31.7.03

AS ÁGUAS

Na sua solidão, no seu sonho de amor ou de ausência de amor, os que se perdem vão sempre ter à beira de água. Na imensa deriva da noite, o estertor da agonia dos aflitos é abafado pelo rumor da mais pequena ondulação. O espírito, vazio de tudo, excepto do rumor das ondas, serena. Rolando com as águas, a alma até então atormentada desdobra as asas.
As águas da terra! Que nivelam, sustentam, reconfortam! Águas baptismais! A seguir à luz, são elas o elemento mais misterioso da criação.
Tudo passa com o tempo. As águas ficam.



Henry Miller

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AS ÁGUAS

Na sua solidão, no seu sonho de amor ou de ausência de amor, os que se perdem vão sempre ter à beira de água. Na imensa deriva da noite, o estertor da agonia dos aflitos é abafado pelo rumor da mais pequena ondulação. O espírito, vazio de tudo, excepto do rumor das ondas, serena. Rolando com as águas, a alma até então atormentada desdobra as asas.
As águas da terra! Que nivelam, sustentam, reconfortam! Águas baptismais! A seguir à luz, são elas o elemento mais misterioso da criação.
Tudo passa com o tempo. As águas ficam.



Henry Miller

30.7.03

ANTÓNIO MARIA LISBOA

Por estar sempre a convocar o Cesariny, e por que não me apetece falar do Mestre Américo, lembrei-me de António Maria Lisboa, uma das mais talentosas promessas, e ainda realidade, do surrealismo português, em má hora morto surrealisticamente (ou nem tanto) de tuberculose aos 25 anos. A partir de 1947, com Pedro Oom e Henrique Risques Pereira, constitui um pequeno grupo algo distinto das actividades já conhecidas dos surrealistas. Em 1949, vai para Paris, onde permanece algum tempo. De volta a Lisboa, colabora com poemas e desenhos na 1 ª Exposição dos Surrealistas, do grupo dissidente. A partir dessa altura, forja-se a amizade com Cesariny, que o acompanhará até aos últimos dias. Em 1950 colabora na redacção de vários manifestos e, em carta a Cesariny, faz as primeiras declarações com referências aos objectivos do movimento surrealista. Apesar destas aproximações, Lisboa prefere ver-se como um metacientista, e não como um surrealista, porque, diz ele, a surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas.

Um exemplo :

PROJECTO DE SUCESSÃO

Para o Mário-Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


(Ossóptico)



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ANTÓNIO MARIA LISBOA

Por estar sempre a convocar o Cesariny, e por que não me apetece falar do Mestre Américo, lembrei-me de António Maria Lisboa, uma das mais talentosas promessas, e ainda realidade, do surrealismo português, em má hora morto surrealisticamente (ou nem tanto) de tuberculose aos 25 anos. A partir de 1947, com Pedro Oom e Henrique Risques Pereira, constitui um pequeno grupo algo distinto das actividades já conhecidas dos surrealistas. Em 1949, vai para Paris, onde permanece algum tempo. De volta a Lisboa, colabora com poemas e desenhos na 1 ª Exposição dos Surrealistas, do grupo dissidente. A partir dessa altura, forja-se a amizade com Cesariny, que o acompanhará até aos últimos dias. Em 1950 colabora na redacção de vários manifestos e, em carta a Cesariny, faz as primeiras declarações com referências aos objectivos do movimento surrealista. Apesar destas aproximações, Lisboa prefere ver-se como um metacientista, e não como um surrealista, porque, diz ele, a surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas.

Um exemplo :

PROJECTO DE SUCESSÃO

Para o Mário-Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


(Ossóptico)



ELSINORE

Leio no Anarca Constipado que não se pode legislar com um olho no código e outro na televisão. Ainda há um terceiro olho, o azul do Cesariny.

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ELSINORE

Leio no Anarca Constipado que não se pode legislar com um olho no código e outro na televisão. Ainda há um terceiro olho, o azul do Cesariny.
LLOSA EM BAGDAD

Vale a pena acompanhar as crónicas de Mario Vargas LLosa no Diário de Notícias acerca do Iraque da pax americana e dos velhos ressentimentos. Começaram na segunda-feira.

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LLOSA EM BAGDAD

Vale a pena acompanhar as crónicas de Mario Vargas LLosa no Diário de Notícias acerca do Iraque da pax americana e dos velhos ressentimentos. Começaram na segunda-feira.
INFERNO

Na zona das Beiras, Castelo Branco, Fundão etc, há um fogo que consome o terreno desde o fim de semana. Ao lado de muitas outras chagas, os incêndios, ora filhos da incúria ignorante, ora da malícia criminosa, estão para os nossos verões como o Algarve está para a populaça, entre Julho e Agosto. Dizer-se que "para o ano é que vamos fazer e acontecer..." não quer dizer rigorosamente nada. As populações e os bombeiros estão cativos desta anuidade inócua dos poderes públicos. Seja pelos rigores do Inverno, seja pelos castigos do Verão, há muitos de entre nós, nesse País ignorado, que só por intervalos saem do Inferno.

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INFERNO

Na zona das Beiras, Castelo Branco, Fundão etc, há um fogo que consome o terreno desde o fim de semana. Ao lado de muitas outras chagas, os incêndios, ora filhos da incúria ignorante, ora da malícia criminosa, estão para os nossos verões como o Algarve está para a populaça, entre Julho e Agosto. Dizer-se que "para o ano é que vamos fazer e acontecer..." não quer dizer rigorosamente nada. As populações e os bombeiros estão cativos desta anuidade inócua dos poderes públicos. Seja pelos rigores do Inverno, seja pelos castigos do Verão, há muitos de entre nós, nesse País ignorado, que só por intervalos saem do Inferno.

29.7.03

DO AMOR

Percebi pelo Francisco que o Guerra e Pás tinha falado da aparente ausência do amor, como tema, nesta nossa blogolândia. É sinal de que andam a ler a Marguerite Duras: todo o amor é luto do amor.

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DO AMOR

Percebi pelo Francisco que o Guerra e Pás tinha falado da aparente ausência do amor, como tema, nesta nossa blogolândia. É sinal de que andam a ler a Marguerite Duras: todo o amor é luto do amor.
A HERANÇA II

A propósito de um post que me ocorreu lá para trás, no dia em que começou o golpe de estado em S. Tomé e Prí­ncipe, o Paulo Tavares enviou-me um e-mail que transcrevo em parte, para poder comentar.

A solidariedade com Timor foi descrita como "baba" e "folclores de rua"

Acho isso muito injusto para com as pessoas envolvidas. Certamente que haverá envolvimentos mais ou menos sinceros, mais ou menos sentidos, e mais ou menos esforçados, mas será sempre melhor que a simples indiferença. E mesmo que o apoio prático não tenha coberto tanto quanto os timorenses precisavam, certamente que eles não menosprezaram esse apoio, da forma que o "Portugal dos Pequeninos" fez.


1. Como o Paulo facilmente perceberá, se se der ao trabalho de querer entender, eu utilizei uma caricatura para mencionar o que se passou nas ruas de Lisboa, em Setembro de 1999. De facto, era "outro paí­s", diferente do indiferente de 1975, que descia à rua. O de 75, em geral, esteve-se nas tintas para que a Indonésia tivesse entrado pela ala esquerda da ilha de Timor. O que eu disse é que gostava de ter visto, ou de ainda poder vir a ver , manifestações idênticas por, por exemplo, Angola. Que eu saiba, a miséria, a fome e a corrupção que ali grassam desde 75, não comoveram ainda ninguém tão intensamente. E em Timor, qualquer dia, ninguém quer saber do português para nada. Vai ver.

Os pedidos de desculpa foram classificados como "patéticos"

Concordo que é impossível que os pedidos de desculpa reparem os males praticados. Mas só o(s) destinatário(s) desses pedidos pode(m) julgar se ele é necessário ou não, desejável ou não, útil ou não. Por exemplo, eu vivo actualmente no Brasil, onde existe uma proibição de piadas sobre negros, coisa que durante muito tempo achei um tanto ridícula. "Na prática, de que lhes serve isso", pensava eu, "seria mais útil uma medida concreta, como a criação de cotas para o acesso ao ensino superior ou a cargos públicos, etc". Mas mesmo sobre essa parca medida, relativa às piadas, acabei concluindo que não tenho como avaliar isso. Não sei qual o efeito que isso tem sobre a auto-estima de milhões de pessoas, e sobre o respeito que foram adquirindo. Posso fazer muitas suposições, mas não posso sabê-lo de facto, não posso sentir o efeito, sendo eu branco.


2. Eu não tenho nada contra os "pedidos de desculpa" . Apenas fiz notar que são uma forma singela e já trivial de aliviar a canga da História.

A presença de Portugal em África foi equiparada à presença no Minho ou em Trás-os-Montes

Parece-me muito estranho falar de "presença de Portugal" no Minho ou em Trás-os-Montes, que desde sempre foram parte integrante de Portugal, e onde não consta que haja movimentos separatistas. E admitindo que esta presença, ainda que não seja épica ou gloriosa, não será assim tão terrível, porque seria negativo que a presença em África fosse imbuída do mesmo espírito?


3. O regime que, como sabe, tratava as colónias por "províncias ultramarinas", é que equiparava as coisas, não querendo que se distinguissem estas das "da metrópole". Como, de facto, não estava, nem no Minho, nem em Trás os Montes, o que se seguiu, depois de 1960, é conhecido.

Os portugueses em África foram classificados em bloco como paternalistas e interesseiros

Mais uma vez, parece-me uma generalização excessiva. Mesmo que isso fosse verdade para a maioria, haveria ainda um número significativo que consideravam a África como o lar, mais do que a metrópole.


4. Naturalmente que esses portugueses consideravam as colónias o seu "lar", com tudo o que essa carga semãntica implica. O problema é que, a partir de determinada altura, os autócnes começaram a não gostar mesmo nada daqueles "senhorios" ou mesmo "arrendatários".

A miscigenação foi descrita como imposta por Salazar e resultando em "pretas [montadas] à fartazana"

Acho que o que eu já disse antes sobre generalizações e respeito aplica-se em dobro a esta afirmação. Respeito pelas mulheres africanas e suas famílias, respeito por aqueles portugueses que não encaravam as coisas dessa forma, respeito até por Salazar, que podia ser um ditador, mas não consta que fosse um grosseiro. Também duvido que seja rigorosa essa afirmação simplista de que "Salazar impôs a miscigenação", mas deixo essa questão para quem souber mais de história colonial que eu.



5. Mais uma vez ao Paulo escapou o sentido da metáfora. Concedo que a expressão é forte, mas sobretudo julgo que é realista, e obviamente não generalizadora. A miscigenação fazia parte dos objectivos do regime para as "províncias", justamente por elas serem concebidas como mencionei acima. Porém, a cada português a sua maneira de "miscigenar", naturalmente. E Salazar não era mesmo nada grosseiro: era "portuguesmente" matreiro, apenas. Não se pode ser absolutamente perfeito.

Os retornados das ex-colónias foram um "resultado (...) despejado em contentores nos cais de Lisboa"

Uma vez mais, há uma questão de elementar respeito pelas pessoas. Pessoas não são "resultados", e pessoas não são "despejadas em contentores".


6. O Paulo não fixa imagens visuais de determinadas épocas? Pense bem qual é a que melhor ilustra a chegada dos chamados "retornados" a Lisboa e que, graças aos primeiros governos de Mário Soares, se integraram sem grandes problemas na "metrópole".

"(...) uma profunda e terrível miséria moral e material, sem fim."

Também aqui o "Portugal dos Pequeninos" faz afirmações categóricas, definitivas e totalmente indiferentes aos sentimentos das muitas pessoas que têm consciências dos problemas existentes, mas que têm ainda esperança.


7. Eu também tenho uma "desesperada esperança" de que, um dia, sem palavrosos, nem corruptos, se possa minorar o sofrimento de milhões de africanos que, um dia, para sua infelicidade, foram "dos nossos".



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A HERANÇA II

A propósito de um post que me ocorreu lá para trás, no dia em que começou o golpe de estado em S. Tomé e Prí­ncipe, o Paulo Tavares enviou-me um e-mail que transcrevo em parte, para poder comentar.

A solidariedade com Timor foi descrita como "baba" e "folclores de rua"

Acho isso muito injusto para com as pessoas envolvidas. Certamente que haverá envolvimentos mais ou menos sinceros, mais ou menos sentidos, e mais ou menos esforçados, mas será sempre melhor que a simples indiferença. E mesmo que o apoio prático não tenha coberto tanto quanto os timorenses precisavam, certamente que eles não menosprezaram esse apoio, da forma que o "Portugal dos Pequeninos" fez.


1. Como o Paulo facilmente perceberá, se se der ao trabalho de querer entender, eu utilizei uma caricatura para mencionar o que se passou nas ruas de Lisboa, em Setembro de 1999. De facto, era "outro paí­s", diferente do indiferente de 1975, que descia à rua. O de 75, em geral, esteve-se nas tintas para que a Indonésia tivesse entrado pela ala esquerda da ilha de Timor. O que eu disse é que gostava de ter visto, ou de ainda poder vir a ver , manifestações idênticas por, por exemplo, Angola. Que eu saiba, a miséria, a fome e a corrupção que ali grassam desde 75, não comoveram ainda ninguém tão intensamente. E em Timor, qualquer dia, ninguém quer saber do português para nada. Vai ver.

Os pedidos de desculpa foram classificados como "patéticos"

Concordo que é impossível que os pedidos de desculpa reparem os males praticados. Mas só o(s) destinatário(s) desses pedidos pode(m) julgar se ele é necessário ou não, desejável ou não, útil ou não. Por exemplo, eu vivo actualmente no Brasil, onde existe uma proibição de piadas sobre negros, coisa que durante muito tempo achei um tanto ridícula. "Na prática, de que lhes serve isso", pensava eu, "seria mais útil uma medida concreta, como a criação de cotas para o acesso ao ensino superior ou a cargos públicos, etc". Mas mesmo sobre essa parca medida, relativa às piadas, acabei concluindo que não tenho como avaliar isso. Não sei qual o efeito que isso tem sobre a auto-estima de milhões de pessoas, e sobre o respeito que foram adquirindo. Posso fazer muitas suposições, mas não posso sabê-lo de facto, não posso sentir o efeito, sendo eu branco.


2. Eu não tenho nada contra os "pedidos de desculpa" . Apenas fiz notar que são uma forma singela e já trivial de aliviar a canga da História.

A presença de Portugal em África foi equiparada à presença no Minho ou em Trás-os-Montes

Parece-me muito estranho falar de "presença de Portugal" no Minho ou em Trás-os-Montes, que desde sempre foram parte integrante de Portugal, e onde não consta que haja movimentos separatistas. E admitindo que esta presença, ainda que não seja épica ou gloriosa, não será assim tão terrível, porque seria negativo que a presença em África fosse imbuída do mesmo espírito?


3. O regime que, como sabe, tratava as colónias por "províncias ultramarinas", é que equiparava as coisas, não querendo que se distinguissem estas das "da metrópole". Como, de facto, não estava, nem no Minho, nem em Trás os Montes, o que se seguiu, depois de 1960, é conhecido.

Os portugueses em África foram classificados em bloco como paternalistas e interesseiros

Mais uma vez, parece-me uma generalização excessiva. Mesmo que isso fosse verdade para a maioria, haveria ainda um número significativo que consideravam a África como o lar, mais do que a metrópole.


4. Naturalmente que esses portugueses consideravam as colónias o seu "lar", com tudo o que essa carga semãntica implica. O problema é que, a partir de determinada altura, os autócnes começaram a não gostar mesmo nada daqueles "senhorios" ou mesmo "arrendatários".

A miscigenação foi descrita como imposta por Salazar e resultando em "pretas [montadas] à fartazana"

Acho que o que eu já disse antes sobre generalizações e respeito aplica-se em dobro a esta afirmação. Respeito pelas mulheres africanas e suas famílias, respeito por aqueles portugueses que não encaravam as coisas dessa forma, respeito até por Salazar, que podia ser um ditador, mas não consta que fosse um grosseiro. Também duvido que seja rigorosa essa afirmação simplista de que "Salazar impôs a miscigenação", mas deixo essa questão para quem souber mais de história colonial que eu.



5. Mais uma vez ao Paulo escapou o sentido da metáfora. Concedo que a expressão é forte, mas sobretudo julgo que é realista, e obviamente não generalizadora. A miscigenação fazia parte dos objectivos do regime para as "províncias", justamente por elas serem concebidas como mencionei acima. Porém, a cada português a sua maneira de "miscigenar", naturalmente. E Salazar não era mesmo nada grosseiro: era "portuguesmente" matreiro, apenas. Não se pode ser absolutamente perfeito.

Os retornados das ex-colónias foram um "resultado (...) despejado em contentores nos cais de Lisboa"

Uma vez mais, há uma questão de elementar respeito pelas pessoas. Pessoas não são "resultados", e pessoas não são "despejadas em contentores".


6. O Paulo não fixa imagens visuais de determinadas épocas? Pense bem qual é a que melhor ilustra a chegada dos chamados "retornados" a Lisboa e que, graças aos primeiros governos de Mário Soares, se integraram sem grandes problemas na "metrópole".

"(...) uma profunda e terrível miséria moral e material, sem fim."

Também aqui o "Portugal dos Pequeninos" faz afirmações categóricas, definitivas e totalmente indiferentes aos sentimentos das muitas pessoas que têm consciências dos problemas existentes, mas que têm ainda esperança.
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7. Eu também tenho uma "desesperada esperança" de que, um dia, sem palavrosos, nem corruptos, se possa minorar o sofrimento de milhões de africanos que, um dia, para sua infelicidade, foram "dos nossos".



28.7.03

O RESSURGIR DO BURRO

De todas as notícias que pude ler na edição do Público de ontem, a que mais captou a minha atenção foi a relativa à ameaça de extinção de um determinado tipo de burro que se encontra no Norte do País, o burro mirandês. Esta espécie animal é muito injustamente desconsiderada sobretudo pela analogia homógrafa que tantas vezes é feita com outra espécie com apenas dois membros inferiores. No entanto, o verdadeiro burro é um animal de uma imensa dignidade e, na opinião de especialistas, pode ser um excelente animal de estimação e de companhia para uma criança.

Algumas curiosidades asininas:

Os burros foram, desde sempre, companheiros inseparáveis dos trabalhadores agrícolas. Incansáveis no arroteamento dos campos, parcos na alimentação e nos cuidados, tornaram-se numa força de trabalho indispensável, sobretudo nos meios mais pobres, onde se praticava uma agricultura de subsistência. Mas foram abandonados. O gado asinino foi sistematicamente subestimado e esquecido, não havendo até há bem pouco tempo qualquer programa de preservação ou melhoramento da espécie;

A importância dos burros ultrapassa as simples tarefas agrícolas. Estes animais desempenham um importante papel na manutenção da biodiversidade, pois permitem o maneio de terrenos de difícil acesso. Além da sua função ecológica, quando morrem são ainda uma fonte importante para o alimento de abutres;

Os burros da raça Terras de Miranda são orelhudos e barrigudos como os outros, mas apresentam algumas diferenças que os distinguem: são lanudos - têm pêlo comprido na ponta das orelhas, nas franjas e por cima dos cascos; são corpulentos, mais altos do que os restantes, de cor castanho escuro, joelhos fortes, orelhas grandes e inclinadas para a frente. Têm formas mais grosseiras e são pachorrentos e dóceis;

Quando uma burra anda com cio, o que acontece nesta altura do ano, os agricultores dizem que anda "desonesta". E as burras "desonestas" transformam-se: ficam más, mascam em seco, mordem-se entre elas e andam meias tontas. As burras podem criar até aos 18, 19 anos, mas uma fêmea com 13 anos que não cria há 10 tem o aparelho reprodutor muito atrofiado e pode não chegar a reproduzir - é isto que se está a passar com muitas burras mirandesas. Uma burra anda prenhe durante um ano;

O burro é um animal simpático, vivo e inteligente, meigo e brincalhão. Mas, em vez de obedecer por instinto, questiona e - inevitavelmente - teima. Aprende com destreza e cria relações sólidas com o homem. Quando são bem tratados são animais mais amigáveis do que os cavalos. Se forem maltratados, tornam-se desconfiados e temerosos e é preciso ter cuidado com eles.

Esta leitura trouxe-me à memória um belíssimo texto de Elias Canetti, inserido em As Vozes de Marraquexe, Notas de uma viagem (Ed. D. Quixote), intitulado O Ressurgir do Burro, cuja história terá tido lugar na célebre Praça Djema el Fna de Marraquexe. Vale a pena ler o livrinho que nem sequer é muito grande.

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O RESSURGIR DO BURRO

De todas as notícias que pude ler na edição do Público de ontem, a que mais captou a minha atenção foi a relativa à ameaça de extinção de um determinado tipo de burro que se encontra no Norte do País, o burro mirandês. Esta espécie animal é muito injustamente desconsiderada sobretudo pela analogia homógrafa que tantas vezes é feita com outra espécie com apenas dois membros inferiores. No entanto, o verdadeiro burro é um animal de uma imensa dignidade e, na opinião de especialistas, pode ser um excelente animal de estimação e de companhia para uma criança.

Algumas curiosidades asininas:

Os burros foram, desde sempre, companheiros inseparáveis dos trabalhadores agrícolas. Incansáveis no arroteamento dos campos, parcos na alimentação e nos cuidados, tornaram-se numa força de trabalho indispensável, sobretudo nos meios mais pobres, onde se praticava uma agricultura de subsistência. Mas foram abandonados. O gado asinino foi sistematicamente subestimado e esquecido, não havendo até há bem pouco tempo qualquer programa de preservação ou melhoramento da espécie;

A importância dos burros ultrapassa as simples tarefas agrícolas. Estes animais desempenham um importante papel na manutenção da biodiversidade, pois permitem o maneio de terrenos de difícil acesso. Além da sua função ecológica, quando morrem são ainda uma fonte importante para o alimento de abutres;

Os burros da raça Terras de Miranda são orelhudos e barrigudos como os outros, mas apresentam algumas diferenças que os distinguem: são lanudos - têm pêlo comprido na ponta das orelhas, nas franjas e por cima dos cascos; são corpulentos, mais altos do que os restantes, de cor castanho escuro, joelhos fortes, orelhas grandes e inclinadas para a frente. Têm formas mais grosseiras e são pachorrentos e dóceis;

Quando uma burra anda com cio, o que acontece nesta altura do ano, os agricultores dizem que anda "desonesta". E as burras "desonestas" transformam-se: ficam más, mascam em seco, mordem-se entre elas e andam meias tontas. As burras podem criar até aos 18, 19 anos, mas uma fêmea com 13 anos que não cria há 10 tem o aparelho reprodutor muito atrofiado e pode não chegar a reproduzir - é isto que se está a passar com muitas burras mirandesas. Uma burra anda prenhe durante um ano;

O burro é um animal simpático, vivo e inteligente, meigo e brincalhão. Mas, em vez de obedecer por instinto, questiona e - inevitavelmente - teima. Aprende com destreza e cria relações sólidas com o homem. Quando são bem tratados são animais mais amigáveis do que os cavalos. Se forem maltratados, tornam-se desconfiados e temerosos e é preciso ter cuidado com eles.

Esta leitura trouxe-me à memória um belíssimo texto de Elias Canetti, inserido em As Vozes de Marraquexe, Notas de uma viagem (Ed. D. Quixote), intitulado O Ressurgir do Burro, cuja história terá tido lugar na célebre Praça Djema el Fna de Marraquexe. Vale a pena ler o livrinho que nem sequer é muito grande.

27.7.03

O TEMPO DOS ASSASSINOS

A propósito de O Mundo do Sexo e Outros Textos, de Henry Miller, na versão de bolso da Ed. D. Quixote, quero deixar umas linhas sobre o autor e a respectiva obra. Miller é amiúde apresentado como autor de livros por onde escorrem abundantes fluídos humanos entre as páginas, designadamente quando se pensa na "Trilogia da Rosa" (Sexus, Plexus e Nexus ).

Miguel Torga, por exemplo, esse padrão do nosso rusticismo literário e saloio, escreveu no seu Diário que "não há nada mais repugnante do que um escritor a ejacular pela caneta", a propósito de Miller. De facto, Miller não é um escritor para montanhas e passarinhos. A sua obra literária e ensaística é muito mais do que isso, sendo certo que o "isso" faz parte de uma experiência de vida muito particular e muito "vivida", entre a Europa e os EUA, e felizmente longa, como foi a deste cruzado praticamente sem terra.

Nasceu em Nova York, em 1891, onde passou a infância e a adolescência. Teve vários empregos antes de se decidir pela carreira literária. Em 1930 muda-se para Paris, onde publica os seus primeiros livros, que faz chegar aos EUA clandestinamente. Retorna aos Estados Unidos em 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial. Em 1944, radica-se em Big Sur, na Califórnia.

Henry Miller tinha 69 anos quando a sua primeira grande obra-prima, Trópico de Câncer, foi publicada legalmente nos Estados Unidos, quase trinta anos depois de ter sido escrita. Passou rapidamente de banido a respeitável escritor, centrando a sua prosa nos temas das liberdades literária e individual.

Pouco antes de morrer, em 1980, escreveu um pequeno e belo texto, Viragem aos Oitenta, que se pode ler, salvo erro, numa tradução das Edições Asa.

Recomendo particularmente o ensaio de Miller sobre Rimbaud, O Tempo dos Assassinos ( The Time of The Assassins, a study of Rimbaud), a que volto constantemente (Hiena Editora, Coleccão Cão Vagabundo 8).

Ficam uns blogues de sua autoria.

Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais. Humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. Basta que um homem se vista de maneira diferente dos seus concidadãos para ser motivo de desprezo e de ridículo. A única lei que é realmente cumprida de bom grado e violentamente, é lei da conformidade.

Parece que, onde quer que vá, existe drama. As pessoas são como chatos - penetram na pele e enterram-se lá. A gente coça-se e coça-se até sair sangue, mas não nos podemos livrar permanentemente dos chatos. Em toda parte aonde vou, as pessoas fazem uma trapalhada das suas vidas. Todos têm a sua tragédia particular. Está no sangue agora - infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se - até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Clamo por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer.

Somos todos sonhadores, só que alguns despertam a tempo de anotar palavras. Certamente eu quero escrever. Mas não julgo isso como o alvo supremo. Como direi? Escrever é o mesmo que fazer cócó enquanto se dorme. Um cócó delicioso, aliás, mas primeiro vem a vida, depois o cócó. Vida é mudança. Movimento, indagação ... um avanço para o desconhecido, o inesperado. Só poucos homens podem dizer a si mesmos: "Tenho vivido!" Eis por que possuímos livros ... para que esses homens possam viver a vida dos outros. Escrever para mim, no entanto, mais do que viver a vida alheia, era esquecer que nasci aqui. Quero virar, mexer, errar pelo mundo. Quero chegar ao fim de todas as estradas.

A minha preocupação sempre se voltou para o joão-ninguém que se perde na confusão, o homem que é tão comum, tão ordinário, que a sua presença nem chega a ser notada. A minha intenção no acto de escrever era eliminar as diferenças que me separavam do próximo. Definitivamente não queria tornar-me artista, no sentido de me tornar algo estranho, algo à parte e fora da corrente da vida. O escritor verdadeiramente grande não quer escrever: quer que o mundo seja um lugar em que possa viver a vida da imaginação.

O medo, o medo com a cabeça de hidra, que é generalizado em todos nós, é uma ressaca das formas inferiores de vida. Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor?

Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.

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O TEMPO DOS ASSASSINOS

A propósito de O Mundo do Sexo e Outros Textos, de Henry Miller, na versão de bolso da Ed. D. Quixote, quero deixar umas linhas sobre o autor e a respectiva obra. Miller é amiúde apresentado como autor de livros por onde escorrem abundantes fluídos humanos entre as páginas, designadamente quando se pensa na "Trilogia da Rosa" (Sexus, Plexus e Nexus ).

Miguel Torga, por exemplo, esse padrão do nosso rusticismo literário e saloio, escreveu no seu Diário que "não há nada mais repugnante do que um escritor a ejacular pela caneta", a propósito de Miller. De facto, Miller não é um escritor para montanhas e passarinhos. A sua obra literária e ensaística é muito mais do que isso, sendo certo que o "isso" faz parte de uma experiência de vida muito particular e muito "vivida", entre a Europa e os EUA, e felizmente longa, como foi a deste cruzado praticamente sem terra.

Nasceu em Nova York, em 1891, onde passou a infância e a adolescência. Teve vários empregos antes de se decidir pela carreira literária. Em 1930 muda-se para Paris, onde publica os seus primeiros livros, que faz chegar aos EUA clandestinamente. Retorna aos Estados Unidos em 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial. Em 1944, radica-se em Big Sur, na Califórnia.

Henry Miller tinha 69 anos quando a sua primeira grande obra-prima, Trópico de Câncer, foi publicada legalmente nos Estados Unidos, quase trinta anos depois de ter sido escrita. Passou rapidamente de banido a respeitável escritor, centrando a sua prosa nos temas das liberdades literária e individual.

Pouco antes de morrer, em 1980, escreveu um pequeno e belo texto, Viragem aos Oitenta, que se pode ler, salvo erro, numa tradução das Edições Asa.

Recomendo particularmente o ensaio de Miller sobre Rimbaud, O Tempo dos Assassinos ( The Time of The Assassins, a study of Rimbaud), a que volto constantemente (Hiena Editora, Coleccão Cão Vagabundo 8).

Ficam uns blogues de sua autoria.

Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais. Humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. Basta que um homem se vista de maneira diferente dos seus concidadãos para ser motivo de desprezo e de ridículo. A única lei que é realmente cumprida de bom grado e violentamente, é lei da conformidade.

Parece que, onde quer que vá, existe drama. As pessoas são como chatos - penetram na pele e enterram-se lá. A gente coça-se e coça-se até sair sangue, mas não nos podemos livrar permanentemente dos chatos. Em toda parte aonde vou, as pessoas fazem uma trapalhada das suas vidas. Todos têm a sua tragédia particular. Está no sangue agora - infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se - até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Clamo por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer.

Somos todos sonhadores, só que alguns despertam a tempo de anotar palavras. Certamente eu quero escrever. Mas não julgo isso como o alvo supremo. Como direi? Escrever é o mesmo que fazer cócó enquanto se dorme. Um cócó delicioso, aliás, mas primeiro vem a vida, depois o cócó. Vida é mudança. Movimento, indagação ... um avanço para o desconhecido, o inesperado. Só poucos homens podem dizer a si mesmos: "Tenho vivido!" Eis por que possuímos livros ... para que esses homens possam viver a vida dos outros. Escrever para mim, no entanto, mais do que viver a vida alheia, era esquecer que nasci aqui. Quero virar, mexer, errar pelo mundo. Quero chegar ao fim de todas as estradas.

A minha preocupação sempre se voltou para o joão-ninguém que se perde na confusão, o homem que é tão comum, tão ordinário, que a sua presença nem chega a ser notada. A minha intenção no acto de escrever era eliminar as diferenças que me separavam do próximo. Definitivamente não queria tornar-me artista, no sentido de me tornar algo estranho, algo à parte e fora da corrente da vida. O escritor verdadeiramente grande não quer escrever: quer que o mundo seja um lugar em que possa viver a vida da imaginação.

O medo, o medo com a cabeça de hidra, que é generalizado em todos nós, é uma ressaca das formas inferiores de vida. Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor?

Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.

26.7.03

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE III

1. Entre outras coisas, o General não gostava de o ver chegar sempre atrasado às formaturas. O único dia em que chegou a horas foi em Braga, firme e hirto. Apertou a mão a Monteiro e trazia Shakespeare na pasta. Já ofereceu cópias a vários chefes militares. Maria Barroso também anda a ler.

2. Quem apertar a mão do braço direito de Portugal arrisca-se a ir parar ao serviço de ortopedia do Hospital de S. José.

3. No partido da garotada divertem-se muito. Nos intervalos do recreio, fazem tratamentos de fisioterapia à  coluna vertebral. Não consta que esteja a dar resultado e Maria José Nogueira Pinto vai deixar de ter comparticipação.Tentou andar direita.

4. O PC é um partido generoso: não cobra quotas e não gasta dinheiro em selos para convocatórias de militantes. Não expulsa ninguém. O Carlos Brito é que quis ir de férias e os outros não têm caixa do correio.

5. Troca de impressões entre dois "alvos" no Largo do Rato:
-"O meu é mais pequeno que o teu e foi ouvido 1400 vezes".
-"Não é não. O meu só tem 6 cm e já foi ouvido 1700 vezes".

6. José Manuel Fernandes é ouvido de Washington a Bagdad, passando pela Av. 5 de Outubro e por Carnaxide. Vem do tempo em que, num canto de uma sala na Rua Duque de Palmela, escrevia sobre "tudo o que não escrevi", pensando em Wittgenstein.

7. Las Meninas, uma lembrança oportuna do pedopsiquiatra e ouvidor Strecht. Diz saber que também há quem as prefira a rapazes perdidos na sua perdição. Até agora, estava surdo de um lado.

8. O General deixou de ter confiança. É sinal de que teve alguma. Um crente de 5 estrelas que sai agnóstico.

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YOU ARE WELCOME TO ELSINORE III

1. Entre outras coisas, o General não gostava de o ver chegar sempre atrasado às formaturas. O único dia em que chegou a horas foi em Braga, firme e hirto. Apertou a mão a Monteiro e trazia Shakespeare na pasta. Já ofereceu cópias a vários chefes militares. Maria Barroso também anda a ler.

2. Quem apertar a mão do braço direito de Portugal arrisca-se a ir parar ao serviço de ortopedia do Hospital de S. José.

3. No partido da garotada divertem-se muito. Nos intervalos do recreio, fazem tratamentos de fisioterapia à  coluna vertebral. Não consta que esteja a dar resultado e Maria José Nogueira Pinto vai deixar de ter comparticipação.Tentou andar direita.

4. O PC é um partido generoso: não cobra quotas e não gasta dinheiro em selos para convocatórias de militantes. Não expulsa ninguém. O Carlos Brito é que quis ir de férias e os outros não têm caixa do correio.

5. Troca de impressões entre dois "alvos" no Largo do Rato:
-"O meu é mais pequeno que o teu e foi ouvido 1400 vezes".
-"Não é não. O meu só tem 6 cm e já foi ouvido 1700 vezes".

6. José Manuel Fernandes é ouvido de Washington a Bagdad, passando pela Av. 5 de Outubro e por Carnaxide. Vem do tempo em que, num canto de uma sala na Rua Duque de Palmela, escrevia sobre "tudo o que não escrevi", pensando em Wittgenstein.

7. Las Meninas, uma lembrança oportuna do pedopsiquiatra e ouvidor Strecht. Diz saber que também há quem as prefira a rapazes perdidos na sua perdição. Até agora, estava surdo de um lado.

8. O General deixou de ter confiança. É sinal de que teve alguma. Um crente de 5 estrelas que sai agnóstico.

UM DESPACHO PORTUGUÊS

O problema diz respeito à zona de Leiria e já se arrasta há uns tempos. Uns meninos da QUERCUS, devidamente ataviados e bem ao jeito do folcore que normalmente associam às causas que defendem, deram a cheirar ao Ministro da Agricultura umas amostras de água de rio poluídas com dejectos porcinos, devidamente acondicionadas nuns tupperwares. O Ministro recebeu-os e falou em "responsabilidades" e na necessidade de as mesmas se apurarem. Os suinicultores- criaturas que se confundem, pelos vistos, com a sua própria produção -, na versão da QUERCUS, terão entrado em acordos com o Ministério e coisa e tal, razão pela qual entenderam proceder à referida demonstração odorífera. O que estes patuscos ambientalistas fizeram, afinal, foi encher uns baldes literalmente de merda e apresentaram-na a despacho na Praça do Comércio.

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UM DESPACHO PORTUGUÊS

O problema diz respeito à zona de Leiria e já se arrasta há uns tempos. Uns meninos da QUERCUS, devidamente ataviados e bem ao jeito do folcore que normalmente associam às causas que defendem, deram a cheirar ao Ministro da Agricultura umas amostras de água de rio poluídas com dejectos porcinos, devidamente acondicionadas nuns tupperwares. O Ministro recebeu-os e falou em "responsabilidades" e na necessidade de as mesmas se apurarem. Os suinicultores- criaturas que se confundem, pelos vistos, com a sua própria produção -, na versão da QUERCUS, terão entrado em acordos com o Ministério e coisa e tal, razão pela qual entenderam proceder à referida demonstração odorífera. O que estes patuscos ambientalistas fizeram, afinal, foi encher uns baldes literalmente de merda e apresentaram-na a despacho na Praça do Comércio.

25.7.03

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE II

O José Pacheco Pereira começou a escrever o artigo de ontem no Público há oito anos, em Aveiro.

Bagão Félix aderiu ao CDS/PP. Poderão seguir-se Catalina Pestana, Cinha Jardim, Pedro Strecht, Filomena Pinto da Costa e Tony Blair, conhecido vidente internacional que recentemente encontrou os rostos dos filhos de Satã.

Mota Amaral, reputado cristão, perdoou a multa pela falta dos vinte e nove mais um, o Sr. Martins, já justificada pelo "trabalho político". Sempre é futebol. Amen.

Afinal quem tem "mel", não é Pedro Santana Lopes. Ferro Rodrigues tem favos no telemóvel.

Souto Moura diz que tem "preocupações comuns" com Jorge Sampaio. Descia umas escadas em Belém e ia a olhar para o chão. Não saía de uma porta nem estava a jantar.

Ruben de Carvalho já comprou a sua EP para a Festa do Avante. Chama-se "tenho dúvidas se a pena de morte não se justifica em Cuba".

António Guterres está "maravilhado" com a sua vida actual e não quer saber de Belém. Tem umas aulas, uma internacional socialista e uma Catarina. A melena irritante é que continua no mesmo sítio, ao jeito da mão.

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YOU ARE WELCOME TO ELSINORE II

O José Pacheco Pereira começou a escrever o artigo de ontem no Público há oito anos, em Aveiro.

Bagão Félix aderiu ao CDS/PP. Poderão seguir-se Catalina Pestana, Cinha Jardim, Pedro Strecht, Filomena Pinto da Costa e Tony Blair, conhecido vidente internacional que recentemente encontrou os rostos dos filhos de Satã.

Mota Amaral, reputado cristão, perdoou a multa pela falta dos vinte e nove mais um, o Sr. Martins, já justificada pelo "trabalho político". Sempre é futebol. Amen.

Afinal quem tem "mel", não é Pedro Santana Lopes. Ferro Rodrigues tem favos no telemóvel.

Souto Moura diz que tem "preocupações comuns" com Jorge Sampaio. Descia umas escadas em Belém e ia a olhar para o chão. Não saía de uma porta nem estava a jantar.

Ruben de Carvalho já comprou a sua EP para a Festa do Avante. Chama-se "tenho dúvidas se a pena de morte não se justifica em Cuba".

António Guterres está "maravilhado" com a sua vida actual e não quer saber de Belém. Tem umas aulas, uma internacional socialista e uma Catarina. A melena irritante é que continua no mesmo sítio, ao jeito da mão.

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Esta madrugada, quando vinha do Porto (espreitar aqui um Porto "sentido") e de ver Um Hamlet a Mais, o espectáculo de Ricardo Pais, no Teatro Rivoli, de que falei outro dia, sai-me pelo rádio do carro a fala do Sr. Presidente da República. Poderei, se e quando me apetecer, voltar a falar da justiça, disse Sampaio. E depois, como a plateia era constituída por jornalistas, improvisou sobre a relação política/jornalista. Como era tarde - o problema deve ter sido meu- não percebi nada. Escolhi o poema de Cesariny, e fala de Hamlet na tragédia homónima, para título deste post, por me parecer que podia servir agora de pórtico ao dito assunto da justiça. Houve, nestes últimos dias, alguns pronunciamentos sobre a matéria: Procurador Geral da República, um manifesto, as eternas capas de jornais e de pasquins, o José Pacheco Pereira, o Miguel Sousa Tavares,muitos blogues, etc. Sinto que estamos nisto como que entre "emparedados" e "o nosso dever falar". Bem vindos a Elsinore.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

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YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Esta madrugada, quando vinha do Porto (espreitar aqui um Porto "sentido") e de ver Um Hamlet a Mais, o espectáculo de Ricardo Pais, no Teatro Rivoli, de que falei outro dia, sai-me pelo rádio do carro a fala do Sr. Presidente da República. Poderei, se e quando me apetecer, voltar a falar da justiça, disse Sampaio. E depois, como a plateia era constituída por jornalistas, improvisou sobre a relação política/jornalista. Como era tarde - o problema deve ter sido meu- não percebi nada. Escolhi o poema de Cesariny, e fala de Hamlet na tragédia homónima, para título deste post, por me parecer que podia servir agora de pórtico ao dito assunto da justiça. Houve, nestes últimos dias, alguns pronunciamentos sobre a matéria: Procurador Geral da República, um manifesto, as eternas capas de jornais e de pasquins, o José Pacheco Pereira, o Miguel Sousa Tavares,muitos blogues, etc. Sinto que estamos nisto como que entre "emparedados" e "o nosso dever falar". Bem vindos a Elsinore.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

24.7.03

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CONVERSAS EM FAMÍLIA (actualizadas)

1. Outro dia, à noite, num canal de tv, o Francisco pontuou uma conversa com mais uns quantos blogueiros. É uma forma de "sair do armário" como qualquer outra.

2. Passei pelo Crítico. É um dos mais conseguidos e bem escritos blogues, textos e fotos. Sem Bach, Deus seria uma entidade de terceira categoria, lembra Cioran.

3. O Nelson de Matos tem que cuidar mais das suas simpáticas edições de bolso. O Mundo do Sexo e outros textos, de Henry Miller, esse magní­fico escritor e ensaísta a que voltarei, não precisa desta pirosa chamada de atenção na capa:"um livro bem ao estilo de Henry Miller". O que é isto?

4. Parabéns pelos 100 mil: é a recompensa por não ser uma marioneta.

5. A mão invisível de Bruno Alves lembra-nos o "outro lado", que é sempre o mesmo, do amável public relations do PC, Ruben de Carvalho.

CONVERSAS EM FAMÍLIA (actualizadas)

1. Outro dia, à noite, num canal de tv, o Francisco pontuou uma conversa com mais uns quantos blogueiros. É uma forma de "sair do armário" como qualquer outra.

2. Passei pelo Crítico. É um dos mais conseguidos e bem escritos blogues, textos e fotos. Sem Bach, Deus seria uma entidade de terceira categoria, lembra Cioran.

3. O Nelson de Matos tem que cuidar mais das suas simpáticas edições de bolso. O Mundo do Sexo e outros textos, de Henry Miller, esse magní­fico escritor e ensaísta a que voltarei, não precisa desta pirosa chamada de atenção na capa:"um livro bem ao estilo de Henry Miller". O que é isto?

4. Parabéns pelos 100 mil: é a recompensa por não ser uma marioneta.

5. A mão invisível de Bruno Alves lembra-nos o "outro lado", que é sempre o mesmo, do amável public relations do PC, Ruben de Carvalho.

23.7.03

TEATROS(actualizado)

1. Estreia no Teatro Rivoli do Porto Um Hamlet a Mais, uma encenação de Ricardo Pais, com cenários de António Lagarto. Vai lá estar uma semana. Sobre este trabalho, Pais fala abundantemente numa entrevista ao DN.

2. Porém, mão amiga deu-me cópia de uma entrevista do mesmo Pais ao jornal O Comércio do Porto, já com umas semanitas. Nesta entrevista, é também o director de um teatro nacional, o S. João, quem fala. Ricardo Pais é uma reprise nesta direcção, recuperado ao espólio Carrilho pelo actual Governo. Como tem imenso talento, é naturalmente vaidoso, permitindo-se dizer coisas tão extraordinárias como "este meu poder resulta da qualidade e eficácia das minhas criações enquanto encenador"! É, aliás e apesar desta sua imodéstia, o único director que verdadeiramente reconheço como tal no espectro actual dos teatros nacionais. No D. Maria, António Lagarto espera sinais da lei e da tutela, enquanto a Comissão de Gestão, amputada pela demissão de João Grosso, vai tratando como pode da intendência. No S. Carlos, meu mais conhecido, há, de facto, uma mesma pessoa que ocupa o lugar de director e de director artístico, e que, apesar do seu enorme talento para a duplicidade, não consegue manifestamente aguentar-se nos dois papéis.

3. O Secretário de Estado da Cultura entende que se deve separar a função de direcção geral do teatro da função de direcção artística. É uma opção política legítima e com a qual concordo. Percebo que Ricardo Pais diga que "o princípio de que um director geral é o director artístico, responsável máximo e encenador residente, e o princípio da impossibilidade de interferência da tutela na orientação artística e na gestão directa da casa, são religião para esta direcção". Pois é. Quando se convidou Ricardo Pais, era obrigatório saber-se que ele só "pedala a sua bicicleta" e que se prepara para "esticar a corda". Agora, que pretende alterar as leis orgânicas dos teatros nacionais- com apenas cerca de cinco anos de vigência -, o SEC vê-se confrontado com um drama de recorte hamletiano: afagar (designadamente) o ego de Ricardo Pais e de uma ou outra vaidade menor, ou seguir em frente com a "sua" política, sem temores reverenciais. Neste "ser ou não ser", convém que não haja lugar a hesitações.

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TEATROS(actualizado)

1. Estreia no Teatro Rivoli do Porto Um Hamlet a Mais, uma encenação de Ricardo Pais, com cenários de António Lagarto. Vai lá estar uma semana. Sobre este trabalho, Pais fala abundantemente numa entrevista ao DN.

2. Porém, mão amiga deu-me cópia de uma entrevista do mesmo Pais ao jornal O Comércio do Porto, já com umas semanitas. Nesta entrevista, é também o director de um teatro nacional, o S. João, quem fala. Ricardo Pais é uma reprise nesta direcção, recuperado ao espólio Carrilho pelo actual Governo. Como tem imenso talento, é naturalmente vaidoso, permitindo-se dizer coisas tão extraordinárias como "este meu poder resulta da qualidade e eficácia das minhas criações enquanto encenador"! É, aliás e apesar desta sua imodéstia, o único director que verdadeiramente reconheço como tal no espectro actual dos teatros nacionais. No D. Maria, António Lagarto espera sinais da lei e da tutela, enquanto a Comissão de Gestão, amputada pela demissão de João Grosso, vai tratando como pode da intendência. No S. Carlos, meu mais conhecido, há, de facto, uma mesma pessoa que ocupa o lugar de director e de director artístico, e que, apesar do seu enorme talento para a duplicidade, não consegue manifestamente aguentar-se nos dois papéis.

3. O Secretário de Estado da Cultura entende que se deve separar a função de direcção geral do teatro da função de direcção artística. É uma opção política legítima e com a qual concordo. Percebo que Ricardo Pais diga que "o princípio de que um director geral é o director artístico, responsável máximo e encenador residente, e o princípio da impossibilidade de interferência da tutela na orientação artística e na gestão directa da casa, são religião para esta direcção". Pois é. Quando se convidou Ricardo Pais, era obrigatório saber-se que ele só "pedala a sua bicicleta" e que se prepara para "esticar a corda". Agora, que pretende alterar as leis orgânicas dos teatros nacionais- com apenas cerca de cinco anos de vigência -, o SEC vê-se confrontado com um drama de recorte hamletiano: afagar (designadamente) o ego de Ricardo Pais e de uma ou outra vaidade menor, ou seguir em frente com a "sua" política, sem temores reverenciais. Neste "ser ou não ser", convém que não haja lugar a hesitações.
DOIS PORTUGUESES

1. AMÁLIA

A RTP 1 acaba de passar um documentário sobre Amália Rodrigues. Não quero perder tempo com aqueles lugares-comuns que aparecem sempre que se fala de Amália. Andam por aí umas moças, umas mais pindéricas do que outras, que passam por fadistas e que, ao jeito delas, se reclamam da herança da fadista, mesmo não a nomeando. Eu, que acho que não sou surdo, não enxergo a comparação. Amália, ao contrário do que por vezes "parecia", nunca foi uma mulher frágil. Vinda do "povo", tinha os pés bem assentes na terra, e sabia muito bem o que queria. Tirando o folclore ou o repertório internacional, nenhuma letra cantada por si o foi ao acaso. Na minha fugaz aventura jornalística, entrevistei-a na sua casa da Rua de S. Bento. Explicou-me por que é que o fado se cantava de preto, por que é que gostava de apanhar flores, que cantaria até que houvesse aplausos, etc. Escolhi para título da entrevista esta frase dita por ela: gostava de ficar no coração das pessoas. É dos poucos portugueses que ficou.

2. MÁRIO SOARES

Quatro canais mais adiante, na SIC-Notícias, Mário Soares, de férias no Vau, dava uma entrevista, com o mar ao fundo. Há uns anos, Soares definiu um seu ex-delfim, Jaime Gama, como um "peixe de águas profundas". Se Gama é isto, Soares é um "peixão" de primeira água, e um político. Eu escrevo político sem aspas pela razão simples de que considero a política uma actividade nobre que, infelizmente, tem muitas vezes ao seu serviço autênticos patetas e aprendizes de patetas, que a diminuem.

Eu conheci o Dr. Mário Soares numa cerimónia singela em que um grupo de cidadãos, não directamente afectos ao Partido Socialista, “apelavam” à sua candidatura presidencial. Ele andava literalmente “de rastos” nos “estudos de opinião” que corriam sobre o assunto naquele Verão de 1985. Não fui convidado para o evento, mas no final inscrevi o meu nome na lista daqueles primeiros incentivadores. Até hoje não me arrependi.

Como sempre, foi um Soares confiante e optimista que ali se me deparou, ansioso por se libertar do fardo de um Bloco Central agonizante às mãos do novo presidente do PSD. Em Outubro, Cavaco Silva emergiu sobre os escombros do dito Bloco com um ticket: Freitas do Amaral. O General Eanes, num momento menos feliz, associava o funesto PRD à personalidade vertical mas contra mundum do Dr. Salgado Zenha, e a Eng.ª Pintasilgo compunha o ramalhete, arrastando alguma inteligenzia daquela esquerda que acabou por se ir estatelando suavemente aos pés do Dr. Soares.

Dessa odisseia inicial, recordo dois momentos. O primeiro, numa terrinha nas cercanias de Lisboa, chamada Alhandra, por onde o candidato Soares passava num fim de tarde, entre insultos e ameaças do “povo comunista". Nem por isso o candidato se intimidou, seguindo a magnífica excursão “maspiana” até Alverca, ao som do tradicional “vai-te embora” e outros mimos menos próprios, onde, de megafone na mão, Soares falou.

E recordo sobremaneira um encontro com Soares, no Solar do Vinho do Porto, na sexta-feira que antecedeu o acto eleitoral. Estavam “intelectuais” e jornalistas, um ou outro mais apreensivo, mas Soares passava por entre todos deixando um lastro de confiança e de bonomia. Daí seguimos pelo Largo da Misericórdia, descemos o Chiado, a Rua do Carmo, o Rossio e, na Rua Augusta, Soares assomou à varanda da então sede da UGT para saudar os apoiantes, tendo a seu lado uma inesperada Natália Correia. A procissão continuou até à Praça do Comércio, onde Soares se despediu, candidato, para atravessar o rio num vulgar cacilheiro. Dois dias depois era Presidente.

Isto são apenas pequenos episódios sem excessiva importância. Se os recordo nesta altura em que escrevo sobre Mário Soares, agora revisto pela SIC no Vau, é apenas para ilustrar algumas evidências. Ele representa, ao nível “político”, a memória da juventude e de adolescência da maior parte das pessoas da minha geração. Digo-o com o à-vontade de quem não é socialista e de quem nunca especialmente apreciou o seu desempenho governativo, nem pertence à “família de esquerda” em que Soares tanto gosta de se rever.

Contudo, ele ajudou-me a aprender que não se pode mudar o Outro contra a sua vontade, que a liberdade é um bem infinito a preservar, que a defesa dos valores da cidadania e da tolerância nos ajuda a crescer por dentro e para fora, que a coragem moral nos momentos decisivos enobrece e que uma consciência livre nunca se submete aos apoucamentos dos pequenos ou dos grandes poderes.

Nestes tempos de pobreza evangélica e de marionetas políticas, eu já estou como o Vasco Pulido Valente. Se Soares quiser, é o meu candidato.


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DOIS PORTUGUESES

1. AMÁLIA

A RTP 1 acaba de passar um documentário sobre Amália Rodrigues. Não quero perder tempo com aqueles lugares-comuns que aparecem sempre que se fala de Amália. Andam por aí umas moças, umas mais pindéricas do que outras, que passam por fadistas e que, ao jeito delas, se reclamam da herança da fadista, mesmo não a nomeando. Eu, que acho que não sou surdo, não enxergo a comparação. Amália, ao contrário do que por vezes "parecia", nunca foi uma mulher frágil. Vinda do "povo", tinha os pés bem assentes na terra, e sabia muito bem o que queria. Tirando o folclore ou o repertório internacional, nenhuma letra cantada por si o foi ao acaso. Na minha fugaz aventura jornalística, entrevistei-a na sua casa da Rua de S. Bento. Explicou-me por que é que o fado se cantava de preto, por que é que gostava de apanhar flores, que cantaria até que houvesse aplausos, etc. Escolhi para título da entrevista esta frase dita por ela: gostava de ficar no coração das pessoas. É dos poucos portugueses que ficou.

2. MÁRIO SOARES

Quatro canais mais adiante, na SIC-Notícias, Mário Soares, de férias no Vau, dava uma entrevista, com o mar ao fundo. Há uns anos, Soares definiu um seu ex-delfim, Jaime Gama, como um "peixe de águas profundas". Se Gama é isto, Soares é um "peixão" de primeira água, e um político. Eu escrevo político sem aspas pela razão simples de que considero a política uma actividade nobre que, infelizmente, tem muitas vezes ao seu serviço autênticos patetas e aprendizes de patetas, que a diminuem.

Eu conheci o Dr. Mário Soares numa cerimónia singela em que um grupo de cidadãos, não directamente afectos ao Partido Socialista, “apelavam” à sua candidatura presidencial. Ele andava literalmente “de rastos” nos “estudos de opinião” que corriam sobre o assunto naquele Verão de 1985. Não fui convidado para o evento, mas no final inscrevi o meu nome na lista daqueles primeiros incentivadores. Até hoje não me arrependi.

Como sempre, foi um Soares confiante e optimista que ali se me deparou, ansioso por se libertar do fardo de um Bloco Central agonizante às mãos do novo presidente do PSD. Em Outubro, Cavaco Silva emergiu sobre os escombros do dito Bloco com um ticket: Freitas do Amaral. O General Eanes, num momento menos feliz, associava o funesto PRD à personalidade vertical mas contra mundum do Dr. Salgado Zenha, e a Eng.ª Pintasilgo compunha o ramalhete, arrastando alguma inteligenzia daquela esquerda que acabou por se ir estatelando suavemente aos pés do Dr. Soares.

Dessa odisseia inicial, recordo dois momentos. O primeiro, numa terrinha nas cercanias de Lisboa, chamada Alhandra, por onde o candidato Soares passava num fim de tarde, entre insultos e ameaças do “povo comunista". Nem por isso o candidato se intimidou, seguindo a magnífica excursão “maspiana” até Alverca, ao som do tradicional “vai-te embora” e outros mimos menos próprios, onde, de megafone na mão, Soares falou.

E recordo sobremaneira um encontro com Soares, no Solar do Vinho do Porto, na sexta-feira que antecedeu o acto eleitoral. Estavam “intelectuais” e jornalistas, um ou outro mais apreensivo, mas Soares passava por entre todos deixando um lastro de confiança e de bonomia. Daí seguimos pelo Largo da Misericórdia, descemos o Chiado, a Rua do Carmo, o Rossio e, na Rua Augusta, Soares assomou à varanda da então sede da UGT para saudar os apoiantes, tendo a seu lado uma inesperada Natália Correia. A procissão continuou até à Praça do Comércio, onde Soares se despediu, candidato, para atravessar o rio num vulgar cacilheiro. Dois dias depois era Presidente.

Isto são apenas pequenos episódios sem excessiva importância. Se os recordo nesta altura em que escrevo sobre Mário Soares, agora revisto pela SIC no Vau, é apenas para ilustrar algumas evidências. Ele representa, ao nível “político”, a memória da juventude e de adolescência da maior parte das pessoas da minha geração. Digo-o com o à-vontade de quem não é socialista e de quem nunca especialmente apreciou o seu desempenho governativo, nem pertence à “família de esquerda” em que Soares tanto gosta de se rever.

Contudo, ele ajudou-me a aprender que não se pode mudar o Outro contra a sua vontade, que a liberdade é um bem infinito a preservar, que a defesa dos valores da cidadania e da tolerância nos ajuda a crescer por dentro e para fora, que a coragem moral nos momentos decisivos enobrece e que uma consciência livre nunca se submete aos apoucamentos dos pequenos ou dos grandes poderes.

Nestes tempos de pobreza evangélica e de marionetas políticas, eu já estou como o Vasco Pulido Valente. Se Soares quiser, é o meu candidato.


22.7.03

UMA BOA IDEIA II

A fala de domingo de Santana Lopes teve sequência e parece que há consenso para fazer qualquer coisa quanto às famosas "escutas".

Por outro lado, e "para quem julgava que Portugal é um Estado de direito constitucional....", leia.

Ainda no terreno das boas ideias, há um amigo que informa que os portugueses estão a ser sujeitos a um curso intensivo sobre a aplicação em concreto do Código de Processo Penal. Mesmo em férias.

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UMA BOA IDEIA II

A fala de domingo de Santana Lopes teve sequência e parece que há consenso para fazer qualquer coisa quanto às famosas "escutas".

Por outro lado, e "para quem julgava que Portugal é um Estado de direito constitucional....", leia.

Ainda no terreno das boas ideias, há um amigo que informa que os portugueses estão a ser sujeitos a um curso intensivo sobre a aplicação em concreto do Código de Processo Penal. Mesmo em férias.
OUTRAS BOAS IDEIAS

....dos Estudos Baudelaireanos, citando Nietzsche:

«Estou permanentemente interessado em pessoas, como um corsário qualquer, não para a escravatura, mas para me vender a mim e aos outros à liberdade.»

Nietzsche, carta a Reinhardt von Seydlitz, 24 de Setembro de 1876


....da Aba de Heisenberg, que dá notícia de que há...

um bom exemplo vindo de Guimarães, o Museu Alberto Sampaio, um belíssimo museu, durante os meses de Verão só fecha à meia-noite

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OUTRAS BOAS IDEIAS

....dos Estudos Baudelaireanos, citando Nietzsche:

«Estou permanentemente interessado em pessoas, como um corsário qualquer, não para a escravatura, mas para me vender a mim e aos outros à liberdade.»

Nietzsche, carta a Reinhardt von Seydlitz, 24 de Setembro de 1876


....da Aba de Heisenberg, que dá notícia de que há...

um bom exemplo vindo de Guimarães, o Museu Alberto Sampaio, um belíssimo museu, durante os meses de Verão só fecha à meia-noite

21.7.03

UMA BOA IDEIA

Informa o Nelson de Matos que Pedro Santana Lopes, no seu comentário de domingo na RTP 1, defendeu a criação de uma comissão parlamentar de inquérito à questão das escutas telefónicas. Esta parte passou-me ao lado, mas o que consegui ouvir, agradou-me. Santana Lopes esteve bem nas referências que fez ao momento por que passa a justiça portuguesa, colocando as principais personagens no seu devido lugar, sem receios nem prosas redondas. Depois, já hoje, pareceu-me que houve, da parte de alguns parlamentares de hordas diversas, algumas reticências à ideia. Sabe-se que as comissões parlamentares valem o que valem. Porém, estando envolvidos nas ditas escutas, como consta,órgãos de soberania ou membros de órgãos de alta instância do Estado, julgo que o poder político democrático, de que emanam, deve estar atento, sem que seja prejudicada a natural separação de poderes e sendo respeitado o princípio da igualdade.É também para isso que se vota e se outorga legitimidade democrática. Eu, que votei Lopes e que aqui o tenho criticado quando acho que merece, gostei de o ver defender a "política democrática", no sentido em que este blogue a tenta defender, pensando em Richard Rorty.

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UMA BOA IDEIA

Informa o Nelson de Matos que Pedro Santana Lopes, no seu comentário de domingo na RTP 1, defendeu a criação de uma comissão parlamentar de inquérito à questão das escutas telefónicas. Esta parte passou-me ao lado, mas o que consegui ouvir, agradou-me. Santana Lopes esteve bem nas referências que fez ao momento por que passa a justiça portuguesa, colocando as principais personagens no seu devido lugar, sem receios nem prosas redondas. Depois, já hoje, pareceu-me que houve, da parte de alguns parlamentares de hordas diversas, algumas reticências à ideia. Sabe-se que as comissões parlamentares valem o que valem. Porém, estando envolvidos nas ditas escutas, como consta,órgãos de soberania ou membros de órgãos de alta instância do Estado, julgo que o poder político democrático, de que emanam, deve estar atento, sem que seja prejudicada a natural separação de poderes e sendo respeitado o princípio da igualdade.É também para isso que se vota e se outorga legitimidade democrática. Eu, que votei Lopes e que aqui o tenho criticado quando acho que merece, gostei de o ver defender a "política democrática", no sentido em que este blogue a tenta defender, pensando em Richard Rorty.
OUTRO CAMILO

"A quadra (...), fruto de um feliz repente, foi exarada pela mão do romancista no final do livro de Bernardo Branco, D. Afonso VI e Sua Sereníssima Esposa e comunicada pelo dr. Falcão Machado, tendo-a eu encontrado manuscrita na biblioteca que foi de Manuel Cardoso Marta." (Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ed. Antígona, Frenesi)

Naquelas eras corruptas,
era severa a justiça,
se as rainhas eram putas,
e os reis tinham frouxa a piça.

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OUTRO CAMILO

"A quadra (...), fruto de um feliz repente, foi exarada pela mão do romancista no final do livro de Bernardo Branco, D. Afonso VI e Sua Sereníssima Esposa e comunicada pelo dr. Falcão Machado, tendo-a eu encontrado manuscrita na biblioteca que foi de Manuel Cardoso Marta." (Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ed. Antígona, Frenesi)

Naquelas eras corruptas,
era severa a justiça,
se as rainhas eram putas,
e os reis tinham frouxa a piça.
DO CORPO EM FÉRIAS

Três blogues de Vergílio Ferreira (Conta Corrente, 1, Bertrand Editora)

Aquilo em que se tem mais vaidade é o corpo. Mesmo que aleijado, há sempre um pormenor que nos envaidece. Compô-lo. Arranjá-lo. O careca puxa o cabelo desde o cachaço ou do olho do cu para tapar a degradação. O marreco faz peito. O espelho é para nós o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) não inveja o intelectual, o artista. O inverso é que é. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu espírito ou engenho por complexo ou vingança. Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim.

A sexualidade não é apenas um problema moral: é um problema fisiológico. Cumpra-se a fisiologia mas não se faça parlapatice com isso. Ou então falem também do cagar, do arrotar, do espeidorrar. Merda para o problema.

O pudor é um sentimento masculino. Quando uma mulher conhece outra, ao fim de dez minutos está já a explicar-lhe como é que o marido trabalha na cama. Ao fim de dez anos ou de uma vida, um homem não explica a outro como trabalha a mulher. É que o homem não é um novo-rico do sexo. Ou respeita a mulher por simples machismo?

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DO CORPO EM FÉRIAS

Três blogues de Vergílio Ferreira (Conta Corrente, 1, Bertrand Editora)

Aquilo em que se tem mais vaidade é o corpo. Mesmo que aleijado, há sempre um pormenor que nos envaidece. Compô-lo. Arranjá-lo. O careca puxa o cabelo desde o cachaço ou do olho do cu para tapar a degradação. O marreco faz peito. O espelho é para nós o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) não inveja o intelectual, o artista. O inverso é que é. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu espírito ou engenho por complexo ou vingança. Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim.

A sexualidade não é apenas um problema moral: é um problema fisiológico. Cumpra-se a fisiologia mas não se faça parlapatice com isso. Ou então falem também do cagar, do arrotar, do espeidorrar. Merda para o problema.

O pudor é um sentimento masculino. Quando uma mulher conhece outra, ao fim de dez minutos está já a explicar-lhe como é que o marido trabalha na cama. Ao fim de dez anos ou de uma vida, um homem não explica a outro como trabalha a mulher. É que o homem não é um novo-rico do sexo. Ou respeita a mulher por simples machismo?

20.7.03

MARGARIDA E CATALINA

1. A revista Única do Expresso, dava ontem capa e entrevista a Margarida Martins, a conhecida "patroa" da Associação Abraço. Fica-se a conhecer os percursos da vida de Margarida, os que ela entende que devemos conhecer. Das origens humildes e "operárias" no meio de um bairro meio chique de Lisboa, até ao Bairro Alto das galerias e do Frágil - que abriu em 1982 e não em 1981, como se diz no texto - , aos incidentes afectivos, à criação da Abraço e a filha adoptiva, aquela história tem graça. E a criatura Margarida também tem graça, mesmo quando irrita e maça, noutros tempos por causa da porta do Frágil, ou agora por causa da Abraço. E depois, tudo vem sempre acompanhado daquela gargalhada saudável e bem sonora que é a sua imagem de marca. Certamente que terá imensos defeitos, mas aprecio aquela persistência nas causas em que acredita, e nos lances de solidariedade que sabe gerar, mesmo que a Abraço não seja "um mundo perfeito".

2. Eu, se mandasse, colocava a Margarida no lugar de Catalina Pestana. O que em Margarida é alegria, partilha, vida e futuro, em Catalina é treva, ressentimento e clausura. Percurso estranho, ou talvez não, este de Catalina. Ex-MES, católica "progressista" (uma mistura explosiva), muito devota ao "social" e agora, pelos vistos, ao "pensamento único", Catalina conhece tão bem ou melhor do que muita gente, o funcionamento da Casa Pia e sabe que o verdadeiro "escândalo" é o Estado, personificado na instituição e nos seus servidores, ter prolongadamente consentido na exploração miserável dos seres que lhe estavam confiados, fosse para que pretexto fosse. Agora é fácil vir cá fora dizer que o "rei andava nu" e que, até prova em contrário, todos os que estâo fora do muro da Casa Pia, são suspeitos. Para quem conhece a casa desde sempre, fica-lhe mal esse permanente tom inquisitorial, de cátedra e beato com que aparece em público. Parece que também já "manda" no processo judicial e que as testemunhas são suas. Resta-nos o consolo de sabermos que não é Pina Manique quem quer. Margarida a Provedora, já!

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MARGARIDA E CATALINA

1. A revista Única do Expresso, dava ontem capa e entrevista a Margarida Martins, a conhecida "patroa" da Associação Abraço. Fica-se a conhecer os percursos da vida de Margarida, os que ela entende que devemos conhecer. Das origens humildes e "operárias" no meio de um bairro meio chique de Lisboa, até ao Bairro Alto das galerias e do Frágil - que abriu em 1982 e não em 1981, como se diz no texto - , aos incidentes afectivos, à criação da Abraço e a filha adoptiva, aquela história tem graça. E a criatura Margarida também tem graça, mesmo quando irrita e maça, noutros tempos por causa da porta do Frágil, ou agora por causa da Abraço. E depois, tudo vem sempre acompanhado daquela gargalhada saudável e bem sonora que é a sua imagem de marca. Certamente que terá imensos defeitos, mas aprecio aquela persistência nas causas em que acredita, e nos lances de solidariedade que sabe gerar, mesmo que a Abraço não seja "um mundo perfeito".

2. Eu, se mandasse, colocava a Margarida no lugar de Catalina Pestana. O que em Margarida é alegria, partilha, vida e futuro, em Catalina é treva, ressentimento e clausura. Percurso estranho, ou talvez não, este de Catalina. Ex-MES, católica "progressista" (uma mistura explosiva), muito devota ao "social" e agora, pelos vistos, ao "pensamento único", Catalina conhece tão bem ou melhor do que muita gente, o funcionamento da Casa Pia e sabe que o verdadeiro "escândalo" é o Estado, personificado na instituição e nos seus servidores, ter prolongadamente consentido na exploração miserável dos seres que lhe estavam confiados, fosse para que pretexto fosse. Agora é fácil vir cá fora dizer que o "rei andava nu" e que, até prova em contrário, todos os que estâo fora do muro da Casa Pia, são suspeitos. Para quem conhece a casa desde sempre, fica-lhe mal esse permanente tom inquisitorial, de cátedra e beato com que aparece em público. Parece que também já "manda" no processo judicial e que as testemunhas são suas. Resta-nos o consolo de sabermos que não é Pina Manique quem quer. Margarida a Provedora, já!

19.7.03

UMA PERGUNTA

....feita numa conferência de imprensa, no Japão, a Tony Blair, essa pérola da "terceira via", a propósito do suicídio de David Kelly: "Primeiro Ministro, não tem as mãos sujas de sangue?". Tony silenciou-se e saiu abraçado ao amigo japonês.

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UMA PERGUNTA

....feita numa conferência de imprensa, no Japão, a Tony Blair, essa pérola da "terceira via", a propósito do suicídio de David Kelly: "Primeiro Ministro, não tem as mãos sujas de sangue?". Tony silenciou-se e saiu abraçado ao amigo japonês.
UMA ESTÁTUA PARA HERODES

Natália Correia tinha destas coisas. Era provocante e provocadora, exuberante, insubmissa, iconoclasta, e com aquele saudável rasgo de loucura que faz toda a diferença entre, por exemplo, um homem e um carneiro. Possuia o dom da indignação, que é uma coisa pouco divulgada nos dias que correm, mesmo que alguns patetas de serviço tomem indignação por lamúria tola e de circunstãncia. Era completamente inconsequente do ponto de vista político, como, aliás, tantos "profissionais" do ofí­cio. Sobre eles, Natália tinha a vantagem do talento e da imaginação. Em plena apoteose do criancismo, deixo aqui uns quantos "blogues" da sua autoria, retirados de um livro que, numa tarde passada na casa de Natália, por cima da Smarta, a falar de livros, ela me ofereceu, "confiando-o a uma leitura inteligente".

Se há pessoas em que o ridículo não transparece é porque nunca foram apanhadas a divertir uma criança.

Apesar de tudo há crianças simpáticas: as maltratadas. São as únicas que testemunham a estupidez dos pais.

Louvemos os maus filhos. Eles dão aos pais a oportunidade de saberem até que ponto são idiotas.

Fazer festas às crianças força à indignidade física porque obriga a curvar a espinha.

A criança é a última tentativa da espécie para tiranizar o indivíduo.

No tirano repete-se a gravidade das brincadeiras infantis.

Quando o filho chama imbecil ao pai, este orgulha-se de lhe dar toda a liberdade.

Pôr um leão faminto no quarto dos brinquedos. Corre-se o risco de que a criança devore o leão.

Filho: bengala para velhote derivada da moral cristã.

Não eduques a criança. Só assim podes prever o imprevisto.

As crianças só se confessam quando brincam aos bandidos e às guerras.

O mal foi Cristo ter dito: "Deixai vir a mim as criancinhas". Ficou coberto de moscas e tomaram-no por um cadáver. Tanto bastou para que se fundasse uma religião.


(Uma Estátua para Herodes, de Natália Correia, Arcádia, 1974)








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UMA ESTÁTUA PARA HERODES

Natália Correia tinha destas coisas. Era provocante e provocadora, exuberante, insubmissa, iconoclasta, e com aquele saudável rasgo de loucura que faz toda a diferença entre, por exemplo, um homem e um carneiro. Possuia o dom da indignação, que é uma coisa pouco divulgada nos dias que correm, mesmo que alguns patetas de serviço tomem indignação por lamúria tola e de circunstãncia. Era completamente inconsequente do ponto de vista político, como, aliás, tantos "profissionais" do ofí­cio. Sobre eles, Natália tinha a vantagem do talento e da imaginação. Em plena apoteose do criancismo, deixo aqui uns quantos "blogues" da sua autoria, retirados de um livro que, numa tarde passada na casa de Natália, por cima da Smarta, a falar de livros, ela me ofereceu, "confiando-o a uma leitura inteligente".

Se há pessoas em que o ridículo não transparece é porque nunca foram apanhadas a divertir uma criança.

Apesar de tudo há crianças simpáticas: as maltratadas. São as únicas que testemunham a estupidez dos pais.

Louvemos os maus filhos. Eles dão aos pais a oportunidade de saberem até que ponto são idiotas.

Fazer festas às crianças força à indignidade física porque obriga a curvar a espinha.

A criança é a última tentativa da espécie para tiranizar o indivíduo.

No tirano repete-se a gravidade das brincadeiras infantis.

Quando o filho chama imbecil ao pai, este orgulha-se de lhe dar toda a liberdade.

Pôr um leão faminto no quarto dos brinquedos. Corre-se o risco de que a criança devore o leão.

Filho: bengala para velhote derivada da moral cristã.

Não eduques a criança. Só assim podes prever o imprevisto.

As crianças só se confessam quando brincam aos bandidos e às guerras.

O mal foi Cristo ter dito: "Deixai vir a mim as criancinhas". Ficou coberto de moscas e tomaram-no por um cadáver. Tanto bastou para que se fundasse uma religião.


(Uma Estátua para Herodes, de Natália Correia, Arcádia, 1974)








OS PARTIDOS

Num debate promovido por uma tal Geração 22, no qual pontificava o Dr. Manuel Monteiro, da Nova Democracia, a minha amiga Inês Serra Lopes, que moderava, disse que "os partidos servem para conquistar o poder e para se agarrarem a ele, promovendo as piores pessoas pelos piores motivos". Acrescentou que as "pessoas de bem" pura e simplesmente não se deviam filiar em partido nenhum. Com a devida vénia, eu permito-me discordar. Os partidos, em geral, não têm culpa de a maior parte da sua militância ser constituída por uma massa acrítica de criaturas que encara o ofício militante com a mesma displicência com que vai ao mercado ou à missa. No meio desta acefalia consentida, há evidentemente uma ou outra criatura mais expedita que "dá a cara" e que "se sacrifica". Temos abundantes exemplos deste sublime despojamento em todas as áreas partidárias. Naturalmente ninguém espera que estes "heróis anónimos", chegado o momento certo, cedam o seu lugar às "melhores pessoas" e que se batam pelos "melhores motivos". Também há "pessoas de bem" nos partidos. Normalmente são aquelas que não precisam dos partidos para existirem na cidadania: têm vida, espaço e mona próprios, e, até por isso, acham que devem ser militantes. A única diferença é que não fazem disso uma profissão.

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OS PARTIDOS

Num debate promovido por uma tal Geração 22, no qual pontificava o Dr. Manuel Monteiro, da Nova Democracia, a minha amiga Inês Serra Lopes, que moderava, disse que "os partidos servem para conquistar o poder e para se agarrarem a ele, promovendo as piores pessoas pelos piores motivos". Acrescentou que as "pessoas de bem" pura e simplesmente não se deviam filiar em partido nenhum. Com a devida vénia, eu permito-me discordar. Os partidos, em geral, não têm culpa de a maior parte da sua militância ser constituída por uma massa acrítica de criaturas que encara o ofício militante com a mesma displicência com que vai ao mercado ou à missa. No meio desta acefalia consentida, há evidentemente uma ou outra criatura mais expedita que "dá a cara" e que "se sacrifica". Temos abundantes exemplos deste sublime despojamento em todas as áreas partidárias. Naturalmente ninguém espera que estes "heróis anónimos", chegado o momento certo, cedam o seu lugar às "melhores pessoas" e que se batam pelos "melhores motivos". Também há "pessoas de bem" nos partidos. Normalmente são aquelas que não precisam dos partidos para existirem na cidadania: têm vida, espaço e mona próprios, e, até por isso, acham que devem ser militantes. A única diferença é que não fazem disso uma profissão.
O PROCESSO

No processo mais conhecido que anda aí pelos jornais e, ao que julgo, pelos tribunais, importa que se resolvam, a final, duas questões óbvias: a justa punição dos criminosos e a declaração de absolvição dos inocentes. No entanto, este processo é hoje claramente um processo perturbado e, como cidadão, tenho as maiores dúvidas de que as duas questões que mencionei sejam aclaradas de uma forma segura e certa, como manda o Direito. Julgo, aliás, que são os "contributos" exteriores ao noid dur do processo, os que mais têm ajudado a inquiná-lo. Mas há dados "formais" que incomodam. Eu estudei direito e, quanto a formalismos processuais, sei, em primeiro lugar, que é o poder político legitimado democraticamente que define e aprova a legislação processual, e também sei, em segundo lugar, que a "deificação" da forma, ou uma qualquer sua interpretação soberana, pode por vezes fazer esquecer o interesse fundamental que está em causa. Pessoalmente, considero uma "violência jurídica" o que aconteceu nos últimos dias no que concerne à reapreciação da manutenção da medida de coacção extrema em relação a arguidos presos. Ou seja, a impossibilidade da apreciação das posições da defesa e da acusação pública, por um lado, e da própria decisão judicial de 1ª instância, por outro, a efectuar por uma entidade judicial superior e distinta, por causa da antecipação da reapreciação trimestral da medida de coacção que tornou formalmente inútil aquela intervenção, quando está em causa a liberdade de pessoas. Outro dia falei aqui do "sentimento jurídico colectivo", uma bonita expressão que se aprende nas faculdades. Será que há verdadeira consciência desse "sentimento" entre nós quando toda a gente diz que "confia na justiça"? Ou isto não passa de um tropismo timorato ou de um lugar-comum sem importância? O mundo, como dizia o outro, está efectivamente perigoso.

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O PROCESSO

No processo mais conhecido que anda aí pelos jornais e, ao que julgo, pelos tribunais, importa que se resolvam, a final, duas questões óbvias: a justa punição dos criminosos e a declaração de absolvição dos inocentes. No entanto, este processo é hoje claramente um processo perturbado e, como cidadão, tenho as maiores dúvidas de que as duas questões que mencionei sejam aclaradas de uma forma segura e certa, como manda o Direito. Julgo, aliás, que são os "contributos" exteriores ao noid dur do processo, os que mais têm ajudado a inquiná-lo. Mas há dados "formais" que incomodam. Eu estudei direito e, quanto a formalismos processuais, sei, em primeiro lugar, que é o poder político legitimado democraticamente que define e aprova a legislação processual, e também sei, em segundo lugar, que a "deificação" da forma, ou uma qualquer sua interpretação soberana, pode por vezes fazer esquecer o interesse fundamental que está em causa. Pessoalmente, considero uma "violência jurídica" o que aconteceu nos últimos dias no que concerne à reapreciação da manutenção da medida de coacção extrema em relação a arguidos presos. Ou seja, a impossibilidade da apreciação das posições da defesa e da acusação pública, por um lado, e da própria decisão judicial de 1ª instância, por outro, a efectuar por uma entidade judicial superior e distinta, por causa da antecipação da reapreciação trimestral da medida de coacção que tornou formalmente inútil aquela intervenção, quando está em causa a liberdade de pessoas. Outro dia falei aqui do "sentimento jurídico colectivo", uma bonita expressão que se aprende nas faculdades. Será que há verdadeira consciência desse "sentimento" entre nós quando toda a gente diz que "confia na justiça"? Ou isto não passa de um tropismo timorato ou de um lugar-comum sem importância? O mundo, como dizia o outro, está efectivamente perigoso.

18.7.03

LER E ESCREVER II (actualizado)

...nos blogues...

... em texto longo....

... em espírito Saravonarolesco que surge...

...continuando o raciocínio....


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LER E ESCREVER II (actualizado)

...nos blogues...

... em texto longo....

... em espírito Saravonarolesco que surge...

...continuando o raciocínio....


LER E ESCREVER

Não sei quem é. Trata-se de um Bicho Escala Estantes que, em meia dúzia de frases que me atrevo a reproduzir, me lembra, entre cafés e pequenas viagens de comboio, por que devo continuar a amar esses amigos silenciosos e fiéis que são os livros. E por que devo, se me apetecer, escrever.

O que me faz falta

Estou de férias.
O que mais me faz falta são as horas de almoço e as viagens de ida e de volta entre o Cacém e o Rossio.
Às horas de almoço, eu costumo pegar em dois ou três livros da livraria e levá-los comigo. Enquanto bebo o café no Suave Veneno, absorvo versos e biografias. Ninguém me interrompe, ninguém surge. Aprendo ao meu ritmo.
A maioria das vezes, porém, o que eu faço é escrever. Antes dos blogs, escrevia para os olhos de três, quatro pessoas. Hoje, com o meridiano, já há vinte que me leêm. Mas não é isso, não é isso...sei que escrevo com uma ideia fatal de necessidade de redenção absoluta. Escrevo para me redimir de nunca ter sido brilhante em nada. E isto não é grave. A maioria das pessoas é como eu. E mesmo os brilhantes, no um para um são pessoas também comuns.
Nas viagens de comboio, que duram 25 minutos, eu leio. Às vezes em posições acrobáticas, no meio de muita gente comprimida, eu arranjo uma forma de abrir o livro e continuar a história. Sinto falta desse tempo em que me levam, sem eu precisar de pensar, e em que posso mergulhar dentro de páginas.
De modo que dou por mim a vasculhar as minhas poucas prateleiras caseiras, procurando o livro comprado e esquecido sem nunca ter sido tocado.Por isso, tenho vontade de me meter no comboio e passar pela livraria, pedir para levar dois ou três livros e ir sentar-me no café, a fingir que é hora de almoço, que está tudo bem, que os carris não foram danificados...

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LER E ESCREVER

Não sei quem é. Trata-se de um Bicho Escala Estantes que, em meia dúzia de frases que me atrevo a reproduzir, me lembra, entre cafés e pequenas viagens de comboio, por que devo continuar a amar esses amigos silenciosos e fiéis que são os livros. E por que devo, se me apetecer, escrever.

O que me faz falta

Estou de férias.
O que mais me faz falta são as horas de almoço e as viagens de ida e de volta entre o Cacém e o Rossio.
Às horas de almoço, eu costumo pegar em dois ou três livros da livraria e levá-los comigo. Enquanto bebo o café no Suave Veneno, absorvo versos e biografias. Ninguém me interrompe, ninguém surge. Aprendo ao meu ritmo.
A maioria das vezes, porém, o que eu faço é escrever. Antes dos blogs, escrevia para os olhos de três, quatro pessoas. Hoje, com o meridiano, já há vinte que me leêm. Mas não é isso, não é isso...sei que escrevo com uma ideia fatal de necessidade de redenção absoluta. Escrevo para me redimir de nunca ter sido brilhante em nada. E isto não é grave. A maioria das pessoas é como eu. E mesmo os brilhantes, no um para um são pessoas também comuns.
Nas viagens de comboio, que duram 25 minutos, eu leio. Às vezes em posições acrobáticas, no meio de muita gente comprimida, eu arranjo uma forma de abrir o livro e continuar a história. Sinto falta desse tempo em que me levam, sem eu precisar de pensar, e em que posso mergulhar dentro de páginas.
De modo que dou por mim a vasculhar as minhas poucas prateleiras caseiras, procurando o livro comprado e esquecido sem nunca ter sido tocado.Por isso, tenho vontade de me meter no comboio e passar pela livraria, pedir para levar dois ou três livros e ir sentar-me no café, a fingir que é hora de almoço, que está tudo bem, que os carris não foram danificados...