se imagina que já foi) e o que é (ou se julga que é - sempre a partir da própria experiência noutra situação) não costuma levar muito longe. Mesmo quando se enunciam as diferenças óbvias entre os tempos, não se leva em conta nem as diferenças entre as populações escolares de então e de agora (e eu-dinossauro ainda admito que existem classes sociais...), nem o diferente papel que o sistema político atribui às escolas na sociedade actual (e eu-dinossauro ainda acredito que há ideologia e que a escola, agora de outro modo, é um "veículo de manutenção e reprodução social da ideologia dominante"...)
2. O "jogo" e o hipotético "prazer" na escola como causa da ignorância e do não-pensar , em oposição ao "esforço" e ao "sacrifício" necessário ao "saber" (qual saber? que saber? para fazer o quê com esse saber?) e ao "pensamento" tem barbas. O que talvez não tenha barbas é o "sacrifício do esforço do jogo obrigatório". Longa história, mais "moderna"... Sobre estas aparentes e falsas oposições remeto para um texto de Mário Dionísio (de há meio século...) chamado "Enfado ou prazer: problema central do ensino" (que o Rui Canário, prof. de Ciências da Educação, retomou há bem pouco tempo), onde evidentemente o autor não defende o "enfado" e onde o "esforço" não se opõe obviamente a "prazer"...
3. Tem-me sido difícil imaginar, ao longo de décadas de professora do ensino secundário oficial (ainda por cima no "centro" da capital...), a maioria dos meus alunos como "centro" da vida dos pais que terão deixado de ter vida própria (em tantos casos, alguma vez a tiveram ou virão a tê-la?) para "contentar" os filhos, etc..., nem qualquer "respeito" pela sua "personalidade", nem "antigamente" nem agora. A acontecer, seria um fenómeno digno de nota na nossa sociedade... As questões são provavelmente outras e bem mais graves: os novos modos de "ascensão social", de "sucesso" e de "selecção", o império do mercado, etc., etc., etc...
4. A lembrar ainda: as alterações relativamente recentes nas escolas e no sistema escolar que têm feito diminuir as "excepções" (sempre excepções) daqueles poucos (professores e alunos) que, das mais diferentes maneiras, foram lutando contra ventos e marés, em épocas muito diversas, dentro das próprias escolas. Se se observa que os alunos estão nas escolas "para passar" e que estudam "para a nota", também se deve observar que poucos professores há que não dêem aulas para "terem bons resultados"... Ou seja: para os alunos "passarem" e terem a décima necessária para entrarem na universidade... e eles serem considerados por isso "bons professores". O trabalho burocrático (em nome da "pedagogia") dos professores aumentou, o medo das leis e dos "inspectores" também (há quem os "avalie"..., a população escolar diminui, etc...), a "desobediência civil" (que sem este nome foi fruto de coisas muito interessantes noutras altura) é-lhes inimaginável, e os "CV" (reais ou fabricados, listas de "acções" frequentadas, etc. e tal) passaram a existir para isto ou para aquilo...
Julgo-me no direito de escrever estas linhas (inúteis e porventura enfadonhas), uma vez que:
1. Dou aulas de Português desde 1969. Sem destacamentos nem equiparações. Únicas interrupções no trabalho lectivo: um ano sabático (suponho que as centenas de páginas de um trabalho de comparação dos programas de Português desde a I República até aos anos 90 em todos os graus de ensino e um pouco com os programas actuais de língua materna em França e em Inglaterra deve ter ido para o lixo...); de há três anos para cá, em resultado de uma doença (mas continuo "ao serviço"). Ou seja: tenho quatro anos de experiência de escolas "marcelistas", de uns anitos de PREC e de duas décadas de "actualidade", que começou nos anos 80.
2. Fui co-autora de muitas antologias de textos de Português (para vários graus) que introduziram nas aulas autores que até então não eram "escolares" (e alguns ficaram). Fui co-autora de programas de Francês para o ensino complementar (antes do 25 de Abril e tenho a alegria de ver que o "Silence de la Mer" do Vercors ainda se passeia pelos programas...). Fui co-autora dos primeiros programas de "Iniciação ao Jornalismo" (disciplina que já foi extinta) e de livros de textos (antes de haver "manuais"). Fui "assistente pedagógica" (orientadora de estágios...) e desisti quase logo a seguir ao 25 de Abril, porque achei que havia coisas mais interessantes para fazer.
3. Deixei de dar Francês quando o Inglês passou a ser "a" língua e os queijos, os perfumes, os vinhos e os cantores da moda ficaram no centro da matéria. Deixei de dar "Iniciação ao Jornalismo", quando a disciplina mudou de rumo e passou a ser ministrada por jornalistas (que se orientavam por "manuais"). Passei há uns anos para o ensino nocturno (e fui parar depois ao recorrente por unidades "capitalizáveis"!), quando alunos "do dia" me começaram a sugerir que "ditasse apontamentos"... e outros que não sabiam ainda escrever "normalmente" (quase no fim do curso secundário) tinham 19 valores em Jornalismo... Deixei o ensino nocturno, porque foi extinto - por desnecessário - na minha escola. Recusei-me sempre a ensinar 12º ano, porque seria "com enfado" que daria aquele programa, porque nunca "prepararia bem os alunos para exame" e porque com outros professores eles teriam mais hipóteses de entrarem na universidade (o que no meu tempo se fazia com um simples 10 e com "classe social" adequada, claro...) 4. Daqui a dias terei os 36 anos de serviço na "carreira", mas não me poderei reformar, porque não tenho ainda 60 anos... Espero que não passe entretanto para 65 anos a idade mínima da reforma como medida de saneamento da economia nacional... Talvez volte ainda a dar aulas, recomeçando a "estudar" programas, que as doenças que impedem de dar aulas só são válidas por dois anos...
Eduarda Dionísio, professora do ensino secundário
O FUTURO II
Há uns posts atrás, chamei a atenção para um texto de Maria de Fátima Bonifácio acerca da educação. Para além da óbvia qualidade da prosa, fi-lo por entender que é por lá que passa muita da nossa endémica miséria, a passada, a presente e a futura. Numa carta editada hoje no Público, a Eduarda Dionísio "responde" e comenta o escrito de Fátima Bonifácio. Não estou de acordo com tudo, embora goste do "tom" e de algumas observações. Nele há uma referência à "educação" dos nossos candidatos a jornalistas em que convém meditar. As vénias da praxe, pois, para o jornal e para a autora.
Li há uns dias um artigo da Fátima Bonifácio - que julgo que ainda era aluna, quando eu já era professora - que faz um diagnóstico do "estado dos alunos" que poderia a traços largos subscrever. Como ela, penso que a questão do dinheiro não é a principal, se não falarmos em que é utilizado e como... ("Mais dinheiro para a Educação?", 15/08/04). Mas sobre a evolução desse "estado" - que não é assim tão recente... - as causas apontadas e a sugestão dos "remédios" é que me parecem ser mais perigosas do que à primeira vista parecem e são aqueles que não levarão nunca a qualquer melhoria, nem transformação.
Quatro notas:
1. O habitual método de comparar o que já foi (ou se imagina que já foi) e o que é (ou se julga que é - sempre a partir da própria experiência noutra situação) não costuma levar muito longe. Mesmo quando se enunciam as diferenças óbvias entre os tempos, não se leva em conta nem as diferenças entre as populações escolares de então e de agora (e eu-dinossauro ainda admito que existem classes sociais...), nem o diferente papel que o sistema político atribui às escolas na sociedade actual (e eu-dinossauro ainda acredito que há ideologia e que a escola, agora de outro modo, é um "veículo de manutenção e reprodução social da ideologia dominante"...)
2. O "jogo" e o hipotético "prazer" na escola como causa da ignorância e do não-pensar , em oposição ao "esforço" e ao "sacrifício" necessário ao "saber" (qual saber? que saber? para fazer o quê com esse saber?) e ao "pensamento" tem barbas. O que talvez não tenha barbas é o "sacrifício do esforço do jogo obrigatório". Longa história, mais "moderna"... Sobre estas aparentes e falsas oposições remeto para um texto de Mário Dionísio (de há meio século...) chamado "Enfado ou prazer: problema central do ensino" (que o Rui Canário, prof. de Ciências da Educação, retomou há bem pouco tempo), onde evidentemente o autor não defende o "enfado" e onde o "esforço" não se opõe obviamente a "prazer"...
3. Tem-me sido difícil imaginar, ao longo de décadas de professora do ensino secundário oficial (ainda por cima no "centro" da capital...), a maioria dos meus alunos como "centro" da vida dos pais que terão deixado de ter vida própria (em tantos casos, alguma vez a tiveram ou virão a tê-la?) para "contentar" os filhos, etc..., nem qualquer "respeito" pela sua "personalidade", nem "antigamente" nem agora. A acontecer, seria um fenómeno digno de nota na nossa sociedade... As questões são provavelmente outras e bem mais graves: os novos modos de "ascensão social", de "sucesso" e de "selecção", o império do mercado, etc., etc., etc...
4. A lembrar ainda: as alterações relativamente recentes nas escolas e no sistema escolar que têm feito diminuir as "excepções" (sempre excepções) daqueles poucos (professores e alunos) que, das mais diferentes maneiras, foram lutando contra ventos e marés, em épocas muito diversas, dentro das próprias escolas. Se se observa que os alunos estão nas escolas "para passar" e que estudam "para a nota", também se deve observar que poucos professores há que não dêem aulas para "terem bons resultados"... Ou seja: para os alunos "passarem" e terem a décima necessária para entrarem na universidade... e eles serem considerados por isso "bons professores". O trabalho burocrático (em nome da "pedagogia") dos professores aumentou, o medo das leis e dos "inspectores" também (há quem os "avalie"..., a população escolar diminui, etc...), a "desobediência civil" (que sem este nome foi fruto de coisas muito interessantes noutras altura) é-lhes inimaginável, e os "CV" (reais ou fabricados, listas de "acções" frequentadas, etc. e tal) passaram a existir para isto ou para aquilo...
Julgo-me no direito de escrever estas linhas (inúteis e porventura enfadonhas), uma vez que:
1. Dou aulas de Português desde 1969. Sem destacamentos nem equiparações. Únicas interrupções no trabalho lectivo: um ano sabático (suponho que as centenas de páginas de um trabalho de comparação dos programas de Português desde a I República até aos anos 90 em todos os graus de ensino e um pouco com os programas actuais de língua materna em França e em Inglaterra deve ter ido para o lixo...); de há três anos para cá, em resultado de uma doença (mas continuo "ao serviço"). Ou seja: tenho quatro anos de experiência de escolas "marcelistas", de uns anitos de PREC e de duas décadas de "actualidade", que começou nos anos 80.
2. Fui co-autora de muitas antologias de textos de Português (para vários graus) que introduziram nas aulas autores que até então não eram "escolares" (e alguns ficaram). Fui co-autora de programas de Francês para o ensino complementar (antes do 25 de Abril e tenho a alegria de ver que o "Silence de la Mer" do Vercors ainda se passeia pelos programas...). Fui co-autora dos primeiros programas de "Iniciação ao Jornalismo" (disciplina que já foi extinta) e de livros de textos (antes de haver "manuais"). Fui "assistente pedagógica" (orientadora de estágios...) e desisti quase logo a seguir ao 25 de Abril, porque achei que havia coisas mais interessantes para fazer.
3. Deixei de dar Francês quando o Inglês passou a ser "a" língua e os queijos, os perfumes, os vinhos e os cantores da moda ficaram no centro da matéria. Deixei de dar "Iniciação ao Jornalismo", quando a disciplina mudou de rumo e passou a ser ministrada por jornalistas (que se orientavam por "manuais"). Passei há uns anos para o ensino nocturno (e fui parar depois ao recorrente por unidades "capitalizáveis"!), quando alunos "do dia" me começaram a sugerir que "ditasse apontamentos"... e outros que não sabiam ainda escrever "normalmente" (quase no fim do curso secundário) tinham 19 valores em Jornalismo... Deixei o ensino nocturno, porque foi extinto - por desnecessário - na minha escola. Recusei-me sempre a ensinar 12º ano, porque seria "com enfado" que daria aquele programa, porque nunca "prepararia bem os alunos para exame" e porque com outros professores eles teriam mais hipóteses de entrarem na universidade (o que no meu tempo se fazia com um simples 10 e com "classe social" adequada, claro...) 4. Daqui a dias terei os 36 anos de serviço na "carreira", mas não me poderei reformar, porque não tenho ainda 60 anos... Espero que não passe entretanto para 65 anos a idade mínima da reforma como medida de saneamento da economia nacional... Talvez volte ainda a dar aulas, recomeçando a "estudar" programas, que as doenças que impedem de dar aulas só são válidas por dois anos...
Eduarda Dionísio, professora do ensino secundário
VALE A PENA?
1. Lentamente talvez o Dr. Félix comece a entender o género de pessoas com quem está metido. Refiro-me a colegas seus de governo que, nada satisfeitos com as viaturas "topo de gama" que têm ao seu dispôr a expensas do OE, entendem que o Estado deve adquirir mais 50 para os gabinetes deles. Segundo percebi, o homem do Tesouro está a resistir a esta alarvidade como pode. Veremos entretanto se se aguenta até ao fim. Cada governo tem a retoma que merece. Este fica-se pela retoma de automóveis. Sempre diz bem com o seu estilo parvenu.
2. Outra "tirada" do governo apareceu pela voz do ministro adjunto de Santana Lopes, o brilhante Henrique Chaves. A propósito de uma deslocação a Braga para reunir com os "seus" secretários de Estado, ali exilados, disse que "não sentia nenhuma diferença entre reunir com eles em Lisboa ou em Braga". Ele e isto foram "notícia", palavra de honra. Terá sido a estreia da "central de informação"?
3. Finalmente o próprio primeiro-ministro também foi notícia. Ausentou-se três dias para as Ilhas Baleares, de férias. E antes deu uma entrevista à Visão. Diz que ficou a viver em São Bento para "ter mais tempo para trabalhar". Palavra de honra.
4. Volto a perguntar-lhe, preclaro leitor: a sério, ainda acredita que vale a pena?
VALE A PENA?
1. Lentamente talvez o Dr. Félix comece a entender o género de pessoas com quem está metido. Refiro-me a colegas seus de governo que, nada satisfeitos com as viaturas "topo de gama" que têm ao seu dispôr a expensas do OE, entendem que o Estado deve adquirir mais 50 para os gabinetes deles. Segundo percebi, o homem do Tesouro está a resistir a esta alarvidade como pode. Veremos entretanto se se aguenta até ao fim. Cada governo tem a retoma que merece. Este fica-se pela retoma de automóveis. Sempre diz bem com o seu estilo parvenu.
2. Outra "tirada" do governo apareceu pela voz do ministro adjunto de Santana Lopes, o brilhante Henrique Chaves. A propósito de uma deslocação a Braga para reunir com os "seus" secretários de Estado, ali exilados, disse que "não sentia nenhuma diferença entre reunir com eles em Lisboa ou em Braga". Ele e isto foram "notícia", palavra de honra. Terá sido a estreia da "central de informação"?
3. Finalmente o próprio primeiro-ministro também foi notícia. Ausentou-se três dias para as Ilhas Baleares, de férias. E antes deu uma entrevista à Visão. Diz que ficou a viver em São Bento para "ter mais tempo para trabalhar". Palavra de honra.
4. Volto a perguntar-lhe, preclaro leitor: a sério, ainda acredita que vale a pena?
25.8.04
É TÃO FÁCIL
Depois de Amaral Lopes ter descoberto a "apetência cultural" de Évora, há mais um secretário de Estado "deslocalizado" em êxtase. José Cesário, da administração local, em peça do Jornal de Notícias, explica uma coisa maravilhosa, para ele, e inquietante, para nós. Cesário afirma que "é tão fácil despachar em Coimbra como em Lisboa". Ele lá saberá porquê. Sediado em Coimbra, Cesário está a meio-caminho de todo o lado. Fica facilitado o "despacho" com esse precioso submundo autárquico que discretamente começa a exigir troco. Fernando Ruas, por exemplo, apoiante de primeira hora de Santana Lopes e "patrão" destas criaturas, está logo ali a um passo, em Viseu. E já "avisou" que não tolera apertos orçamentais como os que aguentou a Ferreira Leite. Convém, pois, a Bagão Félix acompanhar com atenção esta alegria "despachadeira" de José Cesário. Com gente desta, estou certo que Bagão já percebeu o que pode esperar da "sua" despesa em 2005, com eleições autárquicas em Outubro. É tão fácil...
É TÃO FÁCIL
Depois de Amaral Lopes ter descoberto a "apetência cultural" de Évora, há mais um secretário de Estado "deslocalizado" em êxtase. José Cesário, da administração local, em peça do Jornal de Notícias, explica uma coisa maravilhosa, para ele, e inquietante, para nós. Cesário afirma que "é tão fácil despachar em Coimbra como em Lisboa". Ele lá saberá porquê. Sediado em Coimbra, Cesário está a meio-caminho de todo o lado. Fica facilitado o "despacho" com esse precioso submundo autárquico que discretamente começa a exigir troco. Fernando Ruas, por exemplo, apoiante de primeira hora de Santana Lopes e "patrão" destas criaturas, está logo ali a um passo, em Viseu. E já "avisou" que não tolera apertos orçamentais como os que aguentou a Ferreira Leite. Convém, pois, a Bagão Félix acompanhar com atenção esta alegria "despachadeira" de José Cesário. Com gente desta, estou certo que Bagão já percebeu o que pode esperar da "sua" despesa em 2005, com eleições autárquicas em Outubro. É tão fácil...
24.8.04
PARA LER
Através do Mar Salgado, uma vez mais, cheguei a esta admirável entrevista de Jacques Derrida. Entre outras coisas, isto:
Et la responsabilité aujourd'hui est urgente : elle appelle une guerre inflexible à la doxa, à ceux qu'on appelle désormais les "intellectuels médiatiques", à ce discours général formaté par les pouvoirs médiatiques, eux-mêmes entre les mains de lobbies politico-économiques, souvent éditoriaux et académiques aussi. Toujours européens et mondiaux, bien sûr. Résistance ne signifie pas qu'on doive éviter les médias. Il faut, quand c'est possible, les développer et les aider à se diversifier, les rappeler à cette même responsabilité. Ou isto:
Si j'étais législateur, je proposerais tout simplement la disparition du mot et du concept de "mariage" dans un code civil et laïque. Le "mariage", valeur religieuse, sacrale, hétérosexuelle - avec vœu de procréation, de fidélité éternelle, etc. -, c'est une concession de l'Etat laïque à l'Eglise chrétienne - en particulier dans son monogamisme qui n'est ni juif (il ne fut imposé aux juifs par les Européens qu'au siècle dernier et ne constituait pas une obligation il y a quelques générations au Maghreb juif) ni, cela on le sait bien, musulman. En supprimant le mot et le concept de "mariage", cette équivoque ou cette hypocrisie religieuse et sacrale, qui n'a aucune place dans une constitution laïque, on les remplacerait par une "union civile" contractuelle, une sorte de pacs généralisé, amélioré, raffiné, souple et ajusté entre des partenaires de sexe ou de nombre non imposé. Quant à ceux qui veulent, au sens strict, se lier par le "mariage" - pour lequel mon respect est d'ailleurs intact -, ils pourraient le faire devant l'autorité religieuse de leur choix - il en est d'ailleurs ainsi dans d'autres pays qui acceptent de consacrer religieusement des mariages entre homosexuels. Certains pourraient s'unir selon un mode ou l'autre, certains sur les deux modes, d'autres ne s'unir ni selon la loi laïque ni selon la loi religieuse.
PARA LER
Através do Mar Salgado, uma vez mais, cheguei a esta admirável entrevista de Jacques Derrida. Entre outras coisas, isto:
Et la responsabilité aujourd'hui est urgente : elle appelle une guerre inflexible à la doxa, à ceux qu'on appelle désormais les "intellectuels médiatiques", à ce discours général formaté par les pouvoirs médiatiques, eux-mêmes entre les mains de lobbies politico-économiques, souvent éditoriaux et académiques aussi. Toujours européens et mondiaux, bien sûr. Résistance ne signifie pas qu'on doive éviter les médias. Il faut, quand c'est possible, les développer et les aider à se diversifier, les rappeler à cette même responsabilité. Ou isto:
Si j'étais législateur, je proposerais tout simplement la disparition du mot et du concept de "mariage" dans un code civil et laïque. Le "mariage", valeur religieuse, sacrale, hétérosexuelle - avec vœu de procréation, de fidélité éternelle, etc. -, c'est une concession de l'Etat laïque à l'Eglise chrétienne - en particulier dans son monogamisme qui n'est ni juif (il ne fut imposé aux juifs par les Européens qu'au siècle dernier et ne constituait pas une obligation il y a quelques générations au Maghreb juif) ni, cela on le sait bien, musulman. En supprimant le mot et le concept de "mariage", cette équivoque ou cette hypocrisie religieuse et sacrale, qui n'a aucune place dans une constitution laïque, on les remplacerait par une "union civile" contractuelle, une sorte de pacs généralisé, amélioré, raffiné, souple et ajusté entre des partenaires de sexe ou de nombre non imposé. Quant à ceux qui veulent, au sens strict, se lier par le "mariage" - pour lequel mon respect est d'ailleurs intact -, ils pourraient le faire devant l'autorité religieuse de leur choix - il en est d'ailleurs ainsi dans d'autres pays qui acceptent de consacrer religieusement des mariages entre homosexuels. Certains pourraient s'unir selon un mode ou l'autre, certains sur les deux modes, d'autres ne s'unir ni selon la loi laïque ni selon la loi religieuse.
A COR DO GATO
A China comemorou os cem anos do nascimento de Deng Xiao Ping. Este matreiro discípulo do "Grande Timoneiro", seguia uma máxima bastante singela e assaz produtiva: não importa que o gato seja branco ou preto, desde que apanhe o rato. Os militantes do PS, na hora de escolher o seu líder, deviam meditar nisto. Há candidatos exclusivamente preocupados com a cor do gato, esquecendo-se do que realmente interessa, apanhar o rato. Aprende-se muito com estes velhinhos chineses.
A COR DO GATO
A China comemorou os cem anos do nascimento de Deng Xiao Ping. Este matreiro discípulo do "Grande Timoneiro", seguia uma máxima bastante singela e assaz produtiva: não importa que o gato seja branco ou preto, desde que apanhe o rato. Os militantes do PS, na hora de escolher o seu líder, deviam meditar nisto. Há candidatos exclusivamente preocupados com a cor do gato, esquecendo-se do que realmente interessa, apanhar o rato. Aprende-se muito com estes velhinhos chineses.
23.8.04
O NAVIO FANTASMA
Vem aí um barco onde se realizam interrupções voluntárias de gravidez, vulgo abortos. Detesto pronunciar-me sobre uma questão que me é relativamente estranha. Não fui abençoado com a graça da paternidade e não me comovo com barriguinhas empinadas, especialmente quando se repetem. Irritam-me "famílias numerosas" e miúdos histéricos que me privam do direito a apreciar, descansado, uma refeição num local público. É que em matéria de "direito à vida", os anti-criancistas como eu também o têm. Dito isto, importa esclarecer que eu não sou "abortista". Estava a estudar direito, numa catolicissima instituição, quando a lei penal foi alterada no princípio dos anos 80. Modestamente, e para horror do Padre João Seabra que me imaginava já de "avental", defendi a alteração que permitiu a interrupção da gravidez nos três casos de exclusão de ilicitude então consagrados. O Paulo Portas também. Daí para cá, o Estado não mexeu uma palha para criar condições nos serviços de saúde públicos para o cumprimento da lei. Em 98, no referendo, achei que em torno do "sim" havia demasiada arrogância e alguma demagogia puramente "politiqueira" e folclórica. Votei "não". Se houvesse agora novo referendo, é provável que votasse "sim" e condeno, sem hesitações, os julgamentos hipócritas de mulheres que recorreram ao aborto. Isto não impede que abomine todas estas horrorosas "organizações", tipo "não te prives" (é de fugir, com um nome destes) e outras que tais que, ao contrário do que imaginam, cada vez que abrem a boca, dão um voto a perder para a causa. Parece que é a convite destas mini-seitas que o tal navio - "women in waves", que bonito! - aí vem. Ignoro se irão alugar lanchas para transportar as candidatas ao original "barco do aborto", ou se haverá sequer candidatas. Entretanto, e a passar-se qualquer coisa, só em "alto mar" e bem londe das águas territoriais lusas, por causa dos costumes e das leis. É evidente que esta manifestação exclusivamente voluntarista e florida, não vai aquecer nem arrefecer o problema fundamental que persistirá "em terra". Nesse sentido, e por muito que as generosas "organizações" se espremam, a embarcação-hospital não passará de mais um navio fantasma a passar ao largo do Tejo.
O NAVIO FANTASMA
Vem aí um barco onde se realizam interrupções voluntárias de gravidez, vulgo abortos. Detesto pronunciar-me sobre uma questão que me é relativamente estranha. Não fui abençoado com a graça da paternidade e não me comovo com barriguinhas empinadas, especialmente quando se repetem. Irritam-me "famílias numerosas" e miúdos histéricos que me privam do direito a apreciar, descansado, uma refeição num local público. É que em matéria de "direito à vida", os anti-criancistas como eu também o têm. Dito isto, importa esclarecer que eu não sou "abortista". Estava a estudar direito, numa catolicissima instituição, quando a lei penal foi alterada no princípio dos anos 80. Modestamente, e para horror do Padre João Seabra que me imaginava já de "avental", defendi a alteração que permitiu a interrupção da gravidez nos três casos de exclusão de ilicitude então consagrados. O Paulo Portas também. Daí para cá, o Estado não mexeu uma palha para criar condições nos serviços de saúde públicos para o cumprimento da lei. Em 98, no referendo, achei que em torno do "sim" havia demasiada arrogância e alguma demagogia puramente "politiqueira" e folclórica. Votei "não". Se houvesse agora novo referendo, é provável que votasse "sim" e condeno, sem hesitações, os julgamentos hipócritas de mulheres que recorreram ao aborto. Isto não impede que abomine todas estas horrorosas "organizações", tipo "não te prives" (é de fugir, com um nome destes) e outras que tais que, ao contrário do que imaginam, cada vez que abrem a boca, dão um voto a perder para a causa. Parece que é a convite destas mini-seitas que o tal navio - "women in waves", que bonito! - aí vem. Ignoro se irão alugar lanchas para transportar as candidatas ao original "barco do aborto", ou se haverá sequer candidatas. Entretanto, e a passar-se qualquer coisa, só em "alto mar" e bem londe das águas territoriais lusas, por causa dos costumes e das leis. É evidente que esta manifestação exclusivamente voluntarista e florida, não vai aquecer nem arrefecer o problema fundamental que persistirá "em terra". Nesse sentido, e por muito que as generosas "organizações" se espremam, a embarcação-hospital não passará de mais um navio fantasma a passar ao largo do Tejo.
22.8.04
SALAZARISMO DEMOCRÁTICO
Num país "consensual" e morno como o nosso, o Expresso é o melhor retrato dessa aurea mediocritas, zelando permanentemente pela moderação dos instintos e pelos bons costumes democráticos. Basta reparar na coluna "altos e baixos" e entende-se o exercício. Para ninguém sair melindrado, há sempre o cuidado de colocar um "baixo" em "alta" na semana seguinte, e vice-versa. A parafernália de colaboradores, todos naturalmente distintos, não mete medo a uma mosca. É tudo convenientemente "centrão", rebarbativo e extremamante correcto. De vez em quando Mário Soares, Duarte Lima e Carrilho, já claramente outsiders, escapam à cor cinzenta. O Sr. Espada, por todos e em nome do sagrado nome de Popper, vela pelo "equilíbrio" geral. Em suma, o Expresso é o jornal lido pela "élites" da democracia e limita-se a reflectir aquilo que essas "élites" são. Este velho cacilheiro do jornalismo português é dirigido pelo arquitecto Saraiva, uma figura patusca que, em tempos, achou que era historiador e que agora se revela sibila. Esta semana defende uma "tese" muito interessante. Segundo ele, os "comentadores" e os "analistas" (ele não se mistura, pois claro) passam a vida a "triturar" as benditas élites, do governo às mais pequenas direcções gerais ou às lideranças dos partidos, levando-as incompreensivelmente à demissão, como vulgares marionetas. Na "visão" de Saraiva, estes "eleitos" devem conduzir a sua missão até ao fim, sem vacilar, aguentando tudo a bem da "estabilidade". O exemplo escolhido para atestar esta "boa prática" não podia ter sido melhor: Sampaio versus Souto Moura. Julgo que pouca gente levará a sério o arquitecto Saraiva, à excepção dos dois últimos citados. Esta sua tese peregrina do "respeitinho", do "juizinho" e do "bom caminho", levada ao absurdo, nunca teria permitido a Sá Carneiro fazer o que fez no partido e no país, a Mário Soares romper com Eanes e com metade do PS, a Eanes romper com ele mesmo, a Cavaco e a Marcelo mandarem o partido às urtigas, a Sampaio avançar para a CML e depois para Belém, a Guterres dar lugar a Barroso, a Pacheco Pereira renunciar à UNESCO etc, etc. Ou seja, nunca teria havido lugar a rupturas e a clarificadoras "separações de águas", afinal aquilo que é a essência da democracia. Saraiva e o seu timorato Expresso estão bem longe dos gloriosos "idos de 70". Hoje limitam-se a ser a imagem mais fiel dos seus pusilânimes leitores e do regime salazarista democrático em que vegetamos.
SALAZARISMO DEMOCRÁTICO
Num país "consensual" e morno como o nosso, o Expresso é o melhor retrato dessa aurea mediocritas, zelando permanentemente pela moderação dos instintos e pelos bons costumes democráticos. Basta reparar na coluna "altos e baixos" e entende-se o exercício. Para ninguém sair melindrado, há sempre o cuidado de colocar um "baixo" em "alta" na semana seguinte, e vice-versa. A parafernália de colaboradores, todos naturalmente distintos, não mete medo a uma mosca. É tudo convenientemente "centrão", rebarbativo e extremamante correcto. De vez em quando Mário Soares, Duarte Lima e Carrilho, já claramente outsiders, escapam à cor cinzenta. O Sr. Espada, por todos e em nome do sagrado nome de Popper, vela pelo "equilíbrio" geral. Em suma, o Expresso é o jornal lido pela "élites" da democracia e limita-se a reflectir aquilo que essas "élites" são. Este velho cacilheiro do jornalismo português é dirigido pelo arquitecto Saraiva, uma figura patusca que, em tempos, achou que era historiador e que agora se revela sibila. Esta semana defende uma "tese" muito interessante. Segundo ele, os "comentadores" e os "analistas" (ele não se mistura, pois claro) passam a vida a "triturar" as benditas élites, do governo às mais pequenas direcções gerais ou às lideranças dos partidos, levando-as incompreensivelmente à demissão, como vulgares marionetas. Na "visão" de Saraiva, estes "eleitos" devem conduzir a sua missão até ao fim, sem vacilar, aguentando tudo a bem da "estabilidade". O exemplo escolhido para atestar esta "boa prática" não podia ter sido melhor: Sampaio versus Souto Moura. Julgo que pouca gente levará a sério o arquitecto Saraiva, à excepção dos dois últimos citados. Esta sua tese peregrina do "respeitinho", do "juizinho" e do "bom caminho", levada ao absurdo, nunca teria permitido a Sá Carneiro fazer o que fez no partido e no país, a Mário Soares romper com Eanes e com metade do PS, a Eanes romper com ele mesmo, a Cavaco e a Marcelo mandarem o partido às urtigas, a Sampaio avançar para a CML e depois para Belém, a Guterres dar lugar a Barroso, a Pacheco Pereira renunciar à UNESCO etc, etc. Ou seja, nunca teria havido lugar a rupturas e a clarificadoras "separações de águas", afinal aquilo que é a essência da democracia. Saraiva e o seu timorato Expresso estão bem longe dos gloriosos "idos de 70". Hoje limitam-se a ser a imagem mais fiel dos seus pusilânimes leitores e do regime salazarista democrático em que vegetamos.
21.8.04
POR CAUSA DAS MANIAS
Mostraram-me uma cópia do Diário da República na qual constam algumas nomeações para o gabinete de Teresa Caeiro, a secretária de Estado das Artes e Espectáculos. Devem ser todos "azuis e amarelos" (como não são muitos, têm de "entrar" todos) e um deles, que o é dedicadamente, garante à secretaria de Estado, pelo menos, um blogue. Tudo o que seja "comunicar", para este governo, vale não vale?. Por outro lado, o "concorrente" de Teggi, o repetente Amaral Lopes, numa visita a Esposende - li no Público -, mostrou-se gratificado pela Cultura estar entregue a três cabeças, um extraordinário "sinal" de "valorização". Quando lhe derem o dinheiro, ele logo vai ver o que é que vale a "valorização". Pelo caminho, não deixou de dizer que ainda não está seguro do que o espera, ao certo, nos Bens Culturais, apesar da "apetência cultural" de Évora. O que é que ele quer dizer com isto? Será que Évora está "ávida" de uma secretaria de Estado de Bens Culturais? Será, pelo contrário, Amaral Lopes quem suspira por ir trabalhar para Évora? Não percebi, confesso. Devo ser "provinciano" (sic), o nome delicadamente dado por Lopes aos anti-patriotas que não aclamam as "deslocalizações". Uma certeza ele tem, porém: haverá sectores em que as "competências" dele e de Teresa Caeiro vão "coincidir". Espera-se, como é uso, o pior. Modestamente, sugiro ao novo trio da Ajuda a leitura do texto de Mario Vargas Llosa que se segue, retirado do El País, e cuja tradução apareceu no DNA desta semana (fraca tradução, por sinal). Por causa das "manias".
Razones contra la excepci cultural
por Mario Vargas Llosa
Dos son los argumentos principales que utilizan los defensores de la excepción
cultural, a saber:
A) Que los bienes y productos culturales son distintos a los otros bienes y productos industriales y comerciales y que por lo mismo no pueden ser librados, como estos últimos, a las fuerzas del mercado -a la ley de la oferta y la demanda-, porque, si lo son, los productos bastardos, inauténticos, chabacanos y vulgares terminan desplazando en la opinión pública (es decir, entre los consumidores) a los más valiosos y originales, a las auténticas creaciones artísticas. El resultado sería el empobrecimiento y degradación de los valores estéticos en la colectividad. Dependiendo sólo del mercado, géneros como la poesía, el teatro, la danza, etc., podrían desaparecer. Por tanto, los productos culturales requieren ser exceptuados del craso comercialismo del mercado y sometidos a un régimen especial.
B) Los productos culturales deben ser objeto de un cuidado especial por parte del Estado porque de ellos depende, de manera primordial, la identidad de un pueblo, es decir, su alma, su espíritu, aquello que lo singulariza entre los otros y constituye el denominador común entre sus ciudadanos: sus patrones estéticos, su identificación con una tradición y una manera de ser, sentir, creer, soñar, en suma el aglutinante moral, intelectual y espiritual de la sociedad. Librada al mercantilismo codicioso y amoral esta identidad cultural de la nación se vería fatalmente mancillada, deteriorada, por la invasión de productos culturales foráneos -seudoculturales, más bien-, impuestos a través de la publicidad y con toda la prepotencia de lastransnacionales, que, a la corta o a la larga, perpetrarían una verdadera colonización del país, destruyendo su identidad y reemplazándola por la del colonizador. Si un país quiere conservar su alma, y no convertirse en un zombie, debe defender su identidad preservando sus productos culturales de la competencia y de la aniquiladora globalización. No pongo en duda las buenas intenciones de los políticos que, con variantes más de forma que de fondo, esgrimen estos argumentos en favor de la excepción cultural, pero afirmo que, si los aceptamos y llevamos a su conclusión natural la lógica implícita en ellos, estamos afirmando que la cultura y la libertad son incompatibles y que la única manera de garantizar a un país una vida cultural rica, auténtica y de la que todos los ciudadanos participen, es resucitando el despotismo ilustrado y practicando la más letal de las doctrinas para la libertad de un pueblo: el nacionalismo cultural. Adviértase lo profundamente antidemocrático que es el primero de estos argumentos. Si se respeta la libertad del hombre y la mujer comunes y corrientes la cultura está perdida, porque, a la hora de elegir entre los bienes culturales, aquéllos eligen siempre la bazofia: leer El código da Vinci, de Don Brown, en vez Cervantes, e ir a ver SpiderMan en vez de La mala educación. Así, pues, como el público en general es tan poco sutil y riguroso a la hora de elegir los libros, las películas, los espectáculos, y sus gustos en materia de estética son execrables, es preciso orientarlo en la buena dirección, imponiéndole, de una manera discreta y que no parezca abusiva, la buena elección. ¿Cómo? Penalizando a los malos productos artísticos con impuestos y aranceles que los encarezcan, por ejemplo, o fijando cupos, subsidios y rentas que privilegien a las genuinas creaciones y releguen a las mediocres o nulas. ¿Y quiénes serán los encargados de llevar a cabo ese delicadísimo discrimen entre el arte integérrimo y la basura? ¿Los burócratas? ¿Los parlamentos? ¿Comisiones de artistas eximios designadas por los ministerios? El despotismo ilustrado versión siglo veintiuno, pues. El otro argumento conlleva consecuencias igualmente nefastas. La sola idea de identidad cultural de un país, de una nación, además de ser una ficción confusa, conduce inevitablemente a justificar la censura, el dirigismo cultural y la subordinación de la vida intelectual y artística a una doctrina política: el nacionalismo. La cultura de un país como Francia o como España no puede resumirse en un canon o tabla de valores y de ideas de las que todas las obras artísticas e intelectuales producidas en su seno serían expresión y sustento coherente. Por el contrario, la riqueza cultural de esos dos países está en su diversidad contradictoria, en la existencia, en ellos, de tradiciones, corrientes y creadores y pensadores reñidos entre sí, que representan visiones del mundo y del arte que se repelen la una a la otra, y en el universalismo que esas obras alcanzaron en sus momentos más altos gracias a que fueron concebidas sin el corsé de un horizonte localista o nacional y -como ocurre con el Quijote, con Baudelaire, con el Tirant lo Blanch, con Proust, con el Greco y Goya y Velázquez y La Tour, Toulouse Lautrec, Matisse, Gauguin, y tantos otros- fueron por ello mismo entronizadas como representaciones estéticas donde podían reconocerse los seres humanos de cualquier tiempo o cultura. Esas obras no hubieran sido posibles dentro de las fronteras nacionales que presupone la noción aberrante de una identidad cultural colectiva. Ni siquiera la lengua puede ser considerada un campo de concentración para la vida cultural, porque, por fortuna -y, gracias a la globalización, este proceso se irá extendiendo cada vez más- casi todas las lenguas desbordan las fronteras o varias lenguas conviven dentro de una nación, y hay entre artistas una movilidad que les permite cada vez más elegir su propia tradición y su propio país espiritual, de modo que querer convertir a una lengua en una seña de identidad cultural de un pueblo es también otro artificio ideológico. Si la misma idea de nación -un concepto decimonónimo que ha perdido estabilidad y aparece cada vez más diluido a medida que las naciones se van integrando en grandes mancomunidades- resulta en nuestros días bastante relativo, la de una cultura que expresaría la esencia, la verdad anímica, metafísica, de un país, es una superchería de índole política que, en ver-dad, tiene muy poco que ver con la verdadera cultura y sí, en cambio, con aquel "espíritu de la tribu" que, según Popper, es el gran lastre para alcanzar la modernidad. Francia y España han avanzado ya demasiado en lo relativo a la cultura democrática para que sus ciudadanos, que a veces se dejan seducir por la demagogia y el chovinismo escondidos en los espejismos de la excepción cultural, acepten lo que serían las consecuencias prácticas de semejante propuesta: una vida cultural regimentada por burócratas o artistas y escritores instrumentales, en la que todo lo extranjero sería considerado un desvalor, y todo lo nacional, el valor estético supremo. De manera que, en términos prácticos, probablemente toda la alharaca que en estos dos países rodea a la política de la excepción cultural sólo desemboque en que unos cuantos artistas reciban los subsidios que piden y, con el pretexto de proteger los bienes culturales, los burócratas perpetren más derroches que los consabidos. Poca
cosa, a fin de cuentas, si toda la excepción cultural no pasa de eso, y en ambos países se respeta la libertad, el Estado no se mete a sustituir a los consumidores a la hora de elegir los productos culturales, y éstos siguen sometidos al juego de la oferta y la demanda con las mínimas interferencias posibles. Es verdad que los productos culturales son distintos a los otros. Pero lo son porque, a diferencia de una gaseosa o una nevera, en vez de desplazar en el mercado a sus
competidores, les abren la puerta, los promueven. Una obra de teatro, un libro, un pintor que tienen éxito son la mejor propaganda para el arte dramático, la literatura y la pintura y crean unas curiosidades y apetitos -unas adiccciones- que benefician a los otros artistas y escritores. El mercado no determina la calidad, sino la popularidad de un producto, y ya sabemos que ambas cosas no siempre coinciden, aunque algunas veces sí. Lo que el mercado muestra es el estado cultural de un país, lo que el hombre y la mujer del común prefieren, y lo que rechazan, en ejercicio de un derecho que ningun gobierno democrático puede objetar ni recortar. Querer acabar con el mercado para los bienes culturales porque el público no sabe elegir es confundir el efecto con la
causa, liquidar al mensajero porque trae noticias que nos disgustan. Desde luego que sería preferible que los consumidores tuvieran a veces mejor gusto a la hora de elegir un libro, un espectáculo, una película, un concierto, y que dieran en sus vidas mayor presencia a la cultura. ¿Puede un gobierno hacer algo al respecto? Muchísimo. Es la educación, no los subsidios, lo que puede crear un público más culto. Pero no sólo los maestros enseñan a leer, a oír buena música, a discriminar entre lo que es arte y lo que es caricatura. También las familias, los medios de comunicación, el entorno social en que cada ciudadano se forma. Y, qué duda cabe, la preservación del patrimonio es una responsabilidad central del Estado. Pero, incluso en este campo, es indispensable que los gobiernos involucren a la sociedad civil, mediante políticas tributarias que estimulen el mecenazgo y la acción cultural. El mayor número, no sólo los funcionarios, debe decidir dónde canalizar los recursos públicos y privados para promover la cultura. Pero la obligación primordial de un gobierno en este ámbito es crear unas condiciones que estimulen el desarrollo y la creatividad cultural y la primera de ellas es la libertad, en el más ancho sentido de la palabra. No sólo la libertad de opinar y crear sin interferencias ni censuras, sino también abrir las puertas y ventanas para que todos los productos culturales del mundo circulen libremente, porque la cultura de verdad no es nunca nacional sino universal, y las culturas, para serlo, necesitan estar continuamente en cotejo, pugna y mestizaje con las otras culturas del mundo. Ésa es la única manera de que se renueven sin cesar. La idea de "proteger" a la cultura es ya peligrosa. Las culturas se defienden solas, no necesitan para eso a los funcionarios, por más que éstos sean cultos y bienintencionados.
POR CAUSA DAS MANIAS
Mostraram-me uma cópia do Diário da República na qual constam algumas nomeações para o gabinete de Teresa Caeiro, a secretária de Estado das Artes e Espectáculos. Devem ser todos "azuis e amarelos" (como não são muitos, têm de "entrar" todos) e um deles, que o é dedicadamente, garante à secretaria de Estado, pelo menos, um blogue. Tudo o que seja "comunicar", para este governo, vale não vale?. Por outro lado, o "concorrente" de Teggi, o repetente Amaral Lopes, numa visita a Esposende - li no Público -, mostrou-se gratificado pela Cultura estar entregue a três cabeças, um extraordinário "sinal" de "valorização". Quando lhe derem o dinheiro, ele logo vai ver o que é que vale a "valorização". Pelo caminho, não deixou de dizer que ainda não está seguro do que o espera, ao certo, nos Bens Culturais, apesar da "apetência cultural" de Évora. O que é que ele quer dizer com isto? Será que Évora está "ávida" de uma secretaria de Estado de Bens Culturais? Será, pelo contrário, Amaral Lopes quem suspira por ir trabalhar para Évora? Não percebi, confesso. Devo ser "provinciano" (sic), o nome delicadamente dado por Lopes aos anti-patriotas que não aclamam as "deslocalizações". Uma certeza ele tem, porém: haverá sectores em que as "competências" dele e de Teresa Caeiro vão "coincidir". Espera-se, como é uso, o pior. Modestamente, sugiro ao novo trio da Ajuda a leitura do texto de Mario Vargas Llosa que se segue, retirado do El País, e cuja tradução apareceu no DNA desta semana (fraca tradução, por sinal). Por causa das "manias".
Razones contra la excepci cultural
por Mario Vargas Llosa
Dos son los argumentos principales que utilizan los defensores de la excepción
cultural, a saber:
A) Que los bienes y productos culturales son distintos a los otros bienes y productos industriales y comerciales y que por lo mismo no pueden ser librados, como estos últimos, a las fuerzas del mercado -a la ley de la oferta y la demanda-, porque, si lo son, los productos bastardos, inauténticos, chabacanos y vulgares terminan desplazando en la opinión pública (es decir, entre los consumidores) a los más valiosos y originales, a las auténticas creaciones artísticas. El resultado sería el empobrecimiento y degradación de los valores estéticos en la colectividad. Dependiendo sólo del mercado, géneros como la poesía, el teatro, la danza, etc., podrían desaparecer. Por tanto, los productos culturales requieren ser exceptuados del craso comercialismo del mercado y sometidos a un régimen especial.
B) Los productos culturales deben ser objeto de un cuidado especial por parte del Estado porque de ellos depende, de manera primordial, la identidad de un pueblo, es decir, su alma, su espíritu, aquello que lo singulariza entre los otros y constituye el denominador común entre sus ciudadanos: sus patrones estéticos, su identificación con una tradición y una manera de ser, sentir, creer, soñar, en suma el aglutinante moral, intelectual y espiritual de la sociedad. Librada al mercantilismo codicioso y amoral esta identidad cultural de la nación se vería fatalmente mancillada, deteriorada, por la invasión de productos culturales foráneos -seudoculturales, más bien-, impuestos a través de la publicidad y con toda la prepotencia de lastransnacionales, que, a la corta o a la larga, perpetrarían una verdadera colonización del país, destruyendo su identidad y reemplazándola por la del colonizador. Si un país quiere conservar su alma, y no convertirse en un zombie, debe defender su identidad preservando sus productos culturales de la competencia y de la aniquiladora globalización. No pongo en duda las buenas intenciones de los políticos que, con variantes más de forma que de fondo, esgrimen estos argumentos en favor de la excepción cultural, pero afirmo que, si los aceptamos y llevamos a su conclusión natural la lógica implícita en ellos, estamos afirmando que la cultura y la libertad son incompatibles y que la única manera de garantizar a un país una vida cultural rica, auténtica y de la que todos los ciudadanos participen, es resucitando el despotismo ilustrado y practicando la más letal de las doctrinas para la libertad de un pueblo: el nacionalismo cultural. Adviértase lo profundamente antidemocrático que es el primero de estos argumentos. Si se respeta la libertad del hombre y la mujer comunes y corrientes la cultura está perdida, porque, a la hora de elegir entre los bienes culturales, aquéllos eligen siempre la bazofia: leer El código da Vinci, de Don Brown, en vez Cervantes, e ir a ver SpiderMan en vez de La mala educación. Así, pues, como el público en general es tan poco sutil y riguroso a la hora de elegir los libros, las películas, los espectáculos, y sus gustos en materia de estética son execrables, es preciso orientarlo en la buena dirección, imponiéndole, de una manera discreta y que no parezca abusiva, la buena elección. ¿Cómo? Penalizando a los malos productos artísticos con impuestos y aranceles que los encarezcan, por ejemplo, o fijando cupos, subsidios y rentas que privilegien a las genuinas creaciones y releguen a las mediocres o nulas. ¿Y quiénes serán los encargados de llevar a cabo ese delicadísimo discrimen entre el arte integérrimo y la basura? ¿Los burócratas? ¿Los parlamentos? ¿Comisiones de artistas eximios designadas por los ministerios? El despotismo ilustrado versión siglo veintiuno, pues. El otro argumento conlleva consecuencias igualmente nefastas. La sola idea de identidad cultural de un país, de una nación, además de ser una ficción confusa, conduce inevitablemente a justificar la censura, el dirigismo cultural y la subordinación de la vida intelectual y artística a una doctrina política: el nacionalismo. La cultura de un país como Francia o como España no puede resumirse en un canon o tabla de valores y de ideas de las que todas las obras artísticas e intelectuales producidas en su seno serían expresión y sustento coherente. Por el contrario, la riqueza cultural de esos dos países está en su diversidad contradictoria, en la existencia, en ellos, de tradiciones, corrientes y creadores y pensadores reñidos entre sí, que representan visiones del mundo y del arte que se repelen la una a la otra, y en el universalismo que esas obras alcanzaron en sus momentos más altos gracias a que fueron concebidas sin el corsé de un horizonte localista o nacional y -como ocurre con el Quijote, con Baudelaire, con el Tirant lo Blanch, con Proust, con el Greco y Goya y Velázquez y La Tour, Toulouse Lautrec, Matisse, Gauguin, y tantos otros- fueron por ello mismo entronizadas como representaciones estéticas donde podían reconocerse los seres humanos de cualquier tiempo o cultura. Esas obras no hubieran sido posibles dentro de las fronteras nacionales que presupone la noción aberrante de una identidad cultural colectiva. Ni siquiera la lengua puede ser considerada un campo de concentración para la vida cultural, porque, por fortuna -y, gracias a la globalización, este proceso se irá extendiendo cada vez más- casi todas las lenguas desbordan las fronteras o varias lenguas conviven dentro de una nación, y hay entre artistas una movilidad que les permite cada vez más elegir su propia tradición y su propio país espiritual, de modo que querer convertir a una lengua en una seña de identidad cultural de un pueblo es también otro artificio ideológico. Si la misma idea de nación -un concepto decimonónimo que ha perdido estabilidad y aparece cada vez más diluido a medida que las naciones se van integrando en grandes mancomunidades- resulta en nuestros días bastante relativo, la de una cultura que expresaría la esencia, la verdad anímica, metafísica, de un país, es una superchería de índole política que, en ver-dad, tiene muy poco que ver con la verdadera cultura y sí, en cambio, con aquel "espíritu de la tribu" que, según Popper, es el gran lastre para alcanzar la modernidad. Francia y España han avanzado ya demasiado en lo relativo a la cultura democrática para que sus ciudadanos, que a veces se dejan seducir por la demagogia y el chovinismo escondidos en los espejismos de la excepción cultural, acepten lo que serían las consecuencias prácticas de semejante propuesta: una vida cultural regimentada por burócratas o artistas y escritores instrumentales, en la que todo lo extranjero sería considerado un desvalor, y todo lo nacional, el valor estético supremo. De manera que, en términos prácticos, probablemente toda la alharaca que en estos dos países rodea a la política de la excepción cultural sólo desemboque en que unos cuantos artistas reciban los subsidios que piden y, con el pretexto de proteger los bienes culturales, los burócratas perpetren más derroches que los consabidos. Poca
cosa, a fin de cuentas, si toda la excepción cultural no pasa de eso, y en ambos países se respeta la libertad, el Estado no se mete a sustituir a los consumidores a la hora de elegir los productos culturales, y éstos siguen sometidos al juego de la oferta y la demanda con las mínimas interferencias posibles. Es verdad que los productos culturales son distintos a los otros. Pero lo son porque, a diferencia de una gaseosa o una nevera, en vez de desplazar en el mercado a sus
competidores, les abren la puerta, los promueven. Una obra de teatro, un libro, un pintor que tienen éxito son la mejor propaganda para el arte dramático, la literatura y la pintura y crean unas curiosidades y apetitos -unas adiccciones- que benefician a los otros artistas y escritores. El mercado no determina la calidad, sino la popularidad de un producto, y ya sabemos que ambas cosas no siempre coinciden, aunque algunas veces sí. Lo que el mercado muestra es el estado cultural de un país, lo que el hombre y la mujer del común prefieren, y lo que rechazan, en ejercicio de un derecho que ningun gobierno democrático puede objetar ni recortar. Querer acabar con el mercado para los bienes culturales porque el público no sabe elegir es confundir el efecto con la
causa, liquidar al mensajero porque trae noticias que nos disgustan. Desde luego que sería preferible que los consumidores tuvieran a veces mejor gusto a la hora de elegir un libro, un espectáculo, una película, un concierto, y que dieran en sus vidas mayor presencia a la cultura. ¿Puede un gobierno hacer algo al respecto? Muchísimo. Es la educación, no los subsidios, lo que puede crear un público más culto. Pero no sólo los maestros enseñan a leer, a oír buena música, a discriminar entre lo que es arte y lo que es caricatura. También las familias, los medios de comunicación, el entorno social en que cada ciudadano se forma. Y, qué duda cabe, la preservación del patrimonio es una responsabilidad central del Estado. Pero, incluso en este campo, es indispensable que los gobiernos involucren a la sociedad civil, mediante políticas tributarias que estimulen el mecenazgo y la acción cultural. El mayor número, no sólo los funcionarios, debe decidir dónde canalizar los recursos públicos y privados para promover la cultura. Pero la obligación primordial de un gobierno en este ámbito es crear unas condiciones que estimulen el desarrollo y la creatividad cultural y la primera de ellas es la libertad, en el más ancho sentido de la palabra. No sólo la libertad de opinar y crear sin interferencias ni censuras, sino también abrir las puertas y ventanas para que todos los productos culturales del mundo circulen libremente, porque la cultura de verdad no es nunca nacional sino universal, y las culturas, para serlo, necesitan estar continuamente en cotejo, pugna y mestizaje con las otras culturas del mundo. Ésa es la única manera de que se renueven sin cesar. La idea de "proteger" a la cultura es ya peligrosa. Las culturas se defienden solas, no necesitan para eso a los funcionarios, por más que éstos sean cultos y bienintencionados.
20.8.04
MENOS QUE ZERO
Enquanto o país se emporcalha alegremente com os seus jogos institucionais de "matraquilhos", o barril de petróleo está a dois pontos de atingir os 50 dólares. A "retoma" dissolve-se suavemente no "ouro negro", tal como as ardilosas cassetes ardem numa conveniente fogueira. E todos nós, graças a Deus, também. Pode ser que saia alguma coisa boa desta subida ao "grau zero". Tem pelo menos a vantagem de se poder passar do "menos que zero", algo em que somos definitivamente especialistas.
MENOS QUE ZERO
Enquanto o país se emporcalha alegremente com os seus jogos institucionais de "matraquilhos", o barril de petróleo está a dois pontos de atingir os 50 dólares. A "retoma" dissolve-se suavemente no "ouro negro", tal como as ardilosas cassetes ardem numa conveniente fogueira. E todos nós, graças a Deus, também. Pode ser que saia alguma coisa boa desta subida ao "grau zero". Tem pelo menos a vantagem de se poder passar do "menos que zero", algo em que somos definitivamente especialistas.
19.8.04
DER FREIER ALS ICH, DER GOTT
Leb' wohl, du kühnes, herrliches Kind!
Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muß ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruß dich mehr grüßen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muß ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels! -
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!
Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuß dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floß:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuß!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muß es scheidend sich schließen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küßt er die Gottheit von dir!
(Richard Wagner, Die Walküre, III Acto. Wotan despede-se da filha predilecta, a guerreira Brünnhilde, antes de a cercar por uma linha de fogo onde ela esperará, mergulhada num sono profundo, que alguém "mais livre do que o deus", Wotan, a liberte.)
Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muß ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruß dich mehr grüßen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muß ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels! -
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!
Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuß dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floß:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuß!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muß es scheidend sich schließen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küßt er die Gottheit von dir!
(Richard Wagner, Die Walküre, III Acto. Wotan despede-se da filha predilecta, a guerreira Brünnhilde, antes de a cercar por uma linha de fogo onde ela esperará, mergulhada num sono profundo, que alguém "mais livre do que o deus", Wotan, a liberte.)
DER FREIER ALS ICH, DER GOTT
Leb' wohl, du kühnes, herrliches Kind!
Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muß ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruß dich mehr grüßen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muß ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels! -
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!
Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuß dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floß:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuß!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muß es scheidend sich schließen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küßt er die Gottheit von dir!
(Richard Wagner, Die Walküre, III Acto. Wotan despede-se da filha predilecta, a guerreira Brünnhilde, antes de a cercar por uma linha de fogo onde ela esperará, mergulhada num sono profundo, que alguém "mais livre do que o deus", Wotan, a liberte.)

Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muß ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruß dich mehr grüßen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muß ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels! -
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!
Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuß dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floß:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuß!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muß es scheidend sich schließen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küßt er die Gottheit von dir!
(Richard Wagner, Die Walküre, III Acto. Wotan despede-se da filha predilecta, a guerreira Brünnhilde, antes de a cercar por uma linha de fogo onde ela esperará, mergulhada num sono profundo, que alguém "mais livre do que o deus", Wotan, a liberte.)
A PRÓXIMA RODADA
A participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, talvez inspirada pelo exemplo superior do "atleta" Sampaio, tem sido desastrosa. Se bem percebi, tirando um Paulinho em bicicleta, em todas as outras modalidades onde estão, os portugueses soçobram quase invariavelmente. As causas são múltiplas. Pouco tempo de preparação, excesso de confiança, amadorismo técnico ou puro azar, o certo é que estes nossos rapazes se limitam a reproduzir lá fora a nossa indelével miséria. Como é que se pode exigir um milagre a um homem de 27 anos, por exemplo, com família constituída, que é bancário e que se levanta às 6 da manhã para ir "treinar", que às 9 entra "ao serviço" e que às 6 da tarde, antes de ir para casa, ainda vai "treinar" mais um pouco ? O "mercado" fica mais satisfeito e a "economia" nacional prospera com isto ? Entre nós, em quase tudo, os sonhos continuam a morrer às mãos de outros sonhos, como escreveu Eugénio de Andrade. Só nas cabeças ocas de "políticos", "comentadores" e "empresários" de "trazer por casa" é que se alimentam "sucessos" virtuais e se antecipam venturas que nunca chegam. O resto sobrevive na frustração e na impotência, sempre à espera da próxima rodada.
A PRÓXIMA RODADA
A participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, talvez inspirada pelo exemplo superior do "atleta" Sampaio, tem sido desastrosa. Se bem percebi, tirando um Paulinho em bicicleta, em todas as outras modalidades onde estão, os portugueses soçobram quase invariavelmente. As causas são múltiplas. Pouco tempo de preparação, excesso de confiança, amadorismo técnico ou puro azar, o certo é que estes nossos rapazes se limitam a reproduzir lá fora a nossa indelével miséria. Como é que se pode exigir um milagre a um homem de 27 anos, por exemplo, com família constituída, que é bancário e que se levanta às 6 da manhã para ir "treinar", que às 9 entra "ao serviço" e que às 6 da tarde, antes de ir para casa, ainda vai "treinar" mais um pouco ? O "mercado" fica mais satisfeito e a "economia" nacional prospera com isto ? Entre nós, em quase tudo, os sonhos continuam a morrer às mãos de outros sonhos, como escreveu Eugénio de Andrade. Só nas cabeças ocas de "políticos", "comentadores" e "empresários" de "trazer por casa" é que se alimentam "sucessos" virtuais e se antecipam venturas que nunca chegam. O resto sobrevive na frustração e na impotência, sempre à espera da próxima rodada.
18.8.04
COR-DE-ROSA
Especialmente para lhe "cuidar da imagem", Santana Lopes contratou a "sua Sara Pina", uma tal Marta, arrancada às "relações públicas" da revista Lux. Esta moça junta-se a outras duas pequenas e, todas juntas, formam o "gabinete de comunicação" do primeiro-ministro. Lopes não resistiu e cedeu ao submundo de não-pessoas que ele adora frequentar. São sempre os mesmos e estão normalmente todos em revistas como a Lux, que se lêem intermitentemente em salas de espera. Não precisava deste "filtro", nem que fosse por uma questão de decoro da "função". Para além disso, Santana Lopes é inegavelmente "a" melhor imagem dele e do governo que comanda. Para a "divulgar", dispensava bem esta fútil despesa. Bastava-lhe ser ele próprio, o sempre "correcto", o sempre "elegante", o da vida eternamente "cor-de-rosa".
COR-DE-ROSA
Especialmente para lhe "cuidar da imagem", Santana Lopes contratou a "sua Sara Pina", uma tal Marta, arrancada às "relações públicas" da revista Lux. Esta moça junta-se a outras duas pequenas e, todas juntas, formam o "gabinete de comunicação" do primeiro-ministro. Lopes não resistiu e cedeu ao submundo de não-pessoas que ele adora frequentar. São sempre os mesmos e estão normalmente todos em revistas como a Lux, que se lêem intermitentemente em salas de espera. Não precisava deste "filtro", nem que fosse por uma questão de decoro da "função". Para além disso, Santana Lopes é inegavelmente "a" melhor imagem dele e do governo que comanda. Para a "divulgar", dispensava bem esta fútil despesa. Bastava-lhe ser ele próprio, o sempre "correcto", o sempre "elegante", o da vida eternamente "cor-de-rosa".
BOHEMIAN RAPSODY
Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
I'm just a poor boy, I need no sympathy
Because I'm easy come, easy go
A little high, little low
Anyway the wind blows,
doesn't really matter to me, to me
Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead
Mama, life had just begun
But now I've gone and thrown it all away
Mama, ooo
Didn't mean to make you cry
If I'm not back again this time tomorrow
Carry on, carry on, as if nothing really matters
Sends shivers down my spine
Body's aching all the time
Goodbye everybody - I've got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama, ooo - (anyway the wind blows)
I don't want to die
I sometimes wish I'd never been born at all
I see a little silhouetto of a man
Scaramouch, scaramouch
will you do the fandango
Thunderbolt and lightning - very very frightening me
Gallileo, Gallileo,
Gallileo, Gallileo,
Gallileo Figaro - magnifico
But I'm just a poor boy and nobody loves me
He's just a poor boy from a poor family
Spare him his life from this monstrosity
Easy come easy go - will you let me go
Bismillah! No - we will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let him go
Bismillah! We will not let you go - let me go
Will not let you go - let me go (never)
Never let you go - let me go
Never let me go- ooo
No, no, no, no, no, no, no -
Oh mama mia, mama mia, mama mia
let me go Beelzebub has a devil put aside for me
for me
for me
So you think you can stone me and spit in my eye
So you think you can love me and leave me to die
Oh baby - can't do this to me baby
Just gotta get out - just gotta get right outta here
Ooh yeah, ooh yeah
Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters - nothing really matters to me
Anyway the wind blows...
(Queen)
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